Capítulo XII

Pertransiit benefaciendo – “Passou fazendo bem” (At 10, 38)

De modo algum pretendo eu apresentar à edificação das almas piedosas todos os lances de bondade que em sua vida ativa Jesus Cristo multiplicou; necessário para isso me fora copiar todo o Evangelho. Entreter-me em alguns, e fazer deles o assunto do presente capitulo, é só o meu intento.

I. O Leproso

Acabava Nosso Senhor de descer do monte em que ao povo dera admiráveis lições, e seguia-o uma grande multidão. Se não quando diante dele se apresenta um leproso, lança-se a seus pés e lhe diz:

“Se tu queres, Senhor, bem me podes a limpar”

Doeu-se Jesus deste pobre enfermo, e estendendo a mão tocou-o dizendo:

“Pois eu quero. Fica limpo”

Um outro leproso há como o do Evangelho, Senhor Jesus, que neste momento implorar vem vosso socorro; e esse leproso, eu sou. A minha lepra é toda espiritual, mas por isso mesmo tanto mais hedionda é, e até tenho vergonha de vo-la mostrar. São imperfeições, são as contínuas faltas veniais, são as tibiezas em vosso serviço, a lepra da minha alma. Dignai-vos, Jesus meu! Curar-me, para que minha pobre alma se torne pura e bella a vossos olhos, afim que vos sirva com um fervor sempre novo. Quando ao meu coração vierdes pela santa comunhão fazei-me ouvir estas palavras de tanta consolação:

“Meu filho, eu quero, fica limpo”

II. O Centurião

Um centurião tinha doente um servo a quem muito queria. Como tivesse ouvido falar de Jesus e da bondade com que curava os doentes, chegou-se a ele no momento em que entrava em Cafarnaum e lhe dirige esta suplica:

“Senhor, o meu criado jaz em casa doente de uma paralisia e padece muito com ela”

Nada mais lhe disse, mas muito era já isto para mover a compaixão do nosso bom Mestre, que logo, logo lhe responde:

“Consola-te, eu irei, e o curarei”

“Não, Senhor”, responde o humilde centurião, “não te fatigues; porque eu não sou digno de que entres em minha casa; mas dize tu só uma palavra e o meu criado será salvo”

Jesus louvou em presença de todos estas palavras cheias de fé, que a Igreja recolheu como a mais profunda expressão de humildade e disse ao centurião:

“Vai, e faça-se segundo tu creste”

E naquela mesma hora ficou são o criado.

Ó bom Jesus! como bem sabeis, a minha alma está tão doente, tão doente: uma ardente febre a consome e vai minando pouco a pouco; é queimada por um fogo secreto que nada o pode extinguir, é comprimida de uma imperiosa necessidade de amar e no amor das criaturas só acha misérias e dores. Bom Jesus, havei piedade dela! Vossas amabilidades infinitas a absorveram, e por vós suspira noite e dia; é muito indigna, sim, é muito indigna, mas ainda tem a doce esperança de que digais:

“Irei a tua casa, e curar-te-ei”

Oh! vinde, Senhor Jesus; ainda para eu gozar da vossa doce presença; vinde para eu vos amar quanto possível me for; vinde para eu vos abraçar de modo que não mais me torne a separar de vós; vinde, meu Deus, vinde porque sem vós não posso viver.

III. A Cananéia

“Passou um dia Jesus para as partes de Tiro e Sidonia; e eis que uma mulher Cananéia, que tinha saído daqueles confins, gritou, dizendo-lhe: ‘Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim, que está minha filha miseravelmente atormentada do demônio'”

Tocante suplica esta, e que nós mesmos frequentemente devemos repetir:

“Tende piedade de mim, Senhor, que a minha alma está cruelmente atormentada do demônio”

Mas Jesus não lhe respondeu palavra, e chegando-se seus discípulos, lhe pediam, dizendo:

“Concede-lhe o que ela pede, porque vem gritando atrás de nós”

A tão tocante suplica Jesus parece ficar insensível, nem resposta dá, nem mesmo os olhos volta para aquela que a tão grandes brados o invoca; a seu fervor opõe uma indiferença aparente bem mais capaz de fazer descoroçoar, do que uma recusa que fosse. Contudo esta aflita mãe não perde o animo; continua bradando e repetindo sem cessar:

“Senhor, Filho de David, tem piedade de mim”

Fatigados os apóstolos dos gritos desta mulher, ou tocados tal¬vez de sua constância e desdita, fazem-se seus intercessores, e aproximando-se de Jesus lhe pedem se renda ás suas instâncias e ouça seus votos, ou ceda ao menos ás suas importunidades, “porque, diziam, ela não cessa de gritar atrás de nós“. Mas ele respondendo lhes disse:

“Eu não fui enviado senão ás ovelhas que pereceram da casa de Israel”

Quando a Cananéia viu os apóstolos fazerem-se os seus intercessores para com Jesus, que tão doce esperança não concebeu! Com que atenção escutava a resposta do Salvador! Mas qual não foi a sua surpresa e dor ao ouvir pronunciar estas fulminantes palavras:

“Eu não fui enviado senão ás ovelhas perdidas da casa de Israel”

Mãe infeliz! Ouviste bem o que disse Jesus Cristo? Já não é pelo silencio que se explica, suas palavras são claras e precisas; que esperança te pode ainda ficar? Retira-te, vai chorar a tua sorte e a de tua filha; agora a tua única consolação são as lágrimas e o desespero… Ah! Para nós nem tanto fora preciso para que tomássemos tal determinação!… Mas não assim o julga a Cananéia; ante os obstáculos, a vivacidade dos seus desejos e da sua fé reanima-se; aparta o que a impede de chegar a Jesus e lança-se a seus pés; sem alcançar o que pede não o há de deixar.

Com mais instância que nunca renova a sua suplica e diz:

“Senhor, bem conheceis a minha angus¬tia, vedes a minha confiança, valei-me”

Ah! Que se nós soubéramos orar com uma fé destas, como um tal fervor e perseverança, não poderíamos obter tudo? E Jesus respondendo-lhe disse:

“Não é bom tomar o pão dos filhos e lança-lo aos cães”

Que resposta na boca do melhor dos mestres, do mais terno dos pais! Todavia Jesus, ao proferir estas palavras, consentia ainda a Cananéia a seus pés; para ela isto era o favor mais inestimável, e ela o tinha já pelo mais seguro penhor do milagre que solicitava. Os termos de Jesus Cristo em nada a ofenderam; não os achou desabridos, que a verdadeira humildade de nada se enfada. Reconheceu que lhe quadravam e neles descobriu mesmo um motivo que podia pro- pôr-lhe para ser ouvida.

Nos caminhos de Deus nada há mais cego que o orgulho, nada mais penetrante do que a humilda¬de. Talvez ela até compreendesse desde logo, que sob expressões em aparência tão duras lhe franqueava entrada e lhe fornecia meio seguro de o desarmar. Com efeito a graça deste Deus Salvador derramando a unção no coração que parecia querer ferir, lhe fornece uma favorável ocasião, lança mão dela a humilde Cananéia:

“Assim é, Senhor, lhe diz, não é justo dar aos cães o pão dos filhos, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos; as migalhas que escapam aos filhos ninguém lhas proíbe. Ora este é o meu estado, esta’ a minha situação, este todo o objeto das minhas suplicas. Sobre os filhos de Abraão derramai profusamente as vossas enchentes de graças, eu para mim não aspiro mais que a algum desperdício ou sobra desses favores”

Como uma tal resposta não deveu agradar ao Coração de Jesus! Ah! Que se nós bem conhecêramos este divino Coração, como o não amaríamos! Como nele não depositaríamos toda a nossa confiança! Só a humildade é quem no-lo pode fazer conhecer. Ir-me-ei pois lançar aos pés do meu Salvador em sua casa, e lá lhe pedirei a salvação da minha alma.

E que ele não me escute, elevarei a minha voz; que me repila, perseverarei; que me exprobre os meus crimes e perfídias, direi com ele ; que me diga que o paraíso não é para os pecadores como eu, responder-lhe-ei: Assim é, Senhor, mas vós viestes chamar os pecadores, curar os doentes, livrar os possessos, santificar e salvar os que em vós creem, quem em vós só confiam, que vosso socorro imploram e esperam. Este é o meu estado, esta a minha situação, este o objeto das minhas suplicas. Lá os vossos favores prodigalizai-os ás almas fiéis que os merecem, eu por mim não aspiro a benefícios tão grandes. Contudo depois de saciar os filhos da casa, não vos ficarão algumas migalhas que queirais repartir comigo?…

Então Jesus Cristo Senhor Nosso lhe disse deste modo:

“Ó mulher, grande é a tua fé”

O divino Salvador, que consolação não foi para esse Coração poder assim louvar a fé desta mulher, que vós mesmo puséreis a tão rudes provas! E tu, ó mulher! Que dita a tua em te veres assim louvar por Aquele que conhece o fundo dos corações! Bem julgavas tu dele, quando de nada te deixaste amedrontar, nem temeste ser importuna ou indiscreta… Ah! Não se dá outro tanto comigo, a mim tudo me mete medo, cedo à mínima dificuldade; à mínima secura que experimente logo perco o animo.

“Faça-se contigo como queres”

E desde aquela hora ficou sã a sua filha… Desejava o livramento de sua filha, e sua filha é no mesmo instante livre… A nossa vontade é ordinariamente a medida das graças que o Senhor nos faz… A primeira condição de uma oração santa, a que as mais das vezes nos falta, é o querermos sinceramente o que pedimos.

Meu doce Salvador, meu amigo, meu terno irmão, vinde, eu vo-lo suplico, em socorro da minha profunda miséria. Estou devorado do desejo de vos amar e sinto não poder amar-vos sem a ajuda da vossa graça. Ah ! Jesus, dai-me o vosso amor ; desprendei o meu coração das riquezas, dos prazeres, das honras, de tudo o que não sois vós. Ai ! tudo neste mundo passa ; só vós não passais, ó meu Deus ! amo-vos pois sempre, sempre!

IV. A mulher adultera

“Os escribas e os fariseus trouxeram a Jesus, que ensinava no templo, uma mulher que fora apanhada em adultério, e a puseram no meio, e lhe disseram: ‘Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério. E Moisés na lei mandou-nos apedrejar a estas tais. Que dizes tu logo?'”

Diziam pois isto os Judeus tentando-o para o puderem acusar. Com isto, diz Santo Agostinho, como que armavam um duplo laço à sabedoria do Salva¬dor; se a condenava à morte, perdia a reputação de bondade e doçura que gozava; se a deixava ir livre, dava lugar à calunia e passava por inimigo da lei. Nestes apuros que havia de fazer o nosso bom Mestre? Não diz: “Deem-lhe a morte”; tão pouco diz: “Deixem-na ir”; mas como conhecia os desígnios dos seus inimigos e não queria corresponder-lhes, fez primeiro o que é costume fazer-se quando se quer iludir uma questão importuna ou especiosa, parece fazermo-nos desentendidos, e ter o espírito ocupado com outras coisas. Neste intuito é que Jesus, “abaixando-se pôs-se a escrever com o dedo na terra”. Não o compreenderam seus inimigos ou então quiseram forçar a resposta, que, julgavam eles, daria pasto ás suas calunias, cuja confusão procurava sua bondade fugir.

Persistindo eles em interroga-lo, levantou-se e lhes disse:

“O que de vós outros está sem pecado seja o primeiro que a apedreje. E tornando a abaixar-se, escrevia na terra””

Para os escribas e fariseus estas palavras foram como um raio; pareceu- lhes que elas acabavam de pôr à mostra todos os crimes de suas consciências impuras; “logo deram pressa em se retirar um a um, sendo os mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio em pé”. Ficou só esta pobre mulher com Jesus, ou como Santo Agostinho explica, restou só o doente com o medico, a profunda miséria com a soberana misericórdia. Oh! Que vergonha e temor seria o desta mulher! pois se ela ainda não sabia quão compassivo e misericordioso era aquele em cuja presença se achava! Mas vai já sabê-lo; porque “erguendo-se Jesus, e olhando para ela com bondade, disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Então disse Jesus; Nem eu tão pouco te condenarei; vai, e não queiras pecar mais.

Ah! Bom Jesus! Tão compassivo para com as nossas misérias; Jesus que com tanta misericórdia perdoais; qual é o coração que recusará amar-vos? Eu por mim, ó meu Salvador, só a vós quero prender-me, a vós só quero servir e amar de todas as minhas forças. Recebei-me em o numero dessas almas queridas a quem de preferência prodigalizais as vossas graças, e fazei que vos seja fiel até ao meu ultimo suspiro.

V. Os meninos abençoados por Jesus

Um dia estava Jesus ocupado a dar a seus discípulos lições da mais alta importância, quando lhe foram apresentados vários meninos, para lhes impor as mãos, e fazer oração por eles. Estes meninos, divisando no rosto do divino Mestre um não sei que de doce e afetuoso que roubava os corações, chegavam-se a ele sem temor e com esse abandono que caracteriza aquela idade.

E os discípulos os repeliam com palavras ásperas”, como temendo não viessem importunar a Jesus. Bem mal conheciam ainda este bom Mestre! “Porém Jesus, chamando a si os meninos, disse: Deixai vir a mim os meninos e não lho embaraceis; porque dos tais é o reino de Deus”, e dos que a eles se assemelham, pela simplicidade, pela inocência e pela obediência.

“Em verdade vos digo, todo o que não receber o reino de Deus, como um menino, não entrará nele”

Depois de ter dado de passagem esta lição a seus apóstolos e a todos os cristãos na pessoa deles, fez aproximar os meninos que ali estavam, “e abraçando-os, e pondo sobre eles as mãos, os abençoava”. Bem-aventurados meninos! Esta bênção de Jesus devia ser para vós a fonte de muitas graças.

VI. O cego de Jericó

“Sucedeu porém, que quando Jesus ia chegando a Jericó, estava sentado à borda da estrada um cego pedindo esmola. E ouvindo o tropel da gente que passava, perguntou que era aquilo. E responderam-lhe que era Jesus Nazareno que passava”

Jesus era conhecido de todo o país: os pobres e aflitos sabiam já qual era a sua compaixão para com eles; do seu poder ninguém duvidava, e este mesmo cego por sem duvida havia de saber que Jesus curara em particular muitos cegos.

Quando pois ouviu dizer que era Jesus Nazareno que passava, que alegria não sentiu logo ! Compreendeu que esta era para ele uma ocasião única que cumpria não deixar passar, e assim, cheio de confiança, “se pôs a bradar, dizendo: Jesus, Filho de David, tem de mim piedade”. Como não soubesse o momento em que precisamente pasmava Jesus Cristo, não havia cessar de exclamar, e repetir a sua humilde prece, e implorar a misericórdia daquele que sabia era tão bom e compassivo.

“E os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém ela cada vez gritava mais: Filho de David, tem de mim piedade”

Se eles não tinham a necessidade nem a confiança do desditoso que solicita um milagre! mas o pobre cego fez-se surdo a todas as advertências, e então é que ainda mais gritava.

“Então Jesus parando, mandou que lho trouxessem. E quando ele chegou, fez-lhe esta pergunta: Que queres que te faça?”

Muito bem sabia Jesus o que desejava o pobre cego; mas tinha suas razões para lhe fazer tal pergunta. Uma mãe, diz o Padre de Ligury, na Vida de Jesus Cristo, perfeitamente conhece as necessidades de seu filho, quer não obstante que lhas declare. E isto não é somente para que ele reconheça a sua autoridade; é também por gostar de o ver a balbuciar o seus desejos, e a testemunhar-lhe sua confiança; é para também excitar e nutrir o seu reconhecimento pela facilidade com que mostra condescender ás suas vontades. Ama e quer ser amada; estes são os seus motivos, que bem assim são os de Deus, quando exige lhe exponhamos nossas necessidades que melhor que nós ele conhece. E ele respondeu:

“Senhor, fazei que eu veja”

E Jesus então lhe diz, com essa poderosa autoridade que maravilhosamente obedecia á bondade do seu coração:

“Vê, a tua fé te salvou”

E logo imediatamente viu, e o foi seguindo engrandecendo a Deus.

VII. Jesus chora sobre Jerusalém

“Avizinhava-se Nosso Senhor um dia de Jerusalém, e ao ver a cidade chorou sobre ela”

Jesus a chorar! Oh! Que imponente e solene é ver um Deus a derramar lágrimas!

A causa destas lágrimas era bem digna de um coração como o seu. Jerusalém devia ser exterminada,. e exterminada por causa dos seus crimes, aos quais ia dar remate pelo maior de todos. Uma vez manchada no sangue do seu Messias, a rainha das cidades não devia ser mais que um montão de cinzas ensopada no sangue de seus cidadãos. Dentro em breves dias ia ser perpetrado este atentado, e o castigo só alguns anos seria deferido; e ambas estas coisas não estavam menos presentes ao Salvador do que se atualmente as estivesse vendo. E para um Deus salvador que espetáculo este! e com que profunda amargura lhe fez dirigir a esta infeliz cidade estas tristes e patéticas palavras:

“Ah! se ao menos neste dia, que agora te foi dado, conhecesses ainda tu o que te pode trazer a paz, mas por ora tudo isto está encoberto aos teus olhos. Porque virá um tempo funesto para ti, no qual os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te porão em aperto de todas as partes; e te derrubarão por terra a ti e a teus filhos que estão dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra; porquanto não conheceste o tempo da tua visitação”

Ainda um outro motivo bem forte tinha Jesus para derramar lágrimas; ele pensava em todos nós pessoalmente, e nas calamidades de Jerusalém via a desdita das afinas que perecem. Virá, exclama, um tempo funesto para ti, em que teus inimigos te cercarão de trincheiras; de todas as partes te cercarão e apertarão. A Jerusalém assim aconteceu ponto por ponto; de todos é sabido os espantosos trabalhos que os romanos fizeram, e essa muralha que em volta da cidade elevaram e cada vez mais os comprimia; o que causou essa horrorosa fome em que as mães chegavam a comer os seus filhos. E assim há de também acontecer à alma pecadora, apertada de todos os lados por seus maus hábitos, nem graça nem pão da vida nela poderão já penetrar; morrerá à fome, sucumbirá ao peso dos pecados e não ficará mais pedra sobre pedra. Triste estado desta alma: universal destruição de todo o edifício interior! Nem razão, nem parte superior, nada, nada de espírito, é tudo embrutecido, é tudo corpo, é tudo sentidos; tudo completamente é lançado por terra.

Que é dessa bela arquitetura que patenteava a mão do Onipotente? Já nada existe; já nada está pedra sobre pedra; não há ordem nem conexão nesta alma, nenhuma peça está unida à outra, é tudo uma desordem universal. Porque? foi tirado o principio; Deus, sem temor, a consciência, essas primeiras impressões que fazem sentir à criatura racional que há um soberano; e destruído este fundamento que podia ficar em pé?… A este tão triste espetáculo Jesus não pode conter as lágrimas: “Se tu soubesses, ó alma, se tu soubesses!…“. Não pode acabar, sufocam-lhe a fala os soluços, sua língua não pode exprimir a cegueira desta alma. Se tu soubesses! ao menos neste dia que ainda te é dado e em que Deus te visita por sua graça. Deus sabe o dia depois do qual já não haverá recursos para a alma, “porquanto, diz Jesus, não conheceste o tempo da tua visitação”. Quando uma luz interior te mostra os teus crimes, quando és incitado a dar gloria a Deus, quando tudo em ti brada que toda te deves dar a ele, como nesse dia da visitação de Jerusalém os mesmos meninos aclamavam o Filho de David; se tu não escutas, o momento vai-se, e esta graça tão viva e tão forte não voltará…

“Tudo está encoberto a teus olhos”

O teu coração fica entorpecido; fechados e obscurecidos os olhos; cegam-te as paixões; negro véu pesa sobre as tuas pálpebras, mortal letargio as agrava. Ó alma; Jesus chora e tu não choras! Chora, chora, espiritual Jerusalém; chora a tua perda, ao menos hoje, Tioje que o Senhor te visita de um modo tão admirável. Se até aqui foste insensível à tua própria ruína, chora hoje e vi¬verás. Não percas este momento de graça, porque não sabes se será o ultimo que Deus te concede (Bossuet).

VIII. Jesus ressuscita Lázaro

“Estava pois enfermo um homem chamado Lázaro que era da aldeia de Betânia, onde assistiam Maria e Martha suas irmãs. Mandaram pois suas irmãs dizer a Jesus: Senhor, eis ai está enfermo aquele que tu amas”

Excelente maneira de orar! diz Bossuet com os santos Padres; sem nada pedir expõem-se ao amante a necessidade do amigo. Oremos nós também assim; acabemos de persuadir-nos de que Jesus nos ama; apresentemo-nos a ele como doentes, sem nada pedir, sem nada dizer. Oremos assim por nós mesmos, oremos assim pelos outros. É esta uma maneira de orar das mais excelentes… Muitas vezes disseram a Jesus no seu Evangelho:

“Vem, Senhor, e cura, impõe as tuas mãos e toca o enfermo”

Aqui diz-se simplesmente:

“Aquele que tu amas está enfermo”

Jesus compreende a voz da necessidade, e tanto mais, quanto neste modo de orar há um não sei que de mais submisso, mais respeitoso e mais terno até. Como esta oração é tão amável! Pratiquemo-la principalmente para as doenças da nossa alma.

“E ouvindo isto Jesus, disse-lhes: Esta enfermidade não se encaminha a morrer, mas a dar gloria a Deus, para o Filho de Deus ser glorificado por ela”

Lázaro sempre morreu desta doença, mas o que o Salvados queria dizer era que a morte seria vencida e o Filho de Deus glorificado por esta virtude.

“Ora Jesus amava Martha, sua irmã Maria e Lázaro”

Um coração tão terno e sensível como o de Jesus necessariamente devia ter amigos, tinha poucos, mas esses que tinha eram bons, virtuosos e caritativos. Tomemos a Jesus por modelo das nossas amizades — Jesus partiu com os seus apóstolos; “chegou enfim e achou que Lázaro estava na sepultura havia já quatro dias“. Estava pois Betânia em distancia de Jerusalém, perto de quinze estádios. E muitos dos Judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para as consolarem na morte de seu irmão. Martha pois tanto que ouviu que vinha Jesus, saiu a recebe-lo: e Maria ficou em casa. Disse então Martha a Jesus:

“Senhor, se tu houveras estado aqui, não morrera meu irmão”

É a suplica de uma amiga ao seu amigo cujo poder e bondade conhece. Não, Senhor, “se tu houveras estado aqui, não morrera meu irmão”; com uma só palavra vossa tê-lo-íeis curado. É tal vossa bondade que não tivéreis coração de o deixar morrer à vossa vista, tal é o vosso poder que have-lo-ieis preservado da morte. Mas vós quisestes estar ausente. Bem que ausente podíeis cura-lo; se não quisestes, vós sois o Senhor; submetemo-nos ás vossas ordens, e por mais rigorosas que sejam, não diminuirão jamais nem o nosso amor para convosco nem a confiança que em vós temos.

“Mas também sei agora que tudo o que pedires a Deus, Deus t’o concederá”

Tendes todo o poder, não só para prevenir a morte, mas ainda para lhe arrebatar a presa que já tem entre mãos.

“Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir. Disse-lhe Martha: Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição que haverá no ultimo dia”

Duvidar que Jesus o possa ainda agora ressuscitar não duvida, há se por indigna de tal graça. Disse-lhe Jesus:

“Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá: e todo o que vive e crê em mim não morrerá eterna¬mente”

Ó palavra cheia de consolação! eu que atualmente gozo da vida, porque temo a morte? Pois que creio em Jesus Cristo (e nele creio de todo o meu coração) não morrerei. Este corpo fraco e enfermo deixá-lo-ei sim, mas é para um dia o tornar impassível e glorioso; e apenas sair do corpo, enquanto esse dia não chega, continuarei a viver, não farei mais que mudar de habitação, e em lugar de viver na terra nó meio de crimes que a inundam, irei mas é viver com Jesus no céu no seio da sua gloria. Importa bem meditar esta verdade para nos confortamos contra o temor da morte que tão violento é nalguns homens que quase perdem o espírito ao anunciar-lhe a vizinhança da morte; é a experiência que o confirma. Grande necessidade temos pois de nos munirmos contra este temor, o que se alcança meditando principalmente nas promessas do Evangelho contra a morte e dando com viva fé o nosso coração à vida que esperamos. E depois de ter ouvido de Jesus estas palavras, “retirou-se Mar- tha e foi chamar em segredo a sua irmã Maria, a quem disse:

“É chegado o Mestre e ele te chama”

Que nova para Maria!

“Ela como ouviu isto, levantou-se logo e foi busca-lo”

Em nossas aflições, em nossas penas Jesus nos falia no intimo do coração, chama-nos, convida-nos a ir a ele e a procurar só nele a nossa consolação. Imitemos a presteza e diligencia de Maria; deixemos os homens para ir derramar o nosso coração e as nossas lágrimas aos pés de Jesus. – Maria porém depois de chegar aonde Jesus estava, tanto que o viu, lançou-se a seus pés e disse-lhe como sua irmã, com tanta confiança e resignação e com mais ternura ainda:

“Senhor, se tu houveras estado aqui não morrera meu irmão”

Apenas pronunciara estas palavras, derreteu-se logo em lágrimas, de sorte que seus soluços e gemidos não a deixaram dizer mais. Chora, terna Maria, chora aos pés do teu Salvador e ante seus olhos.

Ah! Não são consoladores essas lágrimas! Ah! Não são tão diferentes das que derramastes a sós contigo ou em presença dos que te vieram visitar! Pois se tu agora choras aos pés do teu Mestres!… Deles é que outrora escutavas a sua voz, é de lá que ele ouve os teus gemidos. Ah! Quem me dera a mim também chorar aos pés do meu Salvador, chorar os meus pecados, deplorar a minha miséria! Oh! E porque não hei de eu levar aos pés do meu divino Salvador todas as minhas dores e aflições? Se em mim mesmo as rotenho e me ponho a pensar nelas não faço mais que agrava-las; se as levo aos homens, não me podem consolar; o mais que podem fazer com os seus discursos aduladores é sobrecarregarem a minha mágoa em vez de m’a aliviar. Vós só, ó meu Jesus! Vós só sois o consolador que minha pobre alma deseja. Vós me chamais e mandais ir; vou pois a vós. Não me impedis que chore, e minhas lágrimas assim derramadas em vossa presença ao pé da vossa cruz correm com mais doçura, e bem depressa o vosso amor, à vista dos vossos sofrimentos curam a chaga da minha alma, acalmam a minha dor, adoçam meus tormentos e fazem-me que os ame. Em todos os apertos da minha vida sereis pois o meu recurso, a minha esperança, a minha consolação.

— “Jesus porém tanto que viu chorar os Judeus que tinham vindo com ela, bramiu em seu espírito e turbou-se a si mesmo, e perguntou: Onde o pusestes vós? Responderam-lhe eles: Senhor, vem e vê. Então chorou Jesus”

Onde estão esses falsos sábios que querem sejamos insensíveis? Tal não é a sabedoria de Jesus que assim derrama lágrimas pela morte do seu amigo. Chorais, ó divino Jesus ! ó coração terno e compassivo! chorais um amigo morto para me ensinar que se numa semelhante ocasião nos é imposta a submissão, as lágrimas também nos não são proibidas. Chorais para adoçar as nossas lágrimas, para as santificar, para fazer secar a sua fonte. Chorais por todos nós, que em tão grande numero nos precipitamos na morte eterna. Ah! Bom Jesus, vós a chorardes os meus pecados, e eu ficar insensível! Tal dureza não permitais, meu Senhor; aplicai-me o mérito das vossas lágrimas, e excitem elas as minhas.

— “O que foi causa de dizerem os Judeus: Vejam como ele o amava”

Sejais louvado, ó Senhor Jesus, por tão patentemente vos haverdes dignado mostrar a ternura que tendes para com vossos amigos.

Seja-nos permitido imita-la e amar a vosso exemplo; os corações duros e insensíveis não são os que vos agradam. Regulai porém as nossas amizades, santificai-as, sede o seu modelo. Fazei que nunca adulemos os nossos amigos, fazei que, como vós, corrijamos com doçura e prudência os seus fervores inconsiderados, e todas as mais faltas; fazei que em nossos amigos, amemos como vós o bom e o sólido.

“Jesus pois tornando a bramir em si mesmo, veio ao sepulcro, e era este uma gruta; e em cima dela se havia posto uma tampa. Disse Jesus: irai a tampa. Respondeu-lhe Martha, irmã, do defunto : Senhor, ele já cheira mal, porque é já de quatro dias”

A morte apareceu então no que tem de mais horrendo. Lázaro, morto, amortalhado, enterrado, pútrido e cheirando mal, teme-se levantar a tampa com receio de que infecte o lugar e a pessoa de Jesus. E’ um espetáculo horrível; Jesus estremece, Jesus chora. Na morte de Lázaro, seu amigo, deplora o comum suplício dos homens, vê a natureza humana criada da imortalidade e condenada à morte por seu pecado. É amigo de todo o gênero humano e vem restabelece-lo; começa por deplorar a sua queda, por estremecer e abalar-se veementemente à vista do seu suplício. O que mais horrível acha na morte é o ela ter sido causada pelo pecado; e é mais o pecado que a mesma morte o que lhe causa este tremor, esta perturbação, estas lágrimas. À medida que do túmulo se aproxima, novo tremor se apodera dele. Ao ver esta medonha caverna, onde jaz a morte, dir-se-ia não haver já remédio a um tão grande mal; seriamos tentados a acreditar que Jesus não tem que dar a um mal tão grande, mais que lágrimas e um horror que o faz tremer ; mas sua bondade e poder vão brilhar e breve dentre os braços da morte sairá Lázaro.

— “Tiraram pois a tampa ; e Jesus levantando os olhos ao céu disse: Pai, eu te dou graças, porque me tens ouvido ; eu pois bem sabia que tu sempre me ouves, mas falei assim por atender a este povo que está à roda de mim, para que eles creiam que tu me enviaste. Tendo dito estas palavras, bradou, em alta voz: Lázaro, sai para fora. E no mesmo instante saiu o que estivera morto”.

Em a narração da ressurreição de Lázaro, estendi-me um pouco porque nesta circunstância o Evangelho nos apresenta o nosso bom Mestre a conversar com amigos que ele honrava de sua intimidade, a partilhar suas penas, a empregar todo o seu poder para os aliviar.

Bem doce e consolador é ver assim o nosso Deus sensível ás nossas misérias e sempre pronto a curar nossos males. Impossível me parece que se possa meditar este passo da vida de Nosso Senhor, bem como a historia de santa Maria Madalena de que no seguinte capitulo tratarei, sem se sentir todo abrasado de amor por um Deus que tão terno, tão misericordioso, tão compassivo é. Ah! Se conhecêramos a Jesus! Se meditássemos as mais pequenas circunstanciais da sua vida mortal, esforçar-nos-íamos a ama-lo de todo o nosso coração, e bradaríamos com São Paulo:

“Se algum não ama a Nosso Senhor Jesus Cristo seja anátema”

(1)

Senhor meu Deus, por vosso nome e por vossa gloria incendiai-me, eu vos conjuro, abrasai-me o coração nas chamas do vosso amor. Oh ! não viva eu senão para amar-vos! Não viva senão para chorar o mal que fiz em ofender-vos e tão tarde vos amar. Nada são as riquezas, nada os prazeres, nada as honras, nada os louvores; vosso amor, ó meu Jesus, vosso amor! Eis o que o meu coração busca, eis porque ele almeja, o que ele pede! Vosso amor e cruzes, vosso amor e trabalhos, vosso amor e cumprimento da vossa santa vontade, este é o meu único contentamento, a minha única satisfação nesta vida.

Tende de mim piedade, Senhor, e dai-me o que me falta. Conheceis as minhas necessidades, a vós me abandono sempre. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Não se pode Servir a Dois Senhores

Até quando claudicareis vós para duas partes? Ninguém pode servir a dois senhores.

Todos sabem que para salvar-se é preciso servir e amar a Deus, mas do seu serviço e amor queriam tirar o que neles há de oneroso e só deixar o que há de agradável. Queriam servi-lo com a condição (de somente lhe dar palavras e cerimônias, e ainda estas a muito custa e enfado. Queriam ama-lo, mas sob condição de juntamente com ele ou ainda mais amarem todas essas vaidades mundanas que ele não ama, antes condena. Queriam ama-lo, mas com a condição de que em nada diminuíram esse seu amor próprio que vai até à idolatria, que em lugar de nos referir a Deus, como a nosso Criador, faz refiramos Deus a nós e só o procuremos como um refugio que nos console quando as criaturas nos deixem. Que¬riam servi-lo e ama-lo, mas com a condição de ser permitido ter vergonha do seu amor, encobri-lo com uma fraqueza, envergonhar-se dele como de um senhor cujo serviço nos desonra, não lhe dar enfim senão um certo exterior de religião para evitar o escândalo e viver à mercê do mundo para nada dar a Deus sem permissão do mesmo mundo! Ó céu! Então é este o amor que Jesus nos teve! Meu caro Teótimo, aprende a amar a Deus verdadeiramente e como ele quer ser amado. Amar a Deus, é ter horror ao pecado, é observar fielmente a sua santa lei é não ter outra vontade que não seja a sua. Amar a Deus é amar o que Jesus Cristo amou, a castidade, as humilhações, os sofrimentos; é aborrecer o que Jesus Cristo aborreceu, o mundo, a vaidade, as nossas paixões. Poder-se-á crer que amamos a um Deus com quem não nos queremos parecer? Amar a Deus é entreter-se gostosamente com ele, é desejar ir a ele, é suspirar e consumir-se após ele. Oh! Falso amor que se lhe não dá de ver quem ama! Hoje e sempre pede a Deus a graça deste santo amor, dizendo:

“Senhor, que eu vos ame, e por obras vos prove o meu amor!”

Observações:
1. Uma grande parte dos pensamentos e sentimentos desta oitava narração tomei-os de Bossuet e do Evangelho meditado.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 81-100)