Capítulo 36. O Espírito de Perdão - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
A ALARMANTE onda de ódio que se espraia pelo mundo moderno é, em grande parte, causada pela culpa: o homem que se odeia a si mesmo, depressa começa a odiar o seu próximo. O5 pecados inconfessados e por vezes negados criam dentro da pessoa um profundo mal-estar… o equilíbrio tem de ser, de qualquer modo, restabelecido; o eu tem, de qualquer maneira, de ser apresentado a uma luz mais favorável. O reto caminho para o conseguir é confessar os pecados e fazer penitência por eles. O caminho errado… que muita gente infeliz hoje segue… é dar-se uma aparência melhor, a si e aos seus pecados, aviltando os outros. O indivíduo que ofendeu alguém que ama, muitas vezes descobre que o ato converteu o seu amor em ódio: agora só pode parecer inocente aos próprios olhos, se acusar o outro de graves faltas para justificar a injúria que lhe fez. Passar assim do amor ao ódio é facílimo; converter, porém, o ódio em amor é difícil, porque isto somente se pode fazer, se a voluntária ilusão é extirpada, a injúria confessada.

A segunda causa do ódio é o temor. Os homens que deixam de temer o Senhor, depressa começam a temer-se uns aos outros. Sentindo-se fracos, como realmente são, os homens tremem diante dos perigos de um «mundo hostil», que não podem aplacar ou conquistar. O temor de Deus é uma coisa muito diferente: não é um temor servil, semelhante ao que o escravo sente diante do seu tirano, mas um temor reverencial, como o que um filho pode ter para com um pai amoroso. O próprio temor de Deus liberta-nos dos temores temporais: confiamos que Ele nos proteja e ajude através de todos os perigos. Aqueles, porém, a quem falta esta confiança em Deus, dirigem os seus temores para os outros homens e odeiam o seu próximo, como outras tantas ameaças à sua segurança.

É perigoso estimular o ódio. Pode mesmo tornar-se um veneno físico: um jornal médico inglês referiu o caso de uma mãe cujo ódio pelo marido afetou o seu leite e envenenou a criança que amamentava. A cólera e o ódio podem igualmente afetar o aparelho digestivo, causando dispepsia e úlceras.

O ódio é difícil de deter, porque, se se deixar livremente, inicia uma reação em cadeia. A animosidade de um excita a cólera de outro, que, por sua vez, gera a ira em alguns mais. É por isso que Nosso Senhor nos disse que quando fôssemos feridos numa face, apresentássemos a outra: desta maneira, por um esforço interior da vontade, pomos fim à cadeia de cólera. O único meio, que tem o indivíduo, de destruir o ódio é absorvê-lo e convertê-lo em amor, no próprio coração.

Tal procedimento é-nos difícil: nós, homens, temos uma tão pequena reserva de amor em nós, que, se despendemos, depressa ficamos sem nada. Temos, então, de procurar outra fonte de amor, para perdoar… um novo mais abundante fluxo de misericórdia.

Há duas considerações que nos tornam mais fácil pedir a Deus que nos ajude a perdoar aos outros. Podemos lembrar-nos de quantas faltas nossas Ele nos perdoou. E podemos procurar ajudar a Deus no Seu perpétuo esforço de salvar a alma transviada.

A primeira consideração é um assunto que não oferece dúvida alguma: cada um de nós tem feito piores coisas a Deus que qualquer pessoa algum dia nos fez. Eis porque Nosso Senhor nos previne contra o fato de ver o argueiro nos olhos do nosso próximo, e não dar pela trave nos nossos: quando recordamos as ofensas que nos foram perdoadas, compreendemos que não estamos em condições de recusar o perdão ao próximo. Lembre-se a palavra de Nosso Senhor:

«Eu perdoei-te, a teu rogo, todo o débito; não era obrigação tua usar de misericórdia para com o teu companheiro, como Eu suei de misericórdia para contigo?»

A segunda consideração, que nos deve mover ao perdoar pode ser expressa nestes termos concretos: Suponhamos que algum inimigo nos fez uma injúria muito grave; mas que o pai do nosso inimigo vem até nós e que, durante anos, tentou fazer o seu filho amável e bom, mas sem êxito. Não perdeu, todavia, a esperança, suplica-nos que nos unamos também aos seus esforços para salvar o filho. Tal apelo abrandaria o nosso coração.

Deus é, realmente, esse pai. Ele que há tanto tempo sofre com os Seus filhos rebeldes, suplica-nos para também sermos pacientes com eles e partilharmos do Seu empenho em os trazer para a região do amor. Esta ideia é posta em evidência no que se refere de Abraão quando estava no deserto: Certa noite um desconhecido aproximou-se da sua tenda e implorou a sua hospitalidade. Abraão deu-lhe o melhor alimento, cedeu-lhe o seu próprio leito, serviu-o… mas o desconhecido queixou-se, censurou-o, afrontou-o. Encolerizado pela sua ingratidão, ia Abraão expulsá-lo quando Deus lhe falou, dizendo:

«Abraão, tolerei este homem durante quarenta anos. Não podes tu suportá-lo por uma noite?»

O poder de perdoar aos outros as suas ofensas vem-nos somente de Deus, mas Ele não no-lo recusará se Lho pedirmos. As Suas próprias palavras nos dizem:

«Sede misericordiosos, como o vosso Pai Celeste é misericordioso. Não julgueis ninguém, e não sereis julgados; não condeneis ninguém, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. A medida com que medirdes, é a medida com que sereis medidos»

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 145-148)