Jesus aos judeus: "Quem de vós poderá acusar-me de pecado?" (Jo 8, 46)

Jesus aos judeus: “Quem de vós poderá acusar-me de pecado?” (Jo 8, 46)

A vida de Nosso Senhor Jesus Cristo foi a santidade encarnada, a tal ponto que seus inimigos os mais terríveis não lhe puderam exprobar um só defeito. Ele perguntou de fronte erguida a seus inimigos: “Quem de vós me arguirá de pecado?” (Jo 8, 46). E todos lhe escutaram a pergunta sem dizer uma palavra.

É natural que a Igreja, que teve um santo Fundador, também seja santa. É natural que se deva aplicar, palavra por palavra, à verdadeira Igreja de Cristo, o elogio entusiasta pronunciado por São Paulo a respeito da Igreja:

“Cristo amou a Igreja e entregou-se a si próprio por ela, afim de santifica-la depois de havê-la purificado na agua batismal, para fazê-la surgir diante de si, gloriosa, sem macula, sem ruga, sem anda de semelhantes, porém santa e imaculada” (Ef 5, 25-27).

Consoante as palavras do apóstolo, a Igreja de Cristo deve ser “santa”. Eis-nos, pois, em presença da questão: saber se as palavras de São Paulo convém à Igreja Católica. Na nossa última instrução ocupamo-nos da primeira marca da verdadeira Igreja de Cristo: a unidade. Nesta agora, estudaremos a segunda, e perguntaremos:

Temos o direito de dizer que na nossa Igreja se acha também a segunda marca: a “santidade”? Temos o direito de chamar a base da nossa religião simplesmente de “a Igreja”, porém de “a santa Igreja”?

Daremos três respostas a esta questão.

Chamamos a nossa Igreja de santa Igreja porque:

  1. Seu ideal moral é santo;
  2. Os meios com que ela nos ajuda a atingir esse ideal são santos;,/a>
  3. Sempre houve e haverá santos entre seus membros.

1. O ideal moral da Igreja é Santo

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48), disse Nosso Senhor, e o fito único da Igreja Católica é ajudar os homens a cumprirem esse mandamento de Cristo.

A) Examinemos se não é o mais alto ideal de santidade de vida que a Igreja ensina e exige.

Que exige a Igreja Católica?

Uma vida moral pura. Uma responsabilidade pessoal para todos os nossos pensamentos, palavras, ações. Uma vida eterna merecida por uma vida terrena, vivida honestamente. A subordinação de todos os interesses terrenos à vida eterna. O refreamento das paixões dentro do quadro das leis divinas. O respeito do matrimônio, da mulher, dos filhos. O trabalho, e a fidelidade ao dever. O sentimento da própria responsabilidade, a obediência, o respeito da autoridade… e assim por diante. Estas expressões não cerram o ideal moral mais elevado?

b) E que ousadia – por assim dizer – que audácia manifesta a Igreja Católica sobre esse ponto! Como ela persiste imperturbável e sem transigências ao lado das leis penosas do ideal moral cristão! Suporta por causa disso, a censura de ser “atrasada”; e por essa mesma razão enfrenta a impopularidade. Ousa não ser moderna. Nosso Senhor Jesus Cristo não permite a ruptura dum casamento válido, – e hoje em dia só a Igreja Católica ousa proclamá-lo com firmeza perfeita. Ela ousa defender a vida do filho que ainda não nasceu, a pureza da vida conjugal; e a onda das teorias em moda não a faz renunciar a essa doutrina.

B) Que é que dá força à Igreja para isso? A consciência da sua missão. A consciência de que hoje em dia ela ainda tem a mesma tarefa que sempre teve, há dezenove séculos: santificar a humanidade. Isto, e não outra coisa.

a) A Igreja não tem, pois, por escopo ensinar as ciências, proteger as artes, construir escolas, traçar um programa econômico… Sem duvida, ela também faz isto; mas fá-lo somente para chegar ao seu escopo principal, aquilo que o primeiro papa proclamou no dia do primeiro Pentecostes na praça de Jerusalém: fazei penitência, fugi do meio desta geração perversa, e recebei o Espírito Santo. Numa palavra: Tornai-vos santos!

b) Tornar-se santo – que sublime pensamento! Mas como a humanidade atual recusa compreendê-lo! O mundo atual não tem um minuto de descanso no seu trabalho sem trégua: descobertas, técnica, indústria, comercio, trabalho incessante… Deus vê e ouve esse trabalho enervante e febril. E, no entanto… – não vos admireis do que vos vou dizer – no entanto Deus afastaria de Si, como um vaso partido, a terra inteira, se um dia não mais se achassem nela santos.

Porque é para eles que a terra existe. A terra, com efeito, não existe para que nela circulem automóveis, nem para que nela passe trens, nem para que nela trepidem maquinas, nem para que ressoem os apitos do progresso. Não. A terra existe para que nela vivam santos. Eis porque existe o mundo.

Mas como se pode afirmar semelhante coisa? Como? É a Sagrada Escritura que o afirma. É o desígnio de Deus, que o homem se torne um santo. “O que Deus quer é a vossa santificação” (1 Ts 4, 3).

O fim da redenção é restabelecer o estado em que o homem se achava antes da queda. Antes da queda, o homem estava em estado de graça, vivia na sociedade de Deus; logo, era santo. Fazer novamente do homem um santo – eis o fim da Igreja, eis a tarefa imensa que nos aguarda. “Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12), diz São João a respeito do Verbo Encarnado. Mas tornar-se filho de Deus é tornar-se santo. Por isto chamamos santa a nossa Igreja, porque ela quer realizar isso em nós.

C) De que a Igreja Católica seja realmente santa, temos ainda outro sinal interessante. Observai quais são os que deixam a Igreja Católica, quais são os que apostatam. E quais são os que vêm para a Igreja Católica, os que se convertem?

Quem são os que a deixam? Os melhores, os mais santos? Absolutamente não. São justamente os indivíduos levianos: os que não se subordinam à santidade da Igreja, os que – como direi? – não admitem que, depois de se divorciarem uma ou duas vezes, não possam mais tornar a casar-se. A maioria das vezes, por despeito ou bravata, abandonam eles a religião católica, porque ela recusa casá-los uma segunda ou terceira vez.

b) E vede os que vêm com entusiasmo para a Igreja, e solicitam sua admissão. São porventura as almas vazias, frívolas? De modo algum. São justamente as almas mais preciosas, aquelas a quem a divina Providência não fizera a graça de nascerem na religião católica, mas que, procurando uma piedade e uma vida interior mais profundas, estudaram, escrutaram com ansiedade, até acharem finalmente a verdadeira e santa religião de Cristo. Essas vêm, porque sentem que aqui se acha a marca da verdadeira Igreja de Cristo: o ideal da santidade.

2. Os meios empregados pela Igreja Católica são Santos

Eis-nos, porém, em presença de outra questão. Não basta pregar o ideal moral, é preciso ainda ajudar o homem a atingi-lo. E é aqui que vemos de novo que só a Igreja Católica dispõe dos meios que conduzem à santidade.

A) O primeiro meio com que a Igreja ajuda o homem a atingir o ideal moral, é o pensamento das recompensas e dos castigos divinos.

A Igreja ensina que a vontade de Deus é pôr em vigor a ordem moral no mundo. Aquele que trabalha para o triunfo das leis morais – seja na sua própria vida, seja na alheia – é realmente colaborador de Deus, e receberá dEle a recompensa do seu trabalho: a felicidade eterna. Pelo contrário, aquele que viola a lei moral, desafia a Deus e receberá dEle o castigo merecido. Quem não vê quanta força moral, quanta força de resistência, que ardor no combate, decorrem das lutas continuas para atingir esse ideal, e dessa santa convicção de que essas lutas se travam por Deus, para o cumprimento da Sua vontade, para a nossa própria felicidade eterna?

B) Mas para levarmos mais facilmente a bom termo essa luta, temos os sacramentos da Igreja.

Os 7 Sacramentos

Os 7 Sacramentos

Alguns não compreendem os sacramentos; não sabem que pensar deles… “Para que os sacramentos? – perguntam. Então Cristo não nos remiu? São acaso os sacramentos que nos redimem?”.

Não, não são os sacramentos. É evidente que é Cristo. Mas já vistes, com certeza, jardineiros irrigarem os seus terrenos. Há só uma bica no jardim, porém grande numero de sulcos e de regos pelos quais a agua fresca e viva dessa única fonte chega a cada uma das plantas. Pois bem! A única fonte do jardim da vida moral cristã, é a fonte que jorra do sacrifício do Gólgota; mas, para que a sua força vivificadora chegue a cada alma humana, os sacramentos servem de canais. Que são, pois, os sacramentos? Os canais que transmitem a cada alma os méritos redentores de Cristo. Eles nos trazem os merecimentos da redenção; e a força da graça que deles irradia torna a alma católica mais bela e mais capaz de vencer.

Como mais bela? Como mais capaz de vencer? Há poucos dias, recebi na fé dos seus avós uma jovem de dezenove anos. Antes havia ela terminado os estudos, e obtivera permissão de fazer-se católica. Era de ver a alegria que lhe brilhava nos olhos quando ela fez a sua primeira confissão! Seu semblante brilhava como as velas da arvore de Natal. Alguns dias mais tarde, apresentou-se-me um estudante do terceiro ano de direito: também queria voltar à fé dos seus antepassados, também aguardava com impaciência o dia em que poderia confessar-se pela primeira vez.

Oh! Sim, é santa a nossa igreja, pois são santos os meios de que dispõe. Assim como exteriormente Cristo aparecia como um homem, posto que fosse Deus na realidade, assim também a Igreja exteriormente só aparece como uma série de milhões de homens, posto que em realidade seja a sociedade dos homens misteriosamente unidos ao Homem-Deus, o corpo místico de Cristo que há dezenove séculos faz brotar as flores perfumadas da santidade.

Não há pena capaz de descrever dignamente os cimos elevados do heroísmo moral a que chegaram, sob a direção da Igreja, multidões de homens, lutando contra a sua natureza frágil e inclinada ao pecado, e de onde mostraram ao mundo o prodígio mais surpreendente: o tipo da santidade. E aqui chegamos à terceira marca da santidade da nossa Igreja.

3. Há Santos entre os membros da Igreja Católica

A) Antes de tudo, cumpre termos uma ideia clara deste fato: uma religião que quer englobar todos os grupos da humanidade, nas profundezas da sua alma, religião tal não pode prescindir dos píncaros eminentes da grandeza humana e do heroísmo moral.

a) Na terra há toda espécie de paisagens: há jardinzinhos tranquilos, há prados em flor, há florestas povoadas de aves, há planícies que se estendem até o horizonte, – e para além de tudo isso elevam-se cadeias de montanhas com seus píncaros que se erguem nas nuvens, com seus lagos profundos, com suas gargantas escarpadas, e das alturas espalha-se, sobre toda a terra, o sopro fresco e vivificante. O mesmo sucede na nossa santa religião: os diversos tipos humanos entendem-se muito bem mutuamente: o homem que leva vida tranquila, o homem que anda pelos prados floridos, o homem que luta com a monotonia da vida quotidiana… Mas, ao lado desses homens eram precisos também “santos”, isto é, homens que seguem o mesmo caminho de cada dia, com outra alma, com outro êxito, e junto aos quais nos refugiamos quando, no ambiente poeirento da luta diária, nossa pobre alma se sente oprimida.

b) Sabeis o que são os santos? São os heróis da imitação de Cristo que saíram das planícies, das gargantas e dos pantanais do pecado por sacrifícios heroicos, para atingirem as alturas puras duma vida cristã ideal.

Os santos são os heróis da força de vontade.

De todos os lados ouve-se a queixa de que os homens não têm bastante força de vontade… “Eu quereria não pecar – gemem uns infelizes – mas não tenho força de vontade. Por isso não posso resistir, não posso renunciar ao pecado”. Lamentações quotidianas das criaturas fracas, que se arrastam pelas planícies da vida.

E agora levantemos os olhos para um santo, como para um rochedo que se ergue até o céu. Um maravilhoso fervor, uma ufania e uma emoção se derramam sobre nós cada vez que nos aparece ante os olhos d’alma a admirável galeria dos santos. Que valores! Que belezas! Que sacrifícios sobre-humanos! Quanta caridade, quanta força, quanta abnegação! Os únicos homens que realmente nunca serão esquecidos. Os únicos homens que abençoaremos sempre! Os únicos homens que são realmente os verdadeiros benfeitores da humanidade. Homens que não descobriram nem os gases asfixiantes nem a metralhadora, homens que não atiçaram os ódios nem espezinharam os seus inferiores, mas que extinguiram os ódios, inclinaram-se para os pobres, lavaram as chagas aos doentes, e podem dizer com o livro de Jó: “Eu era os olhos do cego e os pés do coxo. Era o pai dos pobres!” (Jó 24, 15-16). Não foram eles que descobriram a lâmpada elétrica, e, no entanto, na sua passagem a vida tornou-se mais luminosa. Não foram eles que inventaram o aeroplano, e todavia eles transportaram a humanidade para as alturas. Não foram eles que descobriram o rádio, e todavia, à sua voz, os homens se compreenderam melhor, e se aproximaram mutuamente.

B) Ora, neste momento eu não penso em primeiro lugar nos santos cuja vida moral heroica é manifesta, e que a Igreja canonizou, proclamou santos.

a) Não é nesses santos que penso neste momento. Ah! Quem poderia falar deles dignamente? Mártires que derramaram seu sangue para selar a sua fé. Virgens que, em meio às ruínas dum mundo corrompido, souberam permanecer esposas de Cristo. Santos ermitães que abandonaram fortuna, carreira, família, por Cristo. Penitentes, religiosas que tratam dos doentes; monges que favorecem a civilização, as ciências e as artes; missionários que arriscam a vida.

Não, não falo de todos esses santos atualmente, – porque a santidade da sua vida é bem conhecida.

b) Mas falo desses que não foram canonizados, desses cujos nomes ninguém conhece, salvo Deus que tudo sabe, mas que foram e ainda são hoje em dia – neste mundo às avessas – mil e mil vezes mais numerosos do que julgamos. Falo desses santos que vivem no meio de nós ainda hoje, nas lavanderias, nas lojas, nos escritórios, nas fabricas, nas famílias; falo dos santos filhos, das santas esposas, das santas mães, dos santos pais de família, que lutam heroicamente contra a natureza humana decaída, e contra as tentações dos costumes modernos corrompidos; cujas almas, cujas mãos, cujos corações são puros; esses que cumprem, com mudo heroísmo, os deveres da vida quotidiana e suportam, na sua fidelidade para com Deus, o martírio incruento, porem real, da vida.

Nas ruas, nas praças publicas, nos cinemas e nos teatros, em toda parte o pecado clama por nós, e contudo podemos dizer com orgulho e alegria que hoje ainda, no meio da atmosfera deletéria das grandes cidades, vivem santos, heróis. Mais, muito mais do que imaginais.

Sim, ainda hoje há santos; os confessores poderiam falar deles a perder de fôlego, se lhes não fosse ordenado calar-se. O mundo atual não é totalmente mau. Somente, a maldade clama sempre mais forte do que a bondade, e as flores da beladona e do meimendro são sempre mais belas do que as violetinhas de doce perfume.

Meus irmãos, minh’alma de sacerdote, a quem foi permitido penetrar em milhares e milhares de jovens almas, pode afirmar-vos que à volta de nós, mesmo no meio da sordidez ambiente, e do pestilento pântano moral atual, numerosos jovens e numerosos adultos andam de coração puro e com alvura imaculada, preservados das seduções do vicio, pela educação e pelos sacramentos da Santa Igreja. Como os primeiros cristãos, que andavam de fronte erguida pelas ruas de Roma pecadora, da Grécia, da Ásia, os santos de hoje circulam vitoriosamente em torno de nós. E quando estamos cheios de amargura por causa da maldade dos homens, e quase desesperamos da sorte futura da humanidade, esses santos dão-nos esperança, consolo e otimismo. E se o mundo pecador é abominável, por causa deles, dos santos, Deus não o destruirá. E quando por todos os lados enxergamos o poder das trevas e o triunfo do pecado, consola-nos a legião dos santos vitoriosos das trevas e do mal. E se a história do passado, e a vida atual, são cheias de falta de consciência, de crueldade, de egoísmo e de dureza, os santos desconhecidos, que vivem hoje em dia, os heróis vitoriosos da consciência, da caridade, da solicitude, da delicadeza e da compaixão, consolam-nos e edificam-nos.

C) Chego agora, a esta grande lição: Não critiquemos, não nos escandalizemos por causa desse “mundo mau”, mas – trabalhemos. Trabalhemos por tornar mais belo o semblante da Igreja. Cada vez mais belo, cada vez mais fresco, cada vez mais santo.

Meus irmãos. Somos a Igreja… Eu, vós, nós todos… E quanto mais bela for nossa alma, quanto mais santa for a nossa vida, tanto mais bela e santa será também a nossa Igreja. E quanto mais santa for a nossa igreja, tanto mais belo brilhará o santo semblante de Cristo, tanto mais fortemente atrairá a si a alma humana.

O homem moderno tentou fazer esta oração: Creio no dinheiro, no ouro. Creio na maquina, na técnica. Creio na força do canhão e da metralhadora. Creio na diplomacia… Nos acordos econômicos… Nas conferencias internacionais… Hoje, vemos que tudo isso era uma fé sem fundamento, uma esperança cega.

Tentemos, pois, fazer de novo esta oração: Creio em Deus. Creio no Espirito Santo. Creio na santa Igreja Católica. É assim que rezarei. E trabalharei em minha alma para que tudo isso se realize sempre com maior intensidade. Que a minha Igreja seja santa: cada vez mais santa, pela santidade de minha vida.

São Josemaria Escrivá

São Josemaria Escrivá

***

Meus irmãos, tratamos, nesta instrução, da santidade da Igreja Católica. Poderíamos terminá-la mais dignamente do que descrevendo uma canonização? Essa cerimônia sem exemplo, a mais sublime e mais emocionante que o mundo conhece?!

Já horas antes do inicio da cerimônia, uma multidão imensa dirige-se para São Pedro de Roma. A enorme basílica abre suas portas a milhares de pessoas. O ar fica cheio de rumor da assistência impaciente. De repente faz-se o silencio: abre-se a porta do lado do Vaticano e avista-se o papa.

O que se passa então, a pena é incapaz de descrevê-lo. De milhares e milhares de bocas saem as exclamações: Evviva il Papa! Vive le Pape! Hoch der Papst! Eljen a Papa! E por cima da multidão que aplaude e agita os lenços, aparece, qual uma arca, a “sedia gestatória” em que está sentado o Sumo Pontífice. Distingue-se-lhe no semblante uma santa emoção, quando ele se aproxima do altar para depositar ali o entusiasmo, a gratidão e o amor de todos aqueles fiéis, ao pé dAquele a quem pertence toda gloria: aos pés de Cristo Eucarístico.

Talvez haja quem abane a cabeça com frieza ouvindo esta descrição, e diga: “Isso não se concebe mais na nossa época”. Mas quem se acha pessoalmente naquela multidão não tem tempo de se entregar a essas reflexões, é arrebatado por aquela cena sublime e emocionante. Todos os países, todos os povos, todas as classes sociais, leigos, padres, religiosas, bispos, ajoelham-se em torno do sucessor de São Pedro, e sobre as suas cabeças, por cima das colunas de mármore branco da mais bela igreja do mundo, ergue-se, a uma altura vertiginosa, a cúpula de Miguel Ângelo, onde estão escritas em letras de ouro as palavras da promessa de Cristo: “Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam”; e, na basílica banhada num oceano de luz, ressoam como um canto celeste os sons do coro… sim, naquele instante pode-se dizer do fundo da alma, com emoção: “Creio na santa Igreja Católica”.

Homens choram como crianças. Pessoas pertencentes a outras religiões exclamam: “Agora sei o que é a Igreja Católica”. E milhares e milhares dizem baixinho com fervor: “Senhor, agradeço-vos por ser católico”.

Padres e leigos de todos os povos, de todas as nações, de todas as condições, rodeiam o sucessor de São Pedro. E acima da Igreja reunida erguem-se as colunas de mármore branco, os arcos sublimes que se reúnem numa cúpula de altura vertiginosa – eis aí a santa Igreja educadora de santidade.

Como poderia eu não te amar, santa Igreja Católica, que tornas santo aquele que a ti se entrega?

Ensinas a criança inocente a juntar as mãozinhas para a oração.

Comunicas força ao jovem que luta, em mio às paixões da sua idade.

Manténs o vigor, a perseverança, a consciência, ao homem que se encontra no meio as mil tentações da vida.

Dás ás mães o espírito de generosidade e de sacrifício.

Santificas os nossos primeiros passos no mundo, estendes tua mão protetora sobre a nossa existência, fechas-nos os olhos que se apagam, e plantas sobre nossos túmulos a cruz da ressurreição: uma, santa Igreja Católica! Amém.

(Toth, Mons. Tihamer. A Igreja Católica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942, p. 30-42)