Meditação para a Quinta Sexta-feira depois de Pentecostes. Excelência do desejo da Vida Perfeita

Meditação para a Quinta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Continuaremos a meditar sobre o desejo da vida perfeita, e veremos:

1.° Que este desejo é um indício de predestinação;

2.° Que cresce na alma à proporção que se progride na virtude.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De aspirarmos incessantemente a uma mais alta perfeição;

2.° De nos lembrarmos muitas vezes do modo como os santos amavam e serviam a Deus, de nos envergonharmos de estar tão longe deles, e de nos excitarmos a amar e a servir a Deus como eles.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Bem-aventurado aquele que resolveu no seu coração subir de virtude em virtude” – Ascenciones in corde suo disposuit (Sl 83, 6)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo proclamando bem-aventurados os que tem fome e sede de Sua perfeição, isto é, que a desejam vivamente, prometendo-lhes satisfazer no céu esse santo desejo (1). Demos-Lhe graças por este ensino e esta promessa.

PRIMEIRO PONTO

O ardente desejo da Vida Perfeita é um indício da Predestinação

Trememos, quando ouvimos o Espírito Santo dizer-nos pela boca do Sábio:

“Ninguém sabe se é digno de amor ou de ódio” – Nescit homo utrum amore an odio dignus est (Ecl 9, 1)

Mas contra o medo que inspira semelhante palavra, há uma disposição do coração, que deve animar-nos: é o ardente desejo da vida perfeita, ou a vontade de agradar a Deus e de O amar sempre mais. Enquanto sentimos esta disposição do coração, nada temos a temer: porque é esse o amor com o seu caráter mais certo. Ora, Jesus Cristo disse: Aquele que me ama, será amado de meu Pai (2): por conseguinte será salvo.

“É esta, segundo São Bernardo, a prova mais evidente de que Deus vive em nós, pois só Ele pode produzir semelhante desejo, e fazer-Se desejar, fazendo-Se gostar” – Nullum omnio praesentiae ejus cortius testimonium est, quam desiderium gratiae amplioris (Serm., II de S. Andrea)

É este, segundo o testemunho do Espírito Santo, o verdadeiro caráter dos escolhidos.

“A vereda dos justos, diz o livro dos Provérbios, é como luz que resplandece, vai adiante e cresce até ao dia perfeito” – Justorum semita, quasi lux splendens, procedit et crescit usque ad perfectam diem (4, 18)

Quanto mais se adiantam, mais tendem adiantar-se ainda, e nunca dizem: Basta.

Têm sempre fome e sede de uma justiça maior, e se vivessem sempre, tenderiam sempre a ser melhores, segundo o que está deles escrito, que eles irão de virtude em virtude (3); muito diferentes das almas pusilânimes, que nem sequer vêem as suas quedas, que muitas vezes não avaliam o pecado como o que na realidade é, e tomam por imperfeição o que é algumas vezes até uma grande culpa.

Examinemos a nossa consciência: reconhecemos nela o caráter da predestinação, que acabamos de meditar?

SEGUNDO PONTO

O desejo da Vida Perfeita cresce na alma à proporção que se progride na Virtude

Há uma grande diferença entre os prazeres do século e os da religião. Desejam-se com ardor os primeiros antes de os possuir, porque não se reconhece, que nada valem, e que não podem fazer feliz pessoa alguma; e depois de os ter conseguido à força de trabalhos e de cuidados, fica-se quase logo enfastiado, porque a experiência faz sentir o seu vácuo. Sucede o contrário com os prazeres da religião: antes de os gostar, não se desejam, porque não se suspeita quão doces são; mas logo que se lhes tomou o gosto, que se conheceu a sua excelência e doçura, desejam-se vivamente, e quanto mais saboreados são, mais se desejam ainda, porque se sente sempre mais o seu valor. É tão bela a virtude, convém tanto ao coração do homem, que quanto mais se pratica, mais zelo se tem em exercer os seus atos. Todo aquele que bebe desta água, diz Jesus Cristo, tornará a ter sede (Jo 4, 13), isto é, que desejará sempre adiantar-se mais na prática da virtude. O mundo e os seus falsos prazeres lhe serão insípidos; deles se enfastiará, segundo esta palavra de Nosso Senhor: O que beber da água que eu lhe ei de dar, nunca jamais terá sede (Jo 4, 13) dos vãos prazeres da terra. Todos os seus desejos se dirigirão às puras delícias da virtude; e ele será ao mesmo tempo saciado e esfaimado, sequioso e refrigerado: porque é tal a propriedade dos bens espirituais, que saciam e despertam a fome, apagam e excitam a sede. Somos saciados, porque achamos em Deus todos os bens; somos esfaimados, porque, gozando esses bens, achamo-los tão deliciosos, que os desejamos mais. O coração enlevado canta os louvores de Deus e da virtude; mas é um cântico sempre novo, porque sempre neles se revelam novas belezas à admiração e ao amor. Meçamos pelos nossos desejos o grau de virtude que atingimos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam, quoniam ipsi saturabuntur (Mt 5, 6)

(2) Qui diligit me, diligetur a Patre meo (Jo 14, 21)

(3) Ibunt de virtute in virtutem (Sl 83, 8)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 249-251)