Meditação para a Terça-feira da 3ª Semana depois da Epifania. Escola do Primeiro Grau de Humildade

Meditação para a Terça-feira da 3ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Jesus no berço não só ensina a humildade em geral, mas também os seus diversos graus. Meditaremos o primeiro destes graus, que é:

1.° Termos humildes sentimentos a respeito de nós mesmos;

2.° Comprazermo-nos nesses humildes sentimentos.

Veremos que Jesus Menino nos ensina admiravelmente uma e outra coisa.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De darmos graças a Deus por tudo o que nos humilha, sem nos perturbarmos nem nos afligirmos;

2.º De recorrermos a Ele com confiança no meio das nossas misérias, sabendo que Ele protege todos aqueles que, reconhecendo-se miseráveis, O chamam em seu socorro.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Davi:

“Eu me farei mais vil do que me tenho feito, e serei humilde em meus olhos” – Vilior fiam plus quam factus sum, et ero humilis in oculis meis (2Sm 6, 22)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento ao berço do Menino Jesus. Reparemos o mais possível, com os nossos respeitos, os seus profundos abatimentos, e roguemos-Lhe que infunda a Sua graça na nossa alma.

PRIMEIRO PONTO

Jesus no berço ensina-nos a ter humildes
sentimentos a respeito de nós mesmos

A primeira lição que Jesus nos dá, logo que chega a este mundo, é ensinar-nos a substituir à vã estima de nós mesmos um profundo desprezo. Posto que tão pequeno no Seu berço, abate-se muito mais ainda no seu próprio conceito. O pensamento de que a Sua humanidade é tirada do nada, leva-O a conservar-Se, diante da augusta majestade de seu Pai, na mais humilde reverência e como que um nada (1). Ora, nós devemos humilhar-nos muito mais; porque não somente somos nada (2), mas ao nada temos juntado o pecado; e por este duplo motivo, cabem-nos em sorte o abandono, a confusão e o desprezo. Ai daquele que não compreende esta verdade! O primeiro anjo no céu, por se ter ensoberbecido, perdeu-se; Davi, ao contrário, por se ter humilhado depois do seu pecado, obteve misericórdia. Reconhecer que somos nada de nós mesmos, que somos menos do que nada como pecadores, e por conseguinte desprezarmo-nos profundamente, até sermos vis a nossos próprios olhos, é no que consiste a verdadeira humildade, sem a qual somos repelidos de Deus como soberbos (3). Eu sou, dizia com relação a si mesmo São Vicente de Paula, um monstro de malícia, pior do que o demônio, que não mereceu tanto estar no inferno como eu. Senhor, fazei que, como São Vicente de Paula, eu me conheça para me desprezar ou me odiar (4), e  que em vez de desculpar os meus pecados e defeitos, confesse ingenuamente que sou um miserável.

SEGUNDO PONTO

Jesus no berço ensina-nos a comprazer-nos nos humildes sentimentos,
que devemos ter a respeito de nós mesmos

Comprazo-me, dizia São Paulo, nas minhas enfermidades e misérias, porque sei que, quanto mais me humilhar diante de Deus, mais Ele se chegará para mim e me comunicará as Suas graças (5). O orgulho humano, ao contrário, exaspera-se e desanima, vendo em si tantas misérias, fraquezas e recaídas; tantas más inclinações e tão poucos talentos, tão pouco espírito, tão pouca distinção, tão poucas virtudes e tão poucos méritos. Para corrigir o nosso orgulho, o divino Menino põe a Sua alegria em ver-Se nas mais profundas humilhações, em ser como que o último dos homens (6), como que um bicho da terra (7), reclinado sobre um pequeno berço, em redor do qual andam sem lhe prestar atenção; finalmente em não parecer senão fraco e inerte. Maria, sua Mãe, participando destes sentimentos, compraz-se em ser obscura e desconhecida entre todas as filhas de Judá; preza essa fraqueza como o encanto que lhe atraiu as vistas do Altíssimo (8). É porque de fato Deus olha com amor para toda a alma que se compraz na verdade do que ela é. Nunca recusa o Seu socorro à miséria, que se confessa miserável; difunde as Suas graças sobre ela, porque ela se apoia na verdade, e estima tanto esta disposição, que faz dela a primeira bem-aventurança do Evangelho (9). Bem-aventurados os que, vendo-se pobres, abjetos, privados de todos os bens, aceitam voluntariamente a sua humilhação como um remédio contra a soberba. Sim, são bem-aventurados: porque esta disposição os livra do orgulho, fonte de todo o mal, e é, na opinião dos santos, um dos indícios mais evidentes de predestinação (10).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Substantia mea tanquam nihilum ante te (Sl 38, 5)

(2) Si quis existimat se aliquid esse, cum nihil sit, ipse se seducit (Gl 6, 3)

(3) Humilitas est virtus, qua homo ex verissima sua ipsius cognitione, sibi ipsi vilescit (I Imitação 11)

(4) Domine, noverim me, ut oderim me (Santo Agostinho)

(5) Placeo mihi infirmitatibus meis (2Cor 12, 10)

(6) Novissimum virorum (Is 53, 3)

(7) Ego sum vermis, et non homo (Sl 21, 7)

(8) Respexit humilitatem ancillae suae (Lc 1, 48)

(9) Beati pauperes spiritu (Mt 5, 3)

(10) Evidentissimum electorum signum

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 230-233)