A Epístola aos Gálatas

Lição 1: O fundo de cena

1.1. Quem eram os gálatas?

No século III a.C. algumas tribos celtas (gálataí é a forma mais recente de kéltai, em grego) se moveram da Gália e penetraram na Ásia Menor; após guerras violentas estabeleceram-se na região central desta, tendo por capital Ancira (Ankara de hoje, na Turquia). Em 25 a.C. os romanos invadiram a Galácia e a integraram numa confederação mais ampla, chamada “Província Romana da Galácia”, que chegava até o sul da Ásia Menor (compreendendo a Pisídia, a Licaônia e a Panfilia). Havia, pois, a Galácia étnica, situada no centro da Ásia Menor, com população rude e belicosa, e a Galácia política, que chegava até o sul da Ásia Menor e compreendia outros povos além dos celtas.

Os exegetas perguntam se a epístola aos gálatas se dirige à Galácia étnica ou à Galácia política.

Para não nos alongar inutilmente, optamos, com a maioria dos autores, pela Galácia étnica ou Galácia no sentido estrito da palavra. São Paulo visitou tal região tanto na segunda como na terceira viagens missionárias (cf. At 16,6; 18,23). Certamente Paulo não teria chamado “gálatas” (Gl 3,1) os habitantes da Galácia política, que não eram de sangue celta ou gálata.

Pouco se sabe a respeito da fundação das comunidades da Galácia. Em Gl 4,13s o Apóstolo diz que na Galácia foi afetado por grave enfermidade (talvez dos olhos), quando lá esteve “pela primeira vez”, ou seja, por volta de 50; pode ser que tal moléstia tenha prolongado, para além do que esperava, a estada do Apóstolo na região. Na terceira viagem missionária (53/58), diz-nos Lucas apenas que Paulo “percorreu sucessivamente o território gálata e a Frigia, confirmando todos os discípulos” (At 18,23). Já então se realizara o Concilio de Jerusalém (At 15).

1.2. A problemática de Gl

Da Galácia, durante a terceira viagem missionária, por volta de 54, Paulo dirigiu-se a Éfeso, onde permaneceu durante três anos (cf. At 19,1 -10; 20,31), mantendo intercâmbio muito intenso com as comunidades da Ásia e da Grécia. Foi nesse contexto que se apresentaram a Paulo irmãos portadores de notícias da Galácia: tinham sobrevindo a esta região judaizantes estremados que perturbavam as comunidades, declarando que, sem a circuncisão e a Lei de Moisés, não haveria salvação. Os argumentos desses pregadores estavam para induzir os gálatas a abraçar as observâncias mosaicas; cf. Gl 1,6-9; 3,1;4,9s.21;5,1.12. Os judaizantes tentavam enfraquecer ou anular a autoridade de Paulo, dizendo que este não era apóstolo propriamente dito, pois não seguira Cristo na terra como Pedro e Tiago (cf. Gl 1,1); era, sim, discípulo dos apóstolos; para compensar a autoridade que não tinha, Paulo seria um oportunista, pregando um Cristianismo mutilado (sem as observâncias da Lei) somente para agradar aos ouvintes; Paulo procuraria tão somente o favor dos homens, pois tinha mandado circuncidar Timóteo para não melindrar os judeus (cf. At 16,3), mas se tinha oposto à circuncisão de Tito para não desagradar aos pagãos (cf. Gl2.3) ; cf. Gl 1,10. As calúnias e difamações dividiam e amarguravam os gálatas, que “se mordiam e devoravam reciprocamente” (5,15).

O Apóstolo não pode ter deixado de experimentar viva indignação em vista dos acontecimentos. Suportaria em silêncio a deturpação de sua imagem pessoal. Mas não podia permitir que a autenticidade do Evangelho fosse posta em causa pelos judaizantes; impor a Lei de Moisés aos cristãos significava esvaziar a obra salvífica de Cristo; equivalia a dizer que Cristo não foi o suficiente Salvador, seria pôr os preliminares da obra e a própria obra de Cristo no mesmo pé.

Por isto Paulo houve por bem escrever sem demora a epístola aos Galatas, já que não podia abandonar o intenso ministério que praticava em Éfeso. Esta carta deve datar de 54, escrita na cidade de Éfeso. É um dos mais veementes escritos do Apóstolo, em que faltam os habituais elogios à comunidade, próprios do início de cada carta (cf. 1Ts 1,2-10; 2Ts 1,3-5; 1 Cor 1,4-9; Fl 1,3-11…).

Lição 2: O conteúdo de Gl

A epístola compreende três partes:

1) apologética, pessoal, autobiográfica (1,1 -2,14);

2) teológica (2,15-5,12);

3) parenética ou exortatória (5,13-6,18).

Na 1ª parte (1,1-2,14), distingue-se a seção 1,1-5, que propõe logo os dois temas capitais da carta: Paulo não é Apóstolo escolhido pelos homens, mas chamado por Deus (1,1); a salvação nos vem mediante a morte de Jesus Cristo, e não pela Lei de Moisés (1,4s).

Em 1,6-24 o Apóstolo afirma que o Evangelho por ele apregoado não foi aprendido em escola humana; é, sim, o fruto de revelação divina. Para prová-lo, Paulo recorda o chamado à conversão (1,13-16) que Cristo lhe dirigiu. Paulo não teve a pressa de procurar a aprovação dos demais Apóstolos, mas foi para a Arábia, e só três anos depois subiu a Jerusalém para encontrar-se com Pedro; não viu então nenhum dos outros Apóstolos; como teria recebido o apostolado de mãos humanas?

Em 2,1-10, o Apóstolo confirma sua fidelidade à Igreja-mãe referindo-se, em narração um pouco obscura, à sua participação no Concílio de Jerusalém. As “colunas da Igreja”, Pedro, Tiago e João, deram-lhe as mãos, ficando entendido que os gentios estariam isentos da Lei de Moisés. Paulo se dedicaria doravante ao mundo pagão, ao passo que Pedro ficaria com o mundo judaico (prevalentemente).

Em 2,1-14 é mencionado o incidente de Antioquia. Nesta cidade em território pagão, Pedro não observava as prescrições de Moisés quanto aos alimentos; mas, tendo sobrevindo irmãos judaizantes, passou a dobrar-se às injunções da Lei. Paulo lhe resistiu abertamente, pois o exemplo de Pedro era tão significativo que induziria muitos cristãos ao erro. O incidente não teve conseqüências, nem versou sobre pontos de fé, mas apenas sobre disciplina.

A segunda parte (2,15-5,12) desenvolve o tema da justificação pela fé, e não pelas obras.

Após enunciar a tese em 2,15-21 o Apóstolo propõe argumentos, que mostram a caducidade da Lei de Moisés após a vinda de Cristo:

  • a experiência dos gálatas, que receberam os dons do Espírito não como fruto da observância da Lei, mas como efeito de sua adesão ao Evangelho (3,1¬7);
  • a promessa, feita a Abraão, de que por ele todos os povos seriam abençoados, é independente da Lei de Moisés, pois esta sobreveio somente 430 anos após a promessa; por conseguinte, todos os povos são abençoados como Abraão, isto é, pela fé na promessa de Deus, e não pelo cumprimento das obras da Lei (cf. 3,8-18);
  • a finalidade da Lei… Esta foi dada ao povo de Israel como pedagogo¹, isto é, como escravo que devia levar o filho da casa à escola e ao Mestre (Jesus Cristo). A Lei escravizou o povo; tendo-o levado ao Cristo, só lhe resta desaparecer, pois terminou sua função (3,19-4,11). – Em 4,12-20 o Apóstolo mostra seu ânimo afetivo, queixando-se de que tenha arrefecido o amor dos fiéis para com seu pai espiritual. O coração de Paulo sabia ser muito terno, mesmo quando censurava com veemência os seus discípulos;
  • a história da família de Abraão… São Paulo interpreta em sentido típico as figuras de Abraão, Sara e Agar, Isaque e Ismael, recorrendo a método exegético rabínico; quer provar que somente Sara e Isaque representam a nova e definitiva aliança, portadora da bênção prometida a Abraão (4,21-31).

Deste longo arrazoado o Apóstolo deduz conseqüências práticas, visando a incutir aos fiéis permaneçam na liberdade adquirida por Cristo; sobre os falsos pregadores pesa o severo juízo de Deus (5,1-12).

A terceira parte (5,13-6,18) exorta a viver no Espírito, com renúncia às paixões da carne (5,13-25), e incita a aproveitar o tempo dado por Deus para a prática de boas obras (5,26-6,10). No epílogo o Apóstolo professa não procurar senão Jesus Cristo (6,11-18).

Lição 3: A mensagem de Gl

1) A epístola aos Galatas é certamente uma das mais difíceis do epistolado paulino, não só por seu estilo fogoso, às vezes truncado e incompleto (cf. Gl 4,25-27), mas também pela sua temática: aborda uma questão que para os cristãos de hoje está resolvida e ultrapassada – a vigência ou não da Lei de Moisés depois da vinda de Cristo. O leitor cristão hoje deverá compenetrar-se da importância que tal problema tinha para as primeiras gerações: muitos judeus que haviam abraçado o Evangelho depois de haver passado pela escola de Moisés, não podiam deixar de crer que esta era obrigatória também para os não- judeus; ficaria simplesmente ao lado de Cristo, na sua perspectiva de judaizantes. O papel reservado pela Providência Divina ao Apóstolo São Paulo foi de importância capital para “desatrelar” o Cristianismo do judaísmo; embora judeu, o Apóstolo identificou-se tanto com o espírito de Cristo que compreendeu a provisoriedade da Lei de Moisés.

2) Por seu conteúdo tão veemente, Gl foi chamada por Lutero e outros reformadores “a Magna Carta da Liberdade Cristã”, isto deve ser sabiamente entendido: Gl só apregoa a liberdade em relação à Lei de Moisés, não frente a toda lei: o cristão está obrigado a praticar as obras da lei superior da caridade e da graça; cf. 5,6.13s.16.

Mais precisamente: quando São Paulo afirma que somos salvos pela fé, e não pelas obras da Lei, quer dizer que entramos na justificação ou na amizade com Deus não porque tenhamos praticado obras boas e meritórias, mas unicamente porque Deus nos chamou e demos fé a esse chamado (como Abraão foi chamado e deu fé a esse chamado). Por conseguinte, ninguém “compra” a amizade com Deus ou ninguém sai do estado de pecador porque o mereça; é Deus quem gratuita e soberanamente dá a graça que perdoa o pecado e nos faz filhos de Deus. Mas São Paulo não é menos enérgico ao afirmar que ninguém permanece na amizade com Deus, gratuitamente recebida, se não pratica as obras boas que a filiação divina impõe ao homem: “Em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor, mas a fé agindo pela caridade” (Gl 5,6); o mesmo é dito em 1Cor 7,19; 13,1-13; Rm 13,16. São Tiago, sem negar a gratuidade da justificação (cf. Tg 1,8), incute, como São Paulo, a necessidade das boas obras como fruto da graça dentro do cristão (cf. Tg 2,14-26).

3) A epístola aos Romanos, a poucos anos de intervalo, retoma o tema de Gl, todavia em tom muito mais sereno, pois o Apóstolo não tinha em vista uma comunidade prestes a fraquejar como a galata. Mais exatamente podemos dizer:

Em Gl Paulo quer inculcar que a Lei de Moisés está ab-rogada; por conseguinte, são falsas as pretensões dos judaizantes. Os aspectos positivos da vida cristã são menos focalizados. Neste contexto, a Lei de Moisés é vista como “regime de maldição” (3,10-12), pedagogo ou escravo que domina (3,23), prefigurada por Agar escrava e geradora de escravidão (4,24s).

Em Rm Paulo tenciona descrever diretamente o que é a vida cristã: é dom de Deus gratuito, derivado dos méritos de Cristo. A Lei de Moisés, neste quadro, é mencionada em função da vida cristã – o que quer dizer:… com mais objetividade; São Paulo diz que a Lei é santa (7,12), é espiritual ou vivificada pelo Espírito de Deus (7,14). Onde o pecado abundou, São Paulo, em vez de falar da morte, diz que a graça super-abundou (Rm 5,20).

4) Gl é importante também como documento autobiográfico do Apóstolo, especialmente nos cc. 1 e 2. Apresenta-nos viva imagem do ânimo de Paulo, solícito pela salvação dos filhos espirituais; cf. 4,12.19s; 6,11. – Também a história da Igreja nascente é ilustrada por esse documento, revelador de problemas que para nós hoje parecem insignificantes ou nulos; nem a recepção do pagão Cornélio na Igreja (At 10), nem o Concilio de Jerusalém (At 15) foram suficientes para eliminar todas as dificuldades do relacionamento de judeus e gentios na Igreja (cf. Gl 2,11 -14); a coragem e a tenacidade de Paulo tiveram que enfrentar a dureza de tais dificuldades.

5) Gl é também um documento de alta mística, apesar do seu tom polêmico. O Apóstolo elabora ai uma preciosa “teologia da cruz” (1,4; 2,19s; 3,13s, 6,14), acompanhada da profissão de filiação divina: 3,26-28; 4,4-7. Em conseqüência, não poucos escritores cristãos hauriram em Gl a inspiração para suas reflexões, deixando-nos um exemplo valioso a seguir.


Referências:

(1) Em Gl 3,24 a palavra “pedagogo”tem o sentido etimológico de “condutor da criança”. Quem exercia função na antiguidade, era geralmente um escravo, que, por sua índole mesma, só podia
dominar e “escravizar” o herdeiro. A Lei de Moisés é pelo Apóstolo comparada a esse tipo de
pedagogo ou de escravo, que devia levar o povo de Israel ao Mestre Jesus Cristo.

Perguntas sobre a Epístola aos Gálatas

1) Quem eram propriamente os destinatários de Gl?
2) Quem eram os judaizantes?
3) Como era Paulo considerado pelos seus adversários ?
4) Exponha sumariamente o conteúdo de Gl e indique três passagens que mais o(a) tenham impressionado.
5) Que entende São Paulo por “justificação pela fé sem as obras”?
6) Como se distinguem entre si Gl e Rm no tocante à Lei de Moisés ?

1 Comment

  1. Helena Duva

    Vocês têm um tesouro de ensinamentos muito bom. Estou a aprender muito.
    Deus seja louvado pelo vosso trabalho.

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