Capítulo 39. Autodisciplina - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
A FILOSOFIA da liberdade de expressão é de tal modo tida por verdadeira, hoje em dia, que poucas pessoas há que lhe analisem o significado. A liberdade de expressão é justificada, quando significa agir de acordo com a razão e a natureza superior; não o é, quando significa agir de acordo com os instintos e a natureza inferior. Aqueles que identificam liberdade de expressão com licença, ou com o direito de fazer tudo quanto lhes apetece, pensam que autodisciplina equivale a destruírem-se a si mesmos; mas, de fato, é apenas domar o inferior por causa do que é superior. O violinista não parte a corda, quando a afina no tom do concerto; o escultor não destrói o mármore, quando o cinzela para plasmar a imagem.

Quando a depuração do eu vem de fora, é um efeito paternal da Providência; quando vem de dentro, por um ato de vontade própria, é autodisciplina. Em qualquer caso, o seu fim é a formação de um caráter mais verdadeiro e melhor. Deus nunca permite uma aflição, senão para nos purificar. A Escritura vai ao ponto de dizer «que o Senhor castiga aqueles que ama ternamente». Um rapaz que ama uma rapariga quer vê-la vestida da maneira mais decente; também ela escolhe a cor do vestido e o estilo do penteado segundo o gosto dele. Todos os desejos egoístas são banidos, por causa do amado. Também Deus, às vezes, sacode todas as folhas das árvores, que rodeiam a nossa mesquinha existência, a fim de que possamos ver o Céu.

Por vezes até a morte de um filho é o processo usado por Deus, para fazer com que os pais olhem para além deste mundo. Quando um pastor verifica que a sua ovelhinha já não tem mais pastagens nos campos fundos e se recusa a trepar para pastagens mais verdes, tomará um cordeirinho nos braços para as encostas mais elevadas da montanha, para a ovelhinha o seguir. A águia consegue que os filhos voem, arrancando, aos poucos, bocados do ninho, até que finalmente os filhos têm de deixar a segurança provisória. Também Deus às vezes tem de incomodar o homem na sua segurança econômica, para que ele não pense que isso é a única segurança que há.

Mas além da disciplina passiva vinda do exterior, há a disciplina ativa. Não há tendência perversa do coração tão poderosa que não possa ser dominada pela disciplina. Todos os homens se podem comparar à cebola. O seu eu superficial tem muitas camadas de cascas e no centro de todas está o seu eu real. A renúncia a si mesmo arranca todas as ilusões do mundo exterior e revela finalmente o nosso verdadeiro caráter. Uma das razões por que tão poucos conhecem a Deus, é porque não se conhecem a si próprios. Vivem num mundo de fingimento, onde nada é real, e assim lhes escapa o Fundamento de toda a Realidade.

Nós, os do Mundo Ocidental, começámos a ter a falsa opinião de que o caráter é formado por obras externas, e que pouco importa o que o homem faz ou pensa ou quer interiormente. Mas isto pode ser uma evasão às inquietações, pois o homem pode entregar-se ao trabalho para tentar esquecer-se de si próprio, do mesmo modo que pode entregar-se ao álcool, para o mesmo efeito. Quando qualquer coisa vai mal, o indisciplinado culpa as coisas – como o jogador de «golf» culpa as clavas quando não atira bem, ou o carpinteiro pouco hábil as ferramentas quando a obra lhe sai inferior. Mas a verdade é que a culpa está no nosso egoísmo turbulento.

Se alguém dá a sua riqueza, o seu tempo e a sua energia aos outros, mas não se dá a si mesmo, nada deu ainda. Aquele, porém, que, possuindo riqueza e honra, se renunciou a si mesmo, esse é o mais livre. Quando o Nosso Sacratíssimo Senhor disse que o homem se deve odiar a si mesmo, não se queria referir àquelas qualidades que o tornam semelhante a Deus, mas antes às aderências de egoísmo que o não deixam ser tudo aquilo que o amor lhe reservava. O grande segredo de paz interior foi-nos revelado pelas palavras de São João Batista, quando viu Nosso Senhor:

«Ele deve crescer: eu, porém, diminuir»

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 157-159)