Capítulo XX

Unus assistens minisirorum dedit alapam Jesu – “Um dos quadrilheiros, que ali estava, deu uma bofetada em Jesus” (Jo 18, 22)

Acabava o nosso divino Salvador de ser apresentado a Caifás, que, como pontífice naquele ano, “lhe fez perguntas sobre seus discipulos e qual era a sua doutrina. Eu falei publicamente ao mundo, eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, aonde concorreram todos os judeus, e em oculto nada disse. Para que me perguntas? Pergunta àqueles que ouviram o que lhes falei: ei-los ai estão, sabem o que eu lhes ensinei”. Digna era esta resposta da sabedoria mesma que a proferira. Mas não obstante, um dos quadrilheiros que ali se achava, vira-se para Jesus e com insolência lhe diz: “Assim respondes ao pontífice?”. Dizendo isto lhe descarrega uma bofetada. Uma bofetada! Espíritos celestes, onde estais? Que fazeis, anjos Bem-aventurados! como podeis sofrer uma afronta destas ao vosso rei? Uma bofetada!!!

Severamente devia ser punido o oficial que tal trato dera a Jesus; mas o pontífice aprovou, ao menos por seu silencio, ação tão bruta. A um tal desacato parece que a terra devia entreabrir-se para abismar este malvado; parece que Jesus devia fazer sentir a este.insolente que ele era o seu Deus; mas não. Jesus, abrasá-lo sempre do desejo de nos provar o seu amor e nos deixar salutares exemplos, sofre com toda a paciência esta afronta e se responde é só para evitar o escândalo, mostrando que não faltara ao respeito ao pontífice.

Continuando Caifás no seu interrogatório perguntou a Jesus se verdadeiramente ele era o Filho de Deus.

“Eu sou, respondeu Jesus. Então o príncipe dos sacerdotes rasgou as seus vestidos, dizendo: Blasfemou; e todos os assistentes exclamaram: Sim, blasfemou, é réu de morte”

Quando os juízes pronunciaram esta iníqua sentença de morte, foi o nosso divino Salvador deixado à guarda da criadagem e quadrilheiros“, diz De Linig na Vida de Jesus Cristo. Estas almas venais teriam crido não servir bem aos seus senhores se se contentassem com o guardar, e julgaram que era para si um dever ultraja-lo. Começaram, pois, a cuspir-lhe no rosto, a fazer escárnio dele, ferindo-o. Vendaram-lhe os olhos e lhe davam na face e lhe perguntavam, dizendo:

“Profetiza-nos, Cristo, quem é que te feriu?”

“Nesta cena se passou o resto da noite, durante a qual Aquele a quem adoram os anjos, serviu de ludibrio a esta vil canalha. Na historia da paixão do Salvador não lemos que ele opusesse a tantos ultrajes uma só palavra, porque efetivamente ele não pronunciou nenhuma. Se nem sempre os Evangelistas no-lo dizem formalmente, asseguram-no-lo os profetas, e este milagre de paciência por ninguém é contradito. Mas o que mais ainda o faz sobressair, e que já aqui notaremos por tudo o que no curso de sua paixão o Salvador padeceu, é que não houve sofrimento que por ele não fosse sentido quanto podia sê-lo. Não falamos somente das suas dores corporais a que tão sensível o fazia a perfeita compleição do seu corpo; tudo o que o desprezo tem de humilhante, o que as decisões têm de insultante, o que as injurias têm de ultrajante, o que as afrontas que recebeu têm de revoltante, tudo ele sentiu até ao âmago da alma; esgotou-lhe toda a amargura, de tudo isto foi sobre todo o modo saturado, segundo o que dele estava escrito, que seria saciado de opróbrios. Por aqui se pode julgar o quanto teve que sofrer nesta noite, da qual a só recordação produz nas almas piedosas uma compaixão tão viva e lágrimas tão abundantes

Também São Jerônimo pensa que todas as penas e todos os insultos que Jesus sofreu nesta noite só no dia do juízo poderão ser conhecidos.
Ó meu Jesus! Quando por amor de mim vos vejo sofrer os mais indignos tratos, não tenho bem motivo de corar de vergonha, sentindo-me tão fraco ainda, tão covarde, tão pusilânime, quando se trata de sofrer por vós as mais pequenas afrontas, os mais leves insultos? Diante de vós tudo são resoluções, tudo propósitos de emenda; mas à primeira palavra, por pouco injuriosa, perturbo-me e reconheço que sou muito mais fraco do que pensava.

Ah! bom Jesus! a vós recorro; dignai-vos ensinar-me a receber com calma e até mesmo com alegria todas as injurias, contradições e mau trato de que eu possa ser alvo. Ensinai-me a nunca me defender com palavras duras e que respirem azedume, mas a vencer polo silencio os maus procederes dos outros para comigo; ou se a caridade me ordenar que fale, fazei-me a graça de eu responder aos meus adversários com uma doçura c mansidão capazes de os apaziguar e de lhes ganhar o coração. Ó meu Salvador! dai-me a paciência, a humildade, mas acima de tudo o vosso santo amor. Com vosso amor, ó Jesus! eu tudo o mais possuirei; não m’o recuseis pois, para que eu possa chegar a dizer-vos em toda a verdade: Meu Deus, eu vos amo.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Da Doçura

Falemos ainda hoje da doçura. Constitui-a essencialmente a paciência em suportar os desprezos e humilhações. A maior parte, diz São Francisco de Assis, faz consistir a sua santidade em recitar numerosas orações, em mortificar os sentidos, mas coisa de sofrer palavras ultrajantes, nem uma; não compreendem que de suportar uma afronta sem cólera vem mais mérito, do que se poderia tirar de dez dias de jejum a pão e água.

Três são as coisas, diz São Bernardo, que deve fazer por adquirir quem tende à santidade:

1. Não procurar dominar;
2. A sujeitar-se a todos da melhor vontade;
3. Suportar pacientemente as injurias.

Que te recusem por exemplo, meu caro Teótimo, o que aos outros concedem; que se escutem seus discursos, ao passo que os teus sejam acolhidos com escárnio; que tudo para os mais sejam elogios, honoríficos empregos, funções importantes, e para ti não haja mais que indiferença, olvido, injustiça e mofa; então sim, então é que verdadeiramente serás humilde de coração, se com serenidade e resignação receberes todas estas coisas, e deres por isso muitas graças a Nosso Senhor. O que tu deves fazer neste momento de luta interior é não te agastares nada e aceitares todos estes desprezos como a justa punição dos teus crimes. Muito mais merecia quem ofendeu a Deus; merecia até mesmo ser calcado aos pés dos demônios. Sobretudo, meu caro Teótimo, nunca te irrites quando te repreenderem de alguma falta ou defeito. Os soberbos, diz o B. Rodrigues, quando alguém os repreende, fazem como os ouriços cacheiros, que apenas alguém os toca, logo eriçam seus agudos dardos, isto é, enfurecem- se, todos se desfazem em queixumes, em exprobrações, em imprecações. Ao contrario, os humildes humilham-se mais, confessam suas fraquezas, bendizem quem os repreende e não se irritam. Ah! quem não pode sem se perturbar receber uma injuria mostra bem que está sob o império do orgulho. Meu caro Teótimo, afim de obteres estas duas virtudes da doçura e humildade, dize muitas vezes a Nosso Senhor:

“Ó Jesus, doce e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso!”

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 155-158)