Por Dom Henrique Soares da Costa

“Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles.
Soprava um vento forte e o mar estava agitado. Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco quilômetros, quando enxergaram Jesus, andando sobre as águas e aproximando-Se da barca. E ficaram com medo.
Mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenhais medo”. Quiseram, então, recolher Jesus na barca, mas imediatamente a barca chegou à margem para onde estavam indo” (Jo 6,16-21).

A tarde cai; a noite chega.
O mar é profundo, o vento é forte, o mar está agitado.
E lá vai a barca dos apóstolos, a barca da Igreja…
Como hoje, nestes dias de noite e agitação…

A noite, a fundura do mar, “e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles”. – Quando virá? Por que tarda? Por que parece que nem liga, nem Se importa?

Quantas vezes nos sentimos assim, quantas vezes a Igreja parece tão sozinha…
Escutamos, vemos, testemunhamos tantos problemas internos, tantas perseguições externas… E não sentimos Jesus; às vezes, a presença do Senhor não nos é perceptível…

Mas, tenhamos esta certeza:
Ele vem vindo sempre, vindo sempre ao nosso encontro, andando sobre as águas do mar da vida.
Ah! Esse nosso Jesus, esse Cristo nosso Deus!
As águas profundas dos tantos mares bravios da nossa existência neste mundo tanto nos amedrontam e ameaçam nos afogar, engolir a Igreja, tragar as marcas de Cristo…
E, no entanto, Ele, o Salvador nosso, caminha serenamente sobre essas grandes águas.
Ele não pode ser afogado pelas muitas águas,
Ele não soçobra jamais:
Ele é Deus, que domina o mar, que doma o orgulho das ondas impetuosas que avançam, ameaçando invadir a pobre barca dos apóstolos.

Às vezes, temos medo, pensando que Jesus está ausente, que está distante da Sua Igreja…
E que estranho, que fraqueza nossa: quando O vemos próximo, quando percebemos que Ele Se aproxima, temos medo, porque O confundimos com um fantasma – os nossos fantasmas, os fantasmas da vida.
Às vezes – pobres de nós! – percebemos Jesus tão irreal, tão etéreo.
E Ele é tão real, tão presente, tão concreto e atuante!

Sabe, Amigo?
Os medos que temos de Jesus é porque Ele vem de modo inesperado e em momentos inesperados. É preciso saber reconhecer o Senhor, é necessário aprender a discernir Suas vindas, Seus tempos, Seu modo de agir…

E Jesus – surpreendente Jesus! – exclama, majestoso, cheio de autoridade:
“Sou Eu! Não tenhais medo!” “Sou eu, Ego eimi!, Eu sou!”
Eis aqui: “Eu sou” é o modo com o qual o Deus santo de Israel apresentou-Se no Sinai.
Deus misterioso, Deus que Se revela escondendo-Se e, ao Se revelar, nos ultrapassa e surpreende de tal modo que Sua revelação é também escondimento.
Eu Sou! – eis o Seu Nome!
Ele É! Eis o que proclamamos!

Jesus é Deus,
Jesus é o Deus Santo de Israel,
o tão próximo e tão distante,
que nos ama tanto,
mas que nunca poderemos compreender totalmente, domesticar!

Por isso o misterioso dizer do Evangelho: querem recolher o Senhor na barca, mas não conseguem:
Ele estará sempre presente na Sua Igreja; nunca deveríamos ter medo das águas profundas ou do mar bravio ou do vento impetuoso.
Ele estará sempre conosco, sustentando-nos, apoiando-nos, guiando-nos;
mas jamais poderemos recolhê-Lo na barca,
jamais poderemos controlá-Lo, manipulá-Lo, compreendê-Lo totalmente.

Jesus nosso Deus e Senhor será sempre maior que a Igreja, sempre absolutamente soberano em relação a ela.
Nosso Salvador não tem obrigação de assinar nossos projetos,
de cumprir nossos prazos,
de ratificar nossos planos,
de sentir e pensar como nós!
Ah, que Ele não se converte a nós!
Nós é que devemos a Ele nos converter!

Ele é o Senhor;
nós, os discípulos, os servos, os seguidores…

Mas, uma coisa é certa: cada vez que reconhecemos o Senhor Jesus, a barca da Igreja, em certo sentido, chega ao porto, encontra segurança e aconchego… Até o dia em que atracará no Porto eterno, que é o Coração Dele, do Senhor nosso amado…