Meditação para a Duodécima Quarta-feira depois de Pentecostes. Décima Quinta razão de sermos Humildes: Vaidade da estima dos Homens

Meditação para a Duodécima Quarta-feira depois de Pentecostes

Décima Quinta razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma décima quinta razão de sermos humildes; e é que, não o sendo, é correr atrás da coisa mais vã do mundo, que é a estima dos homens; e para bem nos convencermos disto, veremos quanto é vã esta estima:

1.° Nos seus princípios;

2.° Nos seus efeitos.

— Tomaremos depois a revolução:

1.° De só termos Deus em vista nas nossas obras e expulsarmos do nosso interior todo o pensamento de vaidade, que quiser intervir nas nossas intenções;

2.° De não ligarmos importância aos louvores ou amostras de estima, que nos derem.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“O Senhor conhece os pensamentos dos homens, e que eles são vãos” – Dominus scit cogitationes hominum quoniam vanae sunt (Sl 93, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo recomendando-nos que nunca obremos com o fim de granjear a estima dos homens, mas sim de agradar a Deus (1). Agradeçamos-Lhe tão útil recomendação, e roguemos-Lhe que nos faça bem compreender a vaidade da estima dos homens.

PRIMEIRO PONTO

Quanto é vã nos seus princípios a estima dos homens

Quando nos louvam ou nos dão provas de estima, o amor-próprio diz-nos que é uma honra tributada ao nosso mérito, uma dívida que nos pagam; mas na realidade muitas vezes nada há mais falso. Ora é, da parte dos que nos elogiam, lisonja, pura civilidade, receio de ofender o nosso melindre que sabem que é grandíssimo, desejo de nos agradar, porque conhecem que gostamos dos louvores, e riem-se da nossa fraqueza na nossa ausência; ora é um incentivo concedido à nossa fraqueza, um amparo dado à nossa pusilanimidade, que sem isto cairia por terra. Outras vezes é a caridade, que não pensa mal, e vê tudo à boa parte: que honrando Jesus Cristo em nós, trata-nos atenciosamente, fala-nos com deferência, ama-nos cordialmente. Muitas vezes também são preconceitos favoráveis, uma amizade cega criada pela carne e sangue ou peles relações sociais. Então, como o espírito regula os seus juízos pelas inclinações do coração, tudo o que fazemos e dizemos parece digno de louvor, e vemos virtudes e riquezas espirituais onde Deus somente vê pobreza e misérias, talentos raros onde a verdade só acha um talento vulgaríssimo. Mais vezes ainda, para não dizer sempre, é a ignorância e a mentira. Louvam-nos, estimam-nos, porque nos julgam segundo aparências enganadoras, porque não nos conhecem. Oh! Quão raros seriam os louvores na terra, se o homem conhecesse bem aqueles a quem os dá! A ignorância dos que nos louvam pode desculpá-los; mas nós que sabemos o que somos, temos razão de nos gloriarmos? Se fossem dizer a um pobre reduzido à extrema miséria, coberto de andrajos e de úlceras, que ele era riquíssimo, que ninguém o igualava em formosura; que nada havia mais suntuoso que o seu trajo; e esse pobre gostasse de que assim lhe fadassem, dir-se-ia que tinha endoidecido; ora nós estamos no mesmo caso. Somos absolutamente pobres; não somos nada, não temos, não podemos nada, e todavia folgamos de que nos digam que somos ricos de méritos, de virtudes; e por mais falsos que sejam os louvores que nos dão, gostamos de os ouvir, não nos importando com o que somos em verdade e diante de Deus, mas somente com o que somos na aparência e opinião dos homens. Que loucura, que simplicidade é a nossa! Ah! Nós deveríamos reputar antes esses louvores e sinais de estima, como os reputavam os santos, uma injúria feita à extrema pobreza. Recebei os louvores como escárnios e afrontas, dizia São Francisco Xavier; os que me louvam, atormentam-me, dizia outro santo (2); e na verdade, se nos conhecêssemos, não pensaríamos de outro modo a nosso respeito.

SEGUNDO PONTO

Quanto é vã nos seus efeitos a estima dos homens

Louvem-me ou censurem-me; estimem-me ou desprezem-me; esqueçam-me ou desconheçam-me, que me importa? Fico por isso sendo menos do que sou? O juízo dos homens hoje engrandece-me: que lucrei com isto? Sou menos miserável? Não, por certo; não fiz mais do que juntar às minhas misérias a loucura de me gloriar de uma estima que não merecia; aos meus males um de mais, a minha soberba, que me inchou sem me engrandecer. Amanhã, pensando de diferente modo a meu respeito, os homens me julgarão desprezível, indigno de atenção; que terei eu perdido com isso? Apenas uma inútil diversão, uma pequena celebridade, perigosa para o meu amor-próprio e vaidade. Ai! Eu não preciso que me falem do bem que existe em mim; falo dele em demasia comigo mesmo. A opinião dos homens não é, pois, mais do que vento e fumo; nada nos dá nem tira; e tudo o que podem dizer de nós, seja em bem, seja em mal, não nos torna melhores nem piores. Por isso querer ser estimado dos homens é coisa tão vã, que não pode deixar de causar vergonha; ninguém há, que não se peje de que suspeitem que deseje que o louvem. Gostamos de que se saiba o bem que fazemos; mas obramos de modo que pareça que queremos ocultá-lo. Mostramos que nos custa ouvir os louvores, e rejeitamo-los, mas de maneira que pensem, que merecemos ainda maiores. Coisa singular! A estima dos homens é vã a ponto de nos envergonhar, e todavia causa-nos uma impressão agradável. Ah! É porque somos feitos para ser louvados e estimados de Deus na eternidade; mas isto somente se realizará se nos curarmos do desejo da estima dos homens da terra.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Attendite ne justitiam vestram faciatis coram hominibus, ut videamini ab eis (Mt 6, 1)

(2) Qui me laudant, me flagellante

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 114-117)