Meditação para a Quinta-feira da 4ª Semana do Advento. Sua vida de méritos

Meditação para a Quinta-feira da 4ª Semana do Advento

Sumário

Concluiremos as nossas meditações a respeito da vida do Verbo Encarnado no seio de Maria, considerando:

1.° Os merecimentos que Ele adquiriu durante nove meses;

2.° A parte que se digna conceder-nos nos Seus merecimentos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De pôr a nossa confiança nos merecimentos de Jesus Cristo, e de combater, por esta consideração, qualquer pensamento de desanimação e de desconfiança;

2.° De tornar as nossas obras meritórias, oferecendo-as a Deus e unindo-as às obras semelhantes de Jesus Cristo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmo:

Em vós, Senhor, é que esperei: não permitais que jamais seja eu confundido – In te, Domine, speravi; non confundar in aeternum (Sl 30, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos o Verbo Encarnado no seio de Maria, acumulando merecimentos, na Sua qualidade de sacerdote e de vítima, e fazendo de todas estas riquezas espirituais imenso tesouro, a que recorrerão todas as gerações até ao fim dos séculos: ele imita o bom pai de família, que junta muitos bens para os seus queridos filhos. Glorifiquemo-lO por tantas riquezas; louvemo-lO por se dignar fazer-nos participantes delas, e convidemos os anjos e os santos a agradecer-lhe conosco (1).

PRIMEIRO PONTO

Merecimentos imensos, que acumula, durante nove meses,
o Verbo Encarnado no seio de Maria

Tudo concorria para aumentar infinitamente os merecimentos do Menino Deus. no seio de sua Mãe: de um lado, o Seu espírito era esclarecido pelas mais puras luzes, e a Sua vontade tendia para o bem com toda a Sua energia; de outro lado, a Sua humildade, elevada pela graça à mais sublime santidade, era unida hipostaticamente à santidade incriada; e a Sua alma; ainda que no estado glorioso, era capaz de sofrer em um corpo passível e mortal. Com tanta aptidão para alcançar merecimentos, e em condições tão favoráveis, o Verbo Encarnado não perde um só instante: começa a ter merecimentos, logo que começa a viver; continua com incessante ardor a tê-los sempre mais; e assim como de todas as Suas obras nenhuma havia que não fosse infinitamente santa, assim também nenhuma havia que não fosse meritória. Adquire merecimentos na Sua oração, no Seu repouso, e até no Seu sono; adquire-os por cada bom pensamento, cada piedoso sentimento ou bom desejo; e esta vida de merecimento não foi mais do que o preludio dos merecimentos que continuou a acumular desde o Seu nascimento até à Sua morte, e em todos os momentos de Sua existência, alcançando por tudo isto a salvação para o mundo, o céu para os escolhidos, a graça para todos. Na presença de tantos méritos, lastimemos tantas ocasiões de os adquirir que temos deixado escapar, tantos atos que temos praticado sem reflexão ou com intuitos puramente naturais, tanto tempo perdido, tantas graças deixadas sem fruto; e proponhamo-nos reparar todas estas perdas:

1.° Aproveitando de ora em diante todas as ocasiões de adquirir merecimento, e não recusando a Deus qualquer sacrifício pequeno ou grande, que a Sua graça nos pedir;

2.° Praticando todas as nossas obras por amor;

3.° Sofrendo voluntariamente todas as tribulações;

4.° Não esperdiçando nunca o tempo.

SEGUNDO PONTO

Parte que Jesus Cristo nos concede
em todos os Seus merecimentos

Todos os merecimentos acumulados por Jesus Cristo nos pertencem; transmite-no-los como uma herança ou um patrimônio: porque os bens do Pai de família são o patrimônio dos filhos, e diz-nos a todos o que dizia a seu Pai:

Todas as minhas cousas são vossas, e todas as vossas cousas são minhas –  Mea omnia tua sunt (Jo 17, 10).

Em verdade vos digo: se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, isto ó em nome dos meus merecimentos, vo-la dará – Amen, amen dico vobis: si quid petteritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (Jo 16, 23)

É pela virtude destes merecimentos previstos, que a Santíssima Virgem foi preservada do pecado original e concebida sem mácula; que os santos do Antigo Testamento receberam todas as suas graças; é pela virtude destes merecimentos adquiridos que os santos da Nova Aliança foram e são ainda todos os dias santificados, que a Igreja triunfa de tantas provações, e que toda a sociedade recebe tantas graças. Podemos recorrer, quando nos aprouver, a esse tesouro inexaurível: a oração é a chave que o abre a todos; os sacramentos são o canal pelo qual este oceano imenso derrama nas almas as suas riquezas espirituais. Se confiamos em nós, que nada valemos e podemos, continuaremos na nossa pobreza e miséria; mas se confiarmos em Jesus Cristo, e Lhe dissermos com humildade:

«Senhor, eu não Vos peço senão uma gota do Vosso sangue, uma lágrima dos Vossos olhos, um suspiro do Vosso coração; serei rico, se Vos dignardes aplicar-me o Seu merecimento»

A nossa confiança não será frustrada nem na vida nem na morte, e seremos salvos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Gratias Deo super inenarrabili dono ejus (2Cor 9, 15)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 109-112)