Ressurreição Final - Sermões de Bossuet

III. Sermão da Ressurreição Final – Dia de Finados

SUMÁRIO

Exordio. A morte é obra do pecado e do demônio. Jesus Cristo, destruindo o pecado, triunfa da morte.

Proposição, divisão. Nós devemos concorrer para a operação da graça que nos ressuscita pela palavra, pelo corpo e pelo espírito de Jesus Cristo.

1.° Ponto — Dirigem-se duas palavras aos mortos, porque há duas partes no homem e ambas têm a sua morte: assim como o corpo morre quando perde a sua alma, assim o espírito morre quando perde o seu Deus. Deus há de reconstituir o corpo que serviu a alma e há de reuni-los tomo o requer a sua sabedoria.

2.° Ponto — O corpo de Jesus Cristo é o modelo, o penhor e o princípio da ressurreição do nosso corpo.

3.° Ponto — O Espírito Santo habita em nossas almas. Há como que um sagrado enlace entre o nosso espírito e o espírito de Deus. Nesta união o corpo acompanha a alma como sendo uma parte do seu dote. O espírito que ressuscitou Jesus Cristo há de ressuscitar-nos também.

Peroração — Desprendamo-nos da vida, da saúde e da vaidade, e morreremos sem aflição para ressuscitar com glória.

Novissima inimica destruetur mors
O último inimigo a ser destruído há de ser a morte (1 Cor 15, 26)

Quando for volvida a ordem dos séculos e os mistérios de Deus consumados e as Suas promessas cumpridas e o Seu Evangelho anunciado por toda a terra; quando o numero dos nossos irmãos estiver preenchido, isto é, quando a santa sociedade dos escolhidos estiver completa, e o corpo místico do Filho de Deus composto de todos os Seus membros e as celestes legiões, em que a deserção dos anjos rebeldes fez vagar tantos lugares, inteiramente restabelecidas por esta nova recruta; então será tempo, ó Cristãos, de destruir completamente a morte, e de a relegar para sempre para os infernos donde saiu: Et infernus et mors missi sunt in stagnum ignis (Ap 20, 14), como está escrito no Apocalipse. Está escrito que «Deus não fez a morte, (Sb 1, 13), mas que ela é que entrou no mundo por inveja do demônio» (Sb 2, 24), e pelo pecado do homem. Porque o homem, consentindo no pecado, sujeitou-se à morte; do mesmo modo, contra a intenção do Criador, o homem, que tinha saído imortal das suas santas e divinas mãos, tornou-se mortal e frágil pela malicia do demônio.

Mas, quando o Salvador vier à terra para desfazer a obra do demônio, há de destruir primeiramente o pecado; e depois, por uma consequência necessária duma vitória tão ilustre e tão gloriosa, abolirá também o poder e o império da morte. É por isso que o Apóstolo exclama: «Ó morte, onde está a tua vitória?» – Ubi est, mors, victoria tua? (1 Cor 15, 55). Mas é preciso aqui notar que, enquanto houver na terra algum vestígio do pecado, a morte não deixará de destruir tudo e há de exercitar sempre no gênero humano o seu duro e tirânico poder (Var.: A sua insuportável tirania). Na consumação dos séculos, porém, depois de ser destruído na terra o reino do pecado, e ser dissipada toda a pompa (glória) do mundo, e finalmente depois de ser consumido tudo o que se eleva contra a glória (ciência) de Deus, é que Jesus Cristo há de então acometer a Sua última inimiga, que é a morte; e, tirando-lhe todos os Seus filhos das mãos, liberta-los-á para sempre dessa cruel, dura e insuportável tirania: (Liberta-los-á para sempre da sua tirania. Novissima inimica destruetur).

Ainda que este triunfo de Jesus Cristo sobre a morte só se realize no fim dos séculos, ele começa desde a vida presente; e no meio deste século de corrupção, prepara-se a obra da nossa imortalidade. Que devemos fazer para concorrer à operação da graça que nos ressuscita? A Escritura propõe-nos três princípios de ressurreição: a palavra de Jesus Cristo, o corpo de Jesus Cristo e o espírito de Jesus Cristo. A palavra de Jesus Cristo: Venit hora in qua omnes qui sunt in monumentis audient vocem Filii Dei (Jo 5, 28). O corpo de Jesus Cristo: Qui manducat meam carnem habet vitam aeternam, et ego resuscitabo eum in novissimo die. {Jo 6, 55). O espírito de Jesus Cristo: Quod si spiritus ejus qui suscitavit Jesum a mortuis habitat in vobis, qui suscitavit Jesum a mortuis vivificabit et mortalia corpora vestra propter inhabitantem Spiritum ejus in vobis (Rm 8, 11). O que nos pede esta palavra? O que devemos a este corpo? O que exige de nós este espirito.

PRIMEIRO PONTO

Nós vemos no Evangelho duas palavras do Filho de Deus que são dirigidas aos mortos, uma no fim dos séculos e outra durante o curso do século presente. Escutai o que ele diz no capítulo 5 de São João:

Amen, amen dico vobis, quia venit hora, et nunc est, quando mortui audient vocem Filii Dei, et qui audierint, vivent (Jo 5, 25.).

«Chega o momento, e ei-lo agora»

Notai que esta palavra não se refere à consumação dos séculos. Ele primeiro diz que os mortos hão de ouvir a voz do Filho de Deus: «O que ouvir a minha palavra e crer no que me enviou», transiet de morte ad vitam (Do grego: Transivit). Mas ainda aqui há outra palavra (Var.: No julgamento): «Chega o momento»; e já não diz: «Ei-lo agora», «porque todos os mortos hão de ouvir a sua voz, e os que praticaram o bem sairão para a ressurreição da vida, e os que praticaram o mal, para a ressurreição da condenação» (Jo 5, 24. 28-29). São estas, portanto, as duas palavras dirigidas aos mortos, porque há duas espécies de mortes, ou, para melhor dizer, há duas partes no homem, e ambas têm a sua morte.

«A alma, diz Santo Agostinho (Serm. CCLXXIII, n.° 1), é a vida do corpo, e Deus é a vida da alma»

Assim como o corpo morre quando perde a sua alma, assim o espírito morre quando perde o seu Deus. Esta morte não nos impressiona, porque não é sensível; e todavia, Cristãos, se soubéssemos penetrar no conhecimento das coisas, esta morte dos nossos corpos, que nos parece tão cruel, bastava para nos fazer compreender quão mais terrível é o pecado. Porque, se é uma grande desventura perder o corpo a sua alma, quanto maior não é perder a alma o seu Deus? E se nos sentimos horrorizados ao ver este corpo frio e insensível, caído por terra, sem energia e sem movimento, quão mais horrível não é contemplar a alma racional, cadáver espiritual e túmulo vivo de si própria, que, ao ser separada de Deus pelo pecado, já não tem vida nem sentimento a não ser para eternizar a sua morte? É, portanto, a estes mortos espirituais, é às almas pecadoras que Jesus Cristo dirige a Sua voz para as chamar à penitência: Venit hora, et nunc est.

E se me perguntardes porque é que ele dirige ainda no fim dos séculos uma segunda palavra aos mortos que jazem nos túmulos, eu vo-lo direi finalmente, pois demais o sei eu. A alma pecou pelo ministério e até de algum modo pela instigação do corpo, e por isso é justo que ela seja punida com o seu cúmplice. A alma também se serviu, nas boas obras, do ministério do corpo que ela cuidou em dominar, a fim de que os nossos membros, como diz o Apóstolo (Rm 6, 19), servissem à justiça divina e suportassem o glorioso jugo de Jesus Cristo e do Evangelho. Por consequência, este corpo, que participou de todos os labores, também deve ser chamado como um companheiro fiel à sociedade da glória.

Ou se quisésseis que vos desse uma razão mais sublime e mais digna ainda da majestade do Salvador, era justo que o Filho de Deus depois de tomar corpo e alma e de unir inteiramente o homem à Sua divina pessoa, fizesse sentir o Seu poder ao corpo e a alma, e submetesse completamente o homem à autoridade do Seu tribunal. É por isso que, depois de ter falado aos mortos espirituais para lhes ressuscitar as almas, fala no fim dos séculos aos mortos que jazem nos sepulcros, para os fazer sair de lá e lhes restituir a vida (Var.: Para lhes ressuscitar os corpos). Et qui audierint, vivent.

Quando, pois, chegar esta hora derradeira, em que Deus resolveu acordar os escolhidos do seu sono, baixará uma voz do céu e da própria boca do Filho de Deus, que ordenará aos mortos que ressuscitem:

«Ossos áridos, ossos secos, ouvi a palavra do Senhor» – Ossa arida, audite verbum Domini (Ez 37, 4)

Ao som desta voz omnipotente que num momento se fará ouvir do oriente ao ocidente, e do setentrião ao meio-dia, os corpos jacentes, os ossos secos, a cinza e o pó frios e insensíveis abalar-se-ão no vácuo dos seus túmulos; toda a natureza começará a agitar-se; e o mar e a terra e os abismos preparar-se-ão para entregar os seus mortos que se julgava tivessem sido tragados como verdadeiras presas, mas que apenas foram recebidos como um depósito para serem entregues fielmente à primeira ordem. Porque, meus irmãos, «Jesus, que ama os seus, e os ama até ao fim» (Jo 13, 1), terá cuidado em juntar de todas as partes do mundo os seus restos sempre preciosos para Ele. Não vos admireis de tão grande efeito; pois dele se escreveu, que «sustenta todo o universo pela sua palavra eficacíssima» (Hb 1, 3). Toda a vasta extensão da terra e as profundezas dos mares e toda a imensidade do mundo, não são mais que um ponto para Ele. Com o Seu dedo sustenta os fundamentos da terra, o universo inteiro está ao Seu alcance. E Ele, que muito bem soube achar os nossos corpos no próprio nada donde os tirou pela Sua palavra, não os deixará escapar ao Seu poder no meio das Suas criaturas. Porque esta matéria dos nossos corpos nem por isso lhe deixa de pertencer por ter mudado de nome e de forma; portanto Ele bem saberá juntar os restos dispersos dos nossos corpos, que sempre lhe são caros, porque uma vez os uniu a uma alma que representa a Sua imagem e que Ele encheu com a Sua graça, e são uns restos preciosos que estão sempre guardados pela Sua mão poderosa em algum canto do universo onde a lei das transformações os arremessou. E, quando a violência da morte os tivesse reduzido ao nada, Deus nem por isso os teria perdido. Porque «ele chama o que não existe com a mesma facilidade com que chama aquilo que existe» – Vocans ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt (Rm 4, 17). E Tertuliano tem razão em dizer que «tanto lhe pertence o nada como tudo» – ejus est nihilum ipsum, cujus totum (Apolog., nº 48).

Depois de ter assim restabelecido os corpos dos seus predestinados numa integridade perfeita, reuni-los-á às suas almas santas e eles voltarão à vida. Em seguida, abençoará esta união, para não mais se dissolver, e torná-los-á imortais. E fará com que esta união seja tão íntima que os corpos hão de participar das honras de que gozam as almas e, por consequência, vê-los-emos gloriosos. Tais são os magníficos presentes que Jesus Cristo fará neste dia aos Seus escolhidos pelo poder da Sua palavra. Fá-los-á sair dos túmulos para lhes dar a vida, a imortalidade e a glória; e a morte deixará de existir, e serão abolidos todos os sinais de corrupção: Novissima inimica destruetur mors. Ó poder de Jesus Cristo! Ó morte gloriosamente vencida! Ó ruínas do gênero humano divinamente reparadas!

Mas, irmãos meus, antes da morte ser aniquilada, é necessário que o pecado seja destruído, porque é pelo pecado que a morte tem reinado na terra. Lembrai-vos, pois, meus irmãos, do que dissemos no princípio, que não foi Deus quem fez a morte; pelo contrário, assim como Ele criou a alma racional para habitar no corpo humano, assim queria no princípio que a Sua união fosse indissolúvel; e é talvez neste sentido que se deve tomar esta palavra do Salmista:

Corpus autem aptasti mihi (Sl 39, 1; Hb 10, 5): «Vós haveis-me adaptado um corpo»

Era como se ele próprio dissesse ao Criador: Ó Senhor, Vós fizestes-me a alma duma natureza bem diferente do corpo, porque depois de terdes feito este corpo de lama, isto é, dum barro amassado, não foi do barro, nem da água, nem da mistura duma coisa com outra, nem finalmente de parte alguma da matéria, que haveis tirado a alma que juntastes a esta massa para a vivificar. Foi de Vós mesmo, foi da Vossa boca que a fizestes sair; destes um sopro de vida, e o homem ficou animado, não pela disposição dos órgãos, nem pelo temperamento das qualidades, nem pela distribuição dos espíritos vitais, mas por um outro princípio de vitalidade que Deus tirou do Seu próprio seio por meio duma nova criação, (Var.: operação), inteira-mente diferente da que saiu do nada e que formou a matéria (1).

E se esta teologia vos não enfada, direi ainda, Cristãos, que Deus fizera esta alma duma natureza imortal; porque, pondo de parte as outras razões que nos mostram esta verdade, basta considerar a que nos dá a Escritura Sagrada, e é que Deus a fez à Sua imagem e que ela participa da vida de Deus. Vive em certo modo como Ele, porque vive de razão e de inteligência, e Deus tornou-a susceptível de O amar e de O conhecer, como Ele próprio Se ama e Se conhece. Ora, sendo feita à Sua imagem e estando ligada racionalmente à Sua imortal verdade, a Sua existência não deriva da matéria nem ela está sujeita às suas leis; de maneira que não morre, seja qual for a alteração que sofra, nem pode voltar ao nada, a não ser que aquele que a tirou de lá e a fez à Sua imagem, a chame a si, como sendo princípio seu, abra as mãos de repente e a deixe cair no abismo.

Todavia, como ela está na última ordem das substâncias inteligentes, é nela que se fará a união entre os espíritos e os corpos. Deus fez substâncias separadas dos corpos, porque Ele pode fazê-las em diversos graus, isto é, mais ou menos perfeitas; de maneira que, se formos descendo na escala da imperfeição, poderemos enfim chegar a alguma substância, que seja tão imperfeita, que se encontre de algum modo nos confins dos corpos e seja de natureza a poder unir-se a eles. Continuando a descer gradualmente do perfeito para o imperfeito, chega-se sucessivamente aos extremos, onde, como nos confins, o superior e o inferior se juntam e se tocam. Porque eu creio que se pode compreender facilmente que tudo se acha disposto na natureza gradualmente, e que o primeiro princípio gera a existência e assim se vai propagando a pouco e pouco. Portanto a alma racional há de encontrar-se naturalmente unida a um corpo: Corpus autem aptasti mihi.

Mas isto de adaptar um corpo tem uma significação mais particular. Porque é preciso convencermo-nos de que a alma racional fala e diz ao seu Criador: Assim como me haveis feito imortal, criando-me à Vossa imagem, assim me haveis tão perfeitamente adaptado um corpo, que a nossa paz e a nossa união seriam eternas e invioláveis, se o pecado havido entre dois entes não tivesse perturbado esta celeste harmonia. Porque foi que o pecado separou duas coisas tão bem irmanadas? É fácil compreendê-lo por esta excelente doutrina de Santo Agostinho. Porque, diz ele, há uma lei imutável da justiça divina que diz que o mal que escolhemos seja punido por um mal que odiamos. De maneira que foi uma ordem justíssima esta que prescreveu que a morte nos acompanhasse contra nossa vontade, em virtude de termos escolhido o pecado, e que «a nossa alma fosse obrigada a abandonar o corpo como justa punição do abandono a que ela lançou a Deus por uma depravação voluntária» – Spiritus, quia volens deseruit Deum, deserit corpus invitus (St. Agost. De Trin., lib. IV, n.° 16).

Diz o Apóstolo, meus irmãos, que foi desta maneira que «entrou o pecado neste mundo, e, pelo pecado, entrou a morte também» (Ap 3, 1). É por isso que o Filho de Deus só destrói a morte depois de haver destruído o pecado; e, antes de dirigir aos mortos, no fim do mundo, a palavra que os ressuscita, dirige no decorrer dos séculos a todos os pecadores a sua palavra, que os converte e que os chama à penitência. É esta palavra que vos pregamos (2). Ó mortos, é pois a vós que eu falo, não a esses mortos que jazem nos túmulos, e descansam em paz e com esperança debaixo desta terra abençoada, mas a esses mortos que falam e que ouvem, «que se chamam vivos, e que na realidade são verdadeiros mortos» Nomen habes quod vivas, et mortuus es (Ap 3, 1), que têm a morte na alma, porque têm nela o pecado. Escutai, ó mortos espirituais: é Jesus Cristo quem vos falia para ressuscitardes com Ele.

«Porque quereis morrer, ó casa de Israel?» (Ez 33, 11)

Sai dos vossos túmulos, deixai os vossos maus hábitos. É hoje o dia de eu vos exaltar; mas antes de o fazer, devo primeiro humilhar-vos!

Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur. Deus ameaça-os de os destruir, e são eles próprios que se destroem, destruindo até a raiz as suas inclinações corrompidas:

Subvertitur plane, dam calcatis deterioribus studiis ad meliora convertitur; subvertitur plane, dum purpura in cilicium, afluentia in jejunium, Iaetitia mutatur in fletum (S. Eucher., Homil. de Paenit. Ninivit, tomo VI, Biblt. Patr., col. 646)

De que vos lamentais, Senhor? Não dissestes que Nínive havia de ser destruída? E foi-o realmente na ocasião em que emendou os es ravios da vontade.

«Nínive acha-se verdadeiramente destruída, porque o luxo dos seus trajes transformou-se num habito e num cilício, a superfluidade dos seus banquetes num jejum austero, a alegria dissoluta das suas devassidões nos santos gemidos da penitencia»

Ó cidade utilmente destruída! E tu, ó Paris, cujo orgulho se não pode abater, e cuja vaidade se continua sustentando apesar de tantas coisas que a deveriam deprimir, quando te verei destruída? Quando ouvirei esta feliz nova: O reino do pecado está destruído completamente; as suas mulheres já não lutam contra o pudor, e os seus filhos já não morrem pelos prazeres mortais nem perdem a alma por causa deles; essa impetuosidade, esses arrebatamentos, esse grito dos corações lascivos está suprimido; os que atentaram no terreno que outros andaram pisando, etc.; o bem de outrem… et adhuc in arca tua ignis thesauri iniquitatis qui devorant te (Mq 6, 10). Tu julgas que os tens de posse pelo uso de tantos anos; e afinal tudo está destruído. Mas levantai-vos, saí desses tribunais, verdadeiros túmulos salutares dos penitentes: aproximai-vos da mesa dos fiéis, acordai para a vida, vinde receber o verdadeiro pão que Moisés não pôde dar aos nossos pais (Var.: aos israelitas. Jo 6, 32); vinde receber o corpo de Jesus, que é o segundo princípio de ressurreição e de vida.

SEGUNDO PONTO

O corpo de Jesus Cristo é em primeiro lugar o modelo da nossa ressurreição. Um arquiteto que constrói um edifício propõe-se um plano e um modelo; Jesus Cristo propõe-se o seu próprio corpo:

Reformabit corpus humilitatis nostrae configuratum corpori claritatis suae (Fl 3, 21)

Em segundo lugar é o penhor:

Si mortui non resurgunt neque Christus resurrexit (1 Cor 15, 13)

«As primícias da ressurreição»:

Primitiae dormientium (Idem 15, 20)

«O grão de trigo»:

Sed generis humani una in fini saeculi messis assurget; tentatum est experimentum in principali grano (Santo Agostinho, Serm. CCCLXI, n.º 10)

Era terceiro lugar é o principio de incorrupção (São Cirilo de Alexandria, lib. IV in Joan, cap. II). A corrupção pelo sangue e do mesmo modo a imortalidade: São Gregório de Nisse e São Cirilo de Alexandria. Porque é então que é preciso morrer e estar sujeito à corrupção? (3) Se é carne de pecado, está cheia de enfermidades e de doenças. Ide aos hospitais durante estes dias santos e contemplai o espetáculo da enfermidade humana; ali vereis de quantas formas a doença zomba dos nossos corpos. EIa conserva-nos estendidos ou encolhidos; enfraquece-nos ou entorpece-nos; conserva um corpo paralítico e imóvel ou o agita completamente pela convulsão. Lastimosa variedade! Diversidade espantosa! Cristãos, a doença é que zomba dos nossos corpos como lhe apraz, e o pecado é que nos entrega aos seus caprichos cruéis. Considera, ó homem, no pouco que és e no pouco que vales; vem saber a lista funesta dos males de que está ameaçada a tua fraqueza. E a fortuna, para ser igualmente injuriosa, não se torna menos fecunda em acontecimentos fatais. O auxilio que lhes é ministrado é a imagem do grande auxílio que lhes dá um dia Jesus Cristo, libertando-os por completo, mas, no entretanto, é preciso que eles caiam para serem regenerados; e só deixarão à terra a sua mortalidade e a sua corrupção. É preciso que este corpo seja destruído até ficar reduzido a pó; a carne mudará de natureza, o corpo tomará outro nome; até o nome de cadáver lhe não ficará por muito tempo. A carne converter-se-á numa coisa que não tem nome em língua alguma, tão certo é morrer tudo na pessoa deles até ao ponto em que estes restos infelizes são exprimidos por estas fúnebres palavras:

Post totum ignobilitatis elogium, cadacae in originem terram, et cadaveris nomen; et de isto quoque nomine periturae in nullum inde jam nomen, in omnis jam vocabuli mortem (Tertul., De Resurrect. carnis, n.° 4)

Mas tendo participado do corpo do Salvador, principio de vida… Nós recebemos pelo batismo um direito real ao corpo de Jesus Cristo, e, por consequência, um direito à Sua vida, à Sua graça, à Sua imortalidade. Não renunciemos a esse direito, não o percamos (4), e ficamos sempre na comunhão do mistério, não só na atual participação senão no direito de comungar.

Corpus non fornicationi, sed Domino et Dominus corpori (1 Cor 6, 13. — Vej. segundo discurso da Pureza)

Ele faz o nosso corpo semelhante ao Seu, um templo:

Solvite templum hoc (Jo 2, 19)

Convenho em que devamos orná-lo como um templo, com um certo decoro, mas sempre com dignidade. Nada que seja vão, nada que seja profano. E então, ó santa castidade, flor da virtude, ornamento imortal dos corpos mortais, sinal firme duma alma bem formada e verdadeiramente generosa, protetora da santidade e da fé mútua nos casamentos, fiel depositária da pureza do sangue e que só dele sabes conservar o vestígio; vem consagrar estes corpos corruptíveis, vem servir-lhes de bálsamo eterno contra a corrupção; vem dispô-los para uma santa união com o corpo de Jesus Cristo; e faze com que, tomando este corpo, dele tenhamos todo o espírito.

TERCEIRO PONTO

Eu já o disse, meus irmãos, mas é preciso dizê-lo mais uma vez, que durante este tempo de corrupção, Deus começa já nos nossos corpos a obra da Sua beatífica imortalidade. Sim, em quanto este corpo mortal é oprimido de languidez e de enfermidades, Deus vai lançando nele interiormente os princípios duma consistência imutável; em quanto envelhece, Deus rejuvenesce-o; em quanto ele se acha todos os dias exposto às doenças mais perigosas e a uma morte certíssima, Deus trabalha, em honra do Espírito Santo, para a sua ressurreição gloriosa. De que maneira se realiza tão grande mistério? Santo Agostinho, que o soube do divino Apóstolo, é que vo-lo-á de explicar em breve por uma excelente doutrina.

Mortais, conhecei a glória; terra e cinza; escutai atentamente as divinas operações que se começam em vós. É preciso, pois, saber, antes de mais nada, que o Espírito Santo habita em nossas almas, e que nelas preside pela caridade que nelas vai derramando. De que maneira se estende ao corpo esta divina operação? Basta ouvirdes uma palavra de Santo Agostinho para o ficardes compreendendo:

«Aquele que receber a parte dominante, diz este santo bispo, fica possuindo tudo» – Totum possidet, qui principale tenet (Santo Agostinho, Serm., CLXI, n. 6). «Ora em nós, continua o grande homem, é fácil, conhecer que é a alma que ocupa o primeiro logar, e que é a ela que pertence o império»

Destes dois princípios tão claros, tão indubitáveis, tira logo Santo Agostinho esta consequência fácil:  «Possuindo Deus a parte principal, que é a alma e o espírito, fica de posse da natureza inferior»; possuindo o príncipe, também possui o vassalo; e dominando a alma que é a soberana, estende a mão sobre o corpo e sujeita-o ao seu domínio (Var.: e apodera-se dele). É assim que o nosso corpo é regenerado pela graça do Cristianismo. Muda felizmente de dono e passa a melhores mãos; pela natureza pertencia à alma, pela corrupção servia ao vício, pela graça e pela religião pertence a Deus.

Dá-se como que um sagrado enlace entre o nosso espírito e o espírito de Deus; o que prova que «aquele que se ajunta ao divino Espírito forma um só espírito com Deus»: Qui adhaeret Domino unus spiritus est (1 Cor 6, 17).

E assim como nos casamentos, diz Tertuliano, a mulher institui seu esposo senhor dos seus bens, cedendo-lhe o uso deles, assim a alma, unindo-se ao espírito de Deus e submetendo-se a Ele como a seu esposa, também lhe cede todo o seu bem, como sendo o chefe e o senhor desta comunidade beatífica.

«A carne a acompanha, diz Tertuliano, como uma parte do seu dote, e em vez de ser apenas serva da alma, é também serva do espírito de Deus» – Sequitur animam nubentem spiritui caro, ut dotale mancipium; ei jam non animae famula, sed spiritus (Tertul., De anima, n. 41)

Com efeito, não vedes que o corpo do cristão muda de natureza, e que em vez de ser simplesmente o órgão da alma, converte-se no instrumento fiel de todas as santas vontades que Deus nos inspira? Que é que dá a esmola, senão a mão? Que é que confessa os pecados, senão a boca? Que é que os chora, senão os olhos? Que é que anceia. pelo zelo de Deus, senão o coração? Finalmente, diz o Santo Apóstolo, «todos os nossos membros são sacrificados a Deus e devem ser as suas hóstias vivas» (Rm 12, 1). Quem não vê que o Espírito Santo se apodera dos nossos corpos, visto que eles são os instrumentos da Sua graça, os templos em que Ele reside com a Sua majestade, e emfim as hóstias vivas da Sua soberana grandeza?

Mas levemos mais longe ainda este raciocínio, e tiremos a consequência destes belos princípios. Se Deus, aperfeiçoando as nossas almas, se apoderou dos nossos corpos, é porque nem a morte, nem violência alguma, nem o esforço da corrupção poderão jamais arrebatar-lh’os. Cedo ou tarde, Deus entrará na posse do seu bem e retirará o seu domínio. O Filho de Deus pronunciou que «ninguém pode arrebatar coisa alguma das mãos de seu Pai: Meu Pai, diz ele, é maior que toda a natureza» – Nemo potest rapere de manu Patris mei (Jo 10, 29). E com efeito, sendo as duas mãos tão poderosas, não há força que as possa vencer nem obrigar a largar a presa. Portanto, tendo Deus colocado sobre os nossos corpos a Sua mão soberana, tendo-se apoderado deles pelo seu Espírito, a que a Escritura chama dedo, e estando já de posse deles, ó carne, razão tive eu em dizê-lo, que, seja qual for o sítio do universo onde a corrupção te lance e te esconda, tu ficas sempre ao alcance de Deus. E tu, ó terra, ao mesmo tempo mãe e sepulcro comum de todos os homens, seja qual for o sombrio retiro onde tenhas tragado, espalhado e escondido os nossos corpos, hás de restituí-los inteiros; e antes sejam destruídos o céu e a terra do que pereça um só dos nossos cabelos, porque, sendo Deus o senhor de todos os corpos, não há força que possa impedi-lo de acabar neles a Sua obra.

Não duvideis, Cristãos, «de que se o espírito imortal que ressuscitou Jesus habita em vós, esse Espírito, que ressuscitou Cristo, também pelo seu espírito, que em nós habita, há de vivificar os vossos corpos mortais» (Rm 8, 11). Pois este espírito omnipotente, infinitamente deleitado com o que fez em Jesus Cristo, atua sempre em conformidade com estas divinas operações; e, contanto que o deixem atuar, ele há de acabar a Sua obra. Não há no mundo força alguma que possa impedir a sua ação, e só nós lhe podemos servir de obstáculo, porque os dons de Deus exigem ou uma fiel cooperação, ou, pelo menos, uma aceitação voluntária. Deixemo-nos, pois, dirigir pelo espírito de Deus, deixemos que Ele domine os nossos corpos mortais. Se quisermos que Ele espalhe por eles toda a Sua virtude, deixemos que os sujeite à Sua divina operação. Desprendamo-nos dos nossos corpos para nos ligarmos fortemente ao espírito de Deus. Pois que fazemos nós, Cristãos, quando deleitamos o nosso corpo, que fazemos senão, aumentar a presa da morte, enriquecer-lhe o saque, cevar-lhe a vítima? Porque te possuo eu, ó corpo mortal (Var.: Porque estou eu unido a ti, ó corpo mortal…), e como te hei de tratar? Se te enfraqueço, fico cansado; se te trato com moderação, não posso evitar a tua força que me lança por terra (Var.: Se te enfraqueço, esgoto as minhas forças; se te trato com moderação, não posso evitar as tuas que me prostram …) ou que me mata. Que hei de então fazer de ti e como te hei de chamar, fardo incômodo, esteio necessário, inimigo lisonjeiro, amigo perigoso, com o qual não posso ter guerra nem paz, porque a cada momento preciso da harmonia, e a cada momento tenho de atacar? Ó imponderável união e alienação não menos estupenda! Poderei privar-me deste corpo? Poderei também ligar-me a ele tão fortemente e contrair com um corpo sujeito à morte uma amizade imortal? Como sou infeliz!

«Quem me livrará deste corpo frágil?» (Rm 7, 24)

É este o motivo geral porque gemem todos os verdadeiros filhos de Deus. Todos deploram a sua servidão, todos conhecem dolorosamente que «o peso do corpo oprime o espírito» – corpus quod corrumpitur aggravat animam (Sb 9, 15), e priva-o da sua verdadeira liberdade. É por isso que o grande Santo Ambrósio gravemente nos ensina (Var.: nos adverte) que, estando o nosso espírito transitoriamente no corpo, não devemos consentir que ele se ligue a esta natureza dessemelhante; mas que, pelo contrário, devemos quotidianamente quebrar os nossos laços, para que o espírito, recolhendo-se em si mesmo, conserve a sua nobreza e a sua castidade. Há duas especies de laços: os da natureza e os da amizade. Quanto aos primeiros, é a Deus que compete quebrantar; quanto aos segundos, a nós, cumpre o seu rompimento: Quotidie morior (1 Cor 15, 31). Pela primeira união, está a alma encarcerada e cativa, o corpo domina-a, é senhor dela. Sacudamos este jugo, libertemo-nos desta indigna dependência, e haverá outra união pela qual a alma há de dominar.

Sit quotidianus usus in nobis affectusque moriendi, ut per illam, quam diximus, segregationem a corporeis cupiditatibus, anima nostra se discat extrahere, et quasi in sublimi locata, quo terraenae adire libidines et eam sibi glutinare non possint suspiciat mortis imaginem, ne paenam mortis incurrat (Santo Ambrósio, De Fide resurrec., lib. II, n. 40)

É por isso que na função que é destinada à nossa alma de animar e de mover os órgãos corporais, o mesmo Santo Ambrósio adverte que não cuidemos inteiramente deles: Non credamus nos huic corpori, nec misceamus cum illo animam nostram (De Bon. mort. cap. IX, n. 40); mas que, pelo contrário, nos alheemos quanto podermos:

Summis, ut ita dicam, digitis sicut nervorum sonos, ita pulsat carnis passiones (Idem, cap. VII, n. 27)

Este cuidado extremo com o corpo é indigno do cristão (5). Vós quereis ser imortais, e basta a menor dor, a menor fraqueza para vos oprimir e vos desalentar, e eis que abandonais todos os exercícios de piedade. Receais excitar esse sangue, esse cérebro já escandecido e esse temperamento tão fraco e tão delicado. Porque não aproveitais antes esta ocasião favorável para quebrar esses laços ternos e sedutores, em quanto a natureza vos auxilia distendendo-os, se de todo pão conseguir quebrá-los ainda? Aprendei a considerar este corpo, cuja fraqueza vos agrava, não como uma agradável habitação, mas como um cárcere importuno; não como vosso órgão, mas como vosso obstáculo e vosso fardo (6). A fraqueza e a dor que agitam todo o corpo forçam a alma a desprender-se dele, e, limitando-a nos seus próprios bens, obrigam-na a corrigir um secreto escrúpulo e um certo repouso dos sentidos, que muito facilmente acomete os homens numa saúde vigorosa.

E se a atração à própria saúde e à vida é tão viciosa e tão contraria à dignidade do Cristianismo, que direi da curiosidade, da vaidade e dessa viveza que tanto se mostra no arrebique e no aspecto? Fraca e miserável criatura, inutilmente chamada a uma beleza e a uma glória eterna, haveis de sentir mágoa se vísseis cair essa flor efêmera, desbotar essa cor viva e desaparecer esse ar de juventude. Considerais a perda de tudo isso como uma afronta que só se deve sentir quando se comete um erro. Quereis ocultar os anos, e não só ocultá-los, senão resistir ao seu curso impetuoso, ao seu esforço violento, e esquivar-vos às suas mãos tão sutis que nunca deixam de vos arrebatar alguma coisa, por mais artifícios que empregueis. É nisso que consiste a glória do corpo de Jesus? (Var.: Outra saúde, outra beleza outra vida). Oh! Deixai-vos despojar desse frágil ornamento que apenas serve para alimentar a vossa vaidade, para vos expôr à tentação e para vos cercar de escândalos. Privai esse corpo do extraordinário amor e do demasiado desvelo que lhe dispensais; pois se continuardes a estimá-lo tanto, oh! Então é que a morte vos há de ser cruel, é debalde vos heis de lastimar, dizendo como o rei dos Amalecitas; Siccine separat amara mors? (1 Rs 15, 32).

«Então é assim que a morte crua nos rouba tudo?»

Que golpe! Que esforço! Que violência!

Um homem de bem, pelo contrário, nada tem a perder neste dia. A dor familiariza-o com a morte. A indiferença pelo prazer desabitua-o do corpo. Há já muito tempo que ele desatou ou quebrou os laços mais delicados que a ele nos prendem; e, portanto, não se entristece por abandonar o corpo, porque sabe que o não perde. O Apóstolo disse-lhe que todos temos de fazer uma viagem dupla (7); porque enquanto estamos no corpo, viajamos longe de Deus; e quando estamos com Deus, viajamos longe do corpo. Uma e outra não são mais que uma viagem, e não uma completa separação, porque do corpo passamos a Deus, e vamos para Deus na esperança de voltar aos nossos corpos. Por consequência, quando vivemos nesta carne, não devemos ligar-nos a ela como se nela devêssemos ficar em todo o tempo; e quando temos de separar-nos dela, não devemos entristecer-nos como se a ela nunca mais devêssemos voltar. E então, quando chegar o nosso último momento, já livres dos grandes cuidados da vida e das apreensões da morte, adormecemos em paz e ficamos esperançados. Pois que receio tens, alma cristã, de que a morte se avizinhe? Receias perder o teu corpo? Deves antes consolidar a tua fé; contanto que submeta o corpo ao Espírito de Deus, esse Espírito omnipotente ha de fazer-lo mais perfeito (Var.: Bem saberá conservar-lo para sempre, ou: te restituirá a vida). Talvez que se vires cair a tua casa, imagines que ficas sem abrigo. Escuta, porém, o divino Apóstolo:

«Nós sabemos, disse ele aos Corintios, e não somos levados a acreditá-lo por conjecturas duvidosas, mas sabemo-lo com uma plena certeza, que se esta casa de barro e de lama, em que habitamos, for destruída, temos outra casa que não é edificada pela mão do homem, mas que é preparada no céu (2 Cor 5, 1)»

Ó governo misericordioso de Quem provê a todas as nossas necessidades!

«Ele formou o desígnio, diz excelentemente São João Crisóstomo, (Var.: Homil. in Dict. Apost., De Dormientibus, etc.) de reparar a casa que nos deu: enquanto ele a destrói para a edificar de novo, é necessário que saiamos dela»

E que faríamos neste tumulto e neste pó? É ele próprio que nos oferece o seu palácio e nos dá um aposento para esperarmos tranquilamente a completa reparação do nosso primeiro edifício. Não receemos, pois, coisa alguma, meus irmãos; pensemos apenas em viver convenientemente, porque tudo está garantido para o cristão (8)…

Eis outro exórdio, que foi composto provavelmente com o fim de relacionar o sermão que se acaba de ler com o tempo da Quaresma:

Quando for volvida a ordem dos séculos e todos, os mistérios de Deus consumados e todas as suas promessas cumpridas e todas as nações da terra evangelizadas; quando o número dos nossos irmãos estiver preenchido, isto é, quando a sociedade dos escolhidos estiver completa, e o corpo místico do Filho de Deus composto de todos os seu? Membros e as celestes legiões, em que a deserção dos anjos rebeldes fez vagar tantos lugares, inteiramente restabelecidos; então será tempo, ó Cristãos, de destruir completamente a morte e de a relegar para sempre para os infernos donde saiu. Tudo agora parece estar surdo à voz de Deus, e até os próprios homens, não obstante ser-lhes dado ouvidos para ouvir a Sua palavra, e um coração para se submeter a ela; e neste caso toda a natureza há de ter vida para a ouvir.

Baixará uma voz do céu, pela boca da Filho de Deus, que ordenará aos mortos que ressuscitem: os corpos jacentes, os ossos secos, a cinza e o pó frio e insensível abalar-se-ão no fundo dos seus túmulos, todos (Var.: Começarão a agitar-se no vácuo dos seus túmulos). Os elementos começarão a agitar-se, e o mar e a terra e os abismos preparar-se-ão para entregar os seus mortos que se julgava tivessem sido tragados como verdadeiras presas, mas que, como havemos de presenciar, apenas foram recebidos como um depósito para serem entregues fielmente à primeira ordem (9). De maneira que Deus ama os seus, e ama-os até ao fim, tendo cuidadosamente juntado de todas as partes do mundo os seus restos sempre preciosos para ele e sempre guardados pela sua mão poderosa em algum canto do universo onde a lei das transformações os tenha arremessado, e, tendo por este meio estabelecido os seus corpos numa perfeita integridade, uni-los-á às suas santas almas e eles ficarão com vida; abençoará esta união e eles serão imortais; e torná-la-á de tal forma íntima que os corpos hão de participar das honras da alma e ficarão cobertos de glória.

E são estes os três dons magníficos que Deus nos há de dar neste dia como penhor do Seu amor eterno: a vida, a imortalidade e a glória.

Se eu anunciasse a infiéis este Evangelho de vida e de ressurreição eterna, grande trabalho teria, cristãos, para deduzir os raciocínios que a sabedoria humana aqui opõe ao poder de Deus e de glória da nossa natureza tão poderosamente reparada (Var.: Á honra da nossa natureza tão misericordiosamente reparada). Mas visto que falo a cristãos a quem esta doutrina celeste não é menos familiar nem menos natural do que o leite que os alimentou na infância, não é intento meu tornar-me prolixo para vos provar com um longo discurso a realidade destes três dons, mas tão somente preparar-vos para os receberdes neste dia derradeiro, da justiça de Deus e da Sua mão liberal.

Eu disse já, Cristãos, que é necessário preparar a alma, como parte principal, para receber em nossos corpos estes dons preciosos. Disse e prometi fazer-vos ver que todas estas santas preparações se encerram vantajosamente na da penitência. Que é que se vos pede na penitência, senão que vos retireis de todos os vossos pecados, que tomeis precauções para não tornardes a pecar, e que, por meio duma satisfação conveniente, tireis vingança em vós mesmos da vergonha do vosso pecado? Portanto, se tiverdes vontade de viver em graça, também os vossos corpos hão de ter uma vida nova; as sabias precauções para não tornar a morrer, hão de assegurar-lhes a imortalidade; o zelo de ser grato: e um Deus irritado pelas santas humilhações da penitência, há de fazer com que eles sejam revestidos duma glória cheia de divindade. São estas as duas palavras que o Filho de Deus dirige aos mortos: Venit hora et nunc est in qua… Há duas espécies de mortes; duas partes no homem, e ambas tem a sua morte. Jesus fê-los ressuscitar pela Sua palavra: a primeira dirigida aos pecadores para os chamar à penitência, a segunda dirigida aos mortos sepultados para os chamar à vida; a primeira é a disposição para tornar a segunda salutar. É necessário começar pela alma a fim de preparar o corpo para a vida; e é preciso aliar estas duas coisas, a penitência, cujo tempo agora decorre, e a ressurreição dos mortos, que pela antiga instituição desta igreja, deve hoje ser pregada nesta tribuna: Ó mortos, é a vós que eu me dirijo, não a esses mortos que jazem nos túmulos e descansam nesta terra abençoada, mas a esses mortos que falam e que ouvem. Quero fazer chegar aos ouvidos deles a palavra do Filho de Deus, para que eles a ouçam e tenham vida. Ó Jesus, vós prometestes pronunciar a palavra que há de chamar os mortos à ressurreição geral; mas quereis que os outros mortos, que desejais vivificar pela sua conversão, sejam chamados a esta vida pelos Vossos ministros. Dai-me poisa Vossa palavra pela graça do Vosso Espírito Santo e e pela intercessão…

Veja acerca do Dia de Finados: Morisot, Petit, Palu Beretonneau, Biroat, Ségaud, etc.

Referências:

(1) Nota marg.: – É, por isso que, quando ele quer formar o homem, recomeça uma nova ordem de coisas, uma nova criação: Faciamus hominem (Gn 1, 26). É outra obra, outra maneira diferente de tudo o que precede; nada há que se lhe assemelhe.

(2) Nota marg.: – Oxalá que pudéssemos fazer sobressair na nossa palavra tudo que lisonjeia o ouvido, tudo que deleita o espírito, tudo que surpreende a imaginação, e que só tivéssemos pensamentos para converter, a fim de só deixar a impressão da simples verdade, a única força e a eficácia puríssima do Espírito Santo!

(3) Nota marg.: – Veja Serm. do Lázaro

(4) Nota marg.: – O mais belo direito da Igreja como esposa. Duas espécies de comunhão: o direito e a atual participação.

(5) Nota marg.: – Dizemos ter escrúpulo como dizemos ter pretensões a espírito ou a grandeza. Uma terna educação… uma pessoa tão querida…

(6) Nota marg.: – Eu sou prisioneiro deste corpo, e prisioneiro muito submisso; é no sofrimento que hei de achar a liberdade, para ressuscitar completamente livre. A alma há de separar-se deste corpo mortal que ela o considera inferior, e há de retirar-se para o seu próprio recinto.

(7) Nota marg.: – Scientes quoniam dum sumus in corpore, peregrinamur a Domino… Bonam voluntatem habemus magis peregrinari a corpore, et praesentes esse ad Dominum (2 Cor 5, 6-8)

(8) Nota marg.: – Tu não tens fé, cristão, desconfias das tuas obras; confia, pois, nesta promessa…

(9) Nota marg.: – … para entregar os seus mortos, que, ao que parecia, eram presa sua e, na verdade, só tinham recebido como um depósito, para o restituir fielmente.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 63-86)