Meditação para a Nona Segunda-feira depois de Pentecostes. Maneira de fazer as nossas Refeições Santamente

Meditação para a Nona Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o espírito de humildade e de mortificação com que devemos fazer as nossas refeições.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De dizer com exatidão e piedade as orações para antes e depois da comida;

2.º De fazer todas as nossas refeições com este espírito de devoção, de humildade e de mortificação.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Ou vós comis, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” – Sive manducatis, sive bibitis, sive aliud quid facitis, omnia in gloriam Dei facite (1Cor 10, 31)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor tomando as suas refeições durante a sua vida mortal. Sujeita-se a beber e a comer como os mais homens: mas como o fazia santamente! Como realçava esta baixa ação com as belas virtudes que praticava! Era o objeto contínuo da admiração da Santíssima Virgem e de São José. Admiremos com eles, e com eles tributemos todos os nossos respeitos ao nosso divino Salvador tomando tão santamente as suas refeições.

PRIMEIRO PONTO

Espírito de Devoção com que devemos fazer as nossas refeições

Este espírito consiste em tomar as nossas refeições:

1.º Com uma reta e pura intenção, com o único fim de agradar a Deus, que quer que sustentemos o nosso corpo para poder cumprir os deveres do nosso estado;

2.° Com um coração cheio de amor e gratidão para com o Deus que nos dá os nossos alimentos; que no-los serve pela mão de nossos criados, e nos trata melhor que a muitos outros que têm uma mesa inferior à nossa, ou carecem algumas vezes do necessário;

3.° Com um espírito de sacrifício, olhando a mesa como um altar em que devemos oferecer a Deus duas vítimas, a saber: o nosso apetite e os alimentos que tomamos.

É com estas disposições que fazemos as nossas refeições?

SEGUNDO PONTO

Espírito de Humildade com que devemos tomar as nossas refeições

Uma das maiores humilhações do homem sobre a terra, é a necessidade que tem de comer. Aquele que é chamado a sentar-se nos céus à mesa de um Deus, a alimentar-se ali da verdade e da caridade, a deliciar-se com a abundância dos bens celestiais, abaixa-se na terra a uma ação que lhe é comum com o bruto. Aquele que ao altar se alimenta com o pão dos anjos e o mesmo Deus, come e assimila-se a carne dos animais! Não é esta uma grande humilhação? Ainda quando somente se considere a ordem natural, quão humilhante é para o homem, criatura tão nobre, rei da criação, imitar o animal, que rói e rumina, e como ele amontoar no corpo alimentos grosseiros, que ali se corrompem e se tornam um infeto esterco? Quão humilhante não é para ele abusar dos alimentos, e não se limitar aos que lhe são indispensáveis; empregar, finalmente, numa ação tão baixa um tempo que seria muito melhor empregado com tantas coisas grandes e nobres, na glória de Deus, no bem do próximo, ou no seu aperfeiçoamento intelectual e moral! Quanto mais humilhante ainda não é ver-se obrigado a reconhecer-se indigno deste alimento grosseiro como é, pois que, pecando, se tornou indigno de viver, e por conseguinte indigno de gozar de algum alimento! Ele só o recebe de Deus por misericórdia, e ainda assim é com a condição de o ganhar com o seu trabalho (1); o que levava São Vicente de Paulo a dizer:

“Miserável que sou! Não ganhei o pão que como”

Tomamos nós as nossas refeições com este espírito de humildade?

TERCEIRO PONTO

Espírito de Mortificação com que devemos fazer as nossas refeições

1.° Este espírito consiste em não amar a mesa e os bons bocados. Os santos só tomavam o seu alimento com repugnância, algumas vezes até umedecendo o seu pão com as suas lágrimas, e olhando a comida como um tormento e perigo (2); porque, diziam eles, a comida introduziu o pecado no mundo; debilita o espírito, fortifica a carne, causa as mais terríveis tentações. Muito diferentes dos que ligam importância à qualidade das iguarias, contentavam-se com alimentos ordinários, sem os desejar mais saborosos e adubados; e comiam com simplicidade o que lhes era apresentado, sem nunca escolher o melhor para si deixando o pior para os outros. Se gostavam dos alimentos, tomavam-os com indiferença, sem ser por sensualidade, sem os saborear, dando louvores a Deus, que os sustentava melhor do que mereciam, privando-se do que lhes parecia melhor, algumas vezes até sentindo prazer em tornar insípida a sua comida. Se não gostavam dos alimentos, tomavam-os todavia sem se queixarem, louvando ainda a Deus, que lhes oferecia uma ocasião de mortificarem os seus sentidos.

2.° O espírito de mortificação consiste também em privarmo-nos desse veemente apetite, dessa avidez pouco decente, que faz com que julguemos sempre não ter comido bastante, e que nos entreguemos algumas vezes a tais excessos, que é impossível depois aplicar-nos à oração, e a outros deveres do nosso estado. O Cristão que possui o verdadeiro espírito de mortificação, é sóbrio, só toma o alimento necessário, fica sempre com apetite, com essa moderação que convém a um servo de Deus (3).

Não temos nós cometido muitas faltas a este respeito?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Si quis non vult operari, nec manducet (2Ts 3, 10)

(2) Sicut ad crucem et ad tormenta, ad cibum accedentes (São Bernardo)

(3) Non tanquam ventris mancipia manducantes, sed sicut decet servos Dei (São Basílio)

 

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 44-48)