Lição 1: Ezequiel

1. Ezequiel (= Deus da força) era sacerdote (Ez 1,3), casado, que perdeu a esposa pouco antes da queda de Jerusalém (Ez 24,16-18). Foi chamado para a missão profética em 593 (Ez 1,2); exerceu seu ministério até 571 (Ez 29,17). Não se sabe bem onde nem quando morreu; uma tradição judaica pouco segura diz que foi apedrejado pelos judeus em virtude das censuras que lhes fazia. Por conseguinte, Ezequiel acompanhou o povo de Judá na fase mais crítica da sua história, quando Jerusalém caiu sob Nabucodonosor (587 a. C.).

O livro de Ezequiel compreende quatro partes: após a introdução (cc. 1-3), na qual o profeta recebe sua missão, ocorre a 1a parte (cc. 4-24), com censuras aos judeus antes da queda de Jerusalém; a 2a parte (cc. 25-32) contém oráculos contra os povos estrangeiros, que agravavam os males físicos e morais de Jerusalém; a 3a parte (33-39) consola o povo durante e após o cerco de Jerusalém, prometendo-lhe um futuro melhor; a 4a parte (40-48) descreve a nova cidade e o novo Templo após a volta do exílio.

Quem lê o texto de Ezequiel, tem a impressão de que toda a atividade do profeta se desenvolveu no exílio, onde foi chamado pelo Senhor quando estava à margem do rio Cobar “na terra dos caldeus (= babilônios)”; cf. 1,2. Todavia nos últimos decênios esta tese tem sido discutida. Com efeito, alguns críticos notam que os oráculos da primeira parte do livro são dirigidos aos habitantes de Jerusalém; o Profeta parece estar fisicamente presente entre estes. Em conseqüência, tais autores admitem duas fases no ministério profético de Ezequiel: a primeira terá ocorrido na Terra Santa mesma entre 593 e 587; a segunda se terá desenvolvido na Babilônia de 587 a 571. Cada uma destas duas fases terá sido provocada por uma vocação divina: a visão do rolo em 2,1-3,9 haveria desencadeado a missão em Judá, ao passo que a visão do carro divino em 1,4-28 e 3,10-15 teria dado início à atividade na terra do exílio. Os críticos supõem que esta visão do carro divino estivesse originariamente no início do c. 33 (ponto de partida do ministério na Babilônia), mas terá sido transposta para o início do livro, onde atualmente se acha; em conseqüência desta transposição, o livro dá a entender que Ezequiel só teve uma visão e vocação e, por conseguinte, um só ministério, a saber: na terra do exílio. Os que defendem a nova hipótese, apelam para o fato de que o livro de Ezequiel foi muito remanejado; isto explicaria a transladação da visão do carro para o começo do livro; explicaria também as alusões à terra do exílio (devidas a acréscimos tardios e inoportunos) ocorrentes na primeira parte do livro, ou seja, em 3,23; 8,2-4; 10,15.20.22; 11,24s.

Na verdade, a nova tese ajuda a resolver certos problemas, mas suscita outros, pois, como se vê, exige sérias reestruturações do texto (seriam, de fato, prováveis?). – Além disto, observa-se que, se Ezequiel exerceu algum ministério na Palestina, ele devia morar fora da Cidade Santa, pois era transportado para lá (cf. 8,3; 11,1). Também causa estranheza o fato de que Jeremias profeta, contemporâneo de Ezequiel, não se refira a este se Ezequiel se achava na Palestina, e vice-versa; igualmente causa espécie o silêncio de Ezequiel a respeito de falsos profetas e de cortesãos de Jerusalém, que tanto se opuseram a Jeremias e que certamente teriam impugnado Ezequiel se este pregava na terra de Judá. Ponderadas estas dificuldades, pode-se dizer que hoje a hipótese de duplo ministério está quase abandonada. De resto, a tese tradicional (um só ministério, exercido na Babilônia) não suscita problemas insolúveis: observemos que, quando Ezequiel parece estar em Jerusalém, o texto diz que ele foi transportado para lá, “em visão” (8,3) e que foi trazido de lá “em visão” (11,24); ademais as censuras dirigidas por Ezequiel ao povo de Jerusalém podiam servir de lição aos exilados (estes, até a queda de Jerusalém em 587 a.C., julgavam que eram inocentes, punidos por causa dos pecados de seus antepassados: “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram irritados, Ez 18,2).

2. O livro de Ezequiel apresenta a pregação profética de Ezequiel na primeira pessoa do singular; apenas dois versículos estão na terceira pessoa (1,3 e 24,24). O livro tem assim uma certa unidade. Mas deve-se notar que não foi escrito de uma só vez nem é todo diretamente da mão do profeta Ezequiel; é de crer que tal obra seja devida a discípulos, que trabalharam a partir de escritos e recordações do mestre, combinando-os entre si e completando-os. Os indícios de compilação são vários:

  • repetições: 3,17-21 e 33,7-9; 18,25-29 e 33, 17-20; 7,1-4 e 7,5-9; 1,4-2,2 e 10,1.8-17…
  • inserções: a visão do carro divino (1,4-3,15) é interrompida pela do livro (2,1 -3,9). O relato de 10,1-22 só continua em 11,22, cortado pela descrição dos pecados de Jerusalém…
  • as datas fornecidas nos cc. 26-33 não seguem ordem cronológica; cf. 26,1 ; 29,1 ; 30,20; 31,1 ;32,1 ; 32,17; 33,21.

Todavia pode-se dizer que os discípulos foram fiéis ao mestre, pois conservaram, além do uso da primeira pessoa do singular, a unidade de estilo e de expressões: “Filho do homem”, “Sabereis que eu sou o Senhor…”, “Foi-me dirigida a palavra do Senhor…”, “Fez-se a mão do Senhor sobre mim…”

Ezequiel recorre freqüentemente a gestos simbólicos: 4,1-5,4; 12,1-7; 21,23s; 24,22-24; 37,15s. É também dado a visões: 1,1; 1,4-28; 10s; 37,1 -14; 43,1 – 7, textos estes que põem o leitor diante de quadros fantásticos. Também revelam fecunda imaginação as alegorias referentes às duas irmãs Oola e Ooliba (c. 23), ao naufrágio de Tiro (c. 27), ao faraó-crocodilo (cc. 29 e 32), à árvore gigante (c. 31)…

O livro de Ezequiel traz também forte marca sacerdotal. Preocupa-se com o Templo e o culto sagrado; tem pontos de contato com a Lei de Santidade (Lv 17-26). Assim é obra da corrente sacerdotal que trabalhou no exílio e no pós-exílio, produzindo também o código P ou Sacerdotal, que entrou na composição do Pentateuco (ver Módulo l da 3a etapa deste Curso).

Lição 2: Daniel

1. Daniel (= Deus é meu juiz, em hebraico) é o principal personagem do livro homônimo. Deve distinguir-se do sábio Daniel de que fala Ez 14,14.20; 28,3; este, colocado junto a Noé e Jó, não era israelita, ao passo que o herói do nosso livro era judeu.

O livro de Daniel compreende uma parte canônica (1,1-12,13, com exceção de 3,24-90) e outra deuterocanônica, só existente em grego (13,1-14,42, além de 3,24-90).

A parte canônica divide-se em duas seções: narrativa (1,1-6,28) e apocalíptica (7,1-12,13). A parte deuterocanônica contém a história de Susana, uma jovem inocente que Daniel salva por sua sabedoria (13,1-64), a história dos sacerdotes de Bel, que Daniel desmascara (14,1-21), e a do dragão, que Daniel mata (14,22-42); estes episódios do c. 14 são o eco da polêmica judaica contra a idolatria que inspira a seção de Dn 1-6, ao passo que o c. 13 põe em relevo a sabedoria de Daniel, já salientada em 1-6.

2. Muito se tem discutido o gênero literário do livro protocanônico de Daniel. Hoje os exegetas católicos concordam em atribuir 1-6 ao gênero midráxico ou hagádico e 7-12 ao gênero apocalíptico. Mais precisamente:

Em Dn 1-6 temos um núcleo histórico: Daniel foi um hebreu deportado para a Babilônia em 606 (cf. 1,1); levado para a corte do rei Nabucodonosor, recebeu o nome de Baltasar (1,7); guardou estrita fidelidade à Lei de Deus em meio ao ambiente pagão, de modo que Deus o enriqueceu com dons diversos de sabedoria, que o tornaram notável na corte da Babilônia. Tal é o conteúdo do c. 1. O que se segue nos cc. 2-6 são episódios cujo fundo histórico foi elaborado em sentido apologético, isto é, no intuito de escarnecer a sabedoria pagã e exaltar o Deus de Daniel, fonte da verdadeira sabedoria: note-se que em cada um desses capítulos há uma situação que deixa embaraçados o rei e seus cortesãos ou sábios e que é resolvida pela atuação de Daniel; no final de cada capítulo, o rei pagão reconhece direta ou indiretamente a santidade do Deus de Daniel: 2,46-48; 3,95s, 4,34; 5,29; 6,25-27. Há sinais claros de que o autor não se importa muito com o rigor histórico das suas narrativas ou não tencionava cultivar o gênero histórico gráfico propriamente dito. Com efeito; apresenta Baltasar como rei da Babilônia (5,30; 7,1) e filho de Nabucodonosor (5,2), quando na verdade Baltasar foi filho de Nabonide e talvez nunca tenha reinado. Dario, o medo, tido como sucessor de Baltasar (6,1) e filho de Xerxes (9,1), é desconhecido aos historiadores (talvez se trate de pseudônimo); em 11,2 aparece uma lista de quatro reis da dinastia persa, quando na realidade houve nove deles. Estas imprecisões são características do gênero literário midráxico ou hagádico: o autor de midraxe não quer ser um cronista nem um repórter, mas, sim, um filósofo ou um teólogo, que, através de acontecimentos históricos devidamente apresentados, comunica uma mensagem de índole religiosa; já que o autor de midraxe não quer ser um historiador, não deve ser acusado de incidir em erros historiográficos; não é intenção dele definir pontos de historiografia. Ver no Léxico deste Curso o verbete “Midraxe”.

Julga-se, pois, que os episódios de Dn 2-6 foram redigidos por um autor muito posterior a Daniel, isto é, do século II a.C., que desejava incutir nos judeus a confiança no Deus de Israel; Este é mais forte do que todos os poderes humanos, especialmente os reis sírios, que perseguiam os judeus, ameaçando punir os que se conservassem fiéis à Lei do Senhor.

A seção de Dn 7-12 é apocalíptica. Isto quer dizer o seguinte: no séc. II a. C., quando os judeus eram ameaçados pelos sírios pagãos (167-164), um autor piedoso quis despertar em seus compatriotas a esperança e a paz. Em vista disto, recapitulou a história dos últimos séculos e apresentou a sua época como próxima à libertação messiânica; Deus haveria de intervir em breve a fim de sacudir o jugo estrangeiro que dominava Israel desde Nabucodonosor, e instaurar no mundo a justiça e a ordem devidas; os que ficassem fiéis, seriam recompensados. É precisamente a descrição do julgamento de Deus sobre os povos dentro de um cenário cósmico que caracteriza os escritos apocalípticos. O gênero apocalíptico já ocorre antes de Daniel em Ez 38s; Is 24-27; Zc 9-14… Ver no Léxico o verbete “Apocalipse”.

No cenário apocalíptico em Dn 7,1-28 situa-se um texto profético, relativo ao Filho do Homem e ao seu reino definitivo sobre todas as nações: 7, 13s. Estes versículos projetam luz sobre o apelativo Filho do Homem com que Jesus se apresentou nos Evangelhos: é um título messiânico, que devia ter profundo significado para os seguidores de Jesus. Aliás, foi aludindo a tal passagem que Jesus se identificou quando interrogado pelo Sumo Sacerdote judaico antes de morrer: “Eu sou o Cristo, o Filho de Deus bendito. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vir com as nuvens do céu” (Mc 14,62; cf. Jo 3,13s; 5,27; 8,28…).

Estas considerações nos levam a dizer que o livro de Daniel não é um livro profético (embora contenha umas poucas passagens proféticas: 2, 34.44s; 7,13s; 12,1-3). É um midraxe (2-6) e um apocalipse (7 a 12): o autor no séc. II a.C. refere sob forma de símbolos (geralmente feras) a história dos impérios que dominaram Israel desde Nabucodonosor até os Sírios (167-163 a.C.) a fim de dizer aos seus contemporâneos do século II que o jugo estrangeiro estava para chegar ao fim, porque o Senhor Deus estava para entrar manifestamente na história deste mundo, realizando o juízo sobre os povos e premiando o povo fiel. É por isto que o livro de Daniel, no cânon dos judeus, não se encontra entre os profetas, mas, sim, entre os escritos sagrados que formam a última parte do cânon hebraico. A edição dos LXX é que colocou Daniel na categoria dos Profetas, interpretando o seu texto como se fosse o de um Profeta. É de notar, porém, que o estilo de Daniel difere claramente do dos profetas: descreve minuciosamente a sucessão dos reinos do século VI ao séc. II referindo-se a pormenores muito precisos – o que não é do estilo dos Profetas; estes geralmente são obscuros quando se referem à história (ver Módulo l desta 3a subetapa).

As partes deuterocanônicas (cc. 13-14) pertencem ao gênero literário de 2-6, referindo episódios que mostram a sabedoria de Daniel e a grandeza do Deus de Israel.

3. O texto do livro de Daniel apresenta um problema para o qual os estudiosos não encontram explicação. Com efeito, foi-nos transmitido em três línguas: 1,2-2,4a; 8,1-12,13, em hebraico; 2,4b-7,28, em aramaico (com exceção de 3,24-90, parte deuterocanônica); as partes deuterocanônicas, em grego. Esta diversidade talvez provenha do fato de que o livro de Daniel consta de seções que foram originariamente redigidas sem dependência uma da outra. Terão sido compiladas em primeira instância de modo a originar os blocos 1-6 e 7-12; em ulterior instância, ou seja, entre 167 e 164 terão sido justapostas de modo a produzir o livro de Daniel protocanônico. Os cc. 13-14 terão tido sua origem própria como episódios avulsos; foram aglutinados ao conjunto Dn 1-12; como se crê, são a tradução grega de um texto original hebraico que se perdeu. Notemos que no livro de Daniel não há as características dos livros do exílio e do imediato pós-exílio: lamentações sobre Jerusalém, censura ou consolação aos exilados, promessa de retorno à Terra Prometida, como se encontram em Ezequiel, Lamentações, Isaías 40-55…

4. O livro de Daniel tem importância teológica, pois apresenta o modo de pensar dos judeus do século II a.C. ou quase no limiar da Revelação cristã: observemos ai:

  • a angelologia (doutrina a respeito dos anjos) muito evoluída; cf. Dn 7, 10.16; 8,16-18; 9,21-23; 10,10-21; 12,1-13;
  • a afirmação da ressurreição para a vida ou para o opróbrio; cf. Dn 12,2s (passo notável em relação a Jó e Ecl).
  • a visão da história como realização de um sábio plano de Deus que termina no Reino Messiânico consumado (cc. 2; 7-8; 10-12).

Para aprofundamento ulterior, veja:

GRELOT, P., Introdução à Bíblia. Ed. Paulinas 1971,
GRUEM, W., O tempo que se chama hoje. Ed. Paulinas 1977.
SCHÕKEL, L. A. e SICRE DIAZ. L, Profetas II. Ed. Paulinas 1991.

Perguntas sobre Ezequiel e Daniel

1) Leia Ez 37,1-14 e procure o sentido da cena que aí ocorre.
2) Leia Ez 34,1-31 e diga em que trechos do Novo Testamento a imagem do Bom Pastor ocorre de novo. Compare entre si o Bom Pastor do Antigo e o Bom Pastor do Novo Testamento.
3) Leia Ez 16,15-34 e explique o significado da imagem aí descrita.
4) Que se entende quando se diz que o livro de Daniel é, em parte, mídráxico e, em parte, apocalíptico?
5) Em Mt 24,15 é citado Dn 9,27. Procure o sentido de Dn 9,27 e explique o que Jesus quer dizer em Mt 24,15.