Meditação para o Sábado da 5ª Semana depois da Epifania. Vida laboriosa de Jesus em Nazaré

Meditação para Sábado da 5ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Depois de termos visto Jesus adolescente, em Nazaré, crescendo em sabedoria e em graça, o consideraremos hoje chegado à idade do homem feito; e veremos:

1.° Que Ele tinha na Sua pobre morada uma vida laboriosíssima;

2.° Como santificava o Seu trabalho.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não perdermos o tempo, mas de o empregarmos assiduamente no trabalho;

2.° De oferecermos o nosso trabalho a Deus, rogando-Lhe que o abençoe e nos ajude a fazê-lo bem;

3.° De unirmos o nosso trabalho e as nossas intenções ao trabalho e às intenções de Jesus Cristo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra que Jesus Cristo disse de Si próprio:

“Tenho trabalhado desde a minha mocidade” – In laboribus a juventute mea (Sl 88, 16)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento à pobre morada de Nazaré, e contemplemos ali com admiração e amor um Deus sujeitando-Se ao trabalho. Ele que havia criado o mundo, fundado a abobada celeste, semeado no firmamento os astros, não Se despreza de manusear os instrumentos de um penoso oficio, de Se tornar o amparo, o companheiro, o servo de um pobre artífice. Unamos os nossos respeitos aos dos anjos maravilhados deste espetáculo.

PRIMEIRO PONTO

A vida de Jesus em Nazaré era uma vida laboriosíssima

Jesus, na sua pobre morada, nunca estava ocioso: Tenho trabalhado desde a minha mocidade, diz Ele pelo profeta Davi. Salvo o dia de sábado, todos os Seus dias eram empregados no trabalho e em um trabalho árduo; manuseava a serra e a plaina como um pobre artífice, e ganhava o Seu sustento com o suor do Seu rosto. Não Lhe bastava não perder o tempo em não fazer coisa alguma: todos os momentos da Sua vida, salvo as interrupções que exige a natureza, eram empregados em um trabalho penoso para o corpo, sem gosto para o espírito, sem atrativo para o coração; porque a lei do trabalho imposta ao primeiro homem e que Ele cumpriu em Sua pessoa, não se limita a um passatempo: prescreve uma penitência, que molesta, que fatiga, que faz correr o suor: Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto, diz a lei (1).

Tenho eu compreendido bem esta lei até ao presente, e como a cumpri eu? Não procurava eu somente matar o tempo, como se diz, não fazendo coisa alguma, ou fazendo ninharias, divertindo-me, entretendo-me com devaneios, com conversações inúteis, com leituras frívolas, com passeios desnecessários, com lidas baldadas? Não desisti eu de todo o trabalho sério e útil, porque me incomoda e desgosta? Isto é, precisamente porque ele está nas condições mais bem apropriadas ao fim da lei, que é a expiação do pecado pela penitência?

SEGUNDO PONTO

Como santificou Jesus o Seu trabalho em Nazaré

Consideremos no trabalho este divino artífice, quão santamente faz tudo:

1.° Não escolhe o gênero de trabalho; faz simplesmente o que São José lhe prescreve, e fá-lo no tempo e da maneira que São José o manda (2); não examina se esse trabalho Lhe agrada ou desagrada, diz consigo:

«O trabalho, que me indica José, é o que está em harmonia com Deus meu Pai, pois que está em harmonia com a obediência; portanto agrada-me, e entrego-me todo a ele»

Não examina se esse trabalho convém à Sua condição, à Sua graduação, à Sua idade, às Suas forças:

«Deus meu Pai quer-lo; onde posso eu estar melhor do que onde Deus me quer?»

2.° Ele faz este trabalho, que não é da Sua escolha, mas da escolha da Providência, o melhor possível, sem a lentidão, que é o caractere distintivo da preguiça; sem a precipitação, que é o efeito da irreflexão; sem a negligencia, que não cuida no que faz; sem a moleza, que teme a fadiga; e pode-se já dizer dEle o que os povos dirão dEle mais tarde:

“Ele tudo tem feito bem” – Bene omnia fecit (Mc 7, 37)

3.º Acompanha o Seu trabalho de sentimentos interiores, que cativam o coração de Deus. Muito diferente desses cristãos que, no seu trabalho, somente cuidam da ação exterior sem pôr a mira em Deus, Jesus, ao contrário, sem deixar de prestar a atenção que requer o ato exterior, cuida principalmente do Seu interior, que Ele conserva sempre debaixo das vistas da Majestade divina. É dentro dEle uma intenção tão pura de agradar a Deus, até nas mais pequenas particularidades, uma oferenda tão perfeita de todo o Seu ser e de todos os Seus momentos ao supremo domínio de Seu Pai, uma união tão íntima, tão contínua, tão devotada de toda a Sua alma ao Criador, que Deus com isso Se reputa infinitamente honrado e Se compraz, como o declarou nas margens do Jordão (3).

Examinemos se o nosso trabalho tem os três caracteres de santidade que acabamos de admirar em Jesus Cristo. Fazemos nós sempre o trabalho que está mais em harmonia com a Providência, e não preferimos o que nos recreia? Fazemos nós cada coisa o melhor possível? E fazemo-la unicamente a fim de agradar a Deus?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) In sudore vultus tui vseceris pane (Gn 3, 19)

(2) Et erat subditus illis (Lc 2, 51)

(3) Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi complacui (Mt 3, 17)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 290-292)