Meditação para a Terça-feira Santa. O que Jesus Cristo sofreu dos Seus Inimigos

Meditação para a Terça-feira Santa

SUMARIO

Meditaremos sobre o que Jesus sofreu dos Seus inimigos na Sua Paixão, e veremos:

1.° Os Seus tormentos;

2.° Os Seus opróbrios.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De aproveitarmos do coração todas as ocasiões de nos mortificarmos e de nos humilharmos;

2.° De renunciarmos de bom grado a toda a pretensão de orgulho e de amor-próprio, assim como a toda a busca de sensualidade.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Armai-vos do pensamento do que padeceu Jesus na carne” – Christo igitur passo in carne, et vos eadem cogitatione armamini (1Pd 4, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo ensinando-nos, com o Seu exemplo, antes de exalar a vida, a arrancar do nosso coração as duas paixões que condenam mais os homens, a paixão do prazer e a paixão do orgulho. À paixão do prazer opõe as mais pungentes dores; à paixão do orgulho opõe as mais ignominiosas humilhações. Peçamos a este divino Salvador perdão da nossa corrupção, cuja expiação Lhe custou tão caro, e demos-Lhe graças por se ter dignado padecer, para nos curar, tantos tormentos e opróbrios.

PRIMEIRO PONTO

Tormentos que os inimigos de Jesus Cristo lhe fizeram padecer

Esses homens cruéis ate à ferocidade não lhe deixaram no corpo nenhuma parte sem dor. Na noite que precedeu a Sua morte, cobriram de bofetadas o Seu adorável rosto; no mesmo dia de Sua morte, laceraram-Lhe a carne com chicotadas; o sangue correu, todo o Seu corpo ficou numa chaga, todos os Seus ossos descobertos, e a Sua cabeça foi coroada de espinhos. Depois de tantos tormentos, obrigam-O a levar a Sua cruz ao Calvário, enterram os cravos nos Seus pés e nas Suas mãos, dão-Lhe a beber fel e vinagre.

Meditemos estes atrozes tormentos; entremos no pensamento de Deus, que os padece e quer deste modo inspirar-nos ódio à nossa carne. Quem ousaria depois disto lisonjear o seu corpo, poupá-lo, alcançar-lhe prazer e gozo? Quem não se resolveria a mortificá-lo e a fazê-lo padecer? Não se é, porém, cristão senão com esta condição (1). Que reflexões devemos fazer a respeito de nós mesmos! Que reformas nos nossos sentimentos e procedimento! Amamos tanto o prazer, tememos tanto os incômodos e o padecimento! Como ousamos dizer-nos cristãos?

SEGUNDO PONTO

Opróbrios que os inimigos de Jesus Cristo lhe fizeram sofrer

No horto das Oliveiras, Jesus é preso, manietado e levado dali como um criminoso a casa de Caifás, no meio de mil gritos insultantes. Na noite que se segue a esta prisão, é entregue à mercê de Seus inimigos, que O cobrem de bofetadas e de punhadas, que Lhe escarram no rosto, e depois de Lhe terem vendado os olhos, moem-O com pancadas, dizendo:

“Adivinha quem é o que te deu”

No dia seguinte a esta horrível noite, obrigam-O a andar pelas ruas de Jerusalém, vestido de púrpura, escarnecem-O, insultam-O como a um louco. Levado dali ao tribunal de Pilatos, é comparado com Barrabás: todo o povo, que pouco antes o tinha recebido em triunfo, proclama que Barrabás, ladrão e assassino, é menos culpado que Ele, e pede com gritos de raiva e de furor a morte dAquele que nunca havia feito senão bem (2). Depois vestem-Lhe um manto carmesim como um manto real, põem-Lhe na cabeça uma corôa de espinhos, e na mão direita uma cana à maneira de cetro; e todo o povo O escarnece como um rei de comédia. Acabou-se a fama da Sua sabedoria, Ele só é tido por um louco; acabou- se a fama do Seu poder, só se vê nEle fraqueza; acabou-se a fama da Sua inocência e santidade, Ele já não é, na opinião pública, senão um criminoso, um blasfemo, mais digno de morte que os ladrões e os assassinos. Crucificam-O entre dois ladrões, como o maior de entre eles; e todo o povo apinhado ao redor da cruz o cumula, até ao Seu último suspiro, de insultos e de expressões de desprezo.

Eis aqui como Jesus Cristo nos ensina a humildade, a submissão, a dependência; eis como Ele condena o orgulho, que não pode sofrer o menor desprezo, se impacienta pelas coisas mais leves, murmura à menor contradição; o amor-próprio, que se indigna da preferência concedida aos outros, os melindres e as vaidades; eis como nos ensina à contentarmo-nos com a estima só de Deus e a termos em pouco os juízos humanos, a opinião pública, e os vãos discursos dos que escarnecem a piedade.

Que fruto temos nós tirado até ao presente destes divinos ensinos? Que progressos temos feito na humildade, no sofrimento das faltas de atenção, das palavras, ofensivas, das contrariedades do amor-próprio?

Ó Jesus, tão humilde, tende compaixão de nós, convertei-nos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Qui autem sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis (Gl 5, 24)

(2) Tolle, tolle; crucifige eum (Jo 19, 15)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 215-218)