2º Domingo do Advento - I. Jesus Cristo, objeto de Escândalo

I. Sermão para o 2º Domingo do Advento

SUMÁRIO ESCRITO PELA MÃO DE BOSSUET

O seu coração escutava a voz da miséria e solicitava o seu braço.

A alma, afastando-se de Deus, desvigoriza o corpo.

Pecado maior que o castigo.

Pobres evangelizados.

De como ele veio a ser objeto de escândalo: Scandalizantur in me? Razão porque não consideramos a obra de Deus como scandalum: é porque imaginamos que Deus tudo destrói quando reedifica, contra o empreendedor.

É preciso crer antes de ver. Devemos submeter o entendimento assim como a vontade. Crer no que é incrível e fazer o que é difícil.

É preciso reconhecer o perdão, porque a natureza tende a pecar.

Jesus Cristo, escândalo para todos e até para os cristãos.

Caeci videnl, claudi ambulant, leprosi mundantur, surdi audiunt, mortui resurgunt, pauperes evangelizantur, et beatus esi qui non fuerit scandatizatus in me.
Os cegos recebem vista, os surdos ouvem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres, e bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar (Mt 11 5, 6)

Se hoje vísseis São João Batista enviar os seus discípulos ao nosso Salvador para lhe perguntar quem Ele era, não imagineis por isso que o Elias do Novo Testamento e o grande percussor do Messias ignoravam o Senhor a quem vinham preparar os decretos. Eu sei que houve alguns homens muito doutos, e entre outros o grave Tertuliano (Advers. Mareion, lib. IV) que imaginaram que no tempo em que São João Batista mandou fazer esta pergunta ao Salvador se havia apagado na sua alma a luz profética que até então o tinha alumiado; mas eu não receio dizer-vos, com o devido respeito para com a opinião desses autores, que tal opinião é inteiramente destituída de verosimilhança. «Abraão viu a luz de Nosso Senhor; Isaías viu a sua glória e falou nos dela», diz-nos o evangelista São João (Jo 8, 56; 12, 41). Todos os profetas o conheceram espiritualmente; e havia de ignorá-lo o maior dos profetas! O que foi enviado para dar testemunho da luz havia de ter permanecido nas trevas! E depois de haver designado tantas vezes ao povo esse Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, depois de ter visto o Espírito Santo descer sobre Ele quando quis ser batizado por suas mãos, havia de esquecer-se de repente de quem ele deu a conhecer a tantas pessoas ! Bem vedes, fiéis, que isto era impossível.

Mas, dizeis vós, para que havia ele de mandar os discípulos a informarem-se de quem Ele era, se havia a certeza de ser o Messias? Quem interroga, deseja saber; e quem deseja saber, ignora. Se ele conhecia Jesus Cristo, que motivo o levava a mandar perguntar quem Ele era? Não receava que a sua dúvida abalasse a fé de muitos e diminuísse em grande parte a autoridade do testemunho certo que tantas vezes deu ao Salvador? — É isto o que nos podem objetar. Mas essa objeção não me admira; pelo contrário, do que me contrapõem quero eu tirar proveito.

Eu digo que ele interroga, porque sabe; e que pergunta a Jesus quem é, porque O conhece muito bem. Como pode ser isso? Perguntais vós. – Ora aqui, cristãos, é que está a verdadeira explicação do nosso Evangelho e a razão indispensável de todo este discurso. São João que conhecia o Salvador; cuja palavra tantas vezes pregara, bem sabia que só a Ele competia dizer quem era e manifestar-se aos homens, de quem vinha a ser o preceptor. É por isso que Lhe envia os discípulos, para que eles fiquem sabendo por Ele próprio da Sua vinda, que só Ele era capaz de nos declarar. Portanto, não receeis, cristãos, que Ele destrua o testemunho que deu a respeito de Jesus Cristo: pois mandando-Lhe perguntar quem era, mostra bem que reconhece nEle uma autoridade infalível e que apenas Lhe enviara os discípulos com o fim deles ouvirem a doutrina da Sua própria boca. E não podendo anunciar aos homens a Sua vinda, porque estava detido nas prisões de Herodes, pede a Jesus Cristo que se dê Ele próprio a conhecer; e enviando-lhe uma embaixada na presença de todo o povo, pretende que Ele dê um ensinamento memorável aos espectadores que imaginavam o Messias inteiramente diferente do que devia ser.

E realmente assim foi. Jesus, que lhe conhecia o pensamento e que queria recompensar-lhe a humildade, mostra aos discípulos os efeitos do Seu poder infinito. Cura na presença deles todos os doentes que apareceram, abre-lhes o Seu coração, dá-lhes conselhos importantes para conhecerem o segredo de Deus e destruírem uma falsa ideia do Messias que preocupara aos judeus excessivamente sensuais e, sabendo que o maior prazer que pode ter o seu amado precursor era saber da glória do Seu bom mestre, ordena aos enviados de São João que lhe deem novas dele, querendo-lhe dar este conforto num cativeiro que, por amor dele, estava suportando. «Ide contar a João, disse Ele, as maravilhas que vistes»; dizei-lhe que «os surdos ouvem, que os cegos veem, a vida foi restituída aos mortos, (Var.: que os mortos ressuscitaram), que o Evangelho foi anunciado aos pobres, e que feliz daquele que em mim se não escandalizar». Era como se dissesse: Os judeus, seduzidos pelas aparências e pelos sentimentos da carne, consideram o Messias como um rei poderoso que, colocando-se à frente de grandes exércitos, há de subjugar todos os seus inimigos, e há de dar-se a conhecer pelo brilho duma pompa mundana e por uma magnificência real.

Mas João, avisado dos segredos de Deus, sabe que Ele deve manifestar-Se por sinais bem mais augustos, ainda que, na opinião de todos, tenham menos aparência. Ide, pois, em paz e contai-lhe as curas admiráveis que vistes com os vossos próprios olhos. Dizei-lhe que o autor de tantos milagres não se dedigna de conversar com os pobres; pelo contrário, que os chama para junto de si, para familiarmente lhes falar dos mistérios do reino de Deus e das verdades eternas; e que, não obstante o poder com que obra tão grandes maravilhas e a incrível boa vontade com que cura a enfermidade dos mais pobres e dos mais abjectos, bem-aventurado é aquele a quem não dou motivo de escândalo. Dizei isto a João, e por estes sinais ele bem saberá quem sou.

Tal é o sentido deste discurso, muito curto na aparência e muito simples, mas com uma tão alta significação e com tantas observações ilustres tiradas das profecias antigas que falam da grandeza do Messias, que toda a eloquência humana seria insuficiente para vos mostrar todas as Suas riquezas. Todavia, fiéis, vou tentar descobrir hoje, com o auxílio divino e dentro dos limites do meu saber, os segredos da Divindade.

Seguirei lentamente o texto do meu Evangelho, conferindo as palavras do nosso Salvador com as ações da sua vida e com os vaticínios dos profetas, constituindo assim uma encadeação de ideias. Todos havemos de admirar a profunda orientação de Deus na manifestação de seu Filho. Mas para proceder com ordem, reduzamos toda esta prática a três pontos tirados das próprias palavras do Filho de Deus. Três coisas eu noto no seu discurso: a cura dos enfermos, a catequese dos pobres e o escândalo dos infiéis.

Nos Seus milagres, reconheço-lhe a bondade porque se compadece dos nossos males; nos Seus ensinamentos, reconheço-lhe a simplicidade porque só tem trato com os mais pobres; finalmente no escândalo que dá, reconheço as furiosas oposições que há de ter a Sua benéfica doutrina.

Vem, ó judeu incrédulo, vem a admirar o Messias, vem reconhecê-lO pelos verdadeiros sinais que te deram os seus profetas. Tu imaginas que Ele há de manifestar o Seu poder, estabelecendo na terra um poderoso império a que juntará todas as suas nações, ou que se manifesta pela reputação da Sua grandeza, ou ainda pelas Suas armas vitoriosas. Fica sabendo que o Seu poder só há de manifestar-se pela Sua bondade e pela terna compaixão que há de ter das nossas enfermidades.

Tu imagina-lO no meio duma corte soberba, cercado de glória e de majestade; pois sabe que a Sua simplicidade não lhe consentirá outra companhia que não seja a dos pobres. Finalmente imaginas ver deslizar-lhe a vida num curso continuo de prosperidades, quando ela a todos os momentos só há de ter injustos revezes. Numa palavra, o Messias prometido pelos oráculos divinos deve ser um homem infinitamente misericordioso, cujo coração se há de enternecer com as misérias da nossa natureza, um homem que há de receber os pobres com a Sua mais intima familiaridade e há de espalhar sobre eles os tesouros da Sua sabedoria incompreensível, catequizando-os com um paternal afeto; e que, apesar da Sua índole liberal, da candura da Sua vida inocente e da Sua ingênua simplicidade, há de ser mil vezes amaldiçoado pelos homens ingratos, sem que por causa disso deixe de lhes fazer bem. Assim devia de ser o Salvador do mundo; mas muito outro o imaginam os judeus.

Se Ele nascesse revestido de régia pompa, não se atreveriam os pobres a aproximar-se dEle, nem sequer a erguer os olhos, e todos Lhe prestariam homenagem, em vez de o oprimirem com imprecações. Foi por isso que, tendo nascido para sofrer, tomou uma condição de escravo; e tendo nascido para os pobres, quis nascer pobre, a fim de poder familiarizar-Se com eles. É este o verdadeiro retrato do Messias, nosso único libertador, tal como nos é designado pelas profecias e como se nos apresenta no seu Evangelho. Consideremos minuciosamente, cristãos, este quadro adorável. Mas admiremos antes de mais nada o primeiro traço dessa pintura salutar que o nosso evangelista nos esboçou; e vejamos a omnipotência do Salvador a manifestar-se no remédio que Ele dá para as nossas enfermidades. É este o primeiro ponto do meu discurso.

PRIMEIRO PONTO

Poderia ao certo dizer-vos, fiéis, quantos doentes-pobres e quantas espécies de doenças curou o nosso misericordioso médico? Seria preciso que vísseis todos os dias a Seus pés os cegos, os surdos, os febricitantes, os paralíticos, os possessos, enfim, todos os outros enfermos, que, conhecendo a Sua grande bondade, viam que bastava mostrar-Lhe as suas misérias para dEle obterem alívio. Esse médico caritativo, poupando-lhes ainda muitas vezes o trabalho de O procurarem, percorria Ele próprio a judeia, e como diz o apóstolo São Pedro:

«Andava fazendo bem e curando todos os oprimidos» – Pertransiit benefaciendo et sanando omnes oppressos a diabolo (At 10, 38)

Sempiterno Deus! Que belas palavras, e quão dignas são do meu Salvador! A insana eloquência do século, quando pretende elevar algum generoso conquistador, diz «que percorrem as províncias, não tanto pelos seus lances como pelas suas vitórias» – Non tam passibus quam victoriis peragravit (1). Nos panegíricos abundam estas espécies de exageros. E que quer dizer percorri as províncias pelas vitórias? Não é levar a toda a parte a carnificina, a calamidade e o saque? Tais são as consequências das nossas vitórias.

Ah, como o Salvador percorreu a Judeia duma maneira bem mais admirável! Posso dizer verdadeiramente que a percorreu menos pelos seus lances que pelos seus benefícios: Pertransiit benefaciendo. A toda a parte ia visitar doentes e em toda a parte distribuía um balsamo celeste, isto é, uma milagrosa virtude que emanava do Seu divino corpo, perante a qual se viam desaparecer as febres mais mortíferas e as doenças mais incuráveis: Pertransiit benefaciendo. E não era somente os lugares onde se demorava algum tempo que se sentiam bem com a Sua presença. Ele tornava notáveis os sítios em que (Var.: Por onde) passava, pela profusão das Suas graças. Se numa aldeia já não havia cegos nem aleijados, diziam logo que tinha passado por lá o benéfico Jesus: Pertransiit. E com efeito, cristãos, qual foi a região da Palestina que não viu milhares de vezes quão eficaz era o remédio que os enfermos e os débeis achavam no socorro da Sua mão poderosa?

É também o que o profeta Isaías, a quem os Padres chamaram o evangelista da lei antiga, pela exatidão dos seus vaticínios; é, digo eu, o que o profeta Isaías celebra com a sua elegância habitual no capítulo 35 da sua profecia:

«Dizei aos aflitos, nos diz ele, aos que têm o coração abatido pelos seus longos infortúnios, dizei-lhes que se fortifiquem. Não tardará que Deus venha para os vingar; o próprio Deus há de vir e há de salvar-nos» – Deus ipse veniet et salvabit nos (ls 35, 4)

Quem é esse Deus que nos vem salvar, a não ser o Jesus Salvador, de quem o mesmo Isaías escreveu que havia de chamar-se Manuel, Deus conosco? Um Deus que está conosco não é o mesmo que dizer um Deus-Homem? O próprio Deus, diz Isaías, virá então para nos salvar. Como vedes, quer referir-se ao Messias.

«É então, continua ele (Ibid. 5, 6), quando o Salvador vier, hão de ouvir os surdos e terão vista os cegos; o que estava paralítico há de saltar agilmente como um veado, e a fala será dada aos mudos»

Não vedes, cristãos, que o discurso do nosso Salvador, no evangelho que expomos, é tirado do profeta?

«Os surdos ouvem, diz o Filho de Deus, os cegos veem e os coxos andam»

Apesar de lhe dizer, ainda que em poucas palavras, as profecias que se realizam na Sua pessoa, a fim de nos fazer compreender o que o apóstolo São Paulo tão evidentemente nos demonstrou, «que ele é o fim da lei» (Rm 10, 4) e o único objeto de todos os oráculos divinos.

Portanto, irmãos meus, é preciso reconhecermos o poder do nosso Salvador nos remédios que Ele nos dá, movido de compaixão pelos nossos males. Demais sei eu que, vindo o Filho de Deus ensinar à terra uma doutrina tão inacreditável como era a Sua, era preciso que Ele a confirmasse por meio de efeitos dum poder sobrenatural. Mas isso não impede que eu reconheça a bondade que Ele dispensa à nossa natureza no prazer singular que tem em curar as nossas doenças. Sim, eu posso afirmar que todos os milagres provêm dum sentimento de compaixão. Muitas vezes, considerando as misérias que agitam a vida humana, não nos pode recusar as Suas lágrimas. Nunca vi um miserável que se não compadecesse dEle; e eu inclino-me a crer que teria certamente ido procurar os infelizes até ao cabo do mundo se as ordens de Deus, seu pai, e a obra da nossa redenção o não tivesse detido na Judeia. «Eu tenho dó deste povo» (Mc 8, 2), disse Ele antes de multiplicar os cinco pães.

«Ficou movido de misericórdia, diz o evangelista, e entregou o filho à mãe» (Lc 7, 13-15)

Em todas as grandes curas que faz não deixa nunca de dar provas de que lamenta as nossas calamidades: donde eu concluo com todos os visos de verdade que a Sua compaixão foi a origem de quase todos os Seus milagres. A primeira graça que Ele concedia aos enfermos era compadecer-se deles com o afeto de um bom pai. O seu coração escutava a Voz da miséria que o enternecia, ao mesmo tempo que lhe solicitava o braço para o aliviar. O seu amor não se ofende pelo mau acolhimento que lhe fazemos.

Quereis ver um exemplo admirável? Um judeu pediu-lhe que curasse o filho, que sofria atrozmente, e Jesus respondeu-lhe:

«Raça infiel e maldita, até quando terei de viver convosco e vos hei de suportar? Trazei cá o vosso filho. Raça infiel e maldita… trazei cá o vosso filho» (Mt 17, 16)

Que sentido o destas palavras e como parecem terríveis de tragar! Porque havia de reunir na mesma fala uma justa indignação e um testemunho fiel de ternura? É que ele lembrou-se de que era homem, e homem extremamente miserável; e este único pensamento lhe fez perder toda a cólera, que cai desarmada, como vedes, e vencida por um objeto de piedade. Realmente a malícia dos judeus havia subido a grande excesso. O desprezo e a ingratidão deles molestavam-no grandemente; quase que já os não podia suportar; e não obstante disse: «trazei o vosso filho que eu o curarei». Bem vedes que a Sua natural bondade o obriga quase à força a recompensar-nos e chega a extorquir-Lhe benefícios para nos dar. Imaginai quão grande era a inclinação que tinha de fazer bem aos homens, visto que nem o ódio mais furioso, nem a inveja mais violenta podiam suspender-Lhe o curso das graças. É que Ele era sinceramente bom e compadecia-se dos nossos males. E, na verdade, visto que não havia outra coisa que o obrigasse a vir em nosso auxílio a não ser à nossa extrema miséria, devia Ele descer à terra, como diz o apóstolo São Paulo (Cl 3, 12), «revestido das entranhas da misericórdia». Pois que melhor ficava ao Salvador do que lamentar os que estavam perdidos; que melhor se conformava com o que devia curarmos do que compadecer-se das nossas enfermidades; que melhor se acomodava ao nosso libertador do que lastimar a nossa servidão.

Cabe agora, cristãos, elevar mais alto o nosso entendimento, e depois de havermos considerado o Salvador curando as doenças da carne, é mister passar a uma reflexão mais espiritual e falar da cura dos espíritos, cuja imagem se achava representada na dos corpos. E se vedes que Ele de tal maneira se compadece dos sofrimentos do nosso corpo, com que gemidos julgais que pranteia as misérias da nossa alma? Imaginai-O por este raciocínio: não é muito de estranhar, na verdade, que o nosso corpo sofra, visto que é passível, nem que desfaleça, visto que é enfermo, nem que morra, visto que é mortal; é esta a Sua natural qualidade. Nós não costumamos lamentar os animais por serem desprovidos de razão, nem deplorar a condição dos seres inanimados por serem destituídos de vida, e de sensibilidade; e isto por sabermos que são coisas tão comuns e tão propensas à ordem natural que não merecem compaixão da nossa parte. Toda a compaixão supõe uma dor; e a dor excita-se singularmente pelos acidentes estabelecidos e imprevistos. E sabendo de que matéria os nossos corpos foram formados, com que não devemos nós contar? Mas que uma alma duma natureza imortal, animada de não sei de que coisa divina, composta, se assim me posso expressar, dessa chama puríssima e celestial de que foram formadas as inteligências; uma alma de que a razão é um facho da sabedoria eterna, e a essência uma imagem da própria essência de Deus; uma alma que, assim considerada, só pode ter nascido para a soberana felicidade; que essa alma seja precipitada num abismo de infinitos males; que fique sempre cega, sempre abatida e sempre condem nada a sofrer a última e eterna ruína, para isso, irmãos, é que a compaixão, por mais terna que fosse, não teria lamentos bastantemente lúgubres, nem lágrimas bastantemente amargas. Este homem parece-vos muito infeliz, porque, tendo perdido a vista corporal, já não pode gozar dessa luz que nasce e morre todos os dias; e achais pequeno infortúnio estar a alma envolvida em densas trevas que lhe ocultam as verdades eternas, que apenas deviam luzir à nossa razão! Causa-vos dó ver esse pobre corpo com os membros tolhidos; e não lastimais essa alma, que, por uma brutal estupidez, tem todas as suas funções paralisadas! Tendes compaixão desse miserável hidrópico, porque o vedes beber constantemente sem que consiga saciar a sede; e não vos comove ver esse avarento e esse ambicioso, um dos quais está sempre a fumar, e o outro emprega todo o seu tempo em acumular bens que num momento há de perder, sem que nenhum deles consiga jamais apagar a sede das suas paixões infinitas. Não significa isto falta de bom-senso?

Por isso eu não duvido que o Filho de Deus tenha julgado as nossas almas tanto mais dignas da Sua. piedade e misericórdia (Var.: Compaixão), quanto maior for a dignidade delas e mais verdadeiras as suas misérias. E isto mesmo me leva a crer que, quando o seu coração se compadecesse das enfermidades que tão cruelmente oprimem esta carne mortal, não pensaria Ele somente no corpo; certamente ia muito mais longe, e então logo remontava à origem, que é o pecado. Se testemunha desgosto por ver as enfermidades da carne, e alegria por lhes dar remédio, é para nos mostrar que todo o homem lhe merece afeição, e que, se ama tão ternamente a parte mais abjeta, tem transportes inacreditáveis pela mais nobre e pela mais divina. Se vos apraz, observai ainda este raciocínio. É indubitável que Ele só se compadecia do corpo por causa da alma; e que, em todas as doenças corporais, considerava o pecado, que é a origem delas. Quando olhava para esta carne miserável, em toda a parte sujeita a dores e a inúmeras enfermidades, não imagineis que Ele pensava somente no corpo.

Ó Deus omnipotente, dizia Ele (e a mim, Senhor, permiti que neste lugar penetre em Vossos sentimentos; Vossos decretos, porque são das Vossas Escrituras); ó Deus, dizia Ele então, se os homens tivessem permanecido no feliz estado em que meu Pai os havia colocado desde a sua origem, não seriam miseráveis coma hoje o são. No paraíso, a felicidade ser-lhes-ia divina, e a vida ser-lhes-ia imortal.

E com efeito, cristãos que me ouvis, em quanta durasse essa inocência, Deus, que interiormente se unia às nossas almas, teria nelas vertido o influxo vital com tão grande abundância que se espalharia por todo o corpo; de maneira que o homem, vivendo por influência divina, não teria tido perturbação alguma no espírito nem qualquer enfermidade corporal. Ora, como o pecado nos separou de Deus, foi necessário que reconhecêssemos quão grande era a perda que sofríamos; e então a alma, não bebendo já dessa fonte de vida eterna, tornou-se impotente e abandonou o corpo enfraquecido. É por isso que eu não me admiro de o cercar a mortalidade; e desde então essa carne que tende a morrer, ficou sujeita a toda a sorte de injúrias; e pendendo continuamente para o túmulo, ficou necessariamente propensa a grandes vicissitudes, e, por conseguinte, a mortais alterações. E em todos estes infortúnios, que outra coisa vemos nós, fiéis, pois, vos faça juízes nesta causa, a não ser uma justa punição da nosso pecado, visto que era justíssimo que a incorruptibilidade abandonasse o homem, já que ele não queria continuar a gozar dela na companhia de Deus? E nesta hipótese, é incontestável que o Filho de Deus, que desde o princípio tudo descobria, quando via as febres, as paralisias e as outras doenças corporais, descia até à origem do mal, quer dizer, a essa primeira desobediência. No castigo só considerava o crime, e era o que Ele mais deplorava. Bem sabia que os sofrimentos da carne, que não eram mais que uma punição, não podiam ser o maior mal; porque a omnipotência divina não admite que haja miséria maior que o pecado. Eu sei que esta verdade ofende os juízes humanos; mas, ó mortais ignorantes que somos, nós não compreendemos como é triste ofender a Deus!

Dizei a um homem que está sofrendo o suplício da roda, se é que ele ainda tem vida bastante para vos ouvir, dizei-lhe que é infeliz, não tanto pelo castigo que sofre, senão pelo crime que praticou; que a sua maior miséria é o ser homicida, é não o ser supliciado; como poderá ele ouvir-vos? A sua alma, vivamente torturada, apenas sente e não pode pensar. As vossas palavras indigná-lo-iam e iriam aumentar-lhes o suplício. E todavia haverá coisa mais verdadeira? Porque é indubitável que a maior miséria provém do maior mal; e eu não receio afirmar que o castigo, em vez de ser um mal, é um bem, visto que o que produz o mal é a oposição ao soberano bem, que é Deus. Ora o castigo não é contra Deus; está pelo contrário, de harmonia com a Sua justiça. E então não é justo que o pecador sofra, e que o crime não fique impune? E não é a justiça um grande bem? Por consequência, se o castigo é um mal, apenas o é para o caso particular; porque, para o caso geral, é ele um grandíssimo bem. E de que maneira? É que o pecado estabelece a desordem no universo; e o não obedecer aos preceitos divinos é uma desordem manifesta; portanto, o pecado estabelece no mundo a desordem. E todavia o Senhor do universo não pode admitir desordem na Sua obra. E então que faz? Estabelece duas ordens: uma, dos Seus eternos preceitos, pelos quais se formam as vontades sinceras; a outra, é a ordem da justiça que regula as vontades desregrada. Estas duas ordens fundam-se ambas nesta lei imutável que obriga ao cumprimento da vontade divina, ou com a obediência dos bons, ou com o suplício dos criminosos.

«O que não é realizado por aqueles que desobedecem à sua vontade é realizado por Ele próprio», diz Santo Agostinho: Cum faciunt quod non vult, hoc de eis facit quod ipse vult (Serm., CCIXV, n.° 3)

Tu não quiseste submeter-te à ordem, hás de sofrer as consequências; isto é: Não quiseste cumprir, ó pecador, a ordem dos preceitos divinos que te haviam sido impostos, hás de ficar sujeito à ordem da sua justiça. E que é a ordem da justiça? É a justa punição das vontades rebeldes; é a severidade da rigorosa justiça divina que experimentam aqueles que desprezaram a bondade de Deus; é o penoso regresso do domínio de Deus daqueles que dEle se afastaram pela sua rebelião, para que assim tudo fique sujeito à Sua divina vontade, naturalmente ou por violência.

Por consequência, o castigo está na ordem, porque reduz à ordem os que dela se tinham desviado; e então é ele muito conveniente para o proceder geral do universo, porque a ordem é o bem geral; e, ainda que o particular sofra com isso, existe um certo bem no mal que ele sofre, porque há regra e equidade. Ora, se formos mais longe, veremos que só o pecado é o mal propriamente dito e essencial, sem relação alguma com o bem. É necessário que ele seja o soberano mal, porque é soberanamente oposto ao soberano bem. Portanto, está provado o que eu disse, que a maior miséria é o maior mal. Ora se o pecado e o inferno fossem coisas distintas, teríamos necessariamente de concluir que o pecado seria exatamente como o inferno; e que os réprobos seriam mais miseráveis por serem pecadores do que por serem precitos. E, se bem que isto repugne à razão do homem, é necessário que as verdades eternas prevaleçam e que cativem o nosso entendimento.

E agora, para tomar o fio do nosso discurso, devemos crer que muitos pecadores excitaram no coração de Jesus Cristo uma dor incompressível. E se Jesus Cristo teve uma dor tão sensível pelos menores de todos os males, que são os que atormentam este corpo sujeito à morte, não se compreende como Ele desejou ardentemente dar remédio aos pecados que arruinavam as almas que Ele viera resgatar, no estado de miséria extrema. É por isso que se Ele deu lágrimas para as doenças do corpo, deu a última gota do Seu divino sangue para as doenças das nossas almas. Se curou as enfermidades corporais, com uma incrível facilidade, só pela virtude da Sua palavra, quis purificar as nossas iniquidades com dons incompromissíveis; como diz o profeta Isaías (Is 53, 4-5), que «Deus o castigou por causa dos pecados do seu povo, que ele vergou ao peso dos nossos pecados e que nós ficamos curados com as suas dores». Foi com este sangue e com estes sofrimento que Ele abriu na casa de Davi essa bela e admirável fonte de que fala o profeta Zacarias no seu capitulo 13:

«Nesses dias, diz ele, brotará uma fonte para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para purificação dos pecadores» (Zc 13, 1)

Ora foi para vós cristãos, que se abriu essa fonte. Vós sois os verdadeiros habitantes de Jerusalém, porque sois os filhos da Igreja e os herdeiros das promessas que foram feitas à sinagoga. Sois a casa de Davi, porque estais incorporados em Jesus, filho de Davi, e porque a Sua carne e o Seu sangue passaram para vós.

Correi, pois, a essa fonte milagrosa, e lavai nela as vossas iniquidades. Todos correm muito solícitos a esses banhos que imaginam ser salutares para o corpo e desprezam-se essas águas divinas onde se faz a purificação das nossas almas. Que estupidez e que cegueira! Se compreendêsseis bem, cristãos, quão terrível e inimaginável é o mal de ofender a Deus, porque não buscais o remédio que Jesus misericordioso vos dá na penitência? Porque é por este canal, fiéis, que correm essas águas sagradas e purificadoras.

Ó Deus! Quão feliz me julgaria, se pudesse fazer-vos compreender que as doenças mais cruéis nada valem, em comparação do veneno e da peste, inoculadas em nossas almas por um único pecado mortal! Roguemos, pois, ao médico misericordioso, que tanto se compadece de nossos males, que dê aos nossos corpos o destino que entender, contanto que salve as almas. Quando somos acometidos de dores violentas, abrimos-Lhe o nosso coração e dizemos com fé viva: Caritativo e misericordioso Médico, que baixastes do céu para me tratardes das minhas doenças que são inumeráveis, ou eu estou muito doente do corpo, a julgar pelas dores violentas que sinto; ou estou muito doente da alma, visto que tanto me oprimem os incômodos mais ligeiros; ou então estou doente do corpo e da alma, porque não só as dores que sinto são agudíssimas, mas também o meu espírito enfraquece demasiado com doenças que, além de serem cruéis, de forma alguma são suportáveis. Confesso-Vos, ó meu Deus, que a razão deveria dominar mais do que domina; mas que hei de fazer? A minha carne é fraca, e bem sabeis Senhor, quanto ela pesa ao espírito. Porque é que me não dais a saúde, Vós, que sois um bom médico? Os Vossos grandes milagres provam-me à evidência que Vos não falta o poder de me aliviardes. E eu não creio que fiqueis indiferente aos meus sofrimentos, Vós que sempre haveis tido uma tão grande compaixão dos miseráveis, e a quem só as nossas misérias atraíram a este mundo para remediar os nossos males, oh! É impossível, certamente me haveis de ouvir.

Mas, se eu necessariamente devo sofrer em vez de me curar, seja feita a Vossa vontade. O que agora é travor para mim, ser-me-á dulcidão, quando for ministrado por uma mão tão preciosa e tão benfazeja. Na verdade, bem reconheço, Salvador meu, que ainda não é tempo de curar o meu corpo. Esse tempo há de vir, esse tempo extremamente feliz, em que haveis de estabelecer numa incorruptível saúde esta carne que amastes, visto que tomastes uma da mesma natureza. Então a minha carne ficará sacrificada, pois ficará semelhante à Vossa, de que eu participei aos Vossos sagrados mistérios.

Entretanto, se Vos apraz, irei sofrendo. Mas, pelo menos, ó minha doce esperança, ó meu amável consolador, curai as doenças da minha alma. Moderai os ímpetos da minha avareza e o ardor dos meus loucos amores e a perigosa precipitação dos meus juízos temerários e o indiscreto calor da minha ambição mal ordenada. Não ignoro que as minhas doenças são justas punições dos meus crimes; mas, ó meu único libertador, que para mim tudo dispondes bem, fazei que as penas dos meus pecados sejam o sinete da Vossa misericórdia, o exercício da minha penitência e a prova da minha virtude. (Var.: inda muita caridade).

Estais satisfeitos com esta matéria, fiéis? Conhecestes Jesus Cristo como médico dos enfermos? Quereis que falemos finalmente de Jesus companheiro e evangelista dos pobres, a fim de considerarmos por mais algum tempo Jesus escândalo dos infiéis? Estai de novo atentos, se Vos apraz.

SEGUNDO PONTO

Como o profeta Isaías foi quem nos mostrou Jesus Cristo, curando as nossas doenças, há de ser também ele que nos há de dizer que foi enviado para ser o evangelista dos pobres; e, pela designação de pobres, deveis entender geralmente todos os contritos de coração a quem Jesus devia evangelizar, isto é, trazer-lhes boas-novas. Suposto isto, escutai agora Isaías no seu capitulo 61, em que ele fala assim do Messias:

«O Espírito do Senhor, diz ele, repousou sobre mim, porque o Senhor me encheu da sua unção» (Is 61)

Detenhamo-nos nestas palavras, cristãos, e penetremos no sentido delas. Primeiro que tudo, digo que o profeta fala em nome e como figura doutrem, segundo o estilo ordinário da expressão profética; porque nós não lemos nada nas Escrituras a respeito da unção do profeta Isaías. Mas quem seria aquele que, um pouco versado no cristianismo, não via por estas palavras que ele manifestamente designava o Salvador do mundo? O Espírito do Senhor repousou sobre mim, disse ele. E não foi ele próprio que disse «que nascerá uma flor da raiz de Jessé, e que sobre ela repousaria o Espírito do Senhor ?» (Idem, 11, 1-2). Sabeis que Jessé é o pai do rei Davi. Que flor é essa da raiz de Jessé a não ser o Salvador que, por excelência, é chamado o filho de Davi? E não foi sobre Ele que se viu descer o Espírito Santo sob a forma duma pomba, quando Ele se fez batizar pelo Seu precursor? «Porque o Senhor me encheu da sua unção», continua Isaías. Não foi ainda ao Filho de Deus que Deus encheu dessa unção admirável, donde até lhe provém o nome? Na Sagrada Escritura é Ele chamado indiferentemente o Messias, o Cristo de Deus, o ungido de Deus; o que corresponde a dizer, a mesma coisa em diversos termos. Porque, como na lei antiga era pela unção que se estabeleciam os reis e os sacrificadores, o reparador da nossa natureza, devendo ser ao mesmo tempo o rei do verdadeiro povo e o único sacrificador do verdadeiro Deus, chamou-se ungido de Deus com um título de prerrogativa extraordinária, porque, pela dignidade da Sua unção, devia reunir num só a realeza e o sacerdócio, que estavam separados no primeiro povo. E não entendeis aqui, cristãos, qualquer espécie de unção corporal; unção do nosso pontífice é a divindade do Divino Verbo. Porque assim como a propriedade dos óleos e das unções é estenderem-se primeiramente às coisas a que são aplicados, e depois penetrarem nelas o mais possível, incorporarem-se nelas em certo modo e a elas ficarem tão intimamente ligados que constituam uma mesma substância; assim a divindade do Verbo, unindo-se à humanidade de Jesus, espalhou-se-lhe primeiramente no seu todo e nas suas partes, penetrou nela tão profundamente que nela efetivamente Se encarnou, de maneira que duma e doutra formou-se apenas um único todo, em consequência desta união inefável. Foi por isso que Jesus Salvador se chamou por excelência ungido de Cristo, por causa desta divina e miraculosa unção.

Mas voltemos ao profeta Isaías:

«O Espírito do Senhor repousou sobre mim, porque o Senhor me encheu da sua unção. Ele me enviou para evangelizar os mansos (adverti as próprias palavras do nosso evangelho), para curar os contritos de coração, para pregar a remissão dos cativos, para publicar o ano da reconciliação do Senhor, para consolar os que choram e transformar em alegria a tristeza dos que se lamentam em Sião»

Até aqui fala o profeta Isaías. E haverá uma única palavra em todo este discurso, em que não vejais claramente Jesus, Senhor nosso, nos efeitos do seu Evangelho? Foi por isso que, tendo-se Ele próprio encontrado na sinagoga onde há esta profecia, mostrou evidentemente que ela se cumpriu em seus dias. (Lc 4, 17). Mas quereis, irmãos, que eu vos prove, numa palavra, o seu cumprimento? Vamos todos a essa misteriosa montanha onde Jesus começa a falar, depois de se ter contentado até então como fazer falar os Seus profetas: Aperiens os suum dixit (Mt 5, 2); vamos a essa misteriosa montanha, ouçamos lá a primeira prédica do Messias, vejamos-Lhe fazer a abertura do Seu Evangelho e lançar os fundamentos da nova lei; é lá que Ele começa de evangelizar. Foi por isso que, lembrando-se de que a Sua obra determinava muito expressamente evangelizar os pobres e os miseráveis, isto é, trazer-lhes boas-novas, como já expliquei, foi por isso que, neste admirável discurso, Ele dirigiu primeiro a palavra aos pobres: «Bem-aventurados os pobres de espírito, porquê deles é o reino do céu» (Mt 5, 3). Que consolações aos pobres, que Jesus, tão rico por Sua natureza e tão pobre por Sua vontade, lhes promete com tão grandes riquezas! Que melhores novas lhes podia Ele dar? Evangelizar os pobres não era desempenhar-se do ofício a que estava destinado pelos profetas? Ah! Como neste passo reconheço claramente Aquele de quem o Salmista disse: Honorabile nomen eorum coram ilo (Sl 71, 14).

E assim continua com a mesma energia. Isaías, se ainda vos lembrais, disse que deve anunciar a consolação aos que choram (Is 61, 2).

«Bem-aventurados os que choram, disse o Senhor Nosso, porque eles serão consolados» (Mt 5, 5)

Isaías diz-nos que o Messias devia publicar o ano da reconciliação do Senhor (Is 61, 2); é o que noutro lugar se chamou o tempo de indulgência, o tempo de misericórdia. E não é o que faz Jesus, Salvador, anunciando-nos a misericórdia nestes termos:

«Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia?» (Mt 5, 7)

Isaías afirma que deve anunciar aos que se lamentam em Sião, que a tristeza lhes será mudada em alegria (Is 61, 3). Sião, é o lugar do templo de Deus, é a figura da Sua Igreja.

Os que se lamentam em Sião, são os que se queixam deste exílio, e que, afastados da sua terra natal, são ordinariamente perseguidos nesta triste peregrinação. Então Jesus, para lhes anunciar a mudança do seu estado miserável para uma condição sempre ditosa, fala assim no mesmo lugar:

«Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus!» (Mt 5, 10)

É assim que Nosso Senhor evangeliza os aflitos, executando pontualmente as profecias antigas.

Porque não clamarei neste passo com o grave Tertuliano, de quem tirei quase todas as notas que acabo de apontar, no seu livro IV Contra Marcião (Advers. Marcion, lib. IV, n. 21); porque, repito, não clamarei com ele:

O Christum et in novis veterem! «Oh! Como Jesus Cristo é antigo na novidade do seu Evangelho!»

O que Ele faz é novo, porque ninguém o tinha feito antes dEle; e o que Ele faz é antigo porque não faz mais do que realizar as coisas que a fiel antiguidade havia esperado.

Quem jamais trouxe melhores novas aos pobres do que aquelas que o pobre Jesus lhes anunciou, quando lhes pregou a sua vinda? Ó pobres, regozijai-vos, que tendes um companheiro; mas um companheiro tão sublime e tão admirável que vale mais ser pobre na Sua companhia do que ser o senhor omnipotente nas assembleias dos mundanos. Não vos admireis de serdes a escória do mundo, porque assim era Jesus Cristo quando apareceu na terra e falou no meio dos homens. Os pobres, que eram os Seus bons amigos, foram os primeiros a saber da Sua vinda, porque para eles é que Ele vinha ao mundo; e apenas como pobre quis ser reconhecido. A continuação da Sua vida não desmentiu o Seu nascimento. Quanto mais avançou em idade, tanto mais utilizou os pobres nos Seus interesses, que outros não eram senão a glória de Deus. É a eles quem Ele admite às suas confidências, a eles é que descobre todos os Seus mistérios, são eles os escolhidos para ministros do Seu reino e colaboradores da Sua obra épica.

Coragem, pois, ó pobres de Jesus Cristo! Que importa que todo o mundo vos despreze? Basta que tenhais Jesus Cristo por vosso lado. Não tendes entrada na corte dos reis, mas lembrai-vos de que é lá que reinam a confusão e a desordem. Correi para Jesus Cristo, ó enfermos, miseráveis, em geral, quem quer que sejais, ó oprimidos da sorte; nele encontrareis a paz para as vossas almas. Escutai a voz carinhosa que chama por vós. Lançai-vos confiadamente em Seus braços, porque Ele tem-nos sempre abertos para vos receber. Suportai sempre com paciência a vossa pobreza; não murmureis contra Deus nem contra os homens. Esperai toleradamente o tempo da vossa consolação; e lembrai-vos de que, se o mundo vos oprime, vós servis um Senhor que o venceu, que não pode agradar ao mundo e a quem o mundo também não pode agradar. É o que Jesus Salvador anuncia aos pobres. Dizei-me, na verdade, cristãos, podia Ele dar-lhes melhores novas? E não temos nós razão em afirmar que é Ele o verdadeiro emissário para a evangelização dos pobres?

TERCEIRO PONTO

O que me assombra, fiéis, é que sendo o Salvador do mundo tal como o acabamos de descrever, haja quem, durante a Sua vida, o tenha ultrajado. Permiti que recordemos em poucas palavras tudo o que dissemos já, e admiremo-nos perante Deus de haver quem tenha podido ser escandalizado no nosso Salvador. Em primeiro lugar, deviam os Seus milagres fazer calar as bocas mais maldizentes? Uma missão tão bem atestada devia ser alguma vez controvertida? Ainda se Ele tivesse operado milagres, cujo fim fosse unicamente pôr em destaque o seu poder, talvez se dissesse que havia ambição nestas grandes obras. Mas eu demonstrei-vos que todos os Seus milagres tiveram origem numa terna compaixão pelos nossos males, e que nunca Ele deu um passo que não fosse para bem deste povo ingrato. Suponhamos, porém, que um negro desejo tenha ainda podido convencer de que Ele se servia do dom de Deus para criar reputação; que havia a dizer contra a Sua simplicidade. Viram-no à porta dos grandes a mendigar a sua proteção? Entreteve-se nos negócios do mundo ? Lisonjeou a ambição e a arrogância dos príncipes?

Não levou, pelo contrário, uma vida não só modesta e simples, mas muito miserável e muito humilde, andando com toda a simplicidade, vivendo e, conversando com os pobres, sofrendo sempre injustiças sem nunca se queixar? É certo que era desprezado, mas não aspirava a honras; era pobre, mas não pedia riquezas, embora nem sequer tivesse uma pedra para descansar a cabeça.

Podia desempenhar-se mais dignamente do Seu encargo de pregador? Ele ia ensinando a palavra de vida eterna de que Deus o tinha incumbido. Não enriquecia o Seu discurso com soberbos pensamentos ou com o fausto duma eloquência mundana; mas tornava-o cheio duma doutrina celeste, de verdades divinas, que davam às almas um alimento sólido e desciam até à raiz das nossas fraquezas. Umas vezes atraía os povos com suavidade, outras vezes atacava-os energicamente, até lhes chamar filhos do demônio, pregando-lhes os oráculos divinos não com as covardes condescendências dos escribas e dos fariseus, mas com império e autoridade (Jo 8, 44), com uma liberdade e uma segurança digna das verdades eternas que Ele nos vinha anunciar.

Que se podia censurar numa vida tão ordenada? Não se devia admirar essa coragem igualmente inflexível nos bens e nos males; essa igualdade de costumes que fazia com que vivesse com toda a gente sem rigor e sem lisonja, sem covardia e sem arrogância; essa pureza de intenção que o obrigava sempre a cuidar dos interesses de seu Pai? E contudo, diz Ele, é necessário que eu dê escândalo; e, para mostrar a dificuldade que há em não ser ofendido durante e vida, diz:

«Bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar» – Beatas qui non fuerit scandalisatus in me (Mt 11, 6)

Ó Deus quem não ficaria assombrado com os segredos terríveis da Providência? Mas é neste passo que, com o maior sentimento da minha alma, eu digo como o grave Tertuliano:

Mihi vindico Christum, mihi defendo Jesum…, quodcumque illud corpusculum sit (Advers. Marcion, lib. III, n.° 16 e 17)

Esse inocente combatido em todo o mundo, é o Jesus Cristo que eu procuro; afirmo que esse Jesus é meu, protesto que me pertence.

«Se é vil, se é abjeto, se é miserável, direi mais, se é o escândalo dos infiéis, é Ele o meu Jesus Cristo» – Si inglorius, si ignobilis, si honorabilis, meus erit Christus

Pois que, continua o mesmo Tertuliano, assim me foi prometido nas profecias:

Talis enim habitu et aspecta annunciabatur

Eu reconheço Aquele de quem Isaías escreve no capitulo 28, que é «uma pedra eleita, uma pedra de salvação» (Is 28, 15) para o seu povo; e no capitulo 8, que «é uma pedra de escândalo, em virtude da qual todos os que nela chocarem ficarão despedaçados» (Is 8, 14). Reconheço Aquele de quem o Salmista cantou: «A pedra que eles lançaram, quando andaram construindo, ficou sendo a pedra angular» (Sl 117, 22) que sustenta todo o corpo do edifício. Finalmente reconheço Aquele de quem Simeão disse no templo, tomando-o nos braços:

«Este é posto para queda e elevação de muitos, e para sinal que será contradito» (Lc 2, 34)

Aquele, enfim, que disse ao cego que tinha feito muito mais luz no seu espírito do que no seu corpo:

«Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem comecem a ver, e os que veem sejam cegos» (Jo 9, 39)

Cristãos, não tremeis ao ouvirdes estas palavras do nosso Salvador? Espero, contudo, da misericórdia divina que elas não sejam dirigidas a vós. Tremei, infiéis, tremei, insensíveis; a vós unicamente é que Jesus cega. E vós, verdadeiros fiéis de Jesus Cristo, que tendes o seu temor em vossos corações, abri os olhos a essa luz que só fascina os orgulhosos, e compreendei com fé e submissão os profundos conselhos do Pai eterno, ao enviar seu Filho Jesus Cristo. Não demoremos aqui os nossos raciocínios, para deixar tempo a uma breve reflexão sobre os nossos costumes.

Primeiramente, poderia dizer-vos, para suspender uma curiosidade pouco respeitosa, que Deus, moderando como lhe apraz a obra da nossa salvação e sabendo o que nos é útil, não julgou conveniente que soubéssemos todas as razões do mistério. Quando o sábio arquiteto começa de reconstruir um velho edifício, o espectador ignorante imagina que ele tudo destrói, e a sua fraca imaginação só vê desordem, porque não pode suportar um plano arrojado demais; mas, quando a obra está concluída, vê-se então brilhar por todos os lados a arte e a orientação do artista. Ah! Não sabeis, cristãos, que na Sagrada Escritura toda a obra da nossa salvação é muitas vezes comparada a um edifício sustentado «no alicerce dos Apóstolos e na pedra angular que é Jesus Cristo?» (Ef 2, 20) — Por isso Deus, no decurso dos séculos, se propôs restabelecer o homem, como um edifício que ameaça ruína. Assentou o alicerce desta nova estrutura na vida do Criador. Os sentidos humanos nada compreendem disto; tudo os contraria, tudo os embaraça: donde o escândalo e a perturbação. Mas nesse grande julgamento, em que Deus há de coroar o edifício da gloriosa imortalidade dos nossos corpos, em que, depois de tudo consumado, «Ele há de ser tudo em todos», como diz o Apóstolo, (1 Cor 15, 28) e quando a luz eterna se manifestar aos nossos corações, que ordem, que sabedoria, que beleza não veremos nós no que parecia aos nossos sentidos tão confuso e tão mal compreendido! Por consequência, ó homem, crê enquanto não vês. Fica sabendo que a cura das tuas doenças depende absolutamente da confiança que tiveres no teu médico: Crê, e serás salvo, nos diz ele (Lc 8, 50); toma, sem examinar, o infalível remédio que Ele te oferece. Se Ele guardar indefinidamente o segredo desse remédio, desde já te faculta o uso dele; e a Sua misericordiosa bondade dispôs tudo de uma tal maneira que acreditar na Sua eficácia constituí a tua saúde, como conhecê-lO será a tua felicidade.

Haverá coisa mais conveniente, tanto mais que esse grande médico que se obriga a tratar das tuas chagas, conhecendo perfeitamente a malignidade delas e o vício da tua natureza, claramente viu que nada havia que te fosse mais próprio nem mais necessário do que a humildade? Ó homem, se bem o compreenderes, o orgulho é a tua doença mais perigosa. Foi pelo orgulho que, sacudindo o jugo da autoridade soberana, pela qual a tua alma deve ser dirigida, tu próprio vieste a ser a tua lei. A conduta da tua razão foram as suas próprias luzes; a regra da tua vontade foram as suas disposições. É essa a tua chaga mortal. É preciso que se humilhem estas duas faculdades, para então poderes receber a cura. Assim como a tua vontade se inclina pela obediência, assim o teu entendimento se submete pela fé. Tu submetes a tua vontade ao teu Deus, quando abraças as coisas porque Ele as quer; e submetes-lhe o teu entendimento, quando acreditas nelas porque Ele as diz. Mui grande te parece esta submissão. Mas um Deus, feito homem por amor de nós, um Deus que, por amor de nós, morreu, exige um sacrifício mais completo com uma humilhação mais profunda. Pois um Deus feito homem e um Deus que morreu, não é um Deus humilhado, como diz o Apóstolo? (Fl 2, 7) e qual deve ser o sacrifício de um Deus humilhado por amor do homem, senão o homem humilhado perante Deus? Ora não seria muito em sua honra praticar as coisas fáceis e acreditar nas que são plausíveis; de maneira que, para a perfeição deste sacrifício que devemos oferecer ao Deus encarnado, era necessário fazer as coisas difíceis e acreditar nas incríveis. Deste modo, destruímos perante Ele tudo o que somos, a fim de que tudo seja reparado por Sua mão (Var.: A fim de que Ele se digne reparar-nos por Sua mão). É por isso que era conveniente, para restabelecer a razão humana pela humildade, que as verdades de Jesus fossem inacreditáveis. Ora tudo o que é inacreditável é relutante, e tudo o que é relutante causa perturbação: daqui o escândalo dos infiéis.

Além disso, a verdade mais importante que era preciso conhecermos, dada a nossa fraqueza e a nossa impotência, e mostrando nós claramente quanto somos impotentes por natureza, era o meio único de recorrermos confiadamente ao mérito do libertador Jesus Cristo. Ora, quando vejo a Sua doutrina e a Sua vida tão cruelmente combatidas, faço esta reflexão: Porque é que se opõe esta resistência tão furiosa à obra da nossa salvação? Não é verdade o que diz São Paulo:

«O homem animal não compreende os segredos de Deus?» (1 Cor 2, 14)

Não é verdade o que diz Jesus Cristo:

«Porque não atendeis aos meus discursos? Porque não podeis entender a minha linguagem?» (Jo 8, 43)

Porque não podiam eles entender essa linguagem? É porque queriam entender sem reflexão, e isso era-lhes impossível. Não entendendo essa linguagem, mostravam-se necessariamente abstratos à voz de Deus; e essa abstração animava-os à resistência. Quanto mais sublimes eram as verdades, mais abstrata ficava a sua razão orgulhosa, e mais inflamada se mostrava a sua resistência. É por isso que eu não me admiro da resistência subir ao maior auge e atingir o último grau de furor, quando o Filho de Deus lhes anunciou o que tinha visto junto de seu Pai. E por isso Ele lhes diz no seu Evangelho:

«Vós quereis-me matar, porque a minha palavra não cabe em vós» (Idem, 37)

Soberbos ignorantes, porque não recorreis à graça pela humildade cristã? E vós não reconheceis, cristãos, que, sem o auxílio dessa graça, resistiríeis sempre ao vosso salvador? Esses pérfidos ouviram as Suas palavras, e desprezaram-nas; viram os Seus milagres, e não acreditaram neles; viram a Sua vida, e ela foi para eles um escândalo. Portanto, é verdade, ó meu Jesus Salvador, que, se não me falardes poderosamente ao coração, se não me arrastardes para Vós pelos Vossos doces encantos, nem a Vossa vida, se bem que muito inocente, nem a Vossa doutrina, se bem que muito sagrada, nem os Vossos milagres, se bem que muito sublimes, conseguirão dominar a minha obstinada rebelião. Uns dizem que Sois um grande profeta, outros que Sois um sedutor; uns edificam-se em Vós, outros escandalizam-se conVosco. Porque é isto, ó meu Mestre, a não ser porque uns são humildes e outros orgulhosos, uns seguem a natureza e outros a graça? Deste modo, as Vossas verdades cegam uns, para iluminar outros tanto mais. Sois uma pedra de escândalo para os soberbos, a fim de que os humildes conheçam melhor o que fazeis misericordiosamente em seus corações, e louvem os Vossos benefícios com uma admiração profunda pelos Vossos juízos. É aqui que os bons cristãos ficam inacreditavelmente consolados. Se as verdades evangélicas entrassem nas nossas almas com uma aparência plausível, atribuiríamos a sua vitória à força do nossa razão; e, tornando-nos mais soberbos, ficaríamos, por consequência, mais doentes. Mas, quando o verdadeiro fiel compreende a loucura e a extravagância do cristianismo, é então que a graça se manifesta na repugnância da natureza, porque reconhece que não é a carne que o vence, nem os interesses mundanos que o induzem, nem a filosofia humana que o convence, senão o poder divino que o cativa. Foi por isso que, na doutrina do Evangelho, aprouve ao nosso Deus que houvesse tantas coisas singulares, violentas, inacreditáveis, extravagantes, segundo a sabedoria do mundo, a fim de que, confundindo-se a razão humana, triunfasse dos corações a única graça de Jesus Cristo, por meio da humildade cristã.

Mas digamos ainda uma razão, que será a última, e que fechará este discurso, dando-nos uma instrução importante para a conduta da nossa vida. É realmente verdade, ó Deus omnipotente, o que o bom Simeão disse do Vosso amado Filho; «que seria posto como sinal, por meio do qual seria contradito» (Lc 2, 34). Todas as Suas ações e todas as Suas palavras foram maliciosamente contraditas. Ele cura os paralíticos, os cegos de nascença e outras doenças incuráveis; e, porque escolheu o dia de sábado para fazer essa boa obra, dizem que viola a lei de Deus. Expulsa os demônios, e dizem que é em nome de Belzebu, príncipe dos demônios. Chamam-lhe louco, sedutor, ímpio e possesso.

Nunca os doutores da lei se aproximavam dele que não fosse para o injuriar ou para o surpreender. Finalmente penduraram-no na cruz, e o Redentor de Israel veio a ser o escândalo desses infiéis. Os gentios contradisseram a Sua palavra por meio de todas as espécies de crueldades que exerceram nos seus servos. Tomaram as Suas verdades e o Seu Evangelho pela maior loucura que jamais apareceu na terra. Além disso, dentre os que se submeterem à Sua disciplina, quantos o não contradisseram? Ah! Meus irmãos, que indignidade! Todos os fundamentos da nossa salvação foram atacados pelos povos que professavam o cristianismo.

O pérfido Ariano negou a divindade de Jesus, o insensato Marcião negou a Sua humanidade, o Nestoriano semeou a discórdia entre os homens, o Eutiquiano confundiu as naturezas; e na pessoa de Jesus Cristo empregaram-se de tal maneira todas as invenções diabólicas que é impossível imaginar-se um erro que não só tenha sido sustentado, mas até tenha constituído uma seita com o nome do Cristianismo. Quantas heresias se elevaram contra as verdades de Jesus! Todas chocaram com essa pedra: e, sem descer a minudencias, depois de romperem, sem motivo algum, a paz e a unidade cristã, não se escandalizaram com Jesus, autor da paz e da caridade fraternal?

Mas vamos ainda mais adiante. Que os gentios, que os judeus, que os hereges se escandalizassem com Jesus, Senhor nosso, admite-se; facilmente se sofrem as injúrias dos seus inimigos. Mas, ó dor! Que os católicos, que os filhos da sua santa Igreja, que os verdadeiros sectários da sua fé vivam assim neste mundo, porque é inegável que Jesus Cristo os ofenda e que o seu Evangelho seja para eles um escândalo, isto, irmãos, é que é muito mais deplorável do que o podem exprimir as minhas palavras. Quando a humildade, quando a intensidade, quando o desprezo pelas honras da terra, enfim, quando a inocência te ofende, cristão, ousarias dizer que não és ofendido pelo Salvador? Ignoras que a Sua doutrina não é apenas a luz dos nossos espíritos, mas que é o modelo da nossa vida? Se Jesus é o escândalo dos que vagueiam na doutrina, porque não consideram Jesus Cristo como nosso médico infalível, não o é também dos que são depravados nos seus costumes, visto que não querem reconhecê-lO como o exemplar da nossa vida? E que encontrarei no mundo que não se escandalize no nosso Salvador? Nós amamos as riquezas, e Jesus desprezou-as; nós corremos atrás dos prazeres, e Jesus condenou-os; nós somos joguetes do mundo, e Jesus dominou-o. E como podemos dizer que amamos a Jesus, nós, que nada amamos do que vemos na pessoa d’Ele, e que amamos tudo o que n’Ele não vemos? Vivendo assim, podes negar que não sejas ofendido por Jesus? Tu não odeias o seu nome, mas isso é para ti um escândalo.

Sim, Jesus é para ti um escândalo, ó vingativo, porque perdoou as injúrias; Jesus é para ti um escândalo, ó usurário, porque é o pai e o protetor dos pobres a quem a tua impiedosa avareza arranca todos os dias as entranhas. Jesus é para ti um escândalo, hipócrita, porque te serves da Sua doutrina para acobertares os teus costumes corruptos. Jesus é para ti um escândalo, ó miserável supersticioso, que, por caprichos particulares, abandonas toda a piedade sólida e a devoção essencial da Cristianismo, que é a cruz de Jesus, Senhor nosso. Jesus é um escândalo para ti, que consideras a simplicidade como tolice e a devoção sincera como hipocrisia, para ti, enfim, que pela tua vida desregrada, obrigas os seus inimigos a blasfemarem o seu santo Nome. Posto isto, cristãos, para quem é que Jesus não é um escândalo? «Todos procuram os seus interesses e não os do nosso Salvador», dizia outrora o apóstolo São Pedro (Fl 2, 4). Ó Deus, que diria Ele, se voltasse agora à terra? Vendo a licença que reina no meio de nós, vendo nela triunfar o vício, tomar-nos-ia por cristãos, ou não nos colocaria antes no número dos infiéis?

Oh! Porque é, ó Deus omnipotente, porque é que permitis que vosso Filho tenha tantos adversários e tão poucos servos verdadeiros? Eu compreendo o Vosso desígnio, ó Deus! Quereis que, nessa confusão infinita dos que contradizem o nosso Salvador, conservem mais preciosa a graça de o honrarem aqueles que sinceramente o fazem; quereis que a sua fé seja mais firme e a sua caridade mais ardente, no meio das oposições de tantos inimigos, e que Jesus encontre no zelo do pequeno número o que parece perder na multidão inumerável dos ingratos e dos transviados. Por consequência, irmãos, aumentemos os nosso zelo para o servir, tanto mais quanto mais vemos aumentar todos os dias o número dos que blasfemam o seu Evangelho com as suas culpas ou com a sua vida desregrada; esforcemo-nos tanto mais por lhe agradar e por aumentar a glória do seu santo Nome; tratemos de lhe prestar a honra que os Seus inimigos lhe roubam. Digamos-Lhe com todo o afeto dos nossos corações: Embora o judeu se encolerize, e o gentio escarneça, e o herege se transvie e o mau católico se junte ao partido dos Vossos inimigos, nós confessamos, ó Jesus, que Sois aquele que deve vir; Sois esse grande Salvador que nos foi prometido desde o princípio do mundo; Sois o médico dos doentes; Sois o evangelista dos pobres; e naquilo que pareceis como que o escândalo dos orgulhosos, Sois o amor dos simples e a consolação dos fiéis. Sois aquele que deveis vir; não conhecemos nem esperamos outro senão a vós:

«Debaixo do céu não há nenhum outro nome em que devamos ser salvos» (At 4, 12)

Por consequência, fiéis, visto que não esperamos outro senão a Ele, ponhamos a nossa esperança nEle só. Se é certo que já não esperamos outro mestre senão a Ele para nos ensinar, observemos fielmente os Seus preceitos.

Se não esperamos nenhum outro pontífice que venha purificar as nossas iniquidades, conservemos cuidadosamente a inocência. E, visto que o mesmo Jesus, que veio na enfermidade da carne, há de vir mais uma vez glorioso para julgar os vivos e os mortos, «vivamos justamente e sobriamente neste mundo, aguardando a feliz esperança e a triunfante chegada do nosso Deus e redentor Jesus Cristo» (Tt 2, 12-13), que, destruindo a morte para sempre, nos fará companheiros do Seu reino e da Sua feliz imortalidade.

Assim seja.

Referências:

(1) Plínio o Moço dirige pouco mais ou menos as mesmas palavras a Trajano: Quum orbem terrarum non pedibus magis quam laudibus peragrares.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 153-186)