Meditação para o Sábado antes do Pentecostes. Dom de Fortaleza

Meditação para o Sábado antes do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Dom de Fortaleza, o último e o complemento dos dons do Espírito Santo, que nos falta meditar, e veremos:

1.° O que é o homem sem este dom;

2.° O que vem a ser com este dom.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De passarmos santamente esta véspera do Pentecostes, para atrair o Espírito Santo a nós;

2.° De chamarmos muitas vezes em nosso auxílio o Dom de Fortaleza, e de não fazermos hoje nenhuma ação baixa e vil, nenhuma concessão à nossa má natureza.

Conservaremos como ramalhete espiritual a suplica da Igreja:

“Ó Espírito Santo, dai aos vossos fiéis que em vós confiam, os vossos sete dons” – Da tuis fidelibus in te confidentibus sacrum septenarium (Pros. Pent.)

Meditação para o Dia

Chegados à véspera do grande dia em que o Espírito Santo se vai difundir nas almas bem dispostas, como outrora nos Apóstolos, recolhamos-nos dentro em nós, preparemo-nos. Adoremos no alto dos céus o Espírito de fortaleza, e supliquemos-Lhe, que desça aos nossos corações.

PRIMEIRO PONTO

O que é o homem sem o Dom de Fortaleza

O Dom de Fortaleza é uma energia sobrenatural, que nos firma contra pusilanimidade no serviço de Deus, contra a nossa própria fraqueza, contra as dificuldades, os perigos ou desgostos, que sobrevém no cumprimento dos nossos deveres. Mais excelente que a virtude de fortaleza, que só supõe uma graça ordinária, o Dom de Fortaleza é um vigor interior, uma coragem divina que, elevando o homem acima de si mesmo, lhe torna possíveis e até fáceis as coisas, que parecem impossíveis. Sem este dom ajuntado à virtude, somos incapazes de cumprir todos os nossos deveres; uma fortaleza ordinária não poderia amparar a natureza, ora assustada por certos grandes sacrifícios, que o dever impõe, ora cansada pela continuação das violências, que é preciso fazer a nós mesmo para nunca pecar, ora desanimada pela sua própria fraqueza que, tocante ao bem, não pode nada, nem sequer produzir um pensamento útil à salvação; e que no que respeita ao mal, é capaz de tudo, se a graça a não contém.

Que fortaleza não é preciso para resistir a um coração, que tem o gérmen de todos os vícios, que as tentações assaltam, que as paixões solicitam, que as adversidades abatem, que a prosperidade atrai, que os obstáculos espantam, que a tristeza desanima, que o respeito humano encadeia pelo miserável receio de uma zombaria, de um olhar, de um sinal de desaprovação? Sem o vigor extraordinário, que comunica o Dom de Fortaleza, o enfraquecimento da vontade paralisa as melhores resoluções e extingue todo o espírito de oração e de mortificação. Daí a caída em culpa de pessoas, que pareciam firmes como colunas, e que dobraram como canas, ó fraqueza! Ó miséria da pobre humanidade! Quanta razão tinha o Apóstolo para dizer:

“Aquele que crê que está em pé, veja não caia” – Qui se existimat stare, videat ne cadat (1Cor 10, 12)

O Dom de Fortaleza é necessário principalmente aos que tem autoridade; porque então, por falta deste dom, ao mal pessoal se junta o mal público. Por uma indigna timidez, por uma pusilânime condescendência, deixa-se fazer o mal, por falta de falar, e de repreender. Daí o abaixamento dos caracteres, o triunfo dos maus, o domínio do mal, a que a fraqueza larga as rédeas; fraqueza deplorável em todo o tempo, mas principalmente nestes tristes dias, em que o gênio do mal faz tão crua guerra a tudo o que é bem.

Reconheçamos quanta necessidade temos deste dom, seja qual for a posição, em que estejamos; e preparemos bem o nosso coração neste santo dia.

SEGUNDO PONTO

O que vem a ser o homem com o Dom de Fortaleza

Uma das maiores belezas da Igreja é a transformação das almas pelo Dom de Fortaleza. Os Apóstolos, antes de o terem recebido, eram pusilânimes e tímidos; apenas o receberam, são fortes, intrépidos, magnânimos. Aquele, que tremia à voz de uma serva, ousa denunciar a todo o povo o decidio, que ele cometeu:

“Vós negastes ao Santo e ao Justo, lhes diz ele, e pedistes, que se vos desse um homem homicida, e assim matastes ao Autor da vida” (At 3, 14ss)

Prendem o pregador que ousa falar deste modo. Não pregues em nome de Jesus, lhe dizem os seus juízes. — Vós pedis o impossível, respondeu o intrépido Apóstolo; nós não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido (1). Ele não diz, observa São João Crisóstomo, nós não queremos; a vontade do homem é inconstante, ter-se-ia podido esperar vencê-la; mas diz: nós não podemos. Podemos padecer, podemos morrer; mas não podemos, por indignas fraquezas, trair o nosso ministério.

Com este Dom de Fortaleza, os Ambrósios, os Basílios, os Anatásios tornam-se heróis: o seu ânimo supera todos os males, com que os ameaçam, assim como todos os bens, que lhes prometem. Caiam sobre eles todos os revezes da fortuna, ataque-os a calúnia, cerquem-os todas as desgraças: eles estão firmes e tranquilos como o rochedo batido pela tempestade; sofrem todas estas provações com a generosidade de um coração, que ama a Deus sobre todas as coisas (2). A mesma morte não os intimida (3). Sofredores na esperança ou na prática do bem como no padecimento do mal, são sempre os mesmos. São João Crisóstomo dá ocasião a que digam dele: Este homem só teme o pecado; e São Francisco Xavier, no meio de milhares de perigos de morte, seja da parte dos homens, seja da parte dos elementos, exclama:

“O remédio mais eficaz é não temer nada, confiando em Deus; e o mal maior seria temer os inimigos de Deus defendendo a causa de Deus”

Assim pelo Dom de Fortaleza, os Santos obram e sofrem tudo, empreendem as causas mais difíceis, expõem-se aos maiores perigos, superam os trabalhos mais penosos, suportam as angústias mais cruéis. Bem-aventurada, pois, a alma que, desconfiando de si por um profundo sentimento de sua fragilidade, chama em seu socorro o Espírito de fortaleza e põe nele toda a confiança! Ela é capaz de todas as virtudes. É preciso mais para no-lo fazer desejar e pedir a Deus com instância?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Non possumus (At 4, 20)

(2) Amans volat, currit, et laetatur;… secureque pertransit (III Imitação 5, 4)

(3) Fortis est ut mors dilectio (Ct 8, 5)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 111-115)