Domingo da Septuagésima - Sermão sobre a eminente dignidade dos pobres na Igreja
Sermão sobre a eminente Dignidade dos Pobres na Igreja

Este discurso, que é um Sermão de Caridade em toda a extensão do termo, não conclui, como poderá ver-se, pela Ave-Maria tradicional. Os editores são unânimes em afirmar com Floquet que este sermão foi pregado no Seminário das Filhas da Providência, estabelecimento situado junto do Val-de-Grace. Lachat, afirmativo sempre, menciona os nomes de senhoras ilustres, na presença das das quais falou Bossuet. A data deste discurso não pode precisar-se ao certo, nem o lugar onde Bossuet o pronunciou é rigorosamente o seminário das Filhas da Providência. No verso de duas cartas que vieram de Sedan para Metz, e que foram remetidas de Metz para Paris, acham-se escritas duas páginas deste sermão. O sinete duma dessas cartas tanto pode ser o da famílias de Bouillon, como o dos Schombergm, como até o do marechal Fabert. (Gazier) – Ms. Tomo XI, pag. 269 – Déforis, IV, 536. – Lachat, VIII, 125. – Gandar, pag. 161.

Pregado em Paris, em fevereiro de 1659.

SUMÁRIO

Exordio. — A subversão das condições que o Salvador nos anuncia na passagem do Evangelho, que serve de tema a Bossuet, começou já nesta vida.

Proposição e divisão. — O orador desenvolve três pensamentos que se opõem ao que decorre no mundo e na Igreja, que é o reino de Jesus Cristo. No 1° prova que a maior grandeza pertence aos pobres, que são os primogênitos da Igreja, os seus verdadeiros filhos; no 2° que os ricos são os servos dos pobres; e no 3° que são os pobres que têm as graças e as bênçãos do céu, e só por intervenção deles é que as podem ter os ricos.

1.º Ponto. — A Igreja é realmente a cidade dos pobres, por que nos seus princípios só foi edificada para eles. Difere, portanto, da Sinagoga na ausência das riquezas e da abundância que são as partilhas desta. É isto o que nos faz compreender o Salvador, quando diz: Beati pauperes, quia vetrum est regnum Dei. Deve-se, pois, amar e respeitar os pobres, ainda mesmo quando se lhes faz uma esmola, porque são eles os primogênitos da família de Jesus Cristo.

2.º Ponto. — Jesus Cristo não necessita para Si dos favores dos ricos, mas necessita deles para os Seus pobres, de quem serve de medianeiro junto dos grandes deste mundo. Portanto, os ricos devem considerar uma honra o fato de serem os servos dos pobres; porém, valendo-lhes nas suas misérias, valem ao próprio Jesus Cristo. Além disso, devem servi-los com grande prazer e gratidão, pois aliviam assim o fardo das suas riquezas, que, aliás, os arrastaria ao abismo.

3.º Ponto. — Em todos os reinos há privilegiados. Os privilegiados do reino de Jesus Cristo são os pobres, porque é na pobreza que reside a magnificência desse reino. Todos os benefícios são prometidos aos pobres; aos ricos só cabem maldições: Vae vobis divitibus.

Peroração. — Posto isto, será necessário que os ricos procurem o meio de que os pobres se interessem por eles? E como? Por meio de esmolas: Peccata tua eleemosynis redime.

Erunt novissimi primi, et primi novissimi
Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos (Mc 20, 16)

Esta maravilhosa Cidade, fundada pelo próprio Deus, governa-se por leis e polícia Suas.

Mas como Jesus Cristo veio ao mundo para destruir a ordem, que o orgulho consolidara, a política do Salvador é diretamente contrária a do século, e eu noto esta contrariedade em três coisas principalmente:

Em primeiro lugar, enquanto no mundo são os ricos os mais vitoriosos, e os que ocupam os lugares mais elevados (1), no reino de Jesus Cristo, a maior grandeza pertence aos pobres, que são os primogênitos da Igreja, os seus verdadeiros filhos.

Em segundo lugar, no mundo os pobres obedecem aos ricos, parecendo ter nascido só para os servirem, e pelo contrário, na Santa Igreja, os ricos só podem ter entrada sob a condição de servirem os pobres.

Finalmente, no mundo pertencem aos ricos e aos poderosos todas as graças e privilégios, não os conseguindo os pobres sem a proteção daqueles; e na Igreja de Jesus Cristo são os pobres que tem as graças e as bênçãos, e só por intervenção deles é que as podem ter os ricos.

Por isso se vai já cumprindo hoje esta doutrina do Evangelho, doutrina que escolhi para meu tema: «os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos», porque os pobres, últimos no mundo, são os primeiros na Igreja; porque os ricos, que se julgam de posse de todas as homenagens, e que calcam aos pés os pobres, só estão na Igreja para servirem os mesmos pobres; porque as graças do Novo Testamento pertencem de direito aos pobres, não as recebendo os ricos senão por intermédio daqueles.

Verdades são estas evidentemente grandes, e que vos devem ensinar, ó ricos do mundo, como deveis proceder para com os pobres; isto é, que deveis honrar-lhes a condição, aliviar-lhes as provações, comparticipar dos seus privilégios. É isto o que intento fazer-vos compreender, auxiliado pela graça de Deus.

PRIMEIRO PONTO

O sábio e eloquente São João Crisóstomo apresenta-nos uma formosa alegoria para conhecermos toda a superioridade da pobreza, com relação à opulência.

Existiriam duas cidades, uma habitada só por homens ricos e, só por homens pobres a outra; São João Crisóstomo, apresentando-as, estuda depois qual delas deveria de ser a mais poderosa. Se nos guiássemos pela opinião da maioria dos homens, é indubitável, cristãos, que como tal classificaríamos a habitada só por homens ricos: mas o grande São João Crisóstomo, prova que a mais poderosa seria a cidade que fosse habitada só por pobres (2), porque a cidade dos ricos teria muito esplendor e luxo, mas não teria força, nem sólidos alicerces.

A abundância, inimiga do trabalho, incapaz de se refrear, e, portanto, alucinada sempre pela sede das voluptuosidades, corromperia todos os espíritos, anularia todos os caracteres, por meio do luxo, do orgulho, da ociosidade. Seriam, portanto, desprezadas as artes; a terra não seria cultivada; os trabalhos penosos (3); que são a conservação do gênero humano, seriam abandonadas por completo; e a esplendida cidade não precisaria de outros inimigos da sua existência, porque cairia por si mesma, arruinada pela sua própria opulência.

Pelo contrário, na outra cidade, que fosse, habitada só por pobres, a necessidade engenhosa, que produz as invenções e as artes úteis, tornaria, por meio das exigências da vida, aplicados os espíritos; estimulá-los-ia por meio do estudo; dar-lhes-ia másculo vigor, por meio do exercício da paciência; e, não se furtando aos suores, realizaria as grandes obras que só um trabalho heroico realiza.

Eis na essência, o que nos diz São João Crisóstomo, acerca destas duas tão diferentes cidades. E serve-se desta alegoria para assinalar a preferência da pobreza. Mas, falando a rigor das coisas, vemos que a distinção entre as duas cidades não passa duma bela fantasia.

As cidades, que são corpos políticos, necessitam, como os organismos físicos (4), dum temperamento e da mistura de elementos, e tanto que, segundo a ordem social, esta cidade de pobres de São João Crisóstomo não pode existir senão na imaginação. Só Cristo e a política do céu podiam construir-nos uma cidade que fosse realmente só dos pobres. Esta cidade é a Santa Igreja.

E, se me perguntardes, cristãos, porque a chamo a cidade dos pobres, justificar-me-ei, avançando a essa proposição: que a Igreja, nos seus princípios, só foi edificada para os pobres, e que são estes os verdadeiros cidadãos desta bem-aventurada cidade que a escritura chamou a cidade de Deus (5). Pode esta doutrina parecer-vos estranha; mas nem por isso deixa de ser verdadeira.

E para vos convencerdes disso, dignai-vos, senhores, notar esta diferença entre a Sinagoga e a Igreja. Deus prometeu a Sinagoga bênçãos temporais, ao passo que, como diz o divino Salmista, toda a glória da Santa Igreja é oculta e interior. Omnis gloria ejus filiae regis ab intus (Sl 44, 14).

«Dá-te Deus – dizia Isaac a seu filho Jacó – o orvalho do céu e o húmus da terra» – In pinguedine terrae et in rore caeli desuper erit benedictio tua (Gn 27, 39)

Eis a benção concedida à Sinagoga. Afinal, quem desconhece, pelas antigas Escrituras, que Deus nunca prometia aos seus servos mais do que prolongar-Ihes as vidas, enriquecer-lhes as famílias, multiplicar-lhes os rebanhos, abençoar-lhes as terras e heranças?

É intuitivo concluir, senhores, por estas promessas, que, sendo as riquezas e a abundância as partilhas da Sinagoga, devia ter esta, na sua instituição, homens poderosos, e casas opulentas. Já assim não sucede com a Igreja.

Nas promessas do Evangelho não se alude aos bens temporais, que serviam de engodo aos materialistas e de ludibrio aos novos. Em vez deles, serviu-se Cristo das dores e das aflições, e foi por meio desta maravilhosa substituição que os últimos ficaram sendo os primeiros e que os primeiros ficaram sendo os últimos. Porque os ricos, que eram os primeiros na Sinagoga, não têm entrada na Igreja, e só os pobres e os indigentes são os seus verdadeiro cidadãos.

Ora ainda que estes diferentes ditames da Providência, na antiga e na nova aliança, se fundamentem em importantes razões que seria fastidioso enumerar, podemos contudo dizer de passagem que, desejando Deus mostrar-Se com majestoso brilho no Antigo Testamento, havia toda a conveniência em que a Sinagoga, sua esposa espiritual, tivesse os sinais duma grandeza exterior; ao passo que no Novo Testamento, em que Deus ocultou toda a Sua onipotência sob uma forma servil, havia mister que a Igreja, o Seu corpo místico, fosse uma imagem da Sua humildade e tivesse gravado em si o vestígio do seu aniquilamento voluntário. E não é por este motivo, irmãos, que esse mesmo Deus, assim humilhado, e desejando «encher a sua casa», como Ele próprio se exprime, ut impleatur domus mea (Lc 14, 23), não é por este motivo que Ele ordena aos seus servos que lhe vão buscar todos os entes miseráveis (6)? Vede como Ele os enumera quando diz:

«Ide por todos os caminhos e valados, Exit cito, trazei-me sem demora — Quem? — Os pobres e os enfermos. — E mais quem ? — Os cegos e os impotentes» – Pauperes ac debiles, caecos et claudos introduc huc (Lc 14, 21)

E é com o que Ele pretende encher a sua casa. Tudo quanto seja humilde é o que Ele só deseja, porque também apenas quer o que apresente o seu distintivo, que é o sofrimento e a enfermidade. Portanto, a Igreja de Jesus Cristo é realmente a cidade dos pobres. Os ricos, considerados como tal — e afronta-me o dizê-lo, porque devo falar sem tergiversações – visto que são uma sequência do mundo e que, por assim dizer, ocupam os lugares mais inferiores, só têm entrada na Igreja por uma certa tolerância; porque os pobres e os indigentes, assinalados pelo Filho de Deus é que rigorosamente devem ser recebidos nela. E é por este motivo que o divino Salmista lhes chama os «pobres de Deus»: pauperes tuos (Sl 71, 2). E porque lhes chama ele os pobres de Deus?

Apelida-os assim espiritualmente (7) porque na nova aliança aprouve-lhe recebê-los com uma prerrogativa especial. E não foi por causa dos pobres que o Salvador desceu a terra?

«Enviou-me Deus, diz Ele, para anunciar aos pobres o Evangelho» – Evangelizare pauperibus misit me (Lc 4, 18)

Quando Ele pregou o primeiro sermão na montanha misteriosa, não se dignou de falar aos ricos, para, de propósito, lhes fulminar a soberba; aos pobres é que Ele falou, dirigindo-lhes as seguintes palavras evangélicas:

«Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus!» – Beati pauperes, quia vestrum est regnum Dei (Lc 6, 20)

Ora, se é a eles que pertence o céu, que é o reino de Deus na eternidade, também a eles pertence a Igreja, que é o reino de Deus no tempo absoluto. E como a Igreja lhes pertence, são eles portanto os primeiros a tomarem assento nela.

«Vede, dizia o divino Apóstolo, que, segundo a opinião do mundo, não há na Igreja muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres e, por isso, Deus escolheu o que havia de mais desprezível» – Videte vocationem vestram, fratres quia non multi sapientes secundum carnem, non multi potentes, non multi nobiles: sed quae stulta sunt mundi elegit Deus ut confundat sapientes; et infirma mundi elegit Deus, ut confunda fortia; et ignobilia mundi et contemptibilia elegit Deus (1Cor 1, 26-28)

Daqui é intuitivo concluir que a Igreja de Jesus Cristo era uma assembleia de pobres. E nos seus princípios, se os ricos eram nela recebidos, tinham de despojar-se, antes de entrar, de todos os seus bens e de os lançar aos pés dos Apóstolos, para assim darem entrada na Igreja, que era a cidade dos pobres, e que apresentava todo o cunho da pobreza, tal o plano que formara o Espírito Santo de estabelecer na origem do Cristianismo a prerrogativa eminente dos pobres, verdadeiros membros de Jesus Cristo!

Por aqui podemos ver que não basta ter dó da pobreza, ou simplesmente socorrê-la, mas que também devemos usar para com ela de grandes sentimentos de respeito. E São Paulo dá-nos uma prova disso. Numa epístola que dirigiu aos Romanos, em que se referia a uma esmola que ia levar aos fiéis de Jerusalém, falava-lhes nestes termos:

«Rogo-vos, irmãos, por Nosso Senhor Jesus Cristo e pela caridade do Espírito Santo que me auxilieis com orações a Deus, para que os santos, residentes em Jerusalém, aceitem a oferenda que lhes vou fazer» – Obsecro vos, fratres, per Dominum nostrum Jesum Christum et per charitatem Sancti Spiritus, ut adjuvetis me in orationibus vestris pro me ad Deum, ut… obsequii mei oblatio accepta fiat in Jerusalem sanctis (Rm 15, 30.31)

Como é admirável, cristãos, a maneira honrosa como ele trata os pobres! Não diz: «a esmola que lhes vou fazer, ou o auxílio que lhes vou prestar»; o que diz é: «a oferenda que lhes vou fazer». Mas ainda diz mais, e notai bem isto que ele acrescenta:

«Rogai a Deus, caríssimos irmãos, que lhes seja grata a minha oferenda»

Que quer dizer o santo Apóstolo, e para que tantas precauções para fazer aceitar uma esmola? É que a alta dignidade dos pobres é que o faz assim falar. Pode haver para isto duas razões: ou o desejo de captar a afeição, ou o prazer de aliviar a miséria; pode ser um efeito de simpatia, e também um sentimento de piedade. Como quer que seja uma das duas coisas constitui a oferenda, a outra é a esmola. Na esmola, admite-se, em geral, que já o fato de dar é suficiente; na oferenda, porém, há mais desvelo e até uma certa arte inocente de encarecer o valor do que se dá, pela maneira como se procede e pelas circunstâncias que revestem o fato.

Ora é por este último modo de ser que São Paulo presta socorro aos pobres. Não os considera unicamente como uns desgraçados carecidos de auxílio; entende que, na miséria em que vivem, são eles os principais membros de Jesus Cristo e os primogênitos (Var.: os que têm o direito de primogenitura) da Igreja, e como tal, trata-os como a pessoas nobres, dignas da maior deferência. Não acha suficiente o alívio ocasionado por uma oferenda: deseja que essa oferenda lhes seja grata, e, para a realização desse desiderato, implora preces a toda a Igreja. É tal a consideração de que gozam os pobres na Igreja de Jesus Cristo (8), que  São Paulo parece fazer consistir a sua felicidade na honra de os servir e no prazer de lhes agradar: Ut obsequii mei oblatio, etc.

Excelentíssimas senhoras, deixai-vos inspirar por estes sentimentos apostólicos; e, nos desvelos que recebeis desta casa, olhai respeitosamente os pobres que a compõem. — Vede bem que, se as honras mundanas vos sobrelevam a eles, superiorizam-se eles a vós, pois meio do distintivo de Jesus Cristo que têm a honra de possuir. Honrai, servindo os pobres, a misteriosa norma da Providência Divina, que lhes marca os primeiros lugares na Igreja com uma prerrogativa tal, que os ricos só têm entrada nela com a condição de os servirem.

SEGUNDO PONTO

Havendo-me imposto a obrigação de vos explicar a segunda verdade, passo agora a fazê-lo, sem me alongar demais na demonstração, visto que ela resulta tão evidentemente da verdade já estabelecida.

Como já disse, Jesus promete unicamente no seu Evangelho sofrimentos e aflições; e, portanto, não precisa dos ricos na Santa Igreja. Além disso, como o luxo dos ricos é incompatível com a profunda humilhação desse Deus, oprimido até ao martírio da cruz, é evidente que não os procura por deferência para com eles. E de que Lhe serviriam eles no Seu reino, senão para Lhe erigirem templos magníficos ou para Lhe adornarem os altares com ouro e pedrarias? Ora é indubitável que Deus não se preocupa com esses ornamentos. Recebe-os, é certo, da mão dos homens como provas da sua devoção, do seu espírito religioso; mas, fora dessas custosas demonstrações de religiosidade, ha lá nada mais trivial e mais simples do que o que basta ao culto que lhe é devido? Deus apenas se satisfaz com a água mais simples para regenerar os Seus filhos, e com algum pão e vinho para consagrar os Seus mistérios, onde reside a fonte de todas as Suas graças.

O Seu maior contentamento é quando Lhe oferecem sacrifícios em escuras masmorras ou Lhe exaltam os templos com a humildade e com a fé. Deus de nada carece, e, todavia carece muito dos ricos. Porque carece deles? Para corresponder a majestade do Seu culto e para satisfazer à necessidade dos Seus pobres.

Noutro tempo, pelo antigo Testamento, era forçoso utilizar para os sacrifícios os melhores rebanhos, e para o tabernáculo as maiores suntuosidades; atualmente, na nova aliança, é dispensável esse luxo, limitando-se Deus a criar outras necessidades para os pobres, implorando o auxílio deles:

Ecce mysterium vobis dico – «Eis um mistério admirável»

Jesus não carece de nada e carece de tudo. Não carece de nada, pelo infinito poder; mas carece de tudo, pela infinita misericórdia: Ecce mysterium vobis dico – «Eis um grande mistério que vos vou desvendar» (1Cor 15, 51), e que é o mistério do Novo Testamento.

E na mesma misericórdia que obrigou Jesus, na Sua inocência, a vergar-se a todos os crimes, obriga-O também, na Sua felicidade, a vergar-Se a todas as misérias; e, nestas condições, é Ele de todos os pobres mais pobre de todos. Com ser o mais inocente, é que sofreu o maior número de pecados; e apesar de ser o mais rico, é, contudo o mais cercado de necessidades. Aqui deperece com fome, além estertoriza com sede acolá geme com o rigor das algemas, noutra parte, martirizado pela crueza dos tormentos, sofre ao mesmo tempo o frio e o calor e as durezas mais antagônicas. Enquanto todos os outros pobres sofrem unicamente pela sua própria condição, Jesus Cristo, que é verdadeiramente pobre, e o mais pobre de todos, «sofre por toda a universalidade dos indigentes» – Unus tantummodo Cristus est qui in omnium pauperum universitate mendicet (1Cor 15, 51). São, portanto, as necessidades urgentes doam pobres membros de Cristo que o obrigam a quebrantar o seu rigor em proveito dos ricos.

Desejaria Ele ver somente na Sua Igreja os que trazem o sinal da Sua divindade, somente os pobres, os indigentes, os aflitos e os miseráveis. Mas, se o mundo é povoado de infelizes, quem há de aliviar esses infelizes? Que virá a ser dos pobres, por quem Ele sofre e de quem sente todas as necessidades? Poderia Deus enviar-lhes em seu auxílio os anjos da sua corte; mas mais justo é que sejam socorridos por homens, que são o seu próximo.

Entrai, pois, na Igreja, ó ricos, que a porta está finalmente aberta para vós; mas podeis entrar em atenção aos pobres e com a condição de os servir.

Eis como, pelo amor consagrado aos seus filhos, Deus permite a entrada aos ricos, havidos como estrangeiros. Verdadeiro milagre da pobreza! Mas apesar de estrangeiros, a graça concedida aos pobres naturaliza os ricos e serve-lhes para a expiação do contágio que eles contraem no meio das suas riquezas.

Portanto, ó ricos do mundo, podeis usar quantos títulos soberbos quiserdes, que na Igreja de Jesus Cristo sereis apenas servos dos pobres. E não vos ofendais com semelhante título, glorificado pelo patriarca Abraão. Ele, que possuía tantos servos e uma família tão numerosa tinha, contudo o cuidado e a obrigação de servir os necessitados. Apenas os sentia aproximar de sua casa, corria logo ao encontro deles para recebê-los; ia escolher no seu rebanho o melhor e mais lindo carneiro para lhes dar, e tinha o trabalho de os andar servindo a mesa com grande; aprazimento (Gn 18, 8). Sobre isto, diz o eloquente Pedro Crisólogo (9): «Abraão, sentindo chegar os pobres a sua casa, já se não lembra de que é senhor»; e desempenha todas as funções dum servo: Abraham, viso peregrino, dominum se esse nescivit (Serm. CXXI, De Divit et Lazar). Mas porque era tão solícito em servir os pobres? É que esse pai dos crentes via já em espírito o lugar que eles deviam ocupar na Igreja; e vendo também neles a figura de Jesus Cristo, esquece a sua dignidade ao considerar a dignidade dos pobres, e mostra com o seu exemplo aos ricos a obrigação que eles tem de os servir.

Que serviço devemos então prestar-lhes? Em que somos obrigados a socorrê-los?

A resposta está no exemplo do patriarca Abraão que vos apresentei. Mas o admirável Santo Agostinho ainda vos ministra a este respeito um ensinamento mais frisante. O serviço que deveis prestar aos necessitados é aliviá-los numa parte do fardo que os oprime; e por isso o apóstolo São Paulo ordena aos fiéis que «aliviem os fardos uns dos outros» – Alter alterius onera portate (Gl 6, 2). É que tanto os pobres como os ricos tem um fardo que os vexa altamente. Que os pobres tem o seu fardo, ninguém o ignora; porque, quando os vemos labutar e gemer constantemente, não podemos deixar de reconhecer que as misérias que os flagelam são um fardo pesadíssimo que lhes carrega nos ombros. Mas que os ricos tenham também o seu, é que à primeira vista parece inacreditável. Pois embora os ricos tenham grandes comodidades e pareçam ter uma vida desafogada, ficai sabendo que também tem o seu fardo. E sabeis, cristãos, qual é esse fardo? São as suas próprias riquezas.

Numa palavra: o fardo dos pobres é a necessidade, e o fardo dos ricos é a abundância.

«O fardo dos pobres, diz Santo Agostinho, é não ter o que é preciso; e o fardo dos ricos, é ter mais do que é preciso» – Onus pauper patis non habere, divitiarum onus plus habere (Serm. CLXIV, 9 – Bossuet restringiu demais o texto de Santo Agostinho)

Então como se compreende que viver na opulência seja um fardo incômodo? Talvez muitos mundanos estejam agora acalentando no íntimo dos corações o desejo de possuírem semelhante fardo! Mas reprimam a impulsividade desses loucos desejos.

Se os injustos preconceitos do século lhes não deixam avaliar neste mundo os enormes encargos que tenha opulência, mais tarde hão de reconhecê-los e hão de arrepender-se, mas já sem remédio, de se não haverem deles libertado, quando comparecerem nesse tribunal em que é necessário dar conta não só dos talentos dispendidos, mas também dos escondidos (10), e responder a esse juiz inexorável não só pelas despesas, mas também pelas economias que se tiverem feito.

Não aguardemos, porém, essa hora fatal, e enquanto o tempo o permite, pratiquemos esse conselho de São Paulo:

Alter alterius onera portate – «Aliviai os fardos uns aos outros»

Aliviai o fardo do pobre, ó ricos, aliviai a sua necessidade, ajudai-o a suportar as aflições que o assoberbam e o fazem gemer; e ficai sabendo que, trabalhando para o aliviardes, concorreis para o vosso próprio alívio. Ao mesmo tempo em que lhe prestais socorro, também lhe diminuis o fardo, e ele igualmente diminui o vosso. Vós aliviais a necessidade que o oprime, ele alivia a abundância que vos pesa. Aliviai os fardos uns aos outros, «para que haja igualdade nos, pesos a suportar», como diz São Paulo: ut fiat aequalitas (2Cor 8, 14).

E que maior injustiça haverá, irmãos, do que a que consiste em suportarem os pobres toda a violência, todo o peso das misérias que lhes esmagam, os ombros? Se eles se queixam e se murmuram contra a Providência Divina, permiti-me, ó Deus, que diga que é com certa razão; porque sendo pobres e ricos argamassados com os mesmos elementos, e não havendo diferença sensível entre a massa que forma uns e a forma outros, porque é que dum lado vemos a alegria a proteção e a abundância, e do outro a tristeza, o desespero e a extrema inópia, além do desprezo e da servidão? Porque há de haver um homem afortunado, vivendo na opulência, a ponto de satisfazer os desejos mais inúteis, curiosamente estudados, ao passo que há um miserável, um homem, apesar de tudo tão bom como o primeiro, mas que não pode sustentar a família, nem mitigar a fome que o atormenta?

Nesta estranha desigualdade poderia acusar-se a Providência de uma má distribuição dos tesouros que Deus repartisse igualmente, se por outro meio ela não houvesse provido a necessidade dos pobres e reconhecido certa igualdade entre os homens?

Ora foi por isso, cristãos, que Deus estabeleceu a Igreja, onde ordena que a abundância de uns supra a falta dos outros, e assim obriga os opulentos a darem aos necessitados o que tiverem de supérfluo. Penetrai neste pensamento, irmãos, e vede que, se não aliviardes o fardo dos pobres, tereis de sofrer a opressão do vosso, e o peso das vossas riquezas mal distribuídas conduzir-vos-á ao abismo onde caíreis; ao passo que, se comparticipardes da miséria dos pobres, aliviando-lhes o fardo da sua indigência, também sereis dignos de comparticipar dos privilégios que lhes forem concedidos.

TERCEIRO PONTO

Enquanto os ricos não participarem dos privilégios dos pobres, não terão salvação possível; e basta-me apenas insistir nos mesmos princípios para vos convencer desta verdade.

Se é certo a Igreja ser a cidade dos pobres, como já disse, se é certo eles ocuparem nela os melhores lugares e ser principalmente para eles que foi construída essa cidade bem-aventurada, é intuitivo concluir que os privilégios que forem concedidos só a eles pertencem (11). Em todos os reinos e em todos os impérios há privilegiados, quer dizer personagens eminentes que tem direitos extraordinários; e é a fonte desses direitos que eles alcançam facilmente pelo seu nascimento ou pelos cargos representativos da pessoa do príncipe. O esplendor, resultante da grandiosidade da nação e da majestade do soberano, reverbera na coroa deste e como que se reflete sobre os que o ilaqueiam.

Ora nós, que vimos pelas Sagradas Escrituras que a Igreja é um reino onde existe a melhor ordem, não devemos duvidar de que ela tenha também os seus privilégios, e que esses privilégios se poderão obter por meio da união com o príncipe da Igreja, que é Jesus Cristo. E se é mister viver solidário com o Salvador, não é nos ricos, cristãos, que deveis procurar os privilégios da Santa Igreja. A coroa do nosso monarca é uma coroa de espinhos; e o esplendor que nela reverbera são as angústias e os sofrimentos.

Pois só nos pobres, isto é, naqueles que sofrem, é que reside a majestade desse reino espiritual. E visto Jesus ser pobre e indigente, havia toda a conveniência em que Ele se solidarizasse com os seus semelhantes e distribuísse benefícios por todos os seus companheiros de infortúnio.

Não se olhe agora a Pobreza desdenhosamente, nem se trate como coisa vil e plebeia. Embora ela pertencesse à escória do povo, o que é certo é que depois do rei da glória a ter desposado, nobilitou-a com essa aliança, concedendo logo aos pobres todos os privilégios do seu império. Promete o reino aos necessitados a consolação aos que choram, o alimento aos que tem fome, e a alegria eterna aos que muito sofrem.

Mas se todos os direitos, se todas as graças, se todos os privilégios do Evangelho são para os pobres de Cristo, que vos resta, então, ó ricos, e que quinhão vos caberá no Seu reino? Ele apenas fala de vós no Evangelho para vos fulminar o orgulho:

Vae vobis (divitibus) – «Ai de vós, ricos!» (Lc 6, 24)

Quem não tremeria ao ouvir pronunciar esta sentença? Quem não se sentiria tomado de íntimo pavor? Contra esta terrível maldição tendes uma única esperança. É certo que esses privilégios pertencem aos pobres; mas vós podeis alcançá-los diretamente deles e recebê-los das suas mãos, porque só assim é que o Espírito Santo vos concede as graças do céu.

Quereis que vos sejam perdoadas as vossas iniquidades?

«Resgatai-as por meio de esmolas, disse Ele» – Peccata tua eleemosynis redime (Dn 4, 24)

Implorais a misericórdia divina? Procurai-a nas mãos dos pobres exercendo-a para com eles:

Beati misericordes – Bem-aventurados os misericordiosos (Mt 5, 7)

Quereis, finalmente, entrar no reino de Deus? Ser-vos-ão abertas as portas, disse Jesus Cristo, contanto que os pobres vos deixem entrar:

«Granjeai amigos que vos recebam nos tabernáculos eternos, disse Ele» – Facite vobis amicos de mammona iniquitatis, ut quum defeceritis, recipiant vos in aeterna tabernacula (Lc 16, 9)

Deste modo, a graça, a misericórdia, a remissão dos pecados e o próprio reino estão entregues nas mãos dos pobres; e os ricos nunca poderão compartilhar destes bens, se os pobres os não favorecerem.

Como sois então ricos, ó pobres! E vós, ó ricos, como sois tão pobres! Se confiardes nos vossos próprios bens, ficareis eternamente privados dos bens do Novo Testamento, e só vos restará por única partilha esse Vae terrível do Evangelho. E para evitardes tão tremendo infortúnio, para terdes a sorte de vos salvardes dessa maldição inevitável, acolhei-vos sob a proteção da pobreza; entrai em comunhão com os pobres; daí, que grandes coisas haveis de receber (12): daí os bens temporais, porque recebereis as bênçãos espirituais; comparticipai das misérias dos aflitos, que Deus vos aquinhoará dos seus privilégios.

Eis o que eu tinha para dizer-vos a respeito das vantagens da pobreza e da necessidade de a socorrer. Depois disto, só me resta clamar com o profeta:

Beatus qui intelligit super egenum et pauperem – «Bem-aventurado o que olha com alma para o indigente e para o pobre!» (Sl 40, 2)

É que não basta, cristãos, volver para os pobres os olhos da matéria; é também necessário examiná-los com os olhos da alma: Beatus qui inteligit.

Aqueles que os fitam com os olhos do corpo só veem coisas, objetos que lhes infundem repulsão; os que, porém, volvem para eles um olhar íntimo, isto é, a inteligência guiada pela fé, veem neles a figura de Jesus Cristo, as imagens da Sua pobreza, os cidadãos Seu reino, os herdeiros das Suas promessas, os distribuidores das Suas graças, os verdadeiros filhos da Sua Igreja e os primeiros membros do Seu corpo místico.

Isto é que os leva a socorrê-los com fervorosa solicitude. Mas ainda não basta socorrê-los nas suas necessidades. Há muitos que protegem a pobreza sem verdadeiramente lhe perscrutarem o íntimo. O que dá uma esmola a um pobre alivia-lhe a miséria, ou porque é instado pelas suas súplicas importunas, ou porque é movido por uma natural compaixão; mas o que é certo é que não perscruta o íntimo desse pobre.

Aquele, porém, que considera os pobres como primeiros filhos da Igreja, e que, respeitando essa qualidade, se julga na obrigação de os servir, e que só espera comparticipar das bênçãos do Evangelho por intermédio da caridade e da comunicação fraternal esse é que verdadeiramente compreende o mistério da caridade.

Portanto, irmãos, volvei os olhos para esta casa indigente, e olhai com alma para os pobres que nela habitam. Se eu pedisse as vossas esmolas para uma única pessoa, os vossos corações comover-se-iam, por motivos importantes e justos, que vos compelem ao exercício da caridade; mas neste momento levanto a minha voz em nome duma casa, onde vive uma multidão numerosa de pobres mulheres completamente abandonadas.

Será preciso representar-vos o perigo a que se achai exposto esse sexo e as perniciosas consequências da sua pobreza, que são o escolho mais vulgar onde naufraga o seu poder? De nada servirão as palavras, se o próprio objeto vos não comover.

Entrai nesta casa, conhecei de perto as necessidades que ela acusa, e se vos não compadecerdes dos extremos a que se acha reduzida, não sei então, irmãos, de coisa que seja capaz de vos enternecer.

Não devo ocultar que há algumas senhoras devotas que se tem dignado de velar por esta casa, olhando, pelos pobres com verdadeira alma; lisonjeiam-se muito em os servir, porque conhecem a dignidade que eles possuem; julgam-se na obrigação de os socorrer, porque são evidentemente cristãos; libertam-se duma parte do peso das suas riquezas, entregando-a nas mãos dos pobres, porque reconhecem o grande crime de dar uma má aplicação a essas riquezas; e distribuindo por eles os bens temporais, vêm receber em troca as graças espirituais.

Autores para consultar: Du Jarry, Luís de Grenada, Bayle, Morisot e Vidal.

Referências:

(1) Aqui acham-se escritas algumas entrelinhas, cujo sentido inconsequente não pode estar no corpo do discurso: «Partilha dos ricos: a honra, a autoridade, o favor. A honra dá-lhes a preferência; a autoridade ministra-lhes o poder; o favor concede-lhes os privilégios. Na Igreja são os ricos privados destas imunidades» É este o sentido do pensamento entrelinhado, cujo desenvolvimento o orador certamente tinha reservado para a tribuna.

(2) Homil. XI, De Divit. et paup., tomo XII, p. 505-506 (edição do Pe. Montfaucon, 1735)

(3) Esta associação de palavras, que constituem um latinismo, maravilham-nos. Laboriosum opus, em Plauto, serve para designar um trabalho penoso. Laborioso emprega-se ainda neste sentido em medicina. É como se deve entender a seguinte frase que abaixo se lê: as obras que só um trabalho heróico realiza.

(4) Como os organismos físicos, por oposição aos corpos políticos.
«Eu era desse corpo a alma onipotente» (Racine, Britann.)

(5) O que acaba de ler-se desde, vemos que esta cidade…, é uma outra redação. A primeira que Bossuet não riscou, e que, portanto, se deve conservar como variante, é a seguinte: «Vemos que esta cidade de pobres (Var.: que a distinção entre as duas cidades), segundo a ordem social, não passa duma bela fantasia (Var.: alegoria). As coisas mundanas não podem conservar-se em tão perfeita igualdade. As cidades, que são corpos políticos, necessitam, como os organismos físicos, dum temperamento e da mistura de elementos, e tanto que a ordem social forma um todo que resulta sempre da união do rico com o pobre, e assim compõe (Var.: e com esta união compõe) o corpo da sociedade civil. A ordem divina opera por meio de outros princípios. Acreditais no que vos digo, cristãos? Aceitareis esta doutrina? Cristo veio edificar na terra uma cidade espiritual, que foi a Sua Santa Igreja, e, nos seus princípios, esta cidade só devia ser habitada por pobres» (Gazier)

(6) Miserabilis, digno de dó. Este termo empregava-se no século XVII para designar os pobres ou as pessoas de poucos meios:
Conforme fordes rico ou fordes miserável.
Assim vos rende a corte a honra ou o desprezo. (La Font.)

(7) Por inspiração. Bossuet traduz assim as palavras: in spiritu que leu no Evangelho: Quomodo ergo David in spiritu vocat eum dominum?… (Mt 22, 43)

(8) Tal… que é um latinismo. É de tal maneira a consideração dos pobres que, adeo ut.

(9) Padre da Igreja latina, bispo de Ravena, dos meados do século V. Deixou 176 sermões.

(10) Alusão à parábola do Evangelho de Mateus 25, 14.

(11) Nesta altura lê-se no manuscrito uma frase que Bossuet não conconcluiu: «Quereis senhores…»

(12) É o contrário da parábola de Jesus Cristo no Evangelho: Petite et accipietis – «Pedi, porque recebereis». Bossuet torceu-lhe o sentido muito artisticamente.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume II. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo II, p. 141-163)