Meditação para a Sexta-feira da 4ª Semana depois da Epifania. Maria no Templo

Meditação para a Sexta-feira da 4ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Depois de termos meditado Jesus no templo, consideraremos ali Maria Sua Mãe, e admiraremos nela, como no seu divino Filho, o espírito de sacrifício; porque ela sacrifica:

1.° Dentro em si as duas coisas a que temos mais apego, a vontade própria e o amor-próprio;

2.º Fora de si, os dois objetos que a interessavam mais: ela oferece em sacrifício o seu adorável Filho e sujeita-se a males extremos desconhecidos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não nos apegarmos a coisa nenhuma neste mundo, e de expulsarmos do nosso coração toda a resistência ao amor de Deus;

2.° De sacrificarmos principalmente a vontade própria à obediência para com os superiores, e à condescendência para com os iguais ou inferiores.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“Esvaziai o vosso coração de tudo o que não é Deus, e uni-vos a Deus só” – Omnibus evacuatis et licentiatis, solus cum solo uniaris (2 Imitação 8, 5)

Meditação para o Dia

Adoremos o Menino Jesus apresentado no templo pelas mãos de Maria: e felicitemos Maria por ter, como sacerdotisa deste grande sacrifício, oferecido a adorável vítima a Deus Pai, com mãos tão puras e uma tão elevada perfeição, oferecendo-se ela mesma em sacrifício juntamente com o seu divino Filho.

PRIMEIRO PONTO

Maria, no templo, sacrifica as duas coisas a que temos mais apego: a vontade própria e o amor-próprio

1.° Ela sacrifica a vontade própria: evidentemente a lei da purificação não a obrigava de nenhum modo; porque, que podia haver que purificar na Mãe de Deus, numa criatura mais pura do que os anjos, e que longe de ter, pelo seu parto sobrenatural, contraído a menor mácula, se tinha tornado ainda mais pura e mais virgem? — Todavia sujeita-se à lei, e não se dispensa de nenhuma das suas prescrições: como as mulheres ordinárias, ela conserva-se retirada e separada de todo o trato com o mundo; como elas, abstêm-se, durante quarenta dias, de entrar no templo; como elas, oferece a vítima de purificação prescrita pela lei. Belo exemplo, que nos ensina a obedecer, sem nos valermos das vantagens por meio das quais poderíamos não nos confundirmos na vida comum, nem dos pretextos de dispensa com que a vontade própria gosta de defender-se! A verdadeira obediência não pergunta o porque do preceito; faz com simplicidade o que lhe prescrevem; não gosta das dispensas, aceita-as, se lhas impõem, e não as solicita senão quando o exige o dever.

2.° Maria sacrifica o amor-próprio. Era para ela uma grande glória ser ao mesmo tempo Virgem-Mãe e Mãe de Deus. Ela sacrifica esta dúplice glória: a primeira, sujeitando-se à cerimônia da purificação, que a fazia passar na opinião pública por uma mulher ordinária, a quem o seu parto havia tornado impura; a segunda, resgatando o seu Filho como um escravo, e resgatando-o com o modesto preço que os pobres davam. Que lição de humildade para nós, que gostamos tanto de alardear o que nos honra é de falar em nosso proveito!

SEGUNDO PONTO

Maria, no templo, sacrifica o seu próprio Filho,
é sujeita-se a males extremos desconhecidos

1° Sacrifica o seu próprio Filho. Ela amava este querido Filho mil vezes mais do que a si mesma: era a sua alegria, a sua felicidade, o seu lhes ouro, o seu tudo. Todavia oferece-O em sacrifício a seu Pai para salvação do mundo. No altar do seu coração, mais nada do que suas mãos, ela apresenta à justiça divina esta adorável vítima, consentindo em perdê-la um dia para redenção dos homens. A este espetáculo, poderemos dizer-nos filhos de Maria, se ainda tivermos apego a alguma coisa neste mundo, à nossa vaidade, ao nosso bem-estar, a qualquer coisa que nos pareça preciosa? Ah! Que são todos estes sacrifícios em comparação do sacrifício que faz Maria sacrificando o seu amado Filho?

2.º Sujeita-se a males extremos desconhecidos.

“O vosso filho, lhe diz o velho Simeão, será o alvo a que atire a contradição; e uma espada de por traspassará a vossa alma” – Ecce positus est hic… in signum cui contradicetur; et tuam ipsius animam periransibit gladius (Lc 2, 34)

Mas que espada de dor será essa? Maria ignora-o. Estas tremendas palavras, que nenhum mal em particular anunciavam, davam lugar a que ela temesse todos os males. Ameaçada de males extremos sem saber quais são, a sua alma somente vê de todas as partes espadas pendentes sobre a sua cabeça, não sabe de que lado se há de resguardar, e padece mil mortes em um momento. Porém, Maria, em uma tal dor, não se deixa abater; entrega-se a todos os desígnios de Deus para com ela, e sacrifica-lhe todo o seu futuro. Não me acontecerá senão o que Deus quiser, diz ela consigo; e o que Deus quer, devo sempre querê-lo. Ó admirável tranquilidade de Maria entre tão grandes sacrifícios! Que belo exemplo de resignação à vontade de Deus!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 264-266)