Capítulo 15. Repouso - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
NUNCA, como hoje, tiveram os homens tantos meios de poupar tempo. E nunca, como agora, tiveram tão pouco tempo de lazer ou de repouso. Contudo, poucos se dão conta disto: os reclamos criaram, na mentalidade moderna, a falsa noção de que lazer e não trabalhar são a mesma coisa, de que, quanto mais rodeados estivermos de ferrolhos e rodas, de interruptores e aparelhos, mais tempo temos ao dispor.

Esta divisão, porém, em dias de trabalho e de folga é demasiado simplista; para a maior parte dos homens isso suprime-lhes, praticamente, a própria possibilidade de verdadeiro lazer. Desperdiçam-se horas preciosas fora do trabalho, numa inatividade inútil, esperando passivamente que qualquer coisa de interessante se apresente.

O verdadeiro repouso não é mera pausa entre os atos das horas de trabalho. É uma atividade intensa, embora de gênero diferente. Justamente, como o sono não é cessação de vida, mas sim vida diferente da vida acordada, assim também o repouso é uma atividade não menos criadora que a das nossas horas de trabalho.

O repouso — verdadeiro lazer — não pode desfrutar-se sem um certo reconhecimento do mundo espiritual; porque a primeira finalidade do repouso é a contemplação do bem, a sua meta é ver, numa perspectiva verdadeira, os pequeninos incidentes da vida de cada dia em relação com uma Bondade mais ampla que nos envolve. Diz-nos o Gênesis que Deus, depois da criação do mundo, «viu tudo o que tinha feito, e o achou muito bom». Sempre que o homem está ocupado também numa tarefa criadora, igual contemplação do seu trabalho lhe é conatural. O pintor afasta-se um pouco da sua tela, para ver se estão convenientemente situados os pormenores da paisagem. O verdadeiro repouso é um afastamento semelhante, para observar as atividades que enchem os nossos dias. Não podemos tirar verdadeira satisfação do nosso trabalho, a não ser que, frequentemente, paremos para nos interrogar por que estamos a fazê-lo, e se a sua finalidade encontra a absoluta aprovação do nosso espírito. Uma das razões por que tantos projetos econômicos e políticos se malogram, talvez seja por estarem em mãos de homens com os olhos tão fortemente pregados no que estão a fazer, que jamais param para perguntar se era isso que deveriam fazer. Apenas o estar ocupado, ou o receber um salário, se é só isso, jamais poderá satisfazer a necessidade que o homem tem de um trabalho criador.

Qualquer trabalho pode ser sublimado e assumir uma intenção divina, se for perspectivado em função da Eternidade. Varrer um soalho, conduzir um carro de lixo, verificar uma lista de números de carros — todos estes atos podem tornar-se «bons», por um simples ato de vontade que os ordene para o serviço de Deus. A ocupação mais simples pode ter um significado espiritual e tornar-se divina.

Se dirigirmos o nosso trabalho para Deus, trabalharemos melhor do que imaginamos. A aceitação deste fato é outra tarefa para a qual precisamos de repouso. Uma vez por semana, o homem, repousando do trabalho, faz bem em ir, perante Deus, como para considerar se quanto do que fez, durante a semana, foi trabalho do seu Criador; pode reconhecer, então, que o material, com que trabalhou, proveio de outras mãos, que as ideias, que usou, entraram na sua mente oriundas de uma Fonte mais Alta, que até as energias, que consumiu, eram um dom de Deus.

Se o repouso se toma nesta atitude de espírito, o cientista verá que não é ele o autor do seu livro sobre leis da natureza, mas apenas o revisor de provas. Foi Deus quem escreveu o livro. Igualmente, confessará o professor que toda a verdade, que transmitiu aos alunos, era um raio vindo da Sabedoria Divina. O cozinheiro que descasca batatas, após ter descansado assim, manuseá-las-á como humildes dádivas do próprio Deus.

Permite-nos o repouso contemplar as pequenas coisas que fazemos com relação às grandes; e só estas podem dar àquelas valor e significado. Faz-nos lembrar que todas as ações recebem o valor de Deus: «adorar» significa reconhecer o «valor». Adorar é restituir aos nossos enfadonhos dias de trabalho o seu verdadeiro valor, colocando-os na sua real relação com Deus, que é o fim daqueles e o nosso.

Esta adoração é ama forma de repouso, uma contemplação intensamente ativa e criadora das coisas divinas, da qual nos levantamos renovados. Com efeito, a promessa do Evangelho de São Mateus está ainda à espera dos que a queiram ouvir:

«Vinde a mim todos os que trabalhais e estais oprimidos, e Eu vos aliviarei»

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 55-58)