Lição 1: O autor de Hb

Até cinqüenta anos atrás era comum dizer-se que Hb é carta de S. Paulo Apóstolo. Em nossos dias, porém, já não se afirma isto, mesmo entre os católicos. Aliás, faz-se oportuno notar que é lícito discutir a autoria de algum escrito bíblico, contanto que não se ponha em dúvida a canonicidade do mesmo ou o seu valor de Palavra de Deus. É o que ocorre com Hb: pergunta-se qual o autor humano dessa carta inspirada pelo Espírito Santo.

1.1. Os dados da tradição

A própria tradição é hesitante sobre a origem paulina da carta. Os escritores orientais a atribuíram a São Paulo; verdade é que Orígenes de Alexandria († 258) admitia que Paulo fora o autor de Hb (isto é, a fonte da doutrina de Hb), mas não o redator; assim tentava explicar as diferenças de estilo existentes entre Hb e as cartas propriamente paulinas.

No Ocidente os testemunhos são mais divergentes. Até o século IV houve quem duvidasse não só da autoria paulina de Hb, mas até da canonicidade. A razão desta posição extremada é a seguinte: nos séculos II/III ocorreram movimentos heréticos, como o dos Montanistas e o dos Novacianos; estes se valiam de Hb 6,4-8 para afirmar que havia pecados irremissíveis (= sem perdão). Ora, a fim de combater tal rigorismo herético, alguns mestres ocidentais negaram a própria canonicidade de Hb (não queriam que fosse lida em público). Todavia, a partir de meados do século IV, tais correntes perderam sua voga, e os escritores ocidentais passaram a aceitar tanto a canonicidade quanto a autoria paulina de Hb.

Eis, porém, que os críticos dos últimos decênios voltaram a levantar a questão da autoria da carta, apoiando-se principalmente no exame do texto. Daí o novo subtítulo:

1.2. Critérios internos do texto

a) Em Hb 2,3 o autor distingue: primeiramente o Senhor, que começou a pregar a Boa-Nova, depois os Apóstolos e discípulos, que imediatamente a ouviram, e finalmente nós, isto é, uma segunda geração, que é discípula dos Apóstolos e dos primeiros ouvintes da Palavra. Ora São Paulo nunca se incluiria entre os discípulos, como se inclui o autor de Hb; fazia questão absoluta de afirmar que ele recebera o Evangelho diretamente de Cristo; cf. Gl 1,1 s. 12.16s.

b) Em Hb falta a introdução, que é habitual nas cartas paulinas; começa sem o nome do remetente e sem as costumeiras saudações. Comparem-se entre si o início de 1 Cor, por exemplo, com o início de Hb. Esta carta parece, antes, um tratado teológico ou uma homilia, à qual se acrescentou um fecho de carta (cf. 13,18-25).

c) Hb apresenta 168 palavras que não se encontram no resto do Novo Testamento, e outras 124 que faltam nas cartas paulinas. Algumas destas se derivam da filosofia grega do século I: demiourgos, em Hb 11,10; metriopathein, ter compreensão, em 5,2. O autor prefere falar de Jesus Cristo ou simplesmente de Jesus ou de Cristo, em vez da habitual fórmula paulina Cristo Jesus (cf. Hb 2,9; 3,1; 13,8 e Fl 2,5; Gl 5,14). De modo geral, o estilo de Hb revela escritor que conhecia muito bem o vocabulário e a sintaxe gregos, ao passo que as cartas paulinas são muito menos buriladas.

d) O modo de citar a Bíblia também é diferente: São Paulo usa as formulas “está escrito…, como está escrito…, diz a Escritura…, Moisés diz…, Davi diz…”. Ao contrário, conforme Hb, Deus diz diretamente (cf. 1,5.6.7.13; 4,3; 7,21 ; 8,5.8; 10,30.37.38; 11,18; 12,15; 13,5.6) ou o Espírito Santo diz (cf. 3,7; 9,8; 10,15).

e) O Antigo Testamento é interpretado como tipo ou imagem do Novo Testamento. Assim a Lei é a sombra ou o esboço dos bens da nova Aliança (10,1); Melquisedec, rei e sacerdote, é figura de Cristo (7,1 -28); o tabernáculo terreno é vislumbre pálido do celeste (8,1 -13); os sacrifícios do Antigo Testamento são prefigurações do sacrifício de Cristo (9 1-19).

f) O conteúdo doutrinário de Hb é, sem duvida, em sua essência, o das cartas paulinas. Todavia há diferenças de ênfase, que não constituem contradições:

Para São Paulo, Cristo é sobretudo a Cabeça de um grande corpo; comunica vida e movimento aos membros desse corpo, que são os fiéis (cf. principalmente Cl e Ef). Ora, para Hb, Cristo vem a ser, antes do mais, o Guia que dirige os fiéis (Hb 2,10; 12,2) ou o Precursor que os precedeu atravessando o véu do tabernáculo celeste, onde Ele é Pontífice para sempre (cf. Hb6,19).

São Paulo põe em relevo os aspectos precários da Lei de Moisés: esta tinha a função de mostrar aos judeus a sua insuficiência e miséria morais (cf. Rm 4,15; 7,7-13; Gl 3,19). Ao contrário, o autor de Hb enfatiza a Lei de Moisés como prenúncio da dispensação da graça cristã (cf. Hb 8,13; 10,1) – o que é mais positivo e otimista do que o enfoque expresso em Rm e Gl.

São estas e outras observações que levam os estudiosos modernos, mesmo católicos, a dizer que Hb não foi redigida por S. Paulo. Inegavelmente, porém, há traços comuns de doutrina e até idênticas expressões em Hb e nas epístolas paulinas. Assim a eminente dignidade de Cristo, Filho eterno de Deus (cf. Rm 1,3 e Hb 4,14); Cristo, imagem da substância do Pai e mediador na obra da criação (cf. Cl 1,15-17 e Hb 1,3s); a mesma teologia da cruz, ato de obediência, aparece em Fl 2,8 e Hb 5,7; Cristo oferece um sacrifício de expiação (cf. Rm 3,25 e Hb 10,12); após a Paixão, Cristo é elevado à direita de Deus (cf. Rm 8,34 e Hb 10,12).

Notem-se ainda a referência a Timóteo, o caro discípulo de Paulo, em Hb 13,23, assim como os ecos do fraseado paulino em Hb 13,18s (cf. 2Cor 1,11s), Hb 13,19.23 (cf. Fm 22 e Fl 2,1.23s), Hb 13,14.25 (cf. FI4,18.21s).

Uma vez considerados todos estes pontos, pergunta-se: que autor terá escrito um tal documento?

1.3. A indicação do autor

A carta supõe um escritor de origem judaica e de formação helenista, capaz de escrever de modo original (embora sob a influência de S. Paulo); devia ser bem versado na tradução grega ou alexandrina das Escrituras, dita “dos LXX”, que ele cita ao pé da letra, e não de memória; devia também conhecer o ritual do Antigo Testamento, com suas solenidades, às quais faz freqüentes alusões; além do mais, o escritor gozava de certa autoridade nas comunidades judeo-cristãos, para poder escrever-lhes tal carta, que não raro censura os leitores (cf. 5,11-14; 6,7s.9-12;3,12s; 4,1; 13,22).

Ora a tais requisitos parece satisfazer Apolo, o judeu nascido e educado em Alexandria, do qual falam os Atos em 18,24-28; Apolo certamente gozava de autoridade, pois em Corinto quiseram contrapô-lo a Paulo e a Pedro (cf. 1Cor I, 13; 3,4-6; 4,6). Há quem admita Barnabé, que era hebreu, levita, amigo e colaborador de Paulo (cf. At 4,36; 13,2); todavia esta hipótese goza de menos sólido fundamento do que a anterior.

Lição 2: Os destinatários de Hb

Como diz o título, a carta se dirige a judeus convertidos ao Cristianismo. Sim; o escritor faz amplo uso das Escrituras, que ele cita muitas vezes como fonte principal de argumentação. Mais precisamente, podemos dizer: os destinatários eram sacerdotes judeus que haviam abraçado a fé cristã, julgando estar aderindo ao Messias; deixaram o solene culto do templo de Jerusalém para abraçar a simplicidade das celebrações cristãs, cujo valor eles entreviam na fé. Desde o início da sua vida cristã, tinham suportado perseguições (tenhamos em vista At 8,1-3; após o martírio de S. Estêvão, em 36, os cristãos foram atormentados em Jerusalém, de modo que se dispersaram pela Judéia e a Samaria. Com o decorrer dos tempos, porém, esses cristãos sentiam sua fé fraquejar. Sim; em 64 o Imperador Nero decretou a primeira perseguição romana contra os cristãos; o Senhor Jesus parecia ter esquecido os seus amigos, pois não voltava, como prometera, para pôr fim à história. Entrementes, o templo de Jerusalém continuava de pé, incólume; parecia que Deus lá estava presente, desabonando a fé cristã. Compreende-se então que tais sacerdotes judeus feitos cristãos sofressem a tentação de voltar para o judaísmo e continuar a servir no Templo. A sua conversão a Cristo podia parecer-lhes grave erro.

Supondo tais circunstâncias, Hb é uma palavra de exortação (cf. Hb 13,22). Tenciona reavivar a fé dos leitores (tenha-se em vista especialmente Hb II, que traía profundamente da fé). E, para avivar a fé, o autor se detém, de ponta-a-ponta da epístola, na comparação mútua da antiga e da nova Lei, mostrando que a antiga Aliança era apenas uma imagem e um prenúncio da Aliança travada por meio de Jesus Cristo; não teria, pois, sentido voltar aos preceitos do ritual judaico, pois este envelhecera e cumprira sua missão (cf. Hb 8,13). Observemos Hb 5,12: os que deviam ser mestres, precisam de que se lhes ensinem os rudimentos da fé crista; eram cristãos convertidos havia muito tempo; todavia pareciam crianças desanimadas (cf. principalmente Hb 10-12); eram também semelhantes a atletas que haviam corrido corajosamente no estádio, mas, já na reta finai, se sentiam prestes a desfalecer e entregar os pontos; perto de obter a coroa da vitória, estavam dispostos a jogar fora todos os esforços anteriores e capitular; faltava-lhes o fôlego para correr os 10% finais, depois de haverem superado tantos obstáculos!

Não é difícil indicar a data de origem de Hb. Se levamos em conta a situação dos destinatários, devemos colocá-la entre 64 e 66. Com efeito; 64 é o ano da perseguição decretada por Nero, e 66 é o ano em que começa a guerra dos judeus contra os romanos, guerra que acabaria em 70 com a destruição do templo de Jerusalém. Só enquanto o culto era celebrado normalmente em Jerusalém, podiam os judeu-cristãos sentir a tentação de aderir novamente a ele. Portanto admitimos a redação de Hb entre 64 e 66.

O lugar da redação de Hb fica sendo incerto. Terá sido escrita na Itália por causa da alusão aos “irmãos da Itália” em Hb 13,24?

Lição 3: A mensagem de Hb

A carta aos Hebreus é perpassada por uma linha central, a saber: o confronto entre a antiga e a nova Aliança.

3.1. Antiga e nova Aliança

O autor de Hb quer mostrar a superioridade da dispensação cristã da graça, comparada com a dispensação judaica. Daí as antíteses:

a) O Filho é superior aos anjos: Hb 1,5-14.

b) O Filho é superior a Moisés, pois Moisés não era mais do que um servidor fiel, ao passo que Cristo é o Senhor da Casa: Hb 3,1-6.

c) O sacerdócio de Cristo é mais agradável a Deus e mais útil aos homens do que o sacerdócio levítico; Hb7,1-28.

d) O sacrifício de Cristo é muito mais nobre do que os sacrifícios da antiga Aliança, pois Jesus se ofereceu ao Pai, em vez de oferecer vítimas irracionais: Hb 9,1-27.

e) A geração do deserto, que não entrou no repouso da terra prometida, prefigurava o novo povo chamado por Deus ao verdadeiro repouso ou à vida eterna: Hb 3,7-4,1 3.

f) O Sinai é a montanha na qual o Senhor deu a Moisés a Lei antiga em meio a fogo ardente, tempestade e temor. Ao contrário, Sion é o monte em que Jesus se entregou aos discípulos na última ceia em sinal do maior amor possível: Hb 1 2,1 8-29.

3.2. A figura de Cristo

A Cristologia de Hb já é bem elaborada; Cristo aí aparece nitidamente como Deus e homem.

Como Deus… Cristo preexistia à Encarnação, como Deus que era; cf. Hb 13,8. Em Hb 1,10-12 é aplicado a Cristo o Sl 101 (102), 26-28, que louva a Javé e opõe a imutabilidade de Deus à caducidade da criatura. Também merece a adoração dos anjos (1,6); é como o resplendor que procede da glória do Pai; é como a imagem que reproduz fielmente a substância do Pai (1,3).

Cristo é verdadeiro homem. Embora fosse Filho de Deus, convinha que o Salvador fosse em tudo e por tudo semelhante àqueles que haviam de ser salvos (2,10-15).

O episódio do horto das Oliveiras é recordado com muita vivacidade em Hb 5,7-10: está dito aí que Jesus foi atendido;… atendido não no sentido de que tenha sido dispensado do cálice, mas pelo fato de pedir, acima de tudo, que se fizesse a vontade do Pai; ora esta se cumpriu, dando a Jesus mais do que a isenção do cálice; o Pai o fez, através da Paixão e da morte, o Senhor da vida e da morte. – O autor também nos diz que, embora fosse Filho, Jesus aprendeu a obediência pelo sofrimento; há, pois, uma correlação entre sofrer e aprender, correlação que já os gregos exprimiam no trocadilho páthos-mâthos, sofrimento é escola.


Perguntas sobre a Epístola aos Hebreus

1) Explique o sentido de Hb 2,3 e compare com Gl 1,1s. 12. 16s. Que se segue daí a respeito do autor de Hb ?
2) Hb 6,4-8 quer dizer que há pecados sem perdão? Procure o sentido exato destes versículos.
3) É licito discutir a respeito do autor de um escrito bíblico? Explique.
4) Indique três textos de Hb em que apareça a crise de fé aos leitores.
5) Em que passagem o autor trata de sábado e repouso? Qual a sua mensagem ?
6) Onde é que o autor compara a Palavra de Deus a uma espada de doisgumes?
7) Onde Hb diz que Deus é o arquiteto e construtor da cidade definitiva?