Meditação para o Sábado da 3ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Terminaremos as nossas meditações sobre a vida interior, considerando três meios de adquiri-la e de aperfeiçoá-la em nós, a saber:

1.° A vida regrada;

2.° A repressão dos sentidos;

3.° O uso frequente das orações jaculatórias.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não deixarmos ao capricho o emprego do nosso tempo, mas de seguirmos uma norma de vida que assine a cada dever o seu momento;

2.° De nos guardarmos dos pensamentos inúteis, da curiosidade que quer ver tudo e saber todas as novidades;

3.° De nos exercitarmos, de dia e de noite, na santa prática das orações jaculatórias.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do cântico de Zacarias:

“Sirvamos Deus em santidade e justiça diante d’ele por todos os dias da nossa vida” – Serviamus illi in sanctitate et justitia coram ipso omnibus diebus nostris (Lc 1, 74)

Meditação para o Dia

Adoremos a santíssima alma de Jesus Cristo entregue ao recolhimento da Sua vida interior, conversando com seu Pai no segredo do Seu coração, e seguindo em toda a Sua vida a vontade desse adorável Pai, sem conceder jamais coisa alguma ao capricho ou aos pensamentos inúteis. Agradeçamos-Lhe este belo exemplo, que nos dá, e tributemos-Lhe todos os nossos respeitos.

PRIMEIRO PONTO

Uma Vida Regrada, primeiro meio de adquirir e de aperfeiçoar em nós a Vida Interior

Duas coisas são necessárias e ao mesmo tempo eficazes para a Vida Interior:

1.° É preciso ordem no emprego do tempo; a desordem do exterior desregra o interior, desorganiza-o, distrai-o e fá-lo faltar, por esquecimento ou má disposição dos seus dias, a deveres essenciais; assim como, ao contrário, a boa ordem exterior recolhe a alma em si, mantém-a na regra, facilita-lhe a vida em Deus e por Deus;

2.° É preciso exatidão em certos exercícios de piedade, tão necessários à alma como ela o é ao corpo: estes exercícios ali conservam as vistas da fé, os bons pensamentos, os pios sentimentos. Com estes exercícios, tudo corre bem; sem eles, tudo corre mal; a alma afrouxa, enfastia-se dos seus deveres, de Deus, do seu mesmo interior, onde já se não suporta, não achando prazer senão em expandir-se fora.

— Ora uma vida regrada é o único meio de ter ordem e ser exato nos exercícios de piedade. Onde não há regra, não há ordem. Vive-se de caprichos e de quimeras; faz-se tudo despropositadamente; cada dia difere da véspera; é uma variação contínua no emprego dos nossos momentos. Ao contrário, com uma regra de vida, tudo se faz com ordem; cada dever tem o seu tempo marcado; nada é esquecido, nada é antecipado nem retardado, nem precipitado nem dilatado. Graças à regra, tudo se faz bem; e o que sucede com a ordem, sucede igualmente com os exercícios de piedade; com uma regra de vida fazem-se exatamente; sem regra, como não tem hora prefixa, são diferidos, depois diferidos ainda, e acaba-se por omiti-los inteiramente.

Examinemos a nossa consciência, e veremos como isto é verdade.

SEGUNDO PONTO

A Repressão dos Sentidos, outro meio de adquirir o de aperfeiçoar em nós a Vida Interior

Os olhos que querem ver tudo, até o que eles nenhuma precisão tem de ver, são como as janelas da alma, pelas quais entram a imagem dos objetos exteriores, e algumas vezes até a morte espiritual, mas ao menos a distração interior e o esquecimento de Deus. Os ouvidos insaciáveis de ouvir, enchem o interior de uma multidão de novidades, que o distraem; a língua que não sabe refrear-se, esvazia o coração de toda a piedade, a ponto de que nunca um grande falador foi homem de Deus, diz Santo Agostinho (1); de onde se segue que não se pode ser homem interior senão tanto quanto se é comedido no olhar, nas perguntas curiosas, nas conversações inúteis, e reservado nas palavras. A repressão dos sentidos interiores, que são a imaginação e o espírito, não é menos importante. Se nos entregarmos às quimeras é aos pensamentos inúteis, haverá dentro de nós um alvoroço menor que o da alta sociedade, mas que não distrai menos onde se juntarão o passado, o presente e o futuro, as pessoas e os lugares, os tempos e as coisas: o passado para nos dizer o que temos visto ou ouvido, feito ou experimentado; o futuro para nos perguntar o que faremos e como o faremos; as pessoas para conversarem conosco, ainda que ausentes; os lugares onde temos estado, para os percorrer de novo. Ora, com esta agitação dentro, a vida interior é tão incompatível como a paz com a guerra, o silêncio com o ruído, o dia com as trevas.

Perguntemos à nossa consciência se isto não é verdade.

TERCEIRO PONTO

O uso frequente das Orações Jaculatórias, terceiro meio de adquirir e aperfeiçoar em nós a Vida Interior

Bordaloue considera esta prática como um dos melhores meios de vir a ser um homem interior. As orações jaculatórias são para a vida interior o que a lenha é para o fogo: quanto mais lenha se lança no fogo, mais viva se torna a chama; da mesma maneira quanto mais orações jaculatórias se recitarem, mais o coração se abrasa e mais o interior se recolhe. Este exercício tão útil é-nos tanto mais fácil, que tudo na natureza fornece matéria para as orações jaculatórias. O céu não tem um astro, a terra uma planta ou uma flor, o universo um ente qualquer, que não nos convide a fazê-lo. Os exemplos dos bons a isso nos induzem; os mesmos pecados dos maus podem ser-nos, se quisermos, uma ocasião de nos elevarmos a Deus para Lhe pedirmos perdão deles (2).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Lingua aptissimum est evacuandi cordis instrumentum

(2) Omnia clamant ut diligas

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 39-42)