Mês de Julho: A Virtude da Obediência

Mês de Julho

Breve introdução sobre a Obediência e o Apóstolo Patrono

Se poucas almas há que se dão inteiramente a Deus, é porque poucas são as que se submetem inteiramente à obediência. Há pessoas tão aferradas à própria vontade, que a mesmíssima coisa que, fora da obediência, lhes seria de gosto para ser executada, amarga e difícil se lhes faz quando exigida por obediência, é unicamente por esta causa; tais pessoas tomam prazer somente com executar o que lhes dita a vontade própria. Este não é o proceder dos santos, os quais só ficam tranquilos quando obedecem. São Filipe Néri dizia:

“Os que desejam progredir no caminho de Deus devem submeter-se a um confessor instruído, e dar-lhe obediência como ao próprio Deus; quem procede assim, pode estar certo de que não dará a Deus contas do que faz”

Deve-se ter confiança no confessor, ajuntava o Santo, e crer que Deus não lhe permitirá se engane: não existe meio mais seguro para um desfazer os artifícios do inimigo que seguir no bem a vontade de outrem; ao contrário, nada mais perigoso do que querer dirigir-se pelos seus conselhos pessoais.

Se queres andar seguro no caminho da perfeição, deixa-te guiar por teus superiores, quanto às coisas externas, e obedece, em tudo que diz respeito a teu interior, a teu diretor espiritual.

Os negociantes, para se assegurarem de seus negócios, exigem que outros prestem fiança; do mesmo modo, para assegurar teu eterno ganho, deves procurar a fiança da obediência para tuas obras todas.

Persuade-te, por isso, vivamente de que é a Deus que obedeces quando obedeces a teus superiores. Se Jesus viesse pessoalmente para te encarregar de algum negócio ou ofício, recusar-te-ias talvez a obedecer-lhe ou desculpar-te-ias? Ora, é muito mais certo que é Deus mesmo quem te fala, quando teus legítimos superiores te mandam alguma coisa, do que quando Jesus, aparecendo-te, te incumbisse de alguma coisa, porque essa aparição poderia basear-se em um engano, ao passo que está fora de dúvida que Deus disse, em relação aos superiores:

“Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16)

Esforça-te, portanto, para obedeceres em tudo que não for claramente pecado, com toda a prontidão, alegria e simplicidade. Não te faças muito rogar: um verdadeiro obediente não demora, não se desculpa, não mostra sua repugnância interna por um rosto enfadado, mas começa a executar imediatamente o preceito com alegria, nem sequer espera a ordem expressa do superior: basta saber que é sua vontade dirigir-se conforme isso.

Não desejes igualmente saber as razões por que te mandaram fazer isto ou aquilo, pois assim tua obediência seria muito imperfeita. Se quiseres ser muito agradável a Jesus Cristo, suplica a teus superiores que te tratem inteiramente conforme o seu parecer e sem consideração alguma por ti; o merecimento da obediência será então muito maior. Esforça-te para que tua obediência se origine sempre da intenção de cumprir com a vontade de Deus, porque, se a praticares com outro intenção, por exemplo, para granjear a benevolência de teus superiores, satisfarás aos homens, mas não a Deus.

Em casos duvidosos, faze aquilo que julgas que teus superiores ordenariam; e se não puderes resolver de forma alguma, faze aquilo que é mais oposto à tua inclinação.

Sumário
I. A sua natureza
II. Do Mérito da Obediência
III. Da Obediência dos Filhos a seus Pais
IV. Da Obediência dos Criados a seus Amos
V. Da Obediência ao Diretor Espiritual
VI. A Obediência do Redentor
VII. A Prática da Obediência
VIII. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Mês de Julho: A Virtude da Obediência. Apóstolo Patrono: São Filipe

Mês de Julho: A Virtude da Obediência. Apóstolo Patrono: São Filipe

I. A Obediência: a sua Natureza

Por Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

Criador e soberano Senhor de todas as coisas, Deus tem direito à submissão perfeita das Suas criaturas.

Poderia dirigir em pessoa Suas criaturas racionais para o Seu fim e manifestar ou intimar diretamente a cada uma em particular as suas vontades: não o quis. Preferindo por uma condescendência admirável associar-nos ao Seu governo, dispôs que os homens fossem conduzidos pelos homens, e estabeleceu as diferentes sociedades: familiares, civis, religiosas. Com isso quis que uns fossem chefes com a missão de mandar em Seu nome, e os outros súditos com o dever de obedecer a Seus representantes como a Ele mesmo.

Também a razão natural nos prova que o homem foi feito para viver em sociedade e que, de outro lado, toda sociedade é impossível sem uma autoridade que mande e que tenha direito à obediência dos que lhe estão sujeitos.

Mais aclarado, o cristão sabe que toda autoridade legítima vem de Deus. Non est enim potestas nisi a Deo (Rm 13, 1); que por isso o depositário dessa autoridade é o representante de Deus; e que resistir à autoridade legítima é resistir ao próprio Deus (Rm 13, 2).

Mas se todo cristão e dum modo mais geral ainda todo homem está sujeito às leis da obediência, com mais razão o está o religioso. Sob qualquer ponto de vista que se a encare, a vida religiosa é antes de tudo uma vida de obediência. A vida religiosa é uma escola de perfeição em que a alma deve, por exercícios repetidos e por longos e generosos esforços, elevar-se às mais sublimes virtudes. Se não quiser desviar ou consumir suas forças em vãos e estéreis esforços, deve submeter-se a uma direção, a um superior: deve abraçar a obediência.

A vida religiosa tem por fim unir a alma a Deus. Mas, querendo tender a Deus, a alma deve desfazer-se de todos os laços que a retêm cativa. Assim, pois, como, pela pobreza e pela castidade, ela quebra as cadeias dos bens temporais e dos prazeres sensuais, pela obediência livra-se dos entraves da vontade própria que só pode desviá-la e afastá-la de Deus, dobrando-a sempre sobre si mesma.

A vida religiosa é, enfim, um holocausto pelo qual a alma imola tudo ao amor de Deus, para não possuir senão a Deus só. “Sois o Deus do meu coração e sereis a minha partilha para a eternidade”, deve dizer a alma ao entrar em religião. É preciso, pois, que, depois de sacrificar as riquezas do mundo e todos os prazeres naturais do corpo e do coração pela pobreza e pela castidade, ela ponha a perfeição ao seu sacrifício, imolando-se a si mesma com a sua vontade própria pelo gládio da obediência.

Sendo a vida religiosa uma vida de renúncia à vontade própria e de submissão à autoridade, importa sumamente ao religioso adquirir a virtude da obediência que, por um sentimento de justiça e para comprazer a Deus, inclina a alma a executar generosamente e com alegria as ordens do superior. Por ela se toma suave e agradável a nobre escravidão da vida religiosa, penosa à nossa fraca natureza, mas meritória perante Deus.

Mas é aqui, sobretudo, que a alma deve temer a sua inconstância e garantir contra si mesma a perseverança no bem. Para aperfeiçoar o seu sacrifício e confirmar-se no caminho da virtude, prende-se ao Senhor pelo voto da obediência.

Segundo os maiores doutores, é, sobretudo, o voto de obediência o mais excelente de todos, que constitui o estado religioso. É o mais perfeito, diz Santo Tomás, 1.° porque livra a alma do seu mais íntimo e perigoso inimigo: a vontade própria; 2.º porque o sacrifício que impõe é o maior; 3.º porque pode suprir e substituir os outros votos.

Mas, se esse voto torna os nossos atos de obediência mais agradáveis a Deus e mais meritórios, aumenta também a culpabilidade de nossas desobediências.

Quais são, sob o ponto de vista da obediência, as obrigações que resultam da profissão religiosa?

Obedecer é submeter-se à autoridade, a quem governa; a obediência é a execução ou o cumprimento das ordens do superior. Para que haja obediência é preciso que haja ordem superior, e que o súdito tenha conhecimento dela. Se o superior não dá ordem, não manifesta nenhuma vontade, não há lugar para a obediência. Doutro lado, se, dada uma ordem, o súbdito não a ficar conhecendo, então mesmo que de própria iniciativa ponha o ato mandado, não se poderá dizer que ele obedeceu.

Submeter-se à autoridade é um ato bom, conforme a justiça; o superior tem o direito de exigi-lo e o súdito tem o dever de cumpri-lo. A disposição habitual pela qual um súdito: se sente inclinado a submeter-se, em espírito de justiça, à autoridade dos superiores, cumprindo as ordens, é uma disposição virtuosa; e a virtude da obediência.

Mas a obediência ou a submissão do súdito pode ser puramente material ou exterior. Pode acontecer, por exemplo, e acontece que um súdito executa, e com exatidão, a ordem do seu superior, mas sob o domínio do temor ou por qualquer outro motivo, enquanto que a alma se revolta contra a autoridade, cujas ordens julgam insensatas, tirânicas, etc. Ou então a submissão exterior pode ser acompanhada da submissão interior da alma, que aceita o seu dever e quer cumpri-lo, fazendo o que é mandado, porque é mandado pela autoridade legítima: é a obediência formal. É essa submissão interior da alma que constitui o valor da obediência e a faz virtuosa.

Mas essa submissão da alma pode ser mais ou menos completa mais ou menos perfeita. Um religioso, por exemplo, submete a sua vontade, mas reserva mais ou menos o seu juízo; um outro, ao contrário, parece já não ter nem vontade nem juízo próprio. Aquele se submete sempre, mas espera as ordens; estas, em seu fervor, procuras previnem-las.

  • Sujeito à obediência pelo compromisso da sua profissão, o religioso está sempre obrigado a obedecer sob pena de pecado? Não.
  • E quando está obrigado a obedecer sob pena de pecado, que obediência deve ele a seus superiores? Para satisfazer a seus compromissos deve unir à execução das ordens recebidas a submissão alegre, pronta e completa da alma? Não.

Deve-se, pois, distinguir: 1.º o que exige rigorosamente do religioso o dever da obediência, e 2.º o que exige dele o fervor ou a perfeição da obediência. Temos assim de falar: 1.º da obediência necessária; 2.º da obediência perfeita.

Notemos primeiro que o superior de qualquer comunidade religiosa possui, a respeito de seus súditos, o poder de dominação para governar a comunidade segundo o espírito da Ordem a que pertence, e em virtude do qual pode dar a cada um dos súditos ordens ou preceitos aos quais o congregado tem o rigoroso dever de submeter-se. Esse poder é comparado com razão ao poder do pai sobre os filhos; repousa sobre a doação que o religioso fez de si mesmo à Ordem, abdicando a sua liberdade nas mãos dos superiores, confiando-lhes, pois, o direito de mandá-lo, e assumindo a obrigação de obedecer-lhes.

Além disso, se se trata duma comunidade de sacerdotes que goza do privilégio de isenção, o superior possui sobre os súditos o poder de jurisdição. O poder de jurisdição é o poder concedido por Jesus Cristo à Sua Igreja, de dispensar os bens espirituais, de instruir os fiéis, de corrigi-los ou de governá-los no serviço de Deus, para conduzi-los à santificação, à salvação das suas almas.

O poder de dominação governa diretamente os indivíduos aos quais impõe preceitos para o seu bem particular.

O poder de jurisdição espiritual para a sociedade religiosa, e civil para a sociedade civil, é o poder público, que tem por objeto o governo da comunidade — trata-se aqui duma comunidade perfeita, sui juris, civil ou religiosa para o bem comum de todos. Este poder exerce-se diretamente sobre a comunidade, e atinge os súditos enquanto são membros da comunidade. O poder de jurisdição dá leis, dispensa delas, procura a sua execução, inflige aos delinquentes penas públicas, etc. O detentor do poder de jurisdição, participando do poder público, é por isso mesmo, uma pessoa pública. Isso não se dá com o poder de dominação: o pai de família que possui esse poder sobre seu filho não é, a esse respeito, personagem pública. É pelo poder de jurisdição que o superior, secular ou regular, designa ou autoriza os confessores, dispensa duma lei eclesiástica, inflige censuras, etc. Esses atos são da autoridade pública. O soberano Pontífice possui em sua plenitude o poder de jurisdição sobre toda a Igreja, e quando, pelo privilégio de isenção, subtrai religiosos à jurisdição dos bispos, não podendo governá-los por si mesmo, confia esse cuidado aos superiores, aos quais confere a jurisdição sobre os súbditos.

Daí se vê claramente que todos os fiéis estão necessariamente sujeitos à jurisdição dum superior eclesiástico, secular ou regular, mas não necessariamente à dominação dum superior qualquer.

Quando um indivíduo, livre até então, solicita a admissão numa comunidade religiosa, oferece-se, com isso, a entregar-se ao governo dos superiores, conferindo sobre ele o poder de dominação e submetendo-se à sua jurisdição; promete, tacitamente ao menos, obedecer às suas ordens e impõe-se o dever de cumprir as suas disposições. É só com essa condição que a comunidade se prontificará a admiti-lo em seu seio. Embora tácito esse pacto seja real. A comunidade não pode deixar de exigi-lo: admitir em seu seio um súdito que pretendesse gozar plena independência seria entregar-se, ela mesma, à desordem e à ruína. É, aliás, um princípio de direito canônico. É justo que os que vivem em comunidade se submetam à lei que rege essa comunidade. A prudência exige, todavia, que a admissão seja provisória. Não é certo que o aspirante à vida religiosa poderá levar o gênero de vida que quer abraçar; comprometer-se a isso logo irrevogavelmente, seria temeridade da sua parte. De seu lado a comunidade não seria menos imprudente, ligando-se definitivamente a um indivíduo que não conhece e que poderia depois causar-lhe mil aborrecimentos. É, pois, necessário um tempo de provação que permitirá ao súdito e à comunidade estudar-se e verificar se se convêm mutuamente, antes de se ligarem para o futuro: é o tempo do noviciado, durante o qual o noviço tem sempre liberdade de retirar-se, se achar pesado demais o jugo de que se quer carregar. Mas enquanto ficar na comunidade é obrigado a submeter-se ao governo dos superiores e ao regulamento; ele só foi aceito sob essa condição. Evidentemente a Regra ainda não se lhe impõe rigorosamente; ela só liga real e diretamente os membros da Ordem, e ele não passa de aspirante; ele entrou para estudar a Regra e ensaiá-la; convém, pois, que se exerça lealmente e procure conformar-lhe o seu procedimento. Aliás, a regra da Ordem é ordinariamente diferente do regulamento do noviciado, ao qual o noviço deve generosamente submeter-se (cfr. Vermeersch).

Se o noviciado termina a contento das duas partes, é tempo de contrair uma união firme. O noviço está decidido a dar-se irrevogavelmente à família religiosa que lhe é como o navio próprio a conduzi-lo ao porto eterno. A comunidade, de seu lado, declara-se pronta a acolher definitivamente aquele que lhe parece dever ser um filho dócil e perfeitamente submisso. Por segurança e para proteger o futuro religioso da sua própria inconstância, exige, todavia, compromissos mais solenes e firmes. O noviço responde-lhe pela profissão religiosa. Ao pé do altar e na presença de testemunhas, que poderão se necessário, exprobrar-lhe à felonia, consagra-se inteiramente à sua família religiosa e entrega-se plena e definitivamente aos superiores.

“Em vossas mãos, diz-lhes, deposito a minha liberdade e o direito que eu tinha de dispor de mim mesmo; a vós conduzir-me dora avante; tudo quanto me mandardes segundo a Regra que conheci e amei, prometo cumpri- lo; e para melhor vos provar a sinceridade da minha determinação, e para fortalecer o pacto que quero concluir, comprometo-me diante de Deus pelo voto de obediência a guardar a promessa que vos acabo de fazer, e a executar docilmente as ordens que podereis dar-me dora avante em toda a justiça, pelo direito que vos confiro sobre mim mesmo”

A Congregação aceita e adquire de maneira definitiva o poder de dominação sobre o neo-professo, igualmente sujeito, em virtude disso, a seu poder de jurisdição. Daí as palavras de Santo Tomás a respeito do voto de obediência:

“Pelo voto de obediência o homem faz voto a Deus de executar o que promete a seus superiores”

Com razão, pois, indicam-se, como matéria próxima do voto de obediência, os preceitos estritos que o superior intima a seus súbditos em virtude do seu poder de dominação ou de jurisdição (Vermeersch. n° 296).

Por conseguinte todo preceito formal dado ao religioso pelo superior legítimo, em virtude desse duplo poder, e conforme a regra obriga pelo voto de obediência. Veremos mais tarde as regras práticas comumente aceitas para maior tranquilidade dos súditos.

Dizemos o superior legítimo, e com isso devem-se entender os superiores propriamente ditos, isto é, os que em casa, na Província ou na Ordem não têm superiores acima de si. Conforme parecer geral, o religioso a eles se submete pela promessa e pelo voto de obediência; só eles, pois, ou os que ocupam realmente o seu lugar interinamente, podem apelar para os seus compromissos e obrigá-los a cumpri-los. Não é útil, é mesmo perigoso estender esse poder aos oficiais subalternos. Nada, entretanto, se oporia absolutamente a que o professo se obrigasse à obediência a todos os que participam em medida qualquer do poder de dominação ou de governo; e, como nota Gautrelet, se a promessa de obediência feita pelo religioso se estendesse aos oficiais subalternos, as ordens dadas por estes atingiriam realmente o voto. De resto, esse caso é frequentemente previsto pelas Regras que, para prevenir abusos, tomam cuidados era determinar quais os superiores, que podem dar ordens sobre o voto de obediência, e, por isso, o religioso, fazendo profissão segundo a Regra, só se liga pelo voto em relação aos superiores indicados. Entre os Redentoristas a Regra reconhece esse poder ao Reitor-mor, ao Visitador durante a visita, aos superiores provinciais, aos reitores locais e aos que os substituem em sua ausência (283).

Dissemos também: conforme a Regra, porque em rigor só se pode exigir do religioso o que ele prometeu; ora, ele prometeu a obediência segundo a Regra. Os autores são unânimes em declarar que o superior não pode mandar nada que seja acima ou abaixo da Regra, ou contrário a seu espírito. Nada acima; por isso o superior não pode impor ao súbdito obrigações evidentemente superiores as que ele quis assumir pelo voto de obediência. Nada abaixo: por isso nada de ridículo, de absolutamente inútil ou indiferente. Advir¬ta-se, porém, que certos atos, aparentemente ridículos a princípio, podem ser utilíssimos para exercer a humildade do religioso e fazê-lo progredir na virtude. Nada, enfim, de contrário a Regra: por isso, nada que seja menos perfeito; nada de oposto à Regra e a seu espírito; nada de mau. Mas não esqueçamos que o superior pode ter motivos sérios de dispensar, de passagem, de um ponto da Regra; e então, apesar das aparências de oposição com a Regra, a dispensa será perfeitamente legítima.

Quando as regras ou os mestres da vida espiritual dizem que o bom religioso deve obedecer em tudo que não é evidentemente pecado, isso deve entender-se, segundo Santo Afonso, não da obediência necessária, mas da obediência perfeita.

Quando, pois, o superior, usando o rigor dos seus direitos, dá uma ordem formal e em matéria grave, o súdito que se recusasse a submeter-se cometeria uma dupla falta grave: uma falta contra a Virtude da Obediência, isto é, uma injustiça grave pela violação da promessa rigorosa que fez, e um sacrilégio contra a virtude da religião, pela violação do voto.

Mas se o superior pode agir na plenitude dos seus direitos, pode também moderar-lhe o uso; se podem ligar as consciências dos súditos, é-lhe também permitido deixá-los livres e confiar na iniciativa deles; em vez de mandar, contentar-se-á, às vezes, de guiá-los por avisos, conselhos, exortações; se não pode impor sub gravi uma coisa leve sob todo o ponto de vista, pode ao contrário prescrever sub levi uma coisa em si importante; enfim, em vez de intimar ordens e impor a sua vontade, pode limitar-se a exprimir desejos. Colocando com demasiada facilidade os seus súbditos diante do seu voto de obediência, expô-los-ia a perturbações, angústias de consciência e aumentaria sem razão os perigos de pecar. Recomenda-se instantemente aos superiores usar com discrição o seu poder e dar raramente e em circunstâncias excepcionais esses preceitos formais que prendem gravemente as consciências. As Regras têm cuidado de determinar claramente os superiores que poderão usar esse poder.

Praticamente é princípio comumente aceito que, para impor obrigação grave, o superior deve empregar uma das fórmulas que não permitem dúvida sobre as suas intenções: Em virtude da santa obediência, ou: Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo… ou: Sob obediência formal… ou: Sob pena de excomunhão, etc. Note-se, porém, que não tem por fim comprometer o o voto nem indicar que o superior manda então em virtude de um duplo poder. O superior só usa um poder: o de dominação; mas, como foi dito acima, se usar dele, o súbdito tem a dupla obrigação de a ele se submeter: obrigação de justiça, que resulta da sua pro¬messa ao superior, e obrigação de religião, que resulta do voto.

Por essas fórmulas o superior indica que entende obrigar quanto pode e quanto à matéria o comporta isto é, sub gravi. Se, para exprimir ordens reais, o superior se contenta em dizer: mando, ordeno, proíbo, ele entende obrigar sub levi, seja qual for a gravidade da matéria; e então há pecado venial contra a virtude e o voto, contra a justiça e a religião.

Quantas vezes ele exprimirá apenas um desejo ou um conselho, ou, se manifesta a sua vontade, fá-lo à maneira do legislador que dá uma lei penal e mandará só sob pena de castigo, sem intenção de ligar as consciências (Aertnys).

Notemos, enfim, que a execução material da ordem do superior basta para satisfazer a obediência necessária, isto é, para não pecar contra o voto, nem contra a virtude da obediência. É claro que a ordem dada deve ser executada integralmente. O súdito deve fazer o que lhe foi mandado, da maneira querida, e no tempo querido, se o mandamento formal é não só sobre a substância do ato, mas também sobre a maneira e o tempo. E nesse sentido a pontualidade ou a exatidão, de que se falará mais tarde, pertence à obediência perfeita, mas também à obediência necessária. O superior exige, não que se proceda com tal ou tal intenção, ou em tal ou tal disposição, mas que se cumpram as suas ordens.

Aliás, o compromisso do religioso, prometendo obediência, foi executar as ordens do superior. É princípio aceito universalmente. Os preceitos, diz Marc, não obrigam à obediência formal, mas só à obediência material. Executada a ordem do superior, está satisfeita a justiça e também a religião, estão salvos o voto e a virtude. Já que a obrigação de religião não tem outro fim que proteger a obrigação de justiça, segundo a palavra de Santo Tomás, serão simultaneamente violadas ou cumpridas.

Pode, todavia, dar-se o caso de se pecar contra a virtude da obediência sem se pecar contra o voto: é o caso do noviço que desobedece à ordem formal do superior. Sê-lo-á também do religioso que desobedece a um oficial subalterno, para com o qual não se ligou pelo voto, mas que participa do poder dominativo. Entre os Redentoristas a Regra nega formalmente aos oficiais subalternos, e mesmo ao ministro como ministro, o direito de impor uma obrigação grave e mesmo, ao que nos parece, todo direito de obrigar pelo voto mesmo sub levi. Ela mesma diz que em geral os superiores não mandam sob pecado, nem mesmo sub levi; e embora não mande que dele se abstenham, mostra o seu desejo que assim se proceda habitualmente.

Quando, entretanto, declara que se não pode desobedecer aos superiores sem cometer qualquer falta, quer simplesmente dizer que, se nessas faltas de submissão não há rigorosamente pecado de desobediência, haverá nelas sempre qualquer pecado de preguiça, orgulho, etc., como ela diz das próprias regras que não obrigam sob pecado. Esse é sem dúvida o sentido dessa declaração. Não tendo os superiores a intenção de mandar sob pecado ou de ligar a consciência — é o caso suposto — não pode haver aí pecado de desobediência, mas qualquer outra falta por causa do motivo mau que faz desobedecer. Como já notamos, todavia, mostrando o desejo que os superiores não mandem sob pecado, a Regra não lhes restringe a autoridade nem os poderes. Ora, dirá alguém, por exemplo, que um irmão pode, sem pecar absolutamente contra a obediência, desobedecer a uma ordem positiva do ministro que, segundo a Regra, goza de verdadeira autoridade sobre os irmãos? Pensamos que não. Que não haja pecado nem venial contra o voto, passe; já indicamos o motivo: não é ao ministro nem aos oficiais subalternos que se refere à promessa de obediência confirmada pelo voto; mas parece-nos bem difícil admitir-se que não haja uma falta real s contra a virtude da obediência. É assim que, sem haver nem voto nem promessa formal de obediência, o noviço peca, desobedecendo aos que têm sobre ele poder de dominação. Argumentaríamos da mesma forma a respeito do superior de missão quantos aos missionários que trabalham sob as suas ordens.

Quanto ao religioso, que executa com resistências interiores a ordem recebida, é necessário ainda distinguir. Ele pode experimentar fortes, repugnâncias, achar seu superior imprudente, etc., mas, enfim, há quer revoltar-se: submete-se de má vontade, mas submete-se; rigorosamente falando, não peca, contra a obediência, bem que a sua obediência seja muito imperfeita, como veremos mais abaixo. Ou então sente verdadeira revolta em seu coração; não cede, por as¬sim dizer, senão à força ou à necessidade, protestando interiormente não querer obedecer e prometendo até resistir se o pudesse, sem: inconveniente. Mesmo então satisfaz ao preceito recebido, pois que o executa; e nesse caso não peca. Mas, se em seu coração se revolta realmente contra o seu superior e despreza a sua autoridade, não vemos como ele possa ser escusado de pecado. Parece-nos que se pode pecar interiormente tanto contra a obediência como contra as outras virtudes.

Comprazer-se no pensamento dum ato mau que se co¬meteu, ou ater-se voluntariamente ao desejo e à resolução de cometê-lo é sempre ser réu.

Para terminarmos as reflexões sobre a obediência necessária, resta-nos falar da obrigação de observar as regras.

A Regra é uma obrigação real para o religioso, ou, se o quiserem, deve ser considerada como a manifestação constante da vontade dos superiores. As prescrições da Regra obrigam, pois, como prescrições dos superiores. Assim como os superiores podem ligar os súditos por preceitos mais ou menos rigorosos, e obriga- lós seja sob pena de pecado grave ou venial, seja somente sob pena de castigo a incorrer, o mesmo se dá com a Regra. Há regras que declaram obrigar sub gravi ou sub levi: violar as suas prescrições é tomar- se réu de pecado mortal ou de pecado venial contra a virtude e contra o voto de obediência, tanto quanto se infringem as prescrições dos superiores que mandam sub gravi ou sub levi. Há regras, ao contrário, que declaram não obrigar sob pecado; nesse caso, a violação dessas regras não constitui per se um pecado nem contra o voto nem contra a virtude da obediência. Falta, então, o preceito, e onde não há preceito não existe obrigação de obedecer.

Mesmo, todavia, para as regras desse gênero, todos admitem, e é, aliás, evidente, que os pontos que deter¬minam a matéria ou a extensão dos votos obrigam como os próprios votos, por ser a substância dos votos.

Quanto às outras prescrições que não obrigam sob pecado, e cuja violação não constitui rigorosamente uma desobediência, como temos dito, seria erro acreditar que alguém se possa eximir delas sempre impunemente e sem cometer falta alguma. Ao contrário, essas infidelidades à Regra são sempre pecaminosas por causa do motivo mau que as inspira; constituem frequentemente pecado de preguiça, orgulho, cólera, etc. Santo Tomás ensina isso formalmente quanto à Regra dos Dominicanos, que não obriga sob pecado. Ainda mais o afirma Suárez, dizendo que a transgressão da Regra dificilmente pode ser isenta de pecado venial, e dá a razão disso: Quando o religioso falta à sua Regra, fá-lo raramente por um motivo plausível, isso se dá antes por preguiça ou por qualquer satisfação natural, e essas transgressões são muitas vezes venialmente culpáveis.

É justamente isso que nos diz Santo Afonso com mais precisão ainda, afirmando diretamente que a violação da Regra não justificada por um motivo razoável não pode ser escusada de pecado venial. Eis as suas palavras:

“Dir-me-ão sem dúvida: A nossa Regra não obriga sob pecado. Respondo: os doutores ensinam comumente que, mesmo nas ordens em que a Regra não obriga sob pecado, dificilmente escaparia ao pecado, ao menos venial, quem a transgredisse sem causa suficiente, e isso pela razão de que quem transgride uma regra de propósito deliberada e sem motivo, não obedece senão à paixão, à preguiça: impossível, pois, não haver um pecado, ao menos venial”

Mais adiante o santo doutor se repete:

“Como já o notamos no capítulo IV, os doutores dizem comumente que transgredir sem causa legítima uma regra, embora pequena, é ao menos um pecado venial…”

E prova a sua afirmação: Não há dúvida de que há pelo menos pecado venial. Com efeito:

1.º A religiosa que transgride a Regra negligência os meios de atingir a perfeição a que o seu estado obriga a tender;

2.º Viola a promessa que fez a Deus no dia de sua profissão, precisamente de observar a Regra;

3.º Por seu mau exemplo prejudica a boa ordem da comunidade;

4.º Enfim, é essa a razão mais forte, transgredindo um ponto da Regra, age segundo o seu amor próprio, e se coloca fora da vontade de Deus.

Ora, ninguém dirá que ela põe assim um ato virtuoso; tampouco se poderá pretender que esse ato seja indiferente, pois como se poderá olhar como coisa indiferente o que se faz por amor próprio, escandaliza a comunidade e perturba a disciplina regular?

“A transgressão duma regra, pois, não é boa nem indiferente, e, por conseguinte, culpada”

Quando pois, será isenta de pecado uma transgressão da Regra? Cremos poder responder com Vermeersch: Quando o religioso age contra a Regra, usando lealmente a epikeia.

Ainda mais, essas transgressões da Regra, mesmo em matéria leve, podem tomar-se gravemente culpadas; primeiro se dão à comunidade escândalo grave ou se lhe causam dano considerável. Tal seria por exemplo, a responsabilidade dum religioso que por suas faltas de silêncio levasse nesse particular ao convento o relaxamento.

Essas transgressões seriam graves, sobretudo — como as resistências ao superior em matéria leve — se o religioso delinquente agisse assim por desprezo formal da Regra ou do superior. Mas para isso é preciso que haja desprezo formal da autoridade, isto é, do superior como superior e não como pessoa privada, da Regra como Regra, e não de tal minúcia da Regra que se considerasse como coisa de pouca importância. Por esse desprezo formal do superior ou da Regra, o religioso infiel comete uma falta grave contra o voto de obediência; como diz Santo Tomás, ele vai, com efeito, diretamente contra os compromissos da sua profissão, pela qual prometeu solenemente submissão ao superior segundo a Regra.

É preciso acrescentar ainda que a frequência das faltas contra a Regra não supõe nem prova sempre o desprezo formal da autoridade; ela pode vir de qualquer paixão, da leviandade, etc. A violação frequente das Regras mostra sem dúvida que se tem delas pouca estima; mas, enfim, essa falta de estima mais ou menos consciente não é ainda o desprezo formal da autoridade. Mas, diz o santo doutor, o hábito de violar a Regra predispõe e leva a alma a esse desprezo gravemente culpado.
Terminemos aqui essas reflexões sobre a obediência necessária; não é isso que reclamam os bons religiosos para a sua vida prática. Diz Santo Afonso:

“Os religiosos fervorosos absolutamente não se perguntam se as regras obrigam ou não sob pecado; sabem que as regras vêm de Deus e que Deus se compraz em ver-nos observá-las; isso basta para observá-las todas generosamente”

Vejamos, pois, agora o que exige a perfeição da obediência. Dissemos: A obediência é uma virtude que inclina a alma a cumprir as ordens da autoridade legítima, precisamente porque emanam da autoridade legítima, à qual é devida a submissão.

Essa virtude deriva do modo geral da justiça, que manda dar a cada o que lhe é devido.

E para precisar ainda mais, a obediência às ordens divinas emana da virtude da religião, que encerra o conjunto dos nossos deveres para com Deus; a obediência aos superiores pertence à observância que presta aos superiores o respeito, as homenagens, a submissão e todas as atenções devidas à sua posição e autoridade.

Para obedecer, o verdadeiro religioso não examina se o superior é mais ou menos inteligente, ou mais ou menos hábil; basta-lhe saber que é a autoridade legítima que fala. Não distingue tampouco entre superior maior e superior subalterno; todos os que são munidos de qualquer parcela de autoridade legítima recebem dele submissão perfeita. Não executa esta ou aquela ordem por achá-la razoável ou agradável, mas unicamente porque é a vontade do superior, ao qual é sempre bom obedecer: é a simplicidade na obediência. Obedecer porque a ordem recebida sorri ou parece sábia é obedecer não à autoridade, mas ao próprio juízo; não é a virtude da obediência, mas a vontade própria e naturalismo. São Gregório diz que a obediência é tanto mais meritória e digna de louvor, quanto mais desprendida da vontade própria e do gosto pessoal. Por isso, a obediência é ordinariamente mais perfeita nas coisas penosas; ao menos é menos sujeita à caução do que a obediência nas coisas agradáveis, embora também nesse último caso a obediência possa guardar todo o seu fervor e mérito.

Para ser verdadeiramente obediente, o religioso deverá achar perfeito tudo o que foi mandado? Não, isso não é sempre possível. Aquele a quem o superior mandou plantar couve de cabeça para baixo, não estava obrigado a pensar que aquele era o melhor meio de fazê-la medrar.

Mas o religioso verdadeiramente obediente abstém-se de julgar a ordem que recebe. É sem dúvida necessário evitar a obediência indiscreta, que consiste em obedecer em coisas más: o superior não tem direito de mandá-las. O religioso fervoroso, antes de obedecer, deve verificar que lhe não mandam nada que ofendesse a Deus. É o que escreve são Bernardo a um religioso que obedecera a ordens que não devia executar:

“Se se deve obedecer dessa forma, disse ele, de que valem as palavras de são Paulo: examinai tudo; abraçai o que for bom? (1 Ts 5, 20). Seria preciso riscar do Evangelho a palavra de Nosso Senhor: ‘Sede prudentes como a serpente’, se bastasse o que segue: sede simples como as pombas. Não quero dizer que os inferiores devem examinar as ordens de seus superiores quando nelas não há aparência de pecado; nem digo que é preciso ter prudência para discernir se as ordens não são contrárias à lei divina, e a liberdade para desprezá-las francamente se o são”

O padre Saint-Jure acrescenta que o inferior deve ter a prudência da serpente para fazer esse discernimento e a simplicidade da pomba para obedecer simplesmente, se não houver perigo. Tendo o bom religioso verificado que não há perigo de ofender a Deus, não examine outra coisa; não indague se a ordem dada é sábia ou hábil; e se pensamentos contrários assaltarem o seu espírito, não os tome em consideração; renuncie a seu juízo próprio e diga: pouco importa o que me mandam para mim é bom e vantajoso obedecer e é justo que o faça: eis a verdadeira submissão do juízo próprio, eis a obediência cega.

É verdade que o superior se pode enganar, pode abusar da sua autoridade, ceder à fraqueza ou à cólera, à simpatia natural ou à antipatia; numa palavra, pode até pecar dando uma ordem. Mas o súbdito, obedecendo, tem a certeza de cumprir um ato de virtude. Com outras palavras, diríamos com prazer que a palavra de nosso Senhor Jesus Cristo: Quem vos ouve, a mim ouve, é bem mais consoladora para os súbditos do que para os superiores, Jesus honra, sem dúvida, os superiores, fazendo deles os seus representantes: são por isso mais obrigado a viver intimamente unidos a Jesus e a honrar por sua vez o divino Mestre por uma conduta digna dele. Jesus Cristo esforça-se por lhes conciliar o respeito, a submissão, o amor dos seus súbditos; protege-os e constitui-se o vingador das resistências, dos desprezos ou dos ultrajes de que pudessem ser alvo da parte dos súbditos ingratos e rebeldes. Mas, confiando-lhes a sua autoridade, não lhes garante que dela farão sempre uso santo e legítimo. E se lhes promete socorros particulares ou graças de estado, é preciso que eles lhes não ponham obstáculos e que lhes sejam fiéis. A não ser que o religioso receba ordem que seja pecado evidente, ele, obedecendo, tem a certeza de cumprir a vontade de Deus; porque Deus dele não exige que faça isto ou aquilo, mas só que obedeça. O superior não tem sempre certeza de contentar a Deus nas ordens que dá. O superior deverá, enfim prestar ao Soberano Juiz rigorosas contas do uso que tiver feito do seu poder, enquanto que o súdito fiel só responderá pelo que houver feito por obediência. Grande é, pois, a sabedoria do religioso que obedece em tudo. Mas não menor a loucura do religioso submisso que, por sua desobediência, se prepara um juízo severo que poderia evitar e em que deverá prestar contas das suas rebeliões e das penas injustas que terá feito sofrer a superiores que com amor procuraram levá-lo ao caminho do céu.

Simples em suas intenções e em sua submissão, o verdadeiro religioso está pronto a por mãos à obra para executar o que os superiores mandam: a hesitação e as delongas tem qualquer coisa de resistência e denotam uma alma imperfeitamente submissa, ou ao menos pouco generosa em sua obediência. Ele não espera as ordens de seu superior, procura adivinhá-las e de própria iniciativa antecipa os seus desejos.

Mas, dirá alguém, objeto próprio da obediência é o preceito; se faltar o preceito, a obediência não tem matéria a exercer e não poderia entrar em causa. É preciso aqui distinguir entre a obediência necessária que se impõe sob o pecado, e a obediência livre, à qual o súbdito se poderia subtrair sem pecado; esta, supondo maior boa vontade da sua parte, é mais perfeita e meritória. O mandamento expresso pelo superior é, sem dúvida, o único objeto da obediência necessária: enquanto o superior não tiver manifestado e imposto formalmente a sua vontade, o súbdito não está obrigado a submeter-se sob a pena de pecado.

Mas a obediência é a virtude que inclina a alma a cumprir os preceitos ou as ordens do superior; ora, diz Santo Tomás, a vontade do superior, quando conhecida do súbdito, equivale em certo sentido para ele a um preceito tácito; e a virtude de obediência será mais fervorosa, mais perfeita e por isso mais meritória, se, sem esperar as ordens formais do superior, se inclinar com prontidão ante as suas vontades e procurar prevenir os seus desejos (2º 2º q, 104).

Esses atos do religioso que cumpre com presteza todas as vontades e até os desejos do superior, como superior, procedem da virtude de obediência e têm realmente o seu mérito. O religioso que se submete em tudo ao superior, sem mesmo haver recebido ordem formal, tem certamente mais mérito do que aquele a quem o superior deu ordem formal e que lhe satisfaz rigorosamente pela execução material, mas murmurando em seu coração e sentindo ter que obedecer.

Não é necessário que se seja mandado sob a obediência formal, para se ter o mérito da virtude e do voto da obediência, pois que esse mérito depende antes de tudo da perfeição das disposições de quem obedece. Feliz do religioso a quem o superior não precisa dar ordens, mas a quem basta exprimir um desejo!

O religioso pode, todavia, sem faltar a essa qualidade de obediência perfeita, manifestar a seu superior tal obstáculo que, por ele ignorado, se oporia à execução das suas ordens; contanto que o religioso esteja disposto a obedecer logo se o superior, depois de avisado, mantiver as disposições que tomou. Agir assim é por ato, não de insubmissão, mas de prudência, porque, como diz a Regra, os superiores não são anjos, mas homens.

A obediência perfeita, enfim, quanto mais pronta for a pôr-se ao trabalho, tanto mais exata e pronta será e tanto mais atenta em executar, mesmo nos mais humildes pormenores, as prescrições dos superiores e os menores pontos da Regra. Ela é santamente minuciosa, ou antes, não há para ela minucias, tudo é grande na vontade de Deus; não sossega enquanto não puder dizer com o divino Mestre: “cumpri do melhor modo possível e até no menor jeito o que a obediência exigiu de mim”.

Encarando, sobretudo a ordem da execução, Santo Afonso indica-nos os graus de obediência do modo seguinte:

“Para que um religioso seja perfeitamente obediente, é preciso que obedeça com prontidão, com exatidão, com alegria e com simplicidade; são esses os degraus pelos quais se chega à obediência perfeita”

Teremos ocasião de falar mais pormenorizadamente dos caracteres da verdadeira obediência, que já foram, aliás, tocados mais acima.

De seu lado, Santo Inácio, considerando, sobretudo a submissão mais ou menos completa da alma à autoridade, formula de outro modo os degraus da obediência perfeita. Em sua carta sobre a obediência distingue três graus dessa virtude, a saber: o primeiro, obedecer exteriormente à coisa mandada; o segundo conformar-se à vontade do superior; o terceiro, sacrificar o seu juízo ao do superior quanto à coisa mandada e quanto ao modo de fazê-la. Mas observa logo que o primeiro grau nada é se logo não for seguido do segundo. De fato, a obediência consiste antes de tudo na aquiescência interior da alma, pela qual o religioso submete a sua vontade à do superior. Sem a submissão da vontade, a obediência puramente exterior, ou a execução material da ordem recebida, é um corpo sem alma, não é a virtude da obediência.

“Desejo, escreve esse grande santo, que estejais bem persuadidos dessa verdade, e que ela esteja profundamente gravada em vossos espíritos: que a obediência cujo grau leva só à execução exterior da coisa mandada é muito imperfeita e não merece o nome de virtude, se se não chegar ao segundo grau que une a vontade do inferior à do superior, e que faz que não só se obedeça, mas que se obedeça de coração e de fato, de modo que a vontade do superior e do inferior seja uma só”

É evidente que a obediência é só perfeita no terceiro grau e na submissão do juízo próprio, porque então é a alma toda que se submete à autoridade. Aliás, é bem difícil haver, sem a submissão do juízo, a submissão da vontade, e até a execução exata e pontual que a verdadeira obediência exige. Se bem que a obediência nasça primeira do espírito de justiça, ela não tem, enfim como toda virtude cristã, a sua perfeição suprema senão enquanto formada pela caridade.

O fim da vida religiosa é, de resto, a união dá alma com Deus pela caridade; a caridade, pois, deve ser a alma da obediência, que é o fundo da vida religiosa. Mas se a obediência não pode ser perfeita sem a caridade, de outro lado, como ensina Santo Tomás, a caridade é impossível sem a obediência. Próprio da amizade, com efeito, acrescenta o santo doutor, é fazer os amigos participar dos mesmos gostos e das mesmas repugnâncias. Quanto mais uma alma renuncia à vontade própria para se dar à obediência, tanto mais intimamente se une a Deus; e quanto mais ama a Deus, tanto mais procura provar-lhe o seu amor pela obediência, isto é, pelo cumprimento perfeito da vontade divina.

E para nos conduzir a essa obediência animada pela caridade é que Santo Afonso, Santo Inácio e todos os mestres da vida espiritual nos recomendam com tanta insistência que nos habituemos a ver nos superiores a pessoa de Jesus Cristo. É esse certamente o meio de excitarmos a nossa fé e o nosso amor. Não será, todavia, menos eficaz contemplar muitas vezes o Salvador que nos dá, em toda a sua vida, o exemplo da mais amante e generosa obediência.

II. Do Mérito da Obediência

Os escritos seguintes são de Santo Afonso Maria de Ligório.

Toda a perfeição consiste na conformidade de nossa vontade com a vontade de Deus. Qual é, porém, o meio mais seguro para se conhecer a vontade de Deus e conformar a nossa vontade com ela? Esse meio é a obediência a nossos superiores e diretor espiritual.

“Em caso algum se executa mais perfeitamente a vontade de Deus, diz São Vicente de Paulo, que quando se obedece a seus superiores”

O maior sacrifício que uma alma pode fazer a Deus consiste na obediência a Seus legítimos superiores, porque, segundo Santo Tomás, nada nos é mais caro que a liberdade da própria vontade (De perf. vit spir., c. 10) e, por isso, não podemos oferecer a Deus um presente mais agradável que nossa liberdade. Isso nos ensina o Espirito Santo nestes termos: “Obediência é melhor que sacrifício” (1 Rs 15, 22), isto é, Deus prefere a obediência a todos os sacrifícios. Quem consagra a Deus seus haveres, distribuindo-os aos pobres; sua honra, suportando com paciência os desprezos; seu corpo, mortificando-o com jejuns e penitências, dá a Deus uma parte de si mesmo. Quem, ao contrário, lhe sacrifica a sua vontade, sujeitando- se à obediência, entrega-Lhe tudo o que tem e pode dizer:

Senhor, depois de vos haver entregado minha vontade, nada mais possuo para Vos dar

São Gregório diz que praticando as outras virtudes damos a Deus o que é nosso, mas, pela obediência, fazemos-Lhe o sacrifício de nós mesmos (1 Rs, 15). O mesmo Santo ensina que a obediência é acompanhada de todas as outras virtudes e as conserva na alma (Mor., 1. .15, c. 12).

Segundo o venerável Pe. Serlório Cupulo, semelhante ao martírio é o merecimento devido à obediência, porque, como se sacrifica a Deus, pelo martírio, a cabeça do corpo, se sacrifica, pela obediência, a sua própria vontade, que é a cabeça da alma. Pelo que, nos assegura o Sábio (Pr 21, 28) que um homem obediente vencerá todos os ataques de seus inimigos.

“É justo que os obedientes superem todos os ataques do inferno, porque, sujeitando sua vontade aos homens pela obediência, vencerão ao demônio, que caiu por causa de sua desobediência” (1 Rs, 1. 4, c. 12)

Cassiano ajunta (De coenob. inst., 1. 4, c. 13) que, pela mortificação da própria vontade, se poderão facilmente extirpar todos os vícios, porque eles nascem da vontade própria. Promete Deus elevar da terra e assimilar aos espíritos celestes aqueles que renunciam à sua própria vontade (Is 58,13). Segundo São Lourenço Justiniano, torna-se tão cara a Deus uma alma que Lhe sacrifica sua vontade própria, que ela alcança dEle tudo o que pede (Sign. vit. Obed., c. 3).

Santo Agostinho diz que, tendo Adão, pela desobediência, causado sua própria ruína e a de todo o gênero humano, o Filho de Deus fez-Se homem principalmente para nos ensinar a obediência, por Sua obediência. Por essa razão Jesus Cristo, já desde criança, começou a exercer a obediência, sujeitando-Se a Maria e a José. Essa obediência exerceu sem interrupção durante Sua vida inteira e foi “obediente até à morte, e mesmo até à morte na cruz” (Fl 2, 8). Muitos procuram subtrair-se à obediência, diz São Bernardo (De mor. episc., c. 19), mas o Salvador procedeu mui diversamente: Ele sacrificou Sua vida para não faltar à obediência. A Santíssima Virgem revelou igualmente a uma de suas servas que Jesus Cristo sofreu a morte com um amor especial pelas almas obedientes.

Para um acréscimo de nossos merecimentos quer o Senhor que nos deixemos ferir pela fé. Por isso, em vez de pessoalmente falar conosco, nos revelou Sua vontade por meio de nossos superiores. Quando, Jesus Cristo apareceu a São Paulo, no caminho de Damasco, poderia comunicar-lhe pessoalmente o que desejava dele; mas, não, Ele só lhe diz:

“Entra na cidade e aí te será dito o que deverás fazer” (At 9, 7)

Em vista disso, afirma o Venerável Egídio que se adquirem mais merecimentos obedecendo aos homens, por amor de Deus, que obedecendo diretamente a Nosso Senhor. A isso se deve ajuntar que temos maior certeza de cumprir com a vontade de Deus obedecendo a nossos superiores, do que se Jesus Cristo mesmo nos aparecesse e falasse conosco, porque uma tal aparição não nos daria certeza de que Jesus Cristo era realmente quem nos dirigia a palavra e poderíamos ser vítimas de uma ilusão do demônio sob a aparência do Salvador. Se, porém, nossos superiores nos mandam alguma coisa, estamos certos que, na sua pessoa, obedecemos ao próprio Jesus Cristo, que disse:

“Quem vos ouve, a mim me ouve” (Lc 10, 16)

Por isso é uma ilusão quando se pensa que se pode fazer alguma coisa melhor do que aquilo que é imposto pela obediência.

“Deixar as obrigações de estado para se unir a Deus pela meditação ou leitura espiritual é, segundo São Francisco de Sales (Esp. S. Franc. 18, 19), abandonar a Deus para se unir a si mesmo e a seu amor-próprio”

Santa Teresa acrescenta que quem pratica uma boa obra, mas que é contra a obediência, certamente age por instigação do demônio, e não por inspiração de Deus, como ele, talvez, pense; as inspirações de Deus, diz a Santa, concordam sempre com a obediência.

“De uma alma resolvida a servir a Deus, se exprime a Santa em outro lugar (Fund. c. 5), Ele exige uma só coisa, a saber, que ela obedeça”

Rodríguez diz: O que se faz por obediência vale mais que qualquer outra obra. É mais meritório levantar do chão, por obediência, uma palha do que fazer, por própria vontade, uma longa meditação ou se disciplinar até ao sangue. Por esse motivo Santa Maria Madalena de Pazzi antepunha à oração qualquer outro exercício prescrito pela obediência.

“Fazendo o que me manda a obediência, dizia ela, estou certa de cumprir a vontade de Deus, o que não se dá com as outras obras” (Cepar., c. 5).

Todos os mestres da vida espiritual concordam em afirmar que é melhor deixar, por obediência, um ato de piedade que praticá-lo contra a obediência. A Santíssima Virgem revelou a Santa Brígida (Revel., 1. 4, c. 6) que quem, por obediência, deixa de fazer uma mortificação, alcança um mérito duplo: o da mortificação, que queria fazer, e o da obediência, pela qual deixou de praticá-la.

Em vista disso Santa Teresa podia afirmar com toda a razão que a obediência é o caminho mais curto para a perfeição. Por isso, alma cristã, se desejas andar com segurança, deixa-te guiar em todas as tuas ações pela obediência. Os negociantes, para não perderem suas mercadorias, asseguram-nas; do mesmo modo deves procurar a garantia da obediência para a segurança de tua salvação eterna.

Mas só quando a obediência é sobrenatural é que ela tem esse grande valor. Portanto, para obedeceres com mérito à Igreja, a teus pais, a teu confessor, em uma palavra a teus superiores espirituais e corporais, deves te convencer que, obedecendo-lhes, obedecerás a Deus mesmo e, desprezando seus preceitos, desprezas a teu divino Mestre mesmo, que disse aos superiores:

“Quem vos ouve, a mim ouve, quem vos despreza, a mim despreza” (Lc 10, 16)

Assim escreveu São Paulo aos efésios:

“Obedecei a vossos senhores… não os servindo à vista como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, que fazem de coração a vontade de Deus” (Ef 6, 6)

Se, pois, teus pais, teu confessor ou outros superiores te mandam fazer alguma coisa, então deves executá-la não para agradar aos homens, mas principalmente a Deus, cuja vontade te é revelada por teus superiores. É certo que então estás mais seguro de cumprir a vontade de Deus do que se viesse, um anjo do céu para ta anunciar. O que levou São Paulo, a escrever aos gaiatas, que “ainda que um anjo do céu lhes pregasse coisa diversa da que lhes ensinara, não deveriam lhe dar crédito” (Gl 1, 18).

São Bernardo diz que Deus quer, por assim dizer, equiparar a Si os superiores, para nosso proveito e nossa segurança e que Ele considera o respeito ou o desprezo que se lhe vota, como coisa própria.

Por isso, alma cristã, deves ter sempre diante dos olhos essa importante verdade: que obedeces ao próprio Deus quando prestas obediência a teus superiores. Se Jesus Cristo viesse pessoalmente te encarregar de algum trabalho, talvez te escusarias ou te oporias às suas ordens? Hesitarias um só momento em executá-las?

“Quer seja Deus mesmo que te dê um preceito, continua São Bernardo (Scal. parad., gr. 4), quer o faça por intermédio de um homem que ocupe seu lugar, deves sempre obedecer com a mesma pontualidade”

III. Da Obediência dos Filhos a seus Pais

Deve-se obedecer aos pais em tudo que é justo. “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor”, diz São Paulo (Ef 6, 1). Os filhos, pois, são obrigados a obedecer aos pais cm tudo que diz respeito ao bem da família e, principalmente, no que se refere aos bons costumes.

Não temas, alma cristã, de te entregar a um trabalho que te expõe ao perigo de muitas distrações e aí perder o recolhimento de espírito, se o fazes por obediência a teus pais; Deus te dará então, em um quarto de hora de oração mental, mais graças do que alcançarias em dez dias de recolhimento. Procura então, durante o teu trabalho, empregar na oração todo o tempo que te resta, ainda que sejam só alguns instantes. Não deves dizer que teu trabalho não te deixa nenhum tempo para a oração; os que tem zelo pelo trabalho e que amam a oração mental, encontram tempo para um como para o outro.

Contudo, devemos notar bem a última palavra do texto que citamos acima. Ela diz que se deve obedecer nas coisas que são agradáveis a Deus e não naquelas que O desagradam. Por exemplo, se uma mãe mandasse que seu filho roubasse ou ferisse alguém, estaria ele obrigado a obedecer? De forma alguma; pecaria até se o fizesse. Do mesmo modo, segundo Santo Tomás, não se está obrigado a obedecer aos pais se se trata da escolha do estado. Quanto ao casamento, afirma o Pe. Pinamonti, com Sánchez, Konink e outros, que os filhos estão obrigados a aconselhar-se com seus pais, porque eles, nisso, têm mais experiência e porque, em tais circunstâncias, principalmente um pai cuida em cumprir seus deveres de pai. Quanto à vocação à vida religiosa, diz o Pe. Pinamonti, com não menos razão, o filho não tem a menor obrigação de pedir conselhos a seus pais, porque nisso não têm eles a menor experiência e, regularmente; o interesse próprio os transforma em inimigos. O mesmo afirma Santo Tomás, que diz, a respeito da vocação, que nossos amigos segundo a carne muitas vezes se opõem a nosso adiantamento espiritual. De fato, muitos pais preferem que seus filhos se percam com eles, a permitir-lhes que se salvem longe deles. Isto é, segundo São Bernardo, uma crueldade da parte dos pais para com seus filhos.

IV. Da Obediência dos Criados a seus Amos

Antes de tudo deveis saber que vosso estado é um estado de humildade, e que vos santificareis principalmente pela prática da humildade. Por isso, submetei-vos a todos, em especial a vossos superiores, falai com eles com toda a humildade e prestai-lhes todos os serviços que estão em vosso poder. Se eles vos disserem uma palavra áspera, deveis ter a paciência bastante para suportá-la em silêncio e não deveis tratá-los como se fossem vossos iguais. É próprio de vosso estado o servir; por isso, deveis fazer isso de boa vontade e com humildade, já que servir com soberba não é servir.

Se vosso estado é vil aos olhos dos homens, não o é aos olhos da fé. Isso já se deduz do Filho de Deus, o Soberano Senhor de todas as coisas, Se ter aniquilado e tomado a forma de escravo, fazendo-Se semelhante aos homens e sendo reconhecido na condição como homem (Fl 2, 17). “Ele lhes era submisso” (Lc 2, 52), e durante Sua vida inteira obedeceu a uma humilde virgem e a um pobre artífice. Fez-se servo de todos e declarou até que não veio para ser servido, mas para servir (Mt 20, 28). E, no fim de Sua vida, não Se contentou em aparecer como servo, submetendo-Se aos outros, mas Ele quis, como diz São Bernardo (Sermo de pap.), passar por um servo mau e ser tratado como tal: com isso queria pagar a dívida que contraímos, tornando-nos, pelo pecado, escravos do inferno.

Sede cuidadosos em executar o que vos foi mandado, sem contradição e tardança. Não olheis se vossos companheiros trabalham ou se recreiam: cuidai só de vós mesmos, quanto mais trabalhais, tanto mais ganhais de Deus se o fizerdes com a intenção de agradar-Lhe. Praticando assim, ajuntareis mais merecimentos que aqueles que ouvem muitas missas e leem muitos livros espirituais, porque, dessa forma, cumprireis perfeitamente, em todos os vossos trabalhos, com a vontade de Deus, no que consiste toda a nossa santidade.

Não preciso notar, servo cristão, que não deves obedecer quando teus superiores te mandam uma coisa proibida por Deus. Quando o tirano Antíoco queria obrigar o velho Eleazar a infringir a lei, que proibia aos judeus o uso da carne de porco, seus amigos rogavam-lhe, apiedados de sua idade de noventa anos, que comesse só aparentemente, para se livrar da morte. O santo velho, porém, deu-lhes a sábia resposta:

“Não convém à minha idade dissimular e, assim, induzir os moços a pensar que o nonagenário Eleazar passou para o paganismo” (2 Mac 6, 24)

Aceita também com humildade as repreensões e deixa a teus superiores toda a liberdade de te avisarem de tuas faltas em qualquer ocasião. Não imites aqueles que se zangam com a menor repreensão, de forma que o superior só com muita cautela é que deverá proceder e até esperar meses por um momento favorável para fazer uma advertência necessária, porque, do contrário, ele corre perigo de ver que se lhe nega o respeito devido e se põe toda a casa em revolução.

Durante o trabalho procura ocupar-te com Deus. Faze então muitos atos de amor, muitas devotas jaculatórias, dizendo, por exemplo:

Meu Jesus, misericórdia!

Meu Deus, ajudai-me: dai-me vosso santo amor!

Recita também muitas vezes a Ave-Maria ou outras preces vocais. Busca a Deus e tu O encontrarás. Mas, para isso, deves amar o silêncio: deves falar só quando teu trabalho o requer, e evitai as alterações e as conversas inúteis. Conserva-te sempre, quanto possível, longe daqueles que não cessam de falar, e, em especial, daqueles que murmuram, difamam e têm conversas muito livres.

V. Da Obediência ao Diretor Espiritual

É de grande importância que aqueles que tendem à perfeição tenham um diretor espiritual, que os encaminhe e guie em seus exercícios, tanto internos como externos. É verdade que alguns santos foram dirigidos diretamente por Deus, diz São Gregório, mas tais exemplos devem-se admirar sem querer imitar, ajunta o Santo, para que não se chegue a cair no erro, desprezando-se a direção de uni homem.

A virtude segue o justo meio. Tanto a preguiça, como o zelo indiscreto, é uma falta na vida espiritual, e o diretor espiritual deve combater a primeira e refrear o segundo; para isso é absolutamente necessário um diretor. Se a alma não encontra ninguém, então Deus mesmo toma a sua direção; mas aquele que recusa tomar um ministro de Deus por diretor, quando pode ter um, torna-se réu de temeridade e extravia-se mui facilmente. Poderia Deus dirigir-nos diretamente, mas, para conservar-nos na humildade, Ele quer que nos sujeitemos a Seus ministros e dependamos de sua autoridade.

É para nós um grande benefício nos ter Jesus Cristo deixado diretores espirituais no caminho para o céu, os quais nos preservam de dar passos em falso.

Alguns pensam que a santidade consiste em praticar muitas penitências. Se, porém, alguma pessoa de constituição fraca quisesse fazer penitências que a pusessem em perigo de vida, trabalharia assim para sua santificação? Não, antes pecaria. Outros julgam que a santidade consiste em empregar muito tempo na oração. Mas, se um pai de família negligenciasse a educação de seus filhos e se retirasse a uma solidão, para aí se entregar à oração, cometeria igualmente pecado, pois, ainda que a oração seja boa, um pai de família não deixa de estar obrigado a cuidar de seus filhos, tanto mais que ele pode unir as duas coisas sem viver na solidão. Pensam outros que a santidade consiste na recepção frequente da santa comunhão. Mas, se uma mãe de família quisesse comungar todos os dias, apesar da proibição de seu marido, em vista do dano que com isso sofre o governo da casa, certamente procederia mal essa mulher e teria de dar contas a Deus a esse respeito.

Em que, então, consiste a santidade? Consiste em se cumprir perfeitamente a vontade de Deus. Como, porém, podemos saber o que Deus de nós exige? Agradeçamos, sem interrupção, a Jesus Cristo, que nos deu um meio fácil para isso! Ele declarou que obedecemos a Ele mesmo quando obedecemos a nosso diretor espiritual:

“Quem vos ouve, a mim ouve”

“A alma deve constituir seu juiz o confessor, diz Santa Teresa, e então estar firmemente resolvida a não se inquietar a respeito de seu estado interior, mas a pôr toda a sua confiança nas palavras do Senhor: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16)

Ela acrescenta que esse é o meio mais seguro de cumprir a vontade de Deus. Também confessou a Santa que conseguiu conhecer c amar a Deus justamente pela obediência prestada a seu confessor. São Francisco de Sales se exprime do seguinte modo a respeito da obediência ao diretor espiritual.

“O mais importante de todos os avisos nos dá o piedoso Ávila, quando nos diz: Podes procurar como quiseres, nunca encontrarás tão certamente á vontade de Deus, como no caminho daquela humilde obediência tão recomendada e praticada por todos os santos” (Filot. p. I, c. 4).

Quem age em obediência a seu diretor espiritual, agrada sempre a Deus, quer ele reze, ou se mortifique, ou comungue ou deixe de fazer esses exercícios de piedade. Ele ajunta sempre merecimentos, quer se recreie, ou coma ou beba, junque, obedecendo a seu confessor, se faz sempre a vontade de Deus. Por isso diz a Escritura (Ecl 4, 17) que a obediência é mais agradável a Deus que todos os outros sacrifícios que lhe podemos oferecer, como penitências, esmolas ou semelhantes coisas: “Obedecei a vossos superiores”, diz São Paulo (Hb 13, 17), e não tenhais receio a respeito do que praticais por obediência, porque eles, e não vós, hão de dar contas de vossas ações. Notemos, porém, também o que o Apóstolo acrescenta: “Submetei-vos a eles… para que façam isso com alegria e não gemendo”, isto é, deve-se obedecer sem contradição, sem contristar o confessor e ocasionar-lhe gemidos. Ah! Quanto desgosto não causam aos diretores espirituais os penitentes que não querem obedecer, apresentando certos pretextos ou desculpas e queixas injustas! Obedeçamos com toda a simplicidade a nossos diretores espirituais e não tenhamos temor a respeito daquilo que fazemos por obediência.

São Filipe Néri dizia:

“Os que desejam se adiantar no caminho da perfeição devem se sujeitar a um confessor esclarecido e obedecer-lhe como a Deus mesmo; quem age assim, está seguro de não ter que responder a Deus por sua conduta”

Se Jesus Cristo, pois, no dia do juízo, te pergunta: Por que escolheste esse estado? Por que comungaste tantas vezes? Por que omitiste estas e aquelas penitências? Poderás responder, se praticaste a obediência: Senhor, assim ordenou-me meu confessor. E o divino juiz só poderá aprovar o que fizeste.

Além disso, pela obediência ao diretor espiritual se podem deslindar todas as ilusões do demônio: O demônio, repetidas vezes, procura arrastar-nos, sob a aparência do bem, a grandes perigos ou mover-nos a empresas que parecem ser mui dignas de louvor, mas que nos podem prejudicar grandemente. O demônio, por exemplo, já induziu várias pessoas, que se entregaram à piedade, a praticar penitências rigorosas demais; com isso perderam sua saúde, deram de mão à prática do bem e, pouco a pouco, foram dar na larga estrada dá perdição. O mesmo se dará conosco, se seguirmos o nosso próprio parecer: se nos deixarmos, porém, guiar por nosso diretor espiritual, não temos motivo para temer lais decepções.

Quem não obedece à voz de seu confessor, acha-se em grande perigo de se perder, porque resiste àqueles aos quais Jesus Cristo disse: Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza.

O mesmo disse o Senhor a Samuel, quando ele se queixava de que o povo o desprezava, apesar de Deus mesmo lhe ter confiado a sua direção:

“Eles não renunciaram a ti, mas a mim, para que eu não impere mais sobre eles” (1 Rs 8, 7)

Quem, pois, menospreza o confessor ou nega-se a obedecer-lhe, despreza a Deus mesmo, cujo lugar ele ocupa.

Penitentes há que disputam com seus confessores para atraí-los a seu parecer. São Paulo lhes afirma, no texto acima citado, que isso nenhum proveito lhes traz, pois, se o confessor vê que não se faz o que ele diz, apesar do grande esforço que faz para conduzi-lo pelo caminho reto, se cansará, afinal, de dirigir um tal penitente. Ai do navio cujo piloto abandona o leme! Ai do doente que é abandonado pelo médico! Se o doente não quer obedecer e tomar os remédios prescritos, se quiser comer só o que lhe agrada, que fará o médico? Abandoná-lo-á. Mas como se poderá esperar o restabelecimento de um tal doente? Ai do penitente que quer andar sozinho e dirigir-se a si mesmo! Porque não encontra ninguém que o dirija e lhe mostre o caminho, se precipitará certamente no abismo.

O Espírito Santo (Ecl 9, 20) diz de cada um que vem ao mundo, que deverá transitar no meio de ciladas. Nós, pobres mortais, andamos neste mundo entre mil ciladas. Taís são as tentações do demônio, as ocasiões perigosas, as más companhias e, principalmente, nossas próprias paixões, que tantas vezes nos seduzem! Ah! Quem poderá salvar-se no meio de tantos perigos? O Sábio responde:

“Só será salvo aquele que evitar essas ciladas” (Pr 11, 15)

Mas como evitá-las? Só se entregando à direção de um guia. Se, durante a noite, tivesses de atravessar uma mata, cheia de precipícios, e não tivesses nenhum guia que fosse adiante de ti, com uma luz, e te avisasse dos lugares perigosos, certamente estarias em grande perigo de perder a vida. E nas coisas de tua salvação eterna te deixarás levar por teu próprio parecer? Ouve a advertência de teu divino Mestre: “Atende bem, para que a luz’que tens não seja trevas” (Lc 11, 35) e te conduza ao precipício.

Contudo, a escolha de um diretor espiritual não deve ser feita sem mais nem menos e influenciada pela inclinação natural. Deves escolher aquele que parece o mais apropriado para o bem de tua alma. Não basta que ele seja sábio e experimentado: deve ser também um homem de oração, que trilhe igualmente o cantinho da perfeição. Um barril não pode fornecer outro vinho senão o que ele contém.

“Se os diretores de consciência não são homens de oração, diz Santa Teresa (Vida, c. 13), sua ciência pouco aproveitará”

Se escolheste, finalmente, um bom confessor, então não o deves abandonar levianamente. Se ele é rigoroso em suas repreensões, não tens ainda motivo para abandoná-lo, antes isso deve mover-te a permaneceres sob sua direção. A esse respeito São Luís, rei de França, deu a seu filho, que o devia suceder no trono, o seguinte conselho:

“Confessa-te muitas vezes, e escolhe homens sábios e virtuosos para teus diretores espirituais, que saibam te instruir a respeito do que tens a fazer ou evitar, e deixa a teus confessores toda a liberdade para te repreenderem e admoestarem”

Não há confessor mais incapaz que aquele que pouco repreende e que é muito indulgente com as faltas de seu penitente, visto que, assim, ele o acostuma a fazer pouco caso de suas faltas.

Se, por conseguinte, tens um confessor que te conduz por ásperos caminhos, tratando-te com rigor por causa de tuas faltas voluntárias, deves tê-lo em conta de um ótimo diretor e não o deves abandonar.

Talvez repliques que o teu confessor, a quem seguiste até agora, te dirigiu mal, como outros também to confirmam. Ao que respondo que não podias errar facilmente, se foste obediente. Se isso, porém, se deu, o motivo talvez estará em teres obedecido em algumas coisas e em outras não; pois Deus não está obrigado a conceder sua assistência a uma obediência tão defeituosa. Abandona-te inteiramente à direção de teu confessor, obedece-lhe em tudo, que então certamente o Senhor não permitirá que te enganes. Se teu confessor não possui a ciência necessária. Deus suprirá o que falta, pois é impossível que uma alma que quer santificar-se e que confia em Deus se engane, se ela for fiel em obedecer a seu confessor.

Além disso, deves estar convencido que nenhum confessor pode dirigir-te à santidade se não estiveres resolvido a renunciar à tua própria vontade. Quanto à paz do coração, te exorto mui especialmente que não a esperes obter do confessor, mas só e unicamente de Deus; porque, se depositares toda a tua confiança no confessor. Deus não permitirá a paz que desejas.

A direção, portanto, de teu confessor não te deve servir a conseguires uma paz sensível, mas a te fazer conhecer o que Deus exige de ti. Algumas vezes sentirás angústias quase mortais, se seguires as prescrições do confessor; suas palavras, muitas vezes, te causarão enfado, em vez de te consolar. Apesar disso, deves te resolver a obedecer-lhe, custe o que custar, ainda que tivesses de suar sangue. Grava profundamente em tua memória que a santidade só se adquire entre espinhos e contradições; se, portanto, a procurares entre suavidades, nunca a encontrarás.

VI. A Obediência do Redentor

Por Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

Jesus fez da obediência à lei de toda a Sua vida. Declara-o já em Sua entrada no mundo; é para obedecer que Ele desce ao mundo:

“Eis-me, venho para fazer, meu Deus, a vossa vontade” (Hb 10)

Mais tarde ele dirá ainda:

“O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28)

Ele quer reparar o ultraje feito a Seu Pai pela revolta insensata dos homens; e, para salvar os rebeldes, deve conduzi-los, a Seu exemplo, no caminho da obediência.

A Sua preocupação constante será cumprir o que a Providência de Seu Pai dispôs sobre Ele; os Seus apóstolos o ouvirão repetir muitas vezes:

“É preciso que se cumpram as Escrituras: é preciso que eu faça o que de mim está escrito”

Em nada ouvirá o Seu gosto, mas unicamente os desejos de Seu Pai: Non sicut ego volo, sed sicut tu (Mt 26, 39). O Cristo não procurou o que Lhe podia comprazer, dirá mais tarde São Paulo: Etenim Christus non sibi placuit (Rm 15, 3). Em nada segue o Seu próprio juízo, ou, melhor, não tem outro juízo que o de Seu Pai: Sicut audio, judico (Jo 5, 30). Tal era a união da vontade de Jesus Cristo com a vontade divina comum ao Pai e ao Filho, que São Tomás de Vilanova, por uma comparação engenhosa, diz que a humanidade do Salvador era como a sombra da divindade. Como a sombra segue sem resistência o movimento do corpo, assim a alma do Salvador seguia com fidelidade absoluta todas as impressões divinas, e com harmonia maravilhosa o Seu sagrado corpo sujeitava-Se a todos os movimentos do espírito.

Ele obedecia sempre. Em Belém era nas mãos de Sua Mãe o filho dócil a esperar tudo dos seus cuidados maternais, e a receber tudo com um divino sorriso. Em três palavras o evangelista resume a Sua vida em Nazaré: Et erat subditus illis. Conserva-Se oculto aos olhos do mundo todo o tempo determinado por Seu Pai e só começa a Sua vida pública na hora marcada pela Providência.

Só pregará o que Seu Pai lhe mandou pregar. A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou (Jo 7, 16). E ainda: Verba quae dedisti mihi dedi eis (Jo 17, 8). Evangeliza só aqueles, ao qual Seu Pai o enviou. Quando insistem que Ele vá pregar aos gentios e se manifeste às nações, responde:

“Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel’’ (Mt 15, 24)

Até ao derradeiro suspiro poderá dar-se o testemunho de haver em tudo cumprido a vontade de Seu Pai e procurado em tudo o Seu beneplácito. Quae placita sunt ei, facio semper (Jo 8, 29). Ainda agora a Sua vida eucarística é de submissão e dependência.

Obedece a todos em quem descobre parcela autoridade: em Belém e Nazaré, a Maria, Sua Mãe, e a são José, Seu pai nutrício. Obedece às leis de Seu país mesmo quando manifestamente não O podiam atingir, por exemplo, as leis da circuncisão e da apresentação no templo.

“Não penseis que vim abolir a lei ou os profetas, não vim aboli-la, mas cumpri-la” (Mt 5, 17)

Obedece e quer que se obedeça aos escribas e aos sacerdotes; porque, embora a sua conduta seja repreensível, estão colocados na cátedra de Moisés e receberam a missão de ensinar.

Obedece às autoridades civis; proclama que é preciso dar a Cesar o que é de Cesar; e paga o tributo imposto. Obedece até Pilatos e aos algozes, — e não o faz cada dia também sobre o altar? — porque vê neles a autoridade do alto:

“Não tereis sobre mim poder algum, disse ele a Pilatos, se o não tivesses recebido do alto” (Jo 19, 2)

Obedece em tudo: nas coisas penosas como nas outras. A qualquer sacrifício exigido por Seu Pai, só sabe responder: Ita Pater, quoniam sic fuit placitum ante te (Mt 11, 26). Andará por esse caminho, jamais recusará coisa alguma à obediência, mas aceitará tudo, mesmo o sacrifício da vida sobre o madeiro infame da cruz: factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. E com que fervor e prontidão se entrega à Sua missão de abnegação e renúncia! Lança-Se com passo de gigante no caminho que a obediência Lhe abre: Exultavit ut gigas ad currendam viam (SI 18, 6).

Com que fidelidade executa, em todos os pormenores, as ordens de Seu Pai, justificando a letra cada uma das palavras dos profetas. Chama para isso a atenção dos apóstolos, fazendo-lhes notar que tais ou tais circunstâncias da Sua vida ou da Sua morte eram o cumprimento do que dEle estava escrito. Na véspera da Sua Paixão, diz-lhes: Eu vos digo, é preciso que se cumpra em mim a palavra da Escritura: Foi colocado entre os malfeitores. Com efeito, as coisas que me dizem respeito estão perto do seu cumprimento (Lc 22, 37). Sobre a cruz enfim, para cumprir uma derradeira profecia de que seria abeberado de fel e vinagre, disse: Tenho sede (Jo 19, 28 — SI 68, 22). Estava então cumprida a Sua missão: Consummatum est; permite à morte que ponha fim a Seus sofrimentos e entrega nas mãos de Seu Pai a Sua alma submissa até à imolação.

E, sobretudo quem dirá o amor que animava a obediência do Salvador? Gloria-Se de obedecer ao Pai e de servi-lO em tudo. O Domine, quia ego servus tuus sum et filius ancillae tuae (SI 115, 16). Que afetuoso devotamento no grito da Sua alma: Não vos agradaram os sacrifícios oferecidos sobre os vossos altares. Então disse: eis-me; serei para vós uma vítima de obediência, pois que está escrito que farei em tudo a vossa vontade; eu o quis e a vossa lei está gravada no centro do meu coração: Et legem tuam in medio cordis mei (39, 9). Quer cumprir a todo transe a vontade de seu Pai; e com que ardor reclama quando o querem afastar dela:

“Não poderei beber o cálice que meu Pai me apresenta”?” (Jo 13, 11)

É nessa vontade de seu Pai que ele encontra a sua alegria e satisfação; ela é o alimento da sua alma:

“O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34)

E quanto mais cruciante é a obediência, tanto mais deve honrar o Pai, tanto mais se apressa em cumpri-la; é precisamente isto que Ele declara no momento de caminhar para o suplício supremo, entregando-Se aos inimigos.

“Afim de que o inundo saiba que amo o Pai e que, por amor, cumpro as ordens que me deu, levantai-vos e vamos daqui” (Jo 14, 31)

Às almas que Ele mais ama, enfim, são as que, a Seu exemplo, cumprem em tudo a vontade de Seu Pai.

“Quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, será para mim irmão, irmã e mãe” (Mt 7, 21)

Jesus glorificou Seu Pai pela obediência perfeita; por ela salva os homens, levando-os à observância da lei divina; por ela consegue o seu triunfo incomparável e obtém de Seu Pai o império sobre todas as nações. Rebaixou-Se, fazendo-Se obediente até à morte, até à morte da cruz. Eis por que Deus o exaltou e Lhe deu o nome que é sobre todo nome, a fim de que ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus, na terra e nos infernos, e toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor (Fl 2, 8-11). Imitando a Sua obediência e aceitando os Seus ensinamentos, é que os homens chegarão à salvação e partilharão a Sua glória. Embora Filho de Deus, aprendeu por Seus sofrimentos o que é obedecer e, consumado em perfeição, tomou-Se para todos que lhe obedecem ao autor da salvação eterna (Hb 5, 8). O Salvador atesta-nos que serão salvos os que, com Ele, fizerem a vontade do Pai celeste (Mt 7). Com maior razão é esse o dever do apóstolo. Perguntemos à nossa Regra como devemos seguir a Jesus no caminho da obediência é o que o Salvador exige de nós a esse respeito.

VII. A Prática da Obediência

Por Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

No começo do mês de julho, ou melhor, ainda no fim de junho, o verdadeiro religioso, animado do amor de Jesus Cristo, ardendo em sincero desejo de imitar o divino Mestre, estudará por um sério exame de consciência o estado da sua alma em relação à obediência.

Depois de orar com fervor, contemplará seu divino Modelo e se recordará as prescrições da sua Regra em relação à obediência; e interrogando lealmente a sua consciência, aceitará com humildade o testemunho dela. Se achar que é cuidadoso imitador de Jesus Cristo e fervoroso na prática da obediência, agradecerá ao Senhor as Suas graças e Lhe prometerá ainda maior fidelidade e mais fervor. Se encontrar em seu coração sentimentos ou disposições contrárias à obediência, não descansará enquanto as não tiverem banido da Sua alma com o auxílio da graça. Mesmo sem ter habitualmente em seu coração disposições contrárias à obediência, talvez descubra em seu procedimento desfalecimentos sérios e frequentes, ou negligências que a obediência perfeita não pode admitir. Investigará as diferentes causas dessas fraquezas. Especificará então generosamente os atos interiores e exteriores de obediência, que se proporá fazer na oração ou em qualquer outro tempo do dia, fixando logo a sanção que punirá as infidelidades, embora pouco voluntárias. Na escolha desses atos, guiar-se-á pelas luzes fornecidas no exame, de modo a combater as tendências más que nele se opõem ao domínio da obediência perfeita. Assim quem se inclina a discutir, a arrazoar sobre as ordens dos superiores, procurará adquirir mais simplicidade na obediência, interditando-se todo juízo pessoal sobre as ordens recebidas; as almas indolentes se esforçarão para obedecer mais prontamente e exatamente; as almas propensas ao naturalismo porão em sua obediência mais espírito de fé, etc. Cada qual se esforçará para fazer de toda a sua vida um exercício de obediência.

Na oração. O religioso fiel penetrar-se-á das convicções sobre quo repousa a verdadeira obediência. Considerará o mal que causa ao religioso a vontade própria e os perigos a que se expõe; meditará ainda as prerrogativas sublimes da obediência, e as recompensas magníficas quo Deus lhe concede nesta e na outra vida. Contemplará, sobretudo no Homem-Deus, uma pessoa divina, submetendo-Se plenamente não só a Deus Seu Pai, mas ainda ao homem, Sua criatura e levando a obediência, por nosso amor, até à morte da cruz. Querendo então os bens prometidos à obediência, mas, sobretudo corresponder ao amor de Jesus Cristo e tornasse-lhe semelhante, decidir-se-á à prática da obediência perfeita; e com o maior fervor oferecerá a Deus o ato interior da obediência em toda verdade e perfeição.

Ato Interior. Ó Jesus, obediente por meu amor até à morte na cruz, eu Vos amo. Por amor de Vós e para Vos ser semelhante, quero obedecer e me devoto á obediência perfeita. Em todo superior, seja ele qual for, quero ver a Vossa pessoa, na Sua vontade, a Vossa. Seja qual for à ordem dada, quero submeter-me e, com o socorro da Vossa graça, cumpri-la prontamente e som hesitação, sem discussão e sem exame. Quanto mais penosa à ordem, tanto mais pontualmente procurarei cumpri-la, a fim de comprazer-Vos e unir-me mais intimamente a Vós, ó Jesus, cravado na cruz por obediência e por meu amor. Maria, minha Mãe, formai em mim a obediência de Jesus.

Durante o dia. Unido a Deus por um recolhimento contínuo, o bom religioso renovará de tempo em tempo no seu coração essas disposições da obediência perfeita. Além disso, fiel à Regra, multiplicará as orações jaculatórias e os atos internos de obediência, breves, mas fervorosos: súplicas para obter o espírito da obediência; — aceitação generosa duma obediência, duma situação, dum cargo mais penoso; fé na presença de Deus nos superiores, etc.

Exercícios de piedade. O religioso os fará em espírito de obediência, e para obter aumento desse espírito.

Atividade. O bom religioso cumprirá com mais fidelidade e em espírito de obediência todos os seus deveres de estado, gerais e particulares: atos comuns, cargos, empregos, etc.; buscará em tudo a obediência in re et in modo, e se desempenhará deste ou daquele dever com tanto mais generosidade e prontidão, quanto mais penoso e contrário aos gostos naturais.

Penitencia. O religioso, enfim, praticará com mais fervor e em espírito de obediência os exercícios de penitência prescritos pela Regra ou pelos piedosos costumes da Congregação; e terá cuidado em reparar quando antes e com generosidade as faltas ou imperfeições contrárias à obediência.

VIII. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Eis, por fim, algumas orações de Santo Afonso para crescermos na Pobreza de Espírito e no Desapego.

Promessa de fidelidade a Jesus nosso Rei

Adorável Jesus, confesso-Vos pelo meu Rei e meu Deus; outro não quer o meu coração senão a Vós, que Sois o meu Redentor. Na Vossa presença o protesto. Pelo pecado, ai! Sofri o triste jugo das minhas paixões, e Vos expulsei da minha alma, ó meu divino Rei; agora. quero que nela reineis sozinho; mandai, e sereis obedecido. Dir-Vos-ei com Santa Teresa: “Ó amor, que me amais acima do que poderia eu formar ideia, fazei que a minha alma Vos sirva segundo o Vosso beneplácito antes que ao Seu grado. Morra desde já este eu, e em mim viva outro eu! Viva Ele e me dê a vida! Reine Ele, e seja eu escravo Seu! A minha alma não quer outra liberdade”. Oh! Ditosa da alma que pode com verdade dizer: Meu Jesus, Vós Sois, o meu único Rei, o meu único bem, o meu único amor!

Para implorar a graça de fazer sempre a vontade de Deus

Compadecei-Vos de mim, ó meu Deus: eu sabia que pecando me condenava a uma eternidade de penas, e, com ser assim, quis me opor à Vossa vontade; e por quê? Por uma miserável satisfação. Ah! Meu Senhor, perdoai-me, de todo o coração me arrependo. Não quero mais resistir à Vossa santa vontade. Que desgraça seria a minha, se me houvéreis tirado a vida quando estava em pecado! Estaria atualmente no inferno, condenado a odiar perpetuamente a Vossa vontade. Mas agora eu a amo, e amá-la quero sempre. Dai-me a conhecer a Vossa vontade e força para segui-la sempre no meu proceder. Não Vos quero resistir mais, ó Bondade infinita, eis a única graça que Vos peço: Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. Com o Vosso eficaz auxílio cumpra eu perfeitamente a Vossa vontade, e nada mais desejo. Ah! Que quereis, ó meu Deus, senão o meu bem e a minha salvação? Ah! Pai eterno, atendei-me pelo amor de Jesus Cristo; Ele é quem me ensinou a fazer a oração que neste momento Vos dirijo em Seu nome: Faça-se a Vossa vontade! Faça-se a Vossa vontade! Faça-se a Vossa vontade! Qual há de ser a minha felicidade, se passar o resto dos meus dias, e terminar a minha vida, cumprindo a Vossa vontade!

Ó Maria, vós tivestes a felicidade de executar sempre perfeitamente a vontade de Deus: alcançai-me, pelos vossos merecimentos, conformar-me desde já com ela até o meu último suspiro.

A Jesus obediente

Amadíssimo Jesus meu, para expiar as minhas desobediências, Vos quisestes humilhar até o ponto de prestardes obediência a um homem; ah! Pelos méritos desta obediência que rendestes na terra a São José, dai-me a graça de obedecer dora em diante a todas as disposições da Vossa divina vontade; e em nome do amor recíproco que reinou sempre entre Vós e ele, concedei-me grande amor para conVosco, ó bondade infinita, digna de todos os afetos do meu coração; esquecei-Vos de todas as ofensas que Vos fiz e tende compaixão de mim. Amo-Vos, ó Jesus, meu amor; amo-Vos, ó meu Deus, e desejo amar-Vos para sempre.

Diante do Crucifixo

Ó meu Redentor crucificado, ó Rei de amor, humilhadíssimo e enternecido, venho oscular os Vossos pés sagrados trespassados pelo meu amor; abraço esta cruz sobre a qual, vítima de amor, Vos sacrificastes por mim à justiça divina, fazendo-Vos obediente até a morte, e morte ignominiosa da cruz. Ó feliz obediência, que nos obteve o perdão dos pecados! Ai! Que seria de mim, ó meu Salvador, se não tivésseis satisfeito por mim? Eu Vos dou graças, amor meu, e pelos merecimentos desta sublime obediência, peço-Vos obter-me a graça de obedecer em tudo à vontade de Deus.

Antes da Confissão

Ó meu Deus, ensinai-me pela boca do meu diretor o que exigis de mim; estou agora resolvido a obedecer-Vos em tudo, e espero fazê-lo com o auxílio da Vossa graça.

Depois da Confissão e nos Escrúpulos

Obedeço, ó meu Jesus, ao Vosso ministro, e isto me dá esperança de que, pela virtude do Vosso sangue, me hei de salvar e não ficar jamais separado de Vós.

Oração a Maria

Ah! Minha Rainha e minha Mãe, rogai a Jesus por mim: alcançai-me, pelo merecimento da Vossa obediência, a graça de ser fiel em obedecer à divina vontade e às ordens. do meu diretor espiritual.

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(OMER C.SS.R., Padre Saint. Escola da Perfeição Cristã para Seculares e Religiosos: Obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja. Editora Vozes, 1955, p. 204-212)

(AZEVEDO C.SS.R., Padre Oscar das Chagas. As Doze Virtudes para cada Mês do Ano. Editora Vozes, p. 118-149)

(OMER C.SS.R., Padre Saint. As Mais Belas Orações de Santo Afonso: Edição atualizada e acrescida de novos exercícios e orações. Editora Vozes, 1961, p. 306-308)