Dom Henrique Soares da Costa

Por Dom Henrique Soares da Costa

“Hoje a Igreja te convida:/ o Pão vivo que dá Vida/ vem com ela celebrar”.

Eis, caríssimos Irmãos, o sentido desta hodierna Solenidade: celebrar com a Igreja, celebrar como Igreja o Cristo, Pão vivo, Pão vivente, que nos dá a Vida divina, Vida que é o próprio Santo Espírito!

Nunca esqueçamos: no santíssimo Sacramento da Eucaristia, o próprio Senhor Jesus Cristo, imolado e ressuscitado, está realmente presente nas aparências do pão e do vinho, cheio de Espírito Santo, Espírito de Ressurreição, a ponto de a Escritura exclamar:

“O Senhor é o Espírito!” (2Cor 3,17)

Pois bem: quem comunga com o Corpo e Sangue do Senhor, recebe a Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo, que nos cristifica, nos preparando para a Vida imperecível na Glória!

Muito pode ser dito sobre a Eucaristia!
O mistério é imenso, a riqueza é incomensurável, o amor é infinito!
As leituras que acabamos de escutar dizem-nos que este santíssimo Sacramento é, neste mundo, no caminho da Igreja, o selo sempre presente da Nova e Eterna Aliança do Senhor Deus com o Seu Povo; Aliança no Sangue do Cordeiro que tira o pecado do mundo;
dizem-nos que o próprio Cristo, Sacerdote no Santuário da Eternidade, celebra para sempre, uma vez por todas, sem nunca terminar, o Sacrifício eterno pela nossa salvação, Sacrifício continuamente presente em nossos altares quando oferecemos a Eucaristia;
dizem-nos que lá, na Glória, na Eucaristia eterna, na Missa perene, Ele nos espera, para bebermos com Ele o cálice da bênção, no Reino eterno de Deus!

Mas, caríssimos meus no Senhor, hoje, gostaria de lhes responder a algumas questões para ilustrar tão grande Sacramento… Ei-las: Por que o Senhor escolheu pão e vinho? E por que numa ceia? E por que corpo e sangue?

Por que o Senhor escolheu o pão e o vinho com água como matérias para a Eucaristia?

A resposta é simples: porque estes três alimentos são aqueles encontrados em todas as mesas, todos os dias, nos grandes e pequenos momentos. Ainda hoje, nos países da bacia do Mediterrâneo, em cada mesa, em cada refeição, estão lá: o pão fatiado, a água e o vinho! Alimentos dos ricos e dos pobres, alimento de todos! Irmãos: Cristo não quer estar presente na nossa vida somente em algumas ocasiões, somente nos grandes momentos… Ele é o alimento de todas as horas, de cada ocasião, do dia-a-dia miúdo da nossa existência! Amigo próximo, companheiro de caminho… E debaixo de sinais tão simples, tão nossos, tão do dia a dia…

– Obrigado, Senhor Jesus, Amigo certo das horas incertas!
Obrigado, Senhor Jesus, Amigo de todos os momentos, dos bons e dos maus, dos sorrisos e das lágrimas!
Obrigado, Amigo tão humilde, que, rico e glorioso, vens a nós “em tão ínfimos sinais”!

Por que o Salvador nosso escolheu uma ceia?

Antes de tudo, porque Ele quis instituir a Sua Páscoa como cumprimento e plena realização da Páscoa dos judeus; assim, na ceia pascal judaica, Ele instituiu o memorial da Sua Páscoa, entregando-a à Sua Igreja nascente como nossa Páscoa! Que mistério tão profundo! Que amor tão admirável: o cordeiro pascal dos judeus sacrificado e consumido em alimento, agora seria o próprio Cristo Senhor, partido, quebrado no sinal do pão e derramado no sinal do vinho, como memorial perene da Sua entrega na Cruz pela salvação nossa e do mundo inteiro!

Mas, tem mais: comer juntos, alimentar-se do mesmo alimento tirado do mesmo prato, na mesma refeição, significa viver a mesma vida! Portanto, o Senhor quis comer conosco, quis que comunguemos, que comamos, que nos alimentamos Dele mesmo, da Sua próprio Vida divina e Eterna, que é o Seu Espírito Santo e agora inunda a aparência do pão e a aparência do vinho! Comungando na Eucaristia, nós “con-vivemos” com o próprio Cristo ressuscitado, nós “vivemos com” a mesma Vida que Ele agora tem nos Céus em plenitude! E, comungando com Ele, Nele nos tornamos membros uns dos outros, um só Corpo, Corpo Dele, Corpo que é a Igreja! Eis, Irmãos, que neste Altar, nesta Mesa, nos tornamos sempre mais membros do Corpo de Cristo, nos tornamos sempre mais membros uns dos outros, nos tornamos sempre mais Igreja! Aqui a Igreja se fortalece, aqui a Igreja continuamente se faz e se refaz, a ponto de São Leão I Magno, Papa de Roma, exortar:

“Comei deste Pão e não vos dividireis; bebei deste Cálice e não vos desagregareis!”

– Obrigado, Salvador nosso, Jesus amado, porque nesta Mesa sagrada, Tu Te fazes nosso alimento de Vida eterna, Tu nos dás a comer Tua própria Vida divina, Tu nos unes a Ti e nos unes uns aos outros em Ti!
Senhor, não permitas nunca que nos separemos de Ti! Não consintas nunca em que nossas diferenças e debilidades nos separem uns dos outros!
Ó Cristo Deus, cada vez que participarmos desta Mesa santa, deste Altar sagrado, faze de nós, sempre mais, um só Corpo-Igreja no Teu Corpo-Eucaristia!
Que o Teu Espírito nos una num só Corpo, até o Dia da Vida Eterna, na Glória!

Por que o Salvador disse, do Pão: “É o Meu Corpo, a Minha Carne”? E por que, do Cálice: “É o Meu Sangue?”

Porque ambos os sinais exprimem bem o Seu amor, a Sua entrega total ao Pai e a nós, ao Pai por nós, em nosso favor!

Nas Escrituras, “corpo” e “carne” exprimem a pessoa toda, o homem todo, na sua fragilidade de criatura. Pois bem, dizendo “é o Meu Corpo”, o Senhor quis dizer:

“Sou Eu mesmo, em todos os Meus sonhos, em todas as dimensões da Minha vida, em todo o Meu amor… Tudo o que sou, tudo o que tenho, tudo quanto vivi, Eu entrego por vós, entrego a vós!”

“Sangue”, na Bíblia Sagrada, significa a vida. O sangue dado, evoca a vida derramada, a vida tirada, esparramada! O Senhor Jesus, dando-nos Seu Sangue, quis nos dar Sua existência vivida o tempo todo como doação, como entrega, até o extremo da Cruz!

Pois bem, no Seu Corpo e no Seu Sangue o Senhor Se deu todo: deu-nos Seu corpo, Sua existência, Seus cansaços, Seus amores, Sua paciência, até a morte e morte violenta, humilhante e dolorosa, morte de cruz!

– Senhor Jesus Cristo, nosso Sumo e Eterno Sacerdote, Cordeiro imolado, Vítima pascal, obrigado, porque, tendo nos amado, amaste-nos até o fim, até o extremo! Tudo Tu nos deste! Em nada Te poupaste!
Ajuda-nos, sustenta-nos, para que, comungando da Tua Eucaristia, saibamos, pelo amor do Teu Espírito Santo, fazer de nossa vida uma entrega total a Ti e, no Teu amor, aos irmãos!
O que não podemos com nossas forças, concede-nos pela força deste Sacramento de Amor!

Irmãos, que doação tão inteira! Que entrega tão total! Que amor tão completo! Que dom tão radical!
Eis a Eucaristia! Eis o Sacramento de amor! Eis o Sinal bendito que mais nos revela Quem é Deus: Deus é amor que Se entrega, que se gasta, que Se deixa consumir até fazer-Se alimento da criatura! Como diz a famosa estrofe “Panis Angelicus”:

“Ó coisa admirável!/ Alimenta-se do Senhor/ o pobre, o servo, o humilde!”

Por tudo isto, caríssimos, a Eucaristia nos impele, nos compromete a responder com amor a tão grande e completo e radical Amor!
Triste de quem comunga deste Sacramento com o coração fechado!
Ai de quem O recebe sem se dispor a amar, amar ao Senhor que nos ama e amar aos irmãos por amor do Amor que nos amou primeiro!

Que proclamemos hoje a nossa fé na Presença real e substancial do Senhor imolado e ressuscitado na Eucaristia!
Proclamemo-la celebrando o Sacrifício eucarístico,
proclamemo-la comungando o Corpo do Senhor,
proclamemo-la saindo em procissão pelas ruas de nossas cidades,
proclamemo-la, enfim, por uma vida eucaristicamente conformada: vida de amor e entrega a Deus, vida de amor e serviço aos irmãos; de modo que possamos, um dia, beber com o Senhor, do Fruto da videira, no Reino de Deus. Amém.

***

O Mistério de uma Presença

Na Solenidade de Corpus Christi, também chamada de Corpo de Deus, a Igreja celebra o mistério de uma Presença; o modo de presença por excelência, a presença pessoal-sacramental de Cristo nas espécies eucarísticas.

Naquele pão que não mais é pão, naquele vinho que não mais é vinho, é o próprio Senhor morto e ressuscitado, o “Cordeiro de pé como que imolado”, descrito no Apocalipse (5,6), que Se faz presente na Sua Igreja, em meio a nós, para a Vida do mundo.

Na Eucaristia, de modo particularíssimo – tão particular, que dizemos “presença real” – Cristo cumpre continuamente Sua última promessa:

“Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!”

Hoje, a Igreja celebra o mistério da Presença indo às ruas do mundo inteiro em procissão.

Quando surgiu a Solenidade de Corpus Christi, no longínquo século XIII, era fácil e óbvio, era apoteótico e triunfal ir às ruas com o Cristo-Eucaristia. O mundo de então era cristão e a presença do Senhor era palpável, perceptível, num mundo teocêntrico, impregnado do divino, empapado do sagrado. Naqueles tempos quase metade dos dias do ano era de feriados religiosos. E ninguém estranhava, porque era viva a consciência de que o tempo é de Deus e, por isso mesmo, é também tempo do homem, tempo não só para o trabalho e a produção, mas também para o louvor, o descanso e o saudável ócio que faz com que não deixemos de ser humanos no momento do “neg-ócio”…

Mas, os tempos mudaram. Hoje, mais que em qualquer outro tempo, é necessário que a Igreja vá às ruas com o Pão eucarístico. São ruas de um mundo sem Deus; ruas de um mundo no qual Deus é sentido como Ausência, porque o estamos exilando do nosso coração, de nossas famílias, de nossos negócios, de nossas relações, de nossas leis, de nossa Pátria, de nossa sociedade, de nossos esquemas de moralidade…

Sair hoje em procissão, de modo solene e triunfal, com uma ínfima partícula de pão não fermentado, fininho e delicado, pode parecer algo sem sentido para o mundo, algo tolo, inútil, indigno da razão ilustrada e imanentista dos tempos hodiernos. E, no entanto, é precisamente desse testemunho que o mundo mais precisa hoje: de que os cristãos digam que Deus não está ausente, mas Ele mesmo é Presença, e presença encarnada na matéria desse mundo, na carne da nossa vida. Ele é Presença sim! E não no que é grande, vistoso, midiático, mas no que é pequeno e humilde, banal e ínfimo, como um pedacinho de pão e um pouquinho de vinho.

Eis: a Eucaristia não somente testemunha a presença do Senhor, mas também o modo como Ele quer ser reconhecido na Sua presença: no que é simples, corriqueiro, pequeno… Como os sofrimentos, o pranto, os pequenos momentos de vida, da família, do trabalho, do amor. Ele quer ser reconhecido como presença no que sofre, no que precisa de nós, nos que para o mundo não contam nada e não valem nada…

Hoje, Corpus Christi, ou como se diz também no Brasil, Corpo de Deus, lá vai a Igreja, louca de alegria, pasmo e fé, proclamando essa Presença, que faz o mundo ter sentido, o homem não se sentir sozinho e a vida encontrar um rumo, o rumo da Eternidade.

“E quando amanhecer o Dia eterno, a eterna visão, ressurgiremos por crer nesta Vida escondida no pão!”

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A Eucaristia, comunhão com o Senhor

Ao cair desta tarde, com a oração das primeiras vésperas, a Mãe Igreja iniciou a celebração da Solenidade de Corpus Christi, festa da Eucaristia, proclamação da presença real do Cristo morto e ressuscitado no Pão e no Vinho consagrados.

Tendo em mente o mistério eucarístico, São Paulo pergunta:

“O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o Sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o Corpo de Cristo?” (1Cor 10,16)

Tais afirmações, em forma de perguntas e, à primeira vista, tão simples, têm uma força e significação enormes.

Na Escritura Sagrada, o “sangue” não é simplesmente uma realidade material, o líquido vermelho que circula em nossas artérias, mas sobretudo a vida e, muitas vezes, a vida tirada violentamente.

Dar o sangue quer dizer dar a vida, vida sofrida, violentada, arrancada de modo cruel.

“Sangue de Cristo” significa, portanto, a vida de Jesus dada em sacrifício, tirada de modo violento; a vida que Ele deu por nós. “Corpo”, por sua vez, não significa primeiramente os músculos humanos, mas sim o homem todo, a pessoa toda, na sua situação de criatura limitada, frágil, mortal. Assim, “corpo de Cristo” exprime a natureza humana que o Filho de Deus assumiu por nós de Maria, a Virgem: “O Verbo Se fez carne” (Jo 1,14), quer, então, dizer, fez-Se homem, fez-Se realmente humano, com um corpo humano e uma alma humana, com inteligência, vontade, consciência, afeto, sentimentos e liberdade humanos. Então, dar o corpo significa dar-se todo, dar toda sua vida humana: seus sonhos, cansaços, desilusões, sofrimentos… Dar tudo quanto a pessoa é! Foi assim que Jesus Se nos deu: em todo o Seu ser, sem reservas; doou-nos Sua vida e Sua morte!

Pois bem, o Apóstolo afirma que o pão que partimos é comunhão com o Corpo do Senhor. Palavra estupenda!

Comungar na Eucaristia significa entrar numa comunhão misteriosa e real com a Pessoa mesma de Jesus; mas não uma pessoa desencarnada: é entrar em comunhão com tudo quanto Ele viveu, experimentou em Sua existência humana; é ter comunhão com os ideais de Jesus, com o modo de viver e agir de Jesus, com as opções, esperanças e angústias de Jesus, com o sofrimento de Jesus, com a Morte e Sepultura de Jesus, com a Ressurreição e glorificação de Jesus! Comungar daquele Pão é comungar com Jesus na totalidade da Sua existência, é colocá-Lo na nossa existência, não mais viver por nós mesmos, sozinhos conosco, do nosso modo, mas viver nossa vida na vida de Jesus, que por nós morreu e ressuscitou (cf. 2Cor 5,15)!

E o cálice, São Paulo diz que é comunhão no Sangue de Cristo; quer dizer comunhão na Sua entrega, na Sua Morte, morrida por nós! Participar do Cálice do Senhor é estar dispostos a beber o cálice com Ele, a ser batizados no batismo de morte no qual Ele foi batizado (cf. Mc 10,38)!
Portanto, participar do Pão e do Vinho eucarísticos é entrar em comunhão de vida e morte com o Senhor, é “com-viver” com Cristo, é conhecê-Lo, conhecer o poder de Sua Ressurreição e a participação nos Seus sofrimentos, “com-formando-nos” com Ele na Sua Morte para alcançar a Sua Ressurreição dentre os mortos (cf. Fl 3,10).

Esta é a experiência central da vida cristã: viver nesta comunhão plena de vida e morte com o Senhor! E aqui, precisamente, cabe alguns urgentes questionamentos… Os cristãos têm consciência disso? Individualmente e como Igreja, temos presente esta nossa misteriosa e estupenda vocação, que é trazer em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a Vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (cf. Fl 4,10).

Como os cristãos se comportam diante dos desafios da vida pessoal e comunitária? Estão os cristãos dispostos a viver para o Senhor ou somente para si mesmos, segundo a lógica do mundo contemporâneo?

Nossa evangelização tem levado a esta comunhão existencial com o Cristo no mistério da Sua vida, Morte e Ressurreição?

Notemos que o que está em jogo aqui é a própria identidade do cristianismo! Sem esta consciência não há, de fato, uma vida cristã! Ser cristão não é primeiramente aderir a doutrinas ou a uma moral mas, antes de tudo, entrar em comunhão com Alguém, com o Senhor Jesus.

Pode-se, então, compreender aquelas palavras de fogo do santo Bispo de Antioquia, Inácio, que no século I, ao dirigir-se para o martírio, no qual seria devorado pelas feras, exclamava:

“Coisa alguma visível ou invisível me impeça de encontrar Jesus Cristo.
Maravilhoso é para mim morrer por Jesus Cristo.
A Ele é que procuro, Ele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa.
Permiti que eu seja imitador do sofrimento do meu Deus!
Meu amor está crucificado!
Quero o Pão de Deus que é a Carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi, e como bebida quero o Sangue Dele, que é amor incorruptível.
Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como Pão puro de Cristo. Quando lá chegar serei homem!”

Palavras estonteantes! Inácio de Antioquia compreendera o que significava celebrar a Eucaristia, participando do Corpo e Sangue do Senhor!

Que nossas eucaristias sejam realmente a celebração sacramental desta comunhão de vida, sonho, agir, morte e ressurreição com o Cristo, cujo Corpo e Sangue comungamos.
É disto que o mundo tanto precisa; é isto que o mundo espera, mesmo sem o saber: o nosso testemunho de comunhão com o Salvador! Só assim tem realmente sentido proclamar nossa fé na presença real do Senhor no Pão e no Vinho eucarísticos.