Meditação para o 4º Domingo depois do Pentecostes. Do progresso nas Virtudes

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 5, 1-11

1Encontrando-se junto do lago de Genesaré, e comprimindo-se à volta dele a multidão para escutar a palavra de Deus, 2Jesus viu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes. 3Entrou num dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-se, dali se pôs a ensinar a multidão. 4Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca.» 5Simão respondeu: «Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.»

6Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se, 7e eles fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram os dois barcos, a ponto de se irem afundando. 8Ao ver isto, Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.» 9Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera 10a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão.

Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens.» 11E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus.

Meditação para o 4.º Domingo depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, e ali aprenderemos:

1.° As causas do pouco progresso nas virtudes;

2.° O meio de nelas progredirmos para o futuro.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De conservarmos em nós uma vontade firme e bem decidida de nos adiantarmos nas virtudes;

2.° De nos propormos em tudo Jesus Cristo como modelo deste progresso, e de fazermos tudo unidos com Ele.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Cresçamos em todas as coisas naquele que é a cabeça, Cristo” – Crescamus in illo per omnia, qui est caput Christus (Ef 4, 15)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo ensinando-nos, no Evangelho deste dia, as causas do nosso pouco progresso nas virtudes e os meios de nela progredirmos para o futuro. Demos-Lhe graças pela grande bondade com que nos instrui, e imploremos-Lhe a graça de bem compreender e obrar.

PRIMEIRO PONTO

Coisas do nosso pouco progresso nas Virtudes

O nosso Evangelho mostra-nos três causas:

1.° Os Apóstolos tinham trabalhado toda a noite, e não tinham apanhado coisa alguma (1). Nisto nada há que admire: que podiam eles apanhar, se nada ali viam? É a desgraça dos que trabalham sem intuito de fé: uns maquinalmente e sem intenção determinada, como o bruto; outros, com intuitos puramente naturais, como o honesto pagão; outros, com vistas de interesse e de amor-próprio, como o homem mundano; nenhum fruto tiram do que fazem, e apesar de muitos trabalhos, nunca se adiantam. Só progridem os que, cheios de fé, têm em tudo o que fazem a reta e pura intenção de agradar a Deus, conformando-se sempre com a Sua divina vontade. Como o olho da sua intenção, todo o corpo de sua ação despede um brilho de santidade, que a torna digna do céu (2).

2.° Os Apóstolos tinham trabalhado sem Jesus, que não estava com eles durante a noite: segunda causa, que inutilizou a sua pesca. Se não é o espírito de Jesus que nos anima, o Seu exemplo que nos dirige, o Seu amor que nos inspira, perdemos o tempo e não nos adiantamos. Como a vara da videira não pode de si mesmo dar fruto, senão permanecendo na videira, assim nem nós o poderemos dar se não permanecermos em Jesus (3). Para trabalhar utilmente é preciso, pois, obrar, filiar e pensar como Jesus, com Ele e nEle (4).

3.° Os Apóstolos tinham trabalhado por inspiração da sua própria vontade; Jesus Cristo não lhes tinha ainda dito onde haviam de lançar a sua rede: por isso não apanharam coisa alguma. Mas logo que lhes deu as Suas ordens, e puderam dizer-Lhe: Sobre a vossa palavra soltarei a rede (5), obraram prodígios. Do mesmo modo, tudo o que fazemos sem consultar Nosso Senhor, segundo a nossa vontade e fantasia, é tempo perdido; como, ao contrário, tudo o que se faz por inspiração da graça, por obediência ao espírito de Jesus, nos adianta na prática das sólidas virtudes.

Reconheçamos por estes indícios as razões do nosso pouco progresso e emendemo-nos.

SEGUNDO PONTO

Meios de progredir nas Virtudes

1.º Meio – Tende firme vontade de tender sempre a uma mais alta perfeição

Ó alma cristã! Não fiques parada ao pé da terra e dos seus vãos gozos: adianta-te, adianta-te sempre no alto mar do santo amor; adianta-te cada dia, a cada hora, a cada momento; faze-te ao largo, e voga no caminho dos mandamentos e conselhos; tende sempre a uma mais alta perfeição (6). Querer amar sempre mais, querer ser sempre mais recolhida consigo, mais humilde, mais fervorosa, querer sempre fazer melhor ação presente que a ação que a precedeu; querer sempre avançar, porque não avançar é recuar: eis o primeiro meio de fazer progressos (7).

2.º Meio – Não nos deixarmos desanimar pelos nossos maus êxitos

Os Apóstolos tinham trabalhado toda a noite sem apanhar coisa alguma; mas apenas Jesus lhes falou, deitam a sua rede e redobram de esforços (8). Assim também, depois das nossas culpas, não nos devemos deixar abater, mas tirar das nossas mesmas culpas um motivo para melhor obrar, a fim de reparar o mal passado com o bem presente; devemos amar duplicadamente para reparar os tristes momentos, em que não temos amado: tal é o segundo meio de progresso.

3.º Meio – De nos conservarmos humildes depois de recebermos as graças

São Pedro, vendo a prodigiosa pesca que acaba de fazer, cai de joelhos diante de Jesus Cristo, reconhecendo-se indigno do favor que recebeu, e confessando que é um pecador (9). A seu exemplo, devemos referir à bondade divina o pouco bem, que há em nós ou se faz por nós, sem nos estimarmos por isso mais, sem nos alegrarmos e nos gloriarmos, como se esse bem proviesse de nós mesmos. Devemos, no meio dos maiores benefícios, conservar-nos diante de Deus como pecadores indignos da Sua vista, mais indignos ainda dos Seus favores, e fazer exatamente a divisão entre Deus e nós: todo o bem pertence a Deus, só o mal pertence a mim.

Ai de mim, Senhor! Eu reconheço com pejo, que tenho posto pouco em prática estes três meios; mas de ora em diante a isso me aplicarei de todo o meu coração: tenderei sempre a obrar melhor; a isso me animarei cada dia, e me conservarei incessantemente na humildade, que exige a minha miséria.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Per totam noctem laborantes, nihil cepimus (Lc 5, 5)

(2) Si oculos tuus fuerit simplex, totum corpus tuum lucidum erit (Mt 6, 22)

(3) Sic nec vos, nisi in me manseritis (Jo 15, 4)

(4) Per ipsum, et cum ipso, et in ipso (Cân. Miss.)

(5) In verbo tuo laxabo rete (Lc 5, 4)

(6) Duc in altum (Lc 5, 4)

(7) Duc in altum

(8) Laxat retia vestra in capturam

(9) Procidit ad genua Jesu, dicens: Exi a me, quia home pecatur sum, Domine (Lc 5, 8)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 209-213)