Capítulo 13: Sobre a dúvida de São José
Prudência e Caridade de São José

Deus, cujos desígnios são impenetráveis, não quis revelar ao esposo de Maria o grande mistério que nela acabava de completar-se. Só depois que voltou de casa de Isabel é que José percebeu o estado em que Maria Santíssima se achava, o que o afligiu vivamente; mas, como ele era justo e não queria infamar esta esposa querida cuja virtude conhecia, resolveu deixá-la ocultamente. Exemplo admirável de doçura, prudência, moderação e caridade! A alta ideia, que ele tinha de santidade de sua casta esposa, não lhe permite que desconfie dela; suspende o seu juízo, poupa a reputação de Maria, tem para com ela as mesmas atenções, caridade e respeito, entrega tudo aos cuidados da divina Providência. Quantas suspeitas injuriosas, quantos juízos temerários, quantos pecados não evitaríamos nós, se tivéssemos a mesma prudência, reserva e caridade, quando julgamos ver algum defeito no procedimento do nosso próximo, quando somos tentados a julgá-lo e a condená-lo!

Humildade e Paciência da Santíssima Virgem

Que situação para a Rainha das Virgens, quando percebe a pena, que experimenta o seu casto esposo! Aflige-se vivamente, mas longe de se queixar e de descobrir o que poderia justificá-la, guarda silêncio, humilha-se, resigna-se, sofre com paciência, põe toda a confiança em Deus, consola-se na oração, e deixa à Providência o cuidado de acabar, quando lhe aprouver, as penas de seu esposo e as suas. Se para nos experimentar e exercitar a nossa humildade, esta divina Providência permite que desconfiem de nós, que nos acusem e humilhem sem razão, imitemos o exemplo que nos dá a nossa divina Mãe, e, em lugar de nos queixarmos e de desanimarmos, calemo-nos, soframos com paciência, oremos com fervor e ponhamos em Deus toda a nossa confiança.

Como Deus obra a respeito de Maria e de São José

Se o Senhor permitiu tão dura provação aos dois santos esposos foi para que aí sua virtude aparecesse com mais esplendor. Quando São José se achava ocupado com o pensamento de separar-se de Maria Santíssima, um anjo veio tirá-lo da inquietação, revelando-lhe o mistério que ele ignorava. José, dócil à voz do enviado celeste, conservou consigo a sagrada esposa, que tantas qualidades gloriosas lhe tornavam infinitamente mais cara e respeitável. À imitação de Maria entreguemos à Providência o cuidado da nossa justificação e repouso, persuadidos de que ela saberá fazer conhecer a nossa inocência e dissipar tudo o que poderia manchá-la ou obscurecê-la. Deus fará milagres, se necessário for, só para não abandonar os seus servos na necessidade. É certo que algumas vezes os põe em terríveis provações para purificar a sua virtude: mas, depois de os ter deixado por algum tempo no trabalho, sabe bem compensá-los e consolá-los à proporção do que sofreram.

ORAÇÃO

Gloriosa Mãe do Salvador, que vos não desprezais de ser também nossa mãe, protetora e advogada junto dEle. Como Mãe de Jesus, podeis tudo sobre o Seu coração: como nossa Mãe, tendes para conosco sentimentos de ternura e um coração cheio de caridade e misericórdia. Felizes pois, ó Mãe amável, aqueles que se dão a vós com a intenção de se darem a Deus mais perfeitamente! Feliz o pecador que recorre à vossa poderosa proteção, para se emendar de seus desvarios e entrar na graça de vosso Filho! Virgem Santíssima, a vossa bondade me anima; venho lançar-me a vossos pés, gemendo debaixo do peso de minhas iniquidades. Tende piedade da minha pobre alma; livrai-me das cadeias de meus pecados; reprimi as minhas paixões e maus hábitos e alcançai-me as virtudes necessárias para que possa ir no céu gozar de vossa amável presença por toda a eternidade.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Seiscentos francos dados por São José

A 27 de fevereiro de 1873, M. X., um fervoroso devoto de São José, dirigiu-se, em Paris, a uma irmã de caridade, para lhe recomendar uma pobre família.

— Também eu, lhe disse a irmã, entregando-lhe uma modesta esmola para os seus protegidos, também eu tenho de vos recomendar uma família digna de interesse, mas para ela não basta um socorro ordinário; é necessária uma avultada quantia; nada menos que seiscentos francos.

Ouvi a historia dessa pobre família e vereis que bela obra de caridade faríamos, se lhe pudéssemos obter o socorro de que necessita.

— Conheço em Paris uma pobre moça, digna de todo o interesse e simpatia, pelo seu comportamento exemplar e pela dedicação extrema que tem à sua família.

Seus pais, em consequência de um revez de fortuna, foram viver para a província, aonde estabeleceram um negociozinho.

A adversidade, porém, continuou a persegui-los, e, se dentro de alguns dias não poderem dispor da quantia mencionada, para pagamento de uma letra, ser-lhes-á aberta falência, o que trará consigo desastrosas consequências.

A minha protegida recebeu há pouco esta triste notícia; eu li a carta que é realmente aflitiva.

Esta pobre gente, depois de contar à filha a sua desgraçada situação, pede-lhe que os socorra, não por si, porque bem sabem que a pobre moça apenas ganha dez francos por mês, mas alguma pessoa caritativa.

“Em Paris, dizem eles, fazem-se tantas obras de caridade, que é impossível não encontres alguém, que nos queira socorrer!”

A desventurada, no auge da aflição, veio procurar-me, banhada em lágrimas, para me mostrar a carta, e eu prometi interessar-me por eles, quanto pudesse.

Dito isto, a irmã, dirigindo-se mais diretamente ao devoto de São José, continuou:

“Afianço-vos, senhor, que esta pobre gente é digna de toda a proteção.

Eu estava já bem convencida da sua honestidade, mas para ter uma prova mais autentica, escrevi ao cura da paróquia em que residem, para que me desse exatas informações a seu respeito e obtive-as completas e agradáveis, sobre a honradez dos pais e exemplar conduta e nobres sentimentos da filha!

Tenho reservados 120 francos que quero empregar nesta boa obra, mas falta-nos o resto, e conto com o seu auxílio”

Nem tanto era preciso para captar as simpatias deste fervoroso católico, que, comovido pela narração da Religiosa, prometeu ajudá-la.

“Mas, acrescentou ele, como poderemos obter 480 francos em tão poucos dias? A quem nos havemos de dirigir?”

E ficou alguns momentos pensativo. De repente diz:

“Que bela ideia, minha irmã! Foi por certo Deus quem m’a inspirou!

Vou amanhã procurar um dos meus melhores amigos, que é membro da Associação de São Vicente de Paulo e pedir-lhe o socorro de que necessitamos para esta família.

Ele é muito devoto de São José e pediremos a este grande santo, que inspire ao seu coração, sempre tão zeloso pelo bem, Uma generosa decisão para o nosso negócio!”

A Irmã aplaudiu esta feliz ideia e combinaram pô-la em prática o mais breve possível.

No dia seguinte de manhã, M. X. dirigiu-se à Igreja de Nossa Senhora das Vitórias, para obter por intermédio de Maria uma bênção especial do seu glorioso Esposo.

Eram nove horas, e os associados reunidos oravam pelas necessidades da Arquiconfraria. M. X. juntou suas fervorosas orações às que se elevavam de tantos corações dedicados; depois, ajoelhando aos pés do altar do glorioso São José, rogou-lhe que tomasse sob a sua proteção a causa por que tanto se empenhava.

Terminada a oração, levantou-se e dirigindo-se a casa do amigo, expôs-lhe o motivo da sua visita, acabando por lhe mostrar a carta dos pobres pais à filha e a do cura, em que provava quanto eram dignos de proteção aqueles infelizes.

Ele ouviu-o com a maior atenção e depois de ter as duas cartas que o tornaram pensativo, disse-lhe:

“Isto é um negócio de gravidade!”

No entanto, M. X. pedia a São José e a Nossa Senhora das Vitórias que completassem a sua obra.

De repente F… exclamou:

“É preciso socorrer quanto antes esta infeliz família! Não há tempo a perder!”

E dirigiu-se para uma escrivaninha, tirou quatro notas de 120 francos e entregou-as ao amigo dizendo:

“Toma para os teus protegidos; eu cá me arranjo com São José”

M. X. louco de contentamento, agradeceu ao amigo e, despedindo-se dele, foi procurar a irmã da caridade a quem entregou o dinheiro dizendo-lhe:

“Aqui está a quantia que falta para completar os 600 francos. Entregai-os a essa pobre gente do mando de São José”

A alegria da boa religiosa foi imensa mas qual não seria a da sua querida protegida, e de seus pais?

No dia seguinte M. X. foi à Igreja de Nossa Senhora das Vitórias e, depois de ouvir uma missa em ação de graças, comprazia-se em narrar o caso de que tinha sido testemunha e ator. Mas uma simples narrativa não lhe pareceu suficiente para testemunhar a sua gratidão e por isso, alguns dias depois, mandou colocar na capela de São José uma lápide na qual se lê esta tocante inscrição:

Ao Glorioso São José, reconhecimento e amor! Em 28 de fevereiro, pela sua poderosíssima intercessão foi salva uma honrada família!

Este exemplo mostra que devemos ter plena confiança no glorioso Patriarca, que depois de sua Santíssima Esposa, é sem dúvida junto do Altíssimo o nosso mais poderoso intercessor.

OUTRO EXEMPLO

Uma difícil e comovente conversão

Sr. Cura de Nossa Senhora das Vitórias

Bastante demora tenho tido em narrar-lhe uma notabilíssima conversão, que julgamos dever a Nossa Senhora das Vitórias. Deu-se ela nos últimos dias de dezembro de 1887.

O pobre cristão que foi o objeto das complacências da Santíssima Virgem, andava bem desviado de Deus; todavia restava-lhe ainda no fundo do coração uma pequena lembrança de devoção a Maria, pois que, segundo ele mesmo confessa, tendo há alguns anos uma filha muito doente, viera durante nove dias à igreja de Nossa Senhora das Vitórias, para mandar acender ali um círio por sua intenção.

Este indivíduo adoeceu gravemente no principio de dezembro, e foi por sua vez recomendado também a Nossa Senhora das Vitórias. Disseram-lhe para chamar um padre, mas recusou-se obstinadamente a fazê-lo.

Não quis mesmo aceitar uma medalha da Santíssima Virgem que lhe ofereceram.

A luta foi terrível!

Eis como as coisas se passaram:

A 19 de dezembro, o médico julgou-que o enfermo não chegaria ao dia seguinte, e ele próprio, sentindo que a morte se aproximava, despedira-se da sua família.

Pois ainda mesmo nesse momento supremo, pedindo-lhe a filha a chorar que recebesse a Extrema-Unção, repeliu-a com terrível energia. Longe, porém, de desanimarem, a donzela e as pessoas que a rodeavam, compreenderam que era preciso mais que nunca multiplicar as orações, e graças a elas, a morte foi como que suspensa! É que a Santíssima Virgem velava por esta alma que em outro tempo a tinha invocado. Contudo o enfermo persistia na sua triste recusa e as irmãs da caridade que o tratavam, diziam que nunca tinham visto semelhante obstinação.

O dia 26 de dezembro era o dia destinado para o triunfo de Maria.

Quando na manhã desse dia a filha do pobre doente lhe entrou no quarto, disse-lhe este que queria reconciliar-se com Deus e que estava decidido a fazer tudo quanto ela lhe tinha pedido. Pouco depois recebia a visita do seu pároco e no dia seguinte de manhã, depois de se ter confessado nas melhores disposições, pediu com instância a Extrema-Unção.

Terminada que foi a cerimônia, dizia ele à filha:

“Agradecerás às pessoas que pediram por mim, pois é a essas orações que devo o ter-me tornado o que hoje sou”

Desde essa hora bendita, a sua tranquilidade foi completa e, passados alguns dias, expirava docemente, pronunciando o nome dulcíssimo de Jesus!

Desejava muito, Sr. Diretor, dar-vos conhecimento desta grande conversão, para a qual tanto contribuíram as orações da Arquiconfraria de Nossa Senhora das Vitórias.

Possa ela servir de estimulo às pessoas que não são logo atendidas nas suas preces, para que não desanimem e redobrem de fervor no seu orar.

A oração é poderosíssima para atrair sobre nós as bênçãos de Deus; e, quando dirigida à Santíssima Virgem, é também um ato de piedade para com a terna Mãe de Jesus. Talvez que as visitas do nosso querido defunto a Nossa Senhora das Vitórias, por intenção de sua filha doente, fossem a origem da sua conversão a Deus. Sim, procuremos conduzir aos pês desta Divina Mãe, ainda que não seja mais que uma vez, aqueles que esqueceram os seus deveres religiosos, se os queremos chamar novamente a Deus!

LIÇÃO
Sobre a Confiança em Deus

A confiança em Deus é um culto que damos às Suas perfeições; quanto mais franca ela for, maior honra se Lhe dá.

Nesta confiança o reconhecemos pelo Ser supremo, que pode tudo quanto quer e cuja vontade é igual ao poder.

A confiança é um dos meios mais eficazes para alcançarmos do céu graças e favores assinalados.

Tudo está prometido àquele que confiar em Deus; o orvalho do céu, a fecundidade da terra, as vantagens do tempo, os bens da eternidade.

Tudo nos convida a confiar nEle: a Sua bondade, o Seu poder, as Suas promessas, a Sua fidelidade, o conhecimento que tem das nossas precisões, a nossa própria fragilidade, a experiência diária da fraqueza dos homens e até da sua perfídia.

Recorrei, pois, confiadamente à Providência em todos os vossos trabalhos, quaisquer que eles sejam: não vos queixeis de que Deus vos não acode nas aflições; Ele espera para vos acudir que a vossa confiança vos conduza a Seus pés.

Porque vos deixais cair na inquietação e no desalento, como se não houvesse Deus em Israel?

Quantas vezes se enreda, inquieta e assusta a alma, quando um ato de confiança lhe traria a paz e a tranquilidade!

Tomai embora as vossas medidas, buscai meios, pedi conselhos nos casos perigosos, nas dúvidas e tristezas; mas seja sempre Deus o vosso primeiro refúgio.

Os homens não tem poder, luzes, nem vontade para vos ajudarem e socorrerem, senão as que Deus lhes dá.

Contanto que a nossa confiança em Deus não seja presumida, nunca pode haver nela excesso.

Tão fraco é o homem em si mesmo, quanto é forte pelo Deus, em quem deposita plena confiança.

Máxima Espiritual

“Quem se fia em si está perdido; quem confia em Deus, pode tudo” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Virgo clemens, ora pro nobis

Virgem clemente, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 164-176)