Lição 1: O fundo de cena da 2Cor

Quem compara entre si 1 e 2Cor, verifica grandes diferenças entre uma e outra. A primeira é doutrinaria, abordando diversos temas teológicos como a unidade da Igreja, a ceia eucarística, a ressurreição dos mortos, os carismas, etc. Ao contrário, a 2Cor, entre outras coisas, trata das relações de São Paulo com a comunidade, desfaz mal-entendidos, expõe os sentimentos de alma do Apóstolo…

Daí a pergunta: que terá acontecido entre 1 e 2Cor para provocar tal mudança de conteúdo e de estilo?

Não há como responder muito precisamente, pois o livro dos Atos nada refere a propósito. Somente da própria 2Cor podemos deduzir alguns dados conjeturais, como faremos a seguir. O trabalho de consulta de textos e leitura em filigrana, que vamos empreender, requer paciência e atenção do leitor; se não, pouco compreenderia da exposição seguinte:

1) Timóteo volta de Corinto a Éfeso com más noticias: os partidos e os ânimos não se acalmaram na comunidade; cf. 1Cor 4,17; 16,10 (textos que falam da missão de Timóteo em Corinto).

2) Paulo então resolve ir a Corinto pessoalmente para apaziguar os ânimos; cf. 2Cor 12, 14; 13,1. – Com efeito, se, ao escrever 2Cor, Paulo já tinha estado duas vezes em Corinto, pergunta-se: quais seriam essas duas estadas? A primeira é obviamente a da fundação da comunidade (At 18,1-11); o texto de At 20,2s é posterior à 2Cor. Só resta postular uma viagem intermediária entre 1 e 2Cor.

3) Em Corinto Paulo é publicamente injuriado; cf. 2Cor 2,5-10; 7,12.

4) Para não punir logo, Paulo deixa Corinto, prometendo voltar em breve. Mas, absorvido por afazeres, adiou o seu retorno; pelo que, foi acusado de leviano, inconstante e covarde; cf. 2Cor 1,15s.23.

5) Em vez de retornar, Paulo escreveu a “epístola das lágrimas”; cf. 2Cor 2,3-9; 7,5-12. Esta seria a terceira carta aos coríntios, pois a primeira se acha documentada em 1 Cor 5,9-11, mas se perdeu; a segunda é a canônica 1Cor. Também a epístola das lágrimas se perdeu, embora alguns a queiram identificar com a polêmica secção de 2Cor 10-13 (esta secção visa aos judaizantes, e não a comunidade de Corinto como tal).

6) Tito é o portador da “epístola das lágrimas”; cf. 2Cor8,17; 12,18.

7) Antes que partisse, Paulo marcou encontro com Tito em Trôade (Ásia Menor). Mas, como teve que deixar Éfeso precipitadamente por causa da celeuma de Demétrio (At 19,23-20,1), Paulo não encontrou Tito em Trôade (cf. 2Cor 2,12s).

8) Paulo seguiu de Trôade para a Macedônia, onde encontrou Tito em Filipos; cf. 2Cor 2,13; 7,5-7. A alegria de Paulo deve ter sido reforçada pela presença de Lucas em Filipos (cf. At 20,6); Lucas era o médico muito caro e dedicado a São Paulo.

9) As notícias que Tito comunicava a Paulo, eram satisfatórias; a comunidade se reconciliara com o Apóstolo e resolvera afastar de si o mal: 2Cor 7,7.11. Estava disposta a colaborar na coleta em favor dos pobres de Jerusalém (cf. 2Cor 9,1-15).

10) Todavia Tito não podia deixar de relatar calúnias e invectivas dos judaizantes em Corinto. À semelhança do que se dera na Galácia, acusavam Paulo de não ser verdadeiro Apóstolo, pois não convivera com Jesus. O procedimento de Paulo seria um aberto testemunho de que não estava seguro da sua autoridade; sim, o adiamento da viagem prometida era tornado como sinal de hesitação e inconstância, próprias de um homem sujeito às suas paixões, não de quem está revestido da autoridade de Cristo (cf. 2Cor 1,17); Paulo era dito covarde, pois à distância ameaçava duros castigos, escrevia cartas severas, mas não ousava comparecer e, quando presente entre os coríntios, tinha aparência fraca, desprezível, usava de linguagem simples e não se aventurava a punir ninguém (cf. 2Cor 10,2-11; 11,2; 13,2-4). Além disto, o fato mesmo de ter Paulo procurado viver do trabalho de suas mãos em Corinto, sem pesar aos fiéis (cf. 1Cor 9,12-18; 1Ts2,9; 2Ts 3,7-10), era interpretado como indício de que ele reconhecia não ter direito às esmolas dos fiéis e não ser Apóstolo como os demais (cf. 2Cor 11,7-12; 12,13); e, não obstante o aparente desinteresse pecuniário, ainda acusavam Paulo de viver das esmolas que arrecadava para a comunidade de Jerusalém (cf. 2Cor 6,8).

11) Ciente das boas disposições da comunidade, Paulo decidiu voltar lá, numa terceira visita (cf. 2Cor 12,14; 13,1). Para preparar esse novo encontro com os fiéis, quis escrever a 2Cor, que na verdade é a quarta carta de São Paulo aos coríntios. Esta devia mais uma vez chamar os coríntios à ordem, para que, presente, o Apóstolo não tivesse de censurá-los (cf. 2Cor 13,10).

Tito, acompanhado de mais dois irmãos, talvez Lucas e Aristarco, devia voltar sem demora a Corinto, como portador da carta (cf. 2Cor 8,16-22). Esta foi escrita em Filipos. A série de acontecimentos supostos entre 1 e 2Cor exige o intervalo de um ano ou mais entre estas duas epístolas, de sorte que a 2Cor parece datar de meados ou da segunda metade de 57.

Lição 2: O conteúdo de 2Cor

São Paulo via-se caluniado pelos judaizantes. Tais acusações, porém, não afetavam apenas a pessoa do Apóstolo, mas punham em xeque a própria causa do Evangelho. Daí a necessidade que incumbia a Paulo, de responder fazendo longa exposição de suas intenções, de seus trabalhos e da eminente dignidade da sua missão apostólica. Nessa epístola Paulo expandiria toda a sua alma de homem ardente que lutava pela mais sublime das causas. Ao fazer isto, porém, o Apóstolo não se fechou numa visão individualista ou mesquinha da realidade; ao contrario, desenvolveu perspectivas teológicas muito vastas e belas.

Introdução 1,1-11. Saudações. Paulo dá graças a Deus, que o libertou de gravíssimos perigos de morte.

l. Apologia de Paulo diante dos Coríntios: 1,12-7,16

1) As relações de Paulo com os coríntios após a 1Cor: 1,12-2,17

Paulo mudou o seu plano de viagem, não indo a Corinto, como prometera, não em virtude de inconstância ou falta de amor, mas para não contristar os fiéis (1,12-2,4). Recomenda caridade para com o irmão penitente (2,5-11). “Somos o bom odor de Cristo” (2,12-17).

2) A dignidade do ministério apostólico: 3,1 -7,1

O ministério da Nova Aliança é mais nobre do que o da Antiga (3,1-4,6). O poder de Deus se manifesta na debilidade humana (4,7-5,10). É a caridade de Cristo que move o Apóstolo e o leva a apregoar a reconciliação com Deus. Não vivam os coríntios como os pagãos (5,11-7,1).

3) O restabelecimento das boas relações de Paulo com os coríntios: 7,2-10

Exposição dos fatos recentes, principalmente da vinda alegre de Tito; manifestação do prazer conseqüente.

II. A coleta em favor da comunidade de Jerusalém 8,1-9,15

Sigam os coríntios o exemplo dos fiéis da Macedônia (8,1-15). Paulo recomenda aos coríntios Tito e os irmãos que se encarregarão da coleta (8,16-9,5). Deus recompensa a generosidade dos seus fiéis (9,6-15).

III. Apologia polêmica diante dos adversários: 10,1-13,10

1) Refutação das calúnias: 10,1-18

Paulo não procede segundo as paixões, mas por espírito de fé (10,1-11); tem justos títulos de glória diante dos seus adversários (10,12-18).

2) A justa glória de Paulo: 11,1-12,18

Em um só ponto Paulo é inferior aos pregadores judaizantes (“apóstolos por excelência”): pregou o Evangelho aos coríntios sem lhes ficar financeiramente a cargo. Continuará a fazê-lo (11,1-15).

Embora seja tolo expor os próprios títulos de glória, Paulo ousa fazê-lo, coagido pelos adversários: recorda os seus trabalhos, os dons extraordinários recebidos de Deus e também as moléstias corporais, nas quais o poder de Deus se manifesta (11,16-12,10).

Paulo indica novos sinais da autenticidade da sua missão. Os coríntios deveriam defendê-lo das calúnias, já que tanto amor lhes demonstrou no passado (12,11 -18).

3) Admoestação preparatória da próxima visita: 12,19-13,10. Paulo procederá severamente contra os mal intencionados (12,19-13,6). Espera, porém, que isto não se torne necessário (13,7-10).

Epílogo: 13,11-13. Ultimas exortações. Saudações. Bênção.

A primeira e a terceira partes são intimamente conexas entre si: visam a defender a autoridade de Paulo ora aos olhos dos coríntios (1-7), ora perante os judaizantes (10-13). Entre as duas apologias, a segunda parte parece interromper o curso das idéias. Mas tem seu nexo lógico com os capítulos antecedentes e os subseqüentes. Com efeito, São Paulo, que combatia os judaizantes, podia dar a impressão de ser contrário à Igreja-mãe de Jerusalém e de estar suscitando um cisma entre étnico-cristãos e judeo-cristãos¹. Ora, justamente para dissipar tal equivoco, o Apóstolo, ao mesmo tempo em que combatia os judaizantes, se mostrava fiel à Igreja-mãe (judeu-cristã) e inculcava aos coríntios (étnico- cristãos) que também o fossem mediante as suas esmolas.

Os efeitos alcançados pela 2Cor foram muito satisfatórios: a reconciliação da comunidade com seu pai espiritual se consolidou. Por isto, pouco depois de enviada a 2Cor, Paulo, no inverno de 57/58, se deteve três meses em Corinto; esta terceira visita parece ter decorrido numa atmosfera de muita calma, que permitiu ao Apóstolo redigir a epístola aos Romanos, profundamente mergulhado na teologia.

Lição 3: A mensagem de 2Cor

A 2Cor é um dos escritos que mais manifestam a alma de Paulo. Envolvido pelas tramas maldosas dos adversários e vítima dos achaques corporais, Paulo experimentou em grau muito intenso a angústia da vida nesta terra.

Hoje os homens são muito sensíveis à angústia; não poucos se sentem “condenados à morte”, sem esperança e sem consolo.

Precisamente a 2Cor é importante por mostrar como o Apóstolo reagiu diante das tribulações. Paulo, de um lado, não se entregou à lamentação e ao desânimo; de outro lado, não quis negar artificialmente a angústia como se reconhecê-la não fosse digno do homem perfeito.

Paulo aludia freqüentemente às tribulações que o afligiam: 1,8; 7,5; 11,23-27 (o catálogo de dores físicas e morais do Apóstolo); 12,7 (o aguilhão na carne, o anjo de Satanás que o esbofeteava e que não sabemos identificar). Em 5,2-4 o Apóstolo confessava mesmo o pesar que experimentava por ter que morrer.

Ora, essas tribulações, efeitos da fragilidade humana, eram interpretadas pelos judaizantes como sinais de que Deus não dera a Paulo a missão do apostolado; pareciam incompatíveis com a autoridade e a dignidade de um legado de Deus.

O argumento em favor dos judaizantes era forte. Contudo Paulo quis dar às suas deficiências físicas uma interpretação contrária à dos adversários. Conforme o Apóstolo, as misérias físicas do cristão são justamente o sinal da presença de Deus no fiel. No caso de Paulo, os achaques significariam que não era Paulo, como simples homem, que agia, mas era Deus, quem agia por meio de Paulo. Toda a obra missionária de Paulo era efeito da graça de Deus, que Paulo trazia como um tesouro em vaso de argila (4,7-10). Por conseguinte, pelas deficiências do instrumento Paulo comprovava a autenticidade da sua missão. É justamente próprio de Deus mostrar em meio à fraqueza humana todo o poder divino (12,9).

Mais: Paulo confessava suas angústias diante da morte para mais altamente proclamar a sua esperança na ressurreição; o definhar do velho homem seria a condição para o desenvolvimento do homem novo; ressurreição e vida nova constituem um processo que opera paralelamente com definhar e morte (4,11-16). Por isto a vida do cristão tem duas faces: uma exterior, visível, um tanto ilusória, e outra interior, oculta, que é mais verídica, porque derivada da posse da eternidade. Observe-se o paradoxo com que São Paulo caracteriza a vida do cristão:

“somos considerados como moribundos, e eis que vivemos… somos considerados como quem nada tem, embora tudo possuamos!” (2Cor 6,9s).

Em suma, a mensagem da 2Cor se compendia nas palavras de 12,9s:

”É na fraqueza (do homem) que a força (de Deus) manifesta todo o seu poder… Por isto eu me comprazo nas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte”.


Referências:

(1) Étnico-cristãos são os cristãos de origem pagã. Judeu-cristãos são os de origem judaica.

Perguntas sobre a Segunda Epístola aos Coríntios

1) Compare o que Paulo diz nos capítulos 2-3 com o que diz nos cap. 10¬13 de 2Cor e diga se a epístola das lágrimas poderia ser 2Cor 10-13.
2) Como é que os coríntios receberam Tito e a epístola das lágrimas? Cite textos.
3) Indique as três passagens que mais lhe falam na 2Cor.
4) Que seria o aguilhão da carne de que fala 2Cor 12,7?
5) Compare 2Cor 2,5-10; 7,12 e 1 Cor 5,1-7. Será o mesmo caso em ambas as epístolas?
6) Como você aplicaria à sua vida e à vida do mundo de hoje a interpretação do sofrimento proposta peta 2Cor?
7) Qual a atitude que São Paulo propõe aos seus fiéis diante da perspectiva de coleta ? Deduza os traços principais dos capítulos 8 e 9.