Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Devoção a Santo Afonso como modelo das Virtudes Fundamentais.
Mês de Outubro

Ego sum Deus omnipotens: ambula coram me, et esto perfectus — “Eu sou o Deus todo-poderoso: anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17, 1)

Sumário. Embora o nosso santo sempre tenha levado uma vida das mais ativas, pode contudo ser considerado como um modelo perfeito de vida interior e recolhida; porque sempre trabalhou com intenção reta, e não permitiu que a distração se apossasse do seu espírito. Esforcemo-nos por imitar os exemplos de tão grande pai, andando sempre na presença divina e não falando senão de coisas concernentes à glória de Deus. Habituemo-nos sobretudo a ter sempre sobre a língua alguma fervorosa oração jaculatória.

I. Posto que o nosso santo tenha passado todos os seus anos na maior atividade, pode contudo ser considerado como modelo perfeito de vida interior e recolhida; porque nunca permitiu que a distração se apossasse do seu espírito; e trabalhando sempre com intenção reta, promovia a salvação dos outros, sem o mínimo prejuízo para a sua própria alma. Nisso imitou os anjos da guarda, que, ao passo que são todo empenho em socorrer os homens, são ao mesmo tempo intimamente unidos com Deus, “e vêem constantemente a face do Pai que está no céu” (1).

A quantas indústrias santas recorreu o santo Doutor, a fim de ser bem-sucedido numa coisa tão difícil para ele, na sua qualidade de missionário, de superior e de bispo! Considerando que, o que guarda a sua língua guarda também a sua alma (2), guardou sempre um silêncio rigoroso, não falando senão de coisas concernentes a maior glória de Deus; tinha feito uma balança para pesar as suas palavras (3), antes de as proferir.

Habituou-se a pensar continuamente na Paixão de Jesus Cristo, e tudo lhe fornecia ensanchas para meditar e elevar a Deus os afetos do seu coração. Nas tribulações que lhe sobrevinham, nas perseguições que sofria, e mais ainda nas enfermidades contínuas e dolorosas, de que estava sempre acometido, não fazia senão comparar os seus sofrimentos aos do Redentor, e resignava-se. “Não acho descanso”, exclamou um dia, atormentado como estava pela artrite; “estou com Jesus Cristo na cruz! Mas Jesus estava pregado com três cravos de ferro, e eu estou sobre um colchão”.

Finalmente Afonso, sabendo que “a ciência verdadeira consiste em conhecer só a Jesus Cristo e que a ciência nenhuma utilidade tem, ou antes causa danos gravíssimos ao que não a aproveita para buscar e amar a Deus”, em todos os seus estudos não tinha em mira senão a glória de Deus. Pelo mais, santificava os seus estudos, bem como qualquer outra ação, por meio de frequentes orações jaculatórias e de atos de amor, dirigidos ao Crucifixo ou à imagem da Santíssima Virgem, que ele sempre tinha diante de si. Felizes de nós, se imitarmos os exemplos de tão grande pai!

II. Como fruto desta meditação imitemos o espírito de recolhimento do santo Doutor e empreguemos os meios de que ele se servia; em particular o silêncio e o uso frequente das orações jaculatórias. Figuremo-nos que o santo nos diz o que dizia aos congregados, seus filhos:

“Entramos na Congregação a fim de imitarmos Jesus Cristo de mais perto; e Jesus Cristo não falava senão da doutrina recebida do seu divino Pai, e passava as noites no silêncio e na oração. Nós, portanto, que devemos imitar este divino modelo, devemo-nos persuadir de que é na solidão do espírito que a nossa alma progride na santidade. Uma alma recolhida é consolada pelo Senhor com abundância de graças celestiais, e especialmente com o dom das lágrimas; uma alma recolhida, quer pregue, quer fale, abrasa os corações, porque transmite aos outros aquelas impressões celestiais, recebidas pela sua união com Deus”.

“É verdade que devemos tomar um pouco de recreio; mas é igualmente verdade que nos próprios recreios só devemos buscar a Deus, e recrear-nos porque Deus o quer, somente para Deus… A nossa vida deve diferenciar-se muito da vida dos seculares; em nosso trato mútuo, como também nas cartas, não devemos seguir os usos mundanos. Tratando com pessoas seculares, devemos sugerir-lhes sempre alguma máxima espiritual, e fugir das conversas sobre assuntos mundanos. Numa palavra, assim como a bússola aponta sempre para o norte, e, quando desviada, sempre volta ao ponto de partida, assim nos devemos haver em todas as nossas ações” (4).

Ó meu grande protetor, Santo Afonso, eu, vosso humilde servo, regozijo-me pela vossa virtude exímia, e dou graças a Deus por vos ter comunicado a graça de subir tão alto. Meu pai, prometo seguir de hoje em diante tudo o que me ensinais pelos vossos escritos e pelos vossos exemplos. Mas já que vedes a minha fraqueza, impetrai- me a graça de uma constância fiel. Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, vossa querida Mãe.

Referências:
(1) Mt 18, 10.
(2) Pv 13, 3.
(3) Eclo 21, 28.
(4) Pe. Berruti, C.Ss.R., Espírito de Santo Afonso.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 427-430)