Meditação para a Décima Segunda Quarta-feira depois de Pentecostes. Vigésima razão de sermos Humildes: O Amor-próprio põe a salvação em grande perigo

Meditação para a Décima Terceira Quarta-feira depois de Pentecostes

Vigésima razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma vigésima razão de sermos humildes; é, que o amor-próprio é:

1.° Um perigo de todos os instantes;

2.° Um perigo muitas vezes mais grave do que se pensa.

– Tomaremos depois a resolução:

1.° De nunca buscarmos os louvores e a estima;

2.° De não usarmos de nenhum meio para ocultar o que nos humilha.

O nosso ramalhete espiritual será o conselho do Espírito Santo:

“Humilhai o vosso coração” – Deprime cor tuum (Ecl 2, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo dando-nos este conselho:

“Humilhai o vosso coração, servi a Deus com toda a humildade e paciência” – In humiliate tua patientiam habe (Ecl 2, 4)

Não podia dar-nos mais útil conselho: porque o amor-próprio expõe-nos a perigos de todos os instantes, muitas vezes mais graves do que se pensa. Demos graças ao Espírito Santo por tão preciosa advertência.

PRIMEIRO PONTO

O amor-próprio é um perigo de todos os instantes

O amor-próprio está incessantemente em ação em redor de nós, ocupado em nos seduzir, tanto nas mais pequenas ocasiões, como nas maiores, no retiro como na sociedade, em particular como em público. Está sempre em toda a parte do nosso coração, com a seta na mão para nos ferir. Se nos entregarmos a algum trabalho intelectual ou manual, está presente para nos aprovar e elogiar: para nos persuadir que obramos melhor que os outros; que somos mais hábeis, mais inteligentes; ou se não somos bem sucedidos, para nos irritar, e nos descobrir algum meio de julgarmos que valemos mais que os nossos rivais. Se em vez de trabalhar, nada fazemos, o amor-próprio está presente, passeando o nosso pensamento pelo passado, para nos louvar pelo que fizemos; pelo futuro, para refletir no que faremos, no que viremos a ser, e nos dar os parabéns; pelas pessoas do nosso conhecimento, para penetrar o seu interior, ver o que sentem a nosso respeito, ou assistir às conversações em que suspeitamos que se fala de nós. Se conversamos, ele incita-nos a que nos mostremos espirituosos, que falemos de nós e das nossas obras, a que ocultemos o que nos humilha, a que patenteemos só o que nos exalta, a que realcemos o que rebaixa os outros, ainda que seja preciso mentir para melhor o conseguir. Se nos entregamos à prática das boas obras e virtudes, o amor-próprio está ainda presente para nos louvar, nos insinuar que valemos mais, que temos mais merecimento, que fazemos mais benefícios que muitos outros. Finalmente, se procuramos adquirir uma sincera humildade, ele está ainda presente para nos dizer que não nos conhecemos, que somos já muito humildes. Que havemos de fazer com um inimigo tão importuno, de quem se disse, com razão, que é a primeira coisa que em nós vive, e a última que morre? (1). É lembrar-nos que ninguém tem mais amor-próprio que aquele que julga não o ter; é desconfiar incessantemente de nós mesmos e de nosso coração; e dizer muitas vezes a Deus:

Senhor, tende compaixão de mim, que sou ceio de soberba!

SEGUNDO PONTO

O amor-próprio é um perigo mais grave do que se pensa

Temei o amor-próprio, diz São Bernardo; porque é uma seta que voa, penetra levemente na alma e no coração, mas que não faz uma leve ferida; dá a morte a quem se não acautela (2). Somos indulgentes para com as vãs complacências do amor-próprio em si mesmo, e consideramo-las como coisas sem importância para a salvação. São tão doces estes sentimentos! Sem dúvida um fugitivo pensamento de amor-próprio não é pecado mortal; mas deixar que o amor-próprio se apodere do mérito das nossas obras, não vale nada? Mas ocasionar a diminuição das graças que, bem aproveitadas, nos teriam alcançado muitas outras, e sem as quais se não efetuará talvez a nossa salvação, como sucederia com Santa Tereza, a quem Deus mostrou o lugar que ela ocuparia no inferno, se não resistisse a um sentimento de amor-próprio, não vale nada? Mas, reprimido este sentimento de amor-próprio, virá segundo, depois terceiro, e deste modo o nosso amor-próprio irá sempre crescendo, e amontoando em nós tanta soberba, que chegará a fechar-nos o reino dos céus; mas este hábito de nos comprazermos em nós mesmos, nos impediria de ver as virtudes que nos faltam, os defeitos que temos a corrigir, e chegaremos assim à hora da morte sem estarmos preparados; mas finalmente o amor-próprio não reprimido nos arrastaria a todos os vícios, à presunção, à ambição, ao luxo e à cobiça das riquezas, à vida dissipada e mundana, efeminada e sensual, à nossa eterna perdição. O amor-próprio diz-nos, sem dúvida, que não cairemos nestes excessos; mas nunca se engana melhor um cego do que ocultando-lhe o precipício, em que vai por o pé. Tem-se visto solitários, depois de oitenta anos de penitência, perderem-se por causa do amor-próprio. Está escrito que a soberba precede a ruína da alma, e o espírito eleva-se antes da queda (3). Temamo-nos de fazer a triste experiência disto.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Primum vivens ut ultimum moriens

(2) Time sagittam: leviter volat, leviter penetrat, sed non leve infligit vulnus; cito interficiet nimirum sagitta haec. vana gloria est (São Bernardo, in Sl. 90)

(3) Contritionem praecedit superbia, et ante ruinam exaltatur spiritus (Pr 16, 18)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 135-138)