Capítulo 59. Ainda há Esperança - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
O MUNDO de hoje está cheio de profetas da desgraça, e eu seria um deles se não acreditasse em Deus e na Sua Providência. Há trinta anos, a única palavra que andava nos lábios de toda a gente era a palavra «progresso». Agora falar de derrota e da bomba atômica. Esta atitude de pessimismo varia na razão direta e na proporção da frequência com que se seguem os noticiários do mundo. Não se dá isto, apenas, porque as notícias do mundo sejam desanimadoras, mas porque raramente há tempo para contrabalançar as notícias de guerra com outros fatores. Como resultado, a gente leva vida política, não vida espiritual.

Seria interessante ver um locutor tomar conta dos relatórios médicos acerca dos doentes dos hospitais e radiodifundi-los; ou ler os cabeçalhos dos jornais, em que se dá apenas um pormenor da notícia. Poderíamos ler algo parecido com isto:

«Perda do apêndice! Vida de que não há esperança!»

Criam-se tremendas desproporções entre a realidade e o estado de espírito pessimista com as parangonas dos jornais e a descrição da notícia, visto que quase sempre o sensacional é identificado com o verdadeiro. Pais que se dedicam amor e afeto mútuo, e instilam nos filhos piedade para com Deus, para com o próximo e para com a pátria, não servem para as parangonas. Mas separe-se a «estrela» famosa do marido, após dezoito meses de união biológica, e isso será esplêndido para notícias. É o mais abominável que se aproveita; do bom não se faz caso.

E assim também acontece com a guerra e com a situação do mundo. Os tempos vão maus! Nunca foram piores, porque nunca houve civilização que se voltasse contra a Luz Divina. Estamos, sem dúvida, a presenciar a transferência da herança cristã do Ocidente para o Oriente. Não que o Ocidente a venha a perder, mas porque o Oriente começará a aproveitar-se dela como o Ocidente fez no período da sua florescência. Mas, apesar destes fatos, não chegou a civilização ao seu fim, nem devemos perder a esperança. Simplesmente atingimos um momento na história, em que Deus permite que sintamos a nossa fraqueza e, miséria, já que confiamos somente em nós mesmos. Não será raro que um pai permita ao filho, que «pensa que sabe tudo», andar às apalpadelas e cometer erros na construção da sua casa-brinquedo, até pedir humildemente ao pai que o ajude.

Longe de ser este um tempo de ruína, é antes uma época de humilhação. Estamos a ser abandonados a nós próprios, aos nossos projetos, às nossas ideias. Estamos a aprender, dia a dia, esta verdade da Escritura:

«Ai daqueles que recorrem ao Egito em busca de auxílio, confiando nos cavaleiros porque são em grande número, e nos cavalos porque são fortes, e esqueceram Deus que os ama»

Um lavrador foi com o seu filho a um campo de trigo, para ver se já estava em condições de ser ceifado. O filho apontou para os pés de espiga pendente, e observou:

«Os que têm a espiga inclinada não podem ser grande coisa»

O pai replicou:

«Olha cá, meu idiota, este caule que está tão direito é de espiga chocha, e quase não presta, enquanto estes, que tão modestamente têm a espiga curvada, estão repletos de belos grãos»

Na vida nacional, como na natureza, a humildade, com a cabeça inclinada perante Deus, é o princípio de grandeza.

Os nossos melhores dias ainda não chegaram; entretanto, o homem terá de se submeter à expiação, pela qual aprenderá que, assim como sem o sol não podem sobreviver os seus raios, também ele não poderá alcançar a sua plenitude sem Deus. Esta esperança pode converter-se em vitória por um ou outro destes dois processos: ou acordando para a Verdade o nosso coração pela oração suplicante, ou sendo levados à beira do precipício, até que, dos abismos da nossa insuficiência, levantemos os nossos clamores para a Bondade de Deus.

O mundo, e em especial a nossa pátria, está cheio de milhares de pessoas boas; há uma intensificação de vida espiritual deveras consoladora; cada vez se ora mais pela conversão dos pecadores; a juventude anseia pelo sacrifício espiritual. Não estamos perdidos! Estamos, apenas, a perder o nosso orgulho. Deus nunca cinge com a coroa da vitória uma cabeça orgulhosa.

Assim como as sombras se projetam mais ao longe, quando os raios do sol mais se abaixam, também quanto mais pequenos nos tornamos, maiores somos. O orgulho não compreende a ação de graças. A nossa primeira grande vitória na obtenção da paz será celebrada por um solene ato nacional de ação de graças a Deus. Que tempo levará até então?

Voltar para o Índice do livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen

(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 238-241)