Capítulo 18: Fugida para o Egito
Dor de Maria Santíssima

A triste profecia do velho Simeão não tardou a começar a realizar-se. O Deus Menino, vindo ao mundo para redenção de todos os homens, principiou logo a ser o alvo das perseguições dos ímpios. Apenas a sagrada Família volta de Jerusalém, um anjo aparece em sonho a São José, e lhe manda que tome o Menino e sua mãe e fuja para o Egito, porque Herodes procuraria este divino infante para Lhe dar a morte. No mesmo momento o Santo Patriarca levanta-se, comunica à santíssima esposa a ordem do céu e dispõe-se para fugir. Que golpe para o coração de Maria! Deixar imediatamente a pátria, mudar de terra e, com o tenro Menino nos braços, partir para um país remoto! Fugir do meio do povo de Deus para uma gente supersticiosa; de um país onde se conserva a religião verdadeira, para uma região cheia de templos dos demônios! Ver o seu Menino apenas nascido, já perseguido de morte por aqueles a quem vem trazer a vida abundante de todas as graças! Que amargosa dor para tão sensível mãe! Compadeçamo-nos do terno coração de Maria, tão profundamente ferido; procuremos consolá-lo, fugindo de todo o pecado e exercitando-nos em todas as virtudes.

Seus Padecimentos no Desterro

Quantas seriam as privações e amarguras da Virgem Mãe de Deus na fugida e no desterro do Egito! A jornada era muito extensa, os caminhos ásperos, o tempo invernoso, era a estação dos frios, dos ventos e da neve; a Virgem delicada e na idade de quinze anos! Oh! Que lacrimoso espetáculo era ver esta Santíssima donzela com o Filho recém-nascido nos braços, acompanhada do seu casto esposo, fugindo por esse mundo! Como se proveriam de mantimento? Onde se abrigariam de noite? Como subsistiriam no Egito onde como estrangeiros e pobres seriam desconhecidos e desprezados? Por maior que seja a penúria e tribulação em que nos vejamos, nunca nos deixemos desfalecer; comparemo-las com os padecimentos da Virgem Maria, e as acharemos leves; ofereçamo-las em sua honra, e nos servirão de merecimento.

Sua Paciência e Conformidade

No meio de tão duras provações e angústias Maria Santíssima conserva-se sempre tranquila e resignada com a vontade de Deus. Não examina os motivos, por que este Senhor, que tinha meios infinitos para salvar seu Filho, a quis obrigar a tão penoso desterro: não se inquieta acerca de sua subsistência, certa de que a Providência divina velará sobre ela na jornada e durante a permanência no Egito. Maria vê em tudo e por toda a parte o dedo de Deus, e os efeitos da sua vontade sempre sábia e boa para conosco. Imitando seu nobre exemplo, lancemos-nos em todos os sucessos de nossa vida, sempre nos braços da Providência do Pai celeste que ela nos sustentará.

ORAÇÃO

Ó Virgem dolorosa! Que crueldade é a dos pecadores, que ainda hoje não cessam de perseguir o vosso bendito Filho e de amargurar o vosso terno coração! Ai! Do número deles tem sido esta ingrata e indigna criatura, que vedes a vossos pés! Como podeis suportar-me na vossa presença? Eu tremo à vista de minhas inumeráveis iniquidades e confesso que não sou digno de perdão; mas sei que sois o refúgio e a esperança dos maiores pecadores, e que fazeis brilhar para com eles a vossa misericórdia. Eu venho pois, ó Maria, ó Mãe do meu soberano Juiz, venho recomendar-vos a salvação da minha alma. Quem, senão vós, poderá aplacar a justiça divina irritada contra mim? Se me abandonais, estou perdido para sempre; mas se quiserdes interessar-vos em meu favor, está segura a minha salvação. Falai, pois, ó Mãe de Deus, falai por mim a Jesus, e eu alcançarei o perdão das minhas iniquidades, porque Ele nada recusa a vossas súplicas.

Agora se faz o Ato após a Meditação

OUTRO EXEMPLO

A Missa do sábado

Uma mulher que havia passado grande parte da vida nos maiores desvarios, vendo-se presa por vergonhosas cadeias a que a miséria e a paixão a haviam fortemente acorrentado, derramava às vezes, a sós consigo, copiosíssimas torrentes de lágrimas.

Um dia em que ela mais amargamente lamentava a sua desgraça, viu entrar repentinamente em casa, o cúmplice de suas desordens que, de olhos baixos e com uma carteira na mão, se aproximou dela dizendo-lhe:

“É já tempo de renunciarmos a esta vida escandalosa, e procurar no arrependimento e penitência o perdão dos nossos crimes. Vou deixar-te para cuidar da salvação da minha alma, e tu cuida em fazer o mesmo, imita o exemplo que te vou dar. Nesta carteira encontrarás quantia suficiente para viveres honesta e retirada o resto da tua vida, dando a Deus o coração que tão mal empregaste nas criaturas”

Ouvindo isto, a pobre mulher ficou por minutos absorta, vendo tão repentinamente quebradas as algemas que a torturavam, e animada da mais sincera contrição dos seus pecados e do mais vivo reconhecimento para com o Deus de infinita misericórdia, que assim lhe facilitava a conversão, foi lançar-se aos pés de um sacerdote, a quem fez entre lágrimas a humilde confissão dos seus crimes, pedindo-lhe que fosse o seu guia na vida de penitência que sinceramente desejava abraçar.

O ministro do Senhor que a ouvira surpreendido, procurando saber a causa de tão feliz transformação, perguntou-lhe se durante a sua vida criminosa tinha conservado alguma prática de piedade:

“Unicamente uma, respondeu a penitente, porque assim o tinha prometido a minha mãe agonizante. Foi de não deixar passar nenhum sábado, sem ouvir uma missa em honra da Santíssima Virgem”

Ambos compreenderam então o motivo da feliz transformação. Maria, misericordiosa como sempre, recompensara esta pequena homenagem, com tão assinalado favor!

Oxalá o exemplo desta pecadora nos incite a sermos fiéis em ouvir ao sábado a Santa Missa; não deixemos passar nenhum destes dias consagrados de modo especial ao culto de Maria Santíssima sem lhe tributar este preito de reconhecimento.

Quantas e quão preciosas graças não recebem da mão de Deus os que são fiéis à piedosa devoção, de ouvir Missa ao sábado em honra de Maria Santíssima!

LIÇÃO
Sobre a Fuga das Ocasiões

Trazemos o tesouro da graça em um vaso demasiadamente frágil, que se pode quebrar quando menos o pensarmos.

Quantos inimigos não procuram roubar-nos este tesouro? Temo-los dentro em nós, fora de nós, e em volta de nós.

Dentro em nós nunca estão de todo sopeadas as paixões; fora de nós temos espíritos das trevas; em volta de nós o mundo maligno.

As nossas paixões, qual archote mal apagado, podem tornar a atear-se, e ainda causar incêndios.

Ainda que houvéssemos sido, como São Paulo, arrebatados ao terceiro céu, deveríamos sempre tremer de ser arrojados, como o anjo rebelde, ao mais profundo abismo.

Debalde nos firmamos na sinceridade dos nossos sentimentos e no fervor de nossas resoluções, para nos perder basta uma desgraçada ocasião.

É necessário, pois, muita vigilância em evitar as ocasiões do pecado. Quem não procura fugir delas, particularmente em matéria de prazeres sensuais, cairá desgraçadamente.

Na guerra dos sentidos quem foge é que vence.

Máxima Espiritual

“Fugir das ocasiões, é indicio de verdadeira contrição” – Santo Isidoro

Jaculatória

Rosa mystica, ora pro nobis

Rosa mística, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 237-248)