Meditação para a Quarta-feira da 3ª Semana depois da Páscoa. Obrigação da Vida Interior

Meditação para a Quarta-feira da 3ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Depois de termos aprendido do exemplo de Nosso Senhor em que consiste a vida interior, veremos que esta vida é:

1.° Um dever de razão;

2.º Um dever de fé.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De evitarmos tudo o que distrai, e de nos lembrarmos de tempos a tempos da presença de Deus com um momento de recolhimento de espírito e de reflexão;

2.° De juntarmos às nossas diversas ocupações o frequente uso das orações jaculatórias, e principalmente a prática de oferecer a Deus cada uma das nossas ações.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Jacó:

“Em verdade que o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” – Vere Dominus est in loco isto, et ego nesciebam (Gn 28, 16)

Meditação para o Dia

Adoremos a santíssima alma de Jesus Cristo sempre perfeitamente recolhida em Deus, sempre louvando, glorificando, e amando as Suas adoráveis per feições; e ofereçamos-Lhe todos os respeitos de que somos capazes. Roguemos-Lhe que nos faça entrar nos Seus sentimentos e na Sua prática.

PRIMEIRO PONTO

A Razão impõe-nos o dever da Vida Interior

Por isso só que a razão nos mostra Deus presente no fundo do nosso coração assim como nos esplendores dos santos, ela impõe-nos o dever de pensar nEle, de respeitar a Sua presença, de falar-Lhe, de adorá-lO, louvá-lO, agradecer-Lhe, pedir-Lhe a Sua graça e solicitar o perdão das nossas culpas; ordena-nos que ouçamos em um santo recolhimento de espírito a Sua palavra interior, que sugere tão bons pensamentos a quem quer escutá-la; diz-nos finalmente, que procuremos agradar-Lhe, oferecendo-Lhe as nossas ações, sacrificando-Lhe a nossa vontade, os nossos gostos e tudo o que somos, praticando as virtudes, principalmente a da humildade, que nos abate diante da Sua majestade, e o amor divino, que nos eleva até Ele, para fazer um só coração do Seu e do nosso. Há pessoas que se admiram, que anacoretas tenham passado meio século em uma caverna, sem trato com os homens; mas se reconhecessem quanto vale o trato com Deus, a quem faziam companhia dia e noite no fundo do seu coração, e quão pouco valem as criaturas para uma alma que tem o Criador consigo, se admirariam antes de ver o homem pensar tanto nas criaturas, o tão pouco no seu Deus, que o acompanha por toda a parte, ocupar-se com tanta avidez e tão continuamente no que é nada, e tão raras vezes e tão friamente no que é tudo. Ó! Quão deve o pecado ter-nos obscurecido a razão para que tenhamos chegado a esquecer, como fazemos, esse grande Deus, cuja presença nos cerca e nos penetra, e a preferir-Lhe o pensamento das coisas miseráveis deste mundo e até quimeras!

SEGUNDO PONTO

A Fé impõe-nos o dever da Vida Interior

Assim como, diz Jesus Cristo, a vara da videira não pode de si mesmo dar fruto, senão permanecendo na videira, assim nem vós o podeis dar, sem permanecerdes em mim (1). Se alguém não permanecer em mim, contunda Ele, será lançado fora como a vara, e secará, e lançá-lo-ão no fogo e arderá. Conforme com esta doutrina, o Apóstolo São Paulo diz-nos:

Haja entre vós o mesmo sentimento que houve também em Jesus Cristo (2); renovai em vós de dia para dia o homem interior à proporção que se destrói o homem exterior (3). Dobro os meus joelhos diante de Deus Pai, diz ele aos efésios, para que vos conceda que sejais corroborados m virtude pelo Espírito no homem interior, para que Jesus Cristo habite pela fé nos vossos corações, arraigados e fundados em caridade (Ef 3, 14-17). Porque se algum não tem o espírito de Jesus Cristo, esse tal não é dele (4)

Com efeito não há ação cristã senão aquela que é feita no espírito de Jesus Cristo, tendo por modelo Jesus Cristo e em união com Jesus Cristo (5). Ora desprezada a vida interior, obra-se sem espírito de fé, sem pensar em Jesus Cristo, como se Ele não existisse. Não é assim que obramos multas vezes?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Sic nec vos, nisi in me manseritis (Jo 15, 4ss)

(2) Hoc sentite in vobis quod et in Christo Jesus (Fl 2, 5)

(3) Renovamini spiritu mentis vestrae (Ef 4, 23). Licet is qui foris est noster homo corrumpatur, tamen qui intus est renovatur de die in diem (2Cor 4, 16)

(4) Si quis spiritum Christi non habet, hic non est ejus (Rm 8, 9)

(5) Per ipsum et cum ipso et in ipso

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 29-31)