Meditação para a Sexta-feira da Primeira Semana da Quaresma. Devoção aos Cravos e à Lança da Paixão

Meditação para a Sexta-feira da Primeira Semana da Quaresma

SUMARIO

Em conformidade com a liturgia romana, meditaremos:

1.° Nos cravos que fixaram Jesus na cruz;

2.° Na lança que abriu o Seu sagrado lado.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos frequentes atos de amor para com Jesus Crucificado, e de não Lhe recusarmos nenhum sacrifício;

2.° De nos excitarmos a este amor, beijando muitas vezes os pés, as mãos e o sagrado lado do nosso crucifixo, que nos recordam as chagas feitas pelos cravos e pela lança no corpo do Salvador.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“A caridade de Jesus Cristo nos constrange” – Caritas Christus urget (2Cor 5, 14)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento ao Calvário; contemplemos ali Jesus na cruz; apliquemos os nossos lábios aos Seus pés e às Suas mãos traspassados pelos cravos, e ao Seu sagrado lado aberto pela lança, confundamos as nossas lágrimas com o sangue que corre; amemos o Deus que tanto nos amou.

PRIMEIRO PONTO

Da devoção aos cravos que fixaram Jesus na cruz

Sem dúvida, se não virmos nestes cravos mais que um pedaço de ferro ordinário, eles nenhum culto merecem; mas se os olharmos como purpureados do sangue divino, que fazem correr das veias de Jesus, como impregnados da Sua carne que eles rasgaram, como consagrados pela Sua estada nesta mesma carne, quem não vê quanto são veneráveis e quantos ensinos nos dão?

1.° Lembram-nos esse espírito de obediência e de submissão, que é o verdadeiro espírito do cristianismo, tão oposto ao espírito do século, que só sonha liberdade e independência. Os algozes dizem a Jesus:

«Estendei as vossas mãos, estirai os vossos pés, para que os traspassemos com estes cravos»

Jesus obedece: fixam-O na cruz, e perde toda a liberdade de se mover.

2.° Fixando por um laço visível Jesus na cruz, esses cravos tornam-nos mais sensíveis e dão-nos melhor a conhecer os laços invisíveis da Sua caridade, que nela O conservam tão fortemente fixado.

3.° Eles dizem-nos quanto devemos lamentar o mau uso que temos feito das nossas mãos e dos nossos pés, a desordem das nossas obras e afeições, pois que tão caro custou a Jesus para os expiar.

4.º Eles pregam-nos a penitência: porque, quem poderia dizer tudo o que sofreu Jesus Cristo, e com que paciência o sofreu, seja quando os Seus algozes, enterrando os cravos à força de marteladas nessas partes mais nervosas e sensíveis do corpo, nEle abriram quatro grandes chagas, de onde esguicharam quatro arroios de sangue; seja quando, depois de terem levantado a cruz, a deixaram cair no fosso com horrível abalo, que renovou todas as Suas dores e alargou todas as Suas chagas!

Ó meu Salvador, eu adoro-Vos suspenso entre o céu e a terra, como a vítima sobre o altar do sacrifício para reconciliar um com a outra; como nosso doutor e mestre no púlpito, de onde nos ensinais toda a verdade. Amo, ó Jesus, esses braços estendidos, que nos dizem que nos abrangeis todos no Vosso amor; essa cabeça coberta de espinhos que, não tendo onde apoiar-se, se inclina para nos dar o ósculo de paz e de reconciliação; esse peito golpeado, mas que levantam ainda as palpitações de amor, que agitam o Vosso coração; essas mãos, que o peso do corpo suspenso no ar puxa com violência, e esses pés, cujas chagas se alargam com o peso do corpo que sustentam.

Oh! Quem não amaria aquele, cujos cravos nos revelam tanto amor?

SEGUNDO PONTO

Da devoção à lança que abriu o sagrado lado de Jesus

São Boaventura tinha uma especial devoção com esta lança que abriu o sagrado lado. Ó bem-aventurada lança, dizia ele, que mereceste fazer esta abertura! (1). Oh! Se eu tivesse estado no lugar dessa lança, não teria querido sair do lado de Jesus; teria dito:

É este o lugar de repouso que o meu coração escolheu; estarei nele para sempre, e nada poderá arrancar-me dele

Ao menos, acrescentava o piedoso doutor, permanecerei ao pé desta abertura; aí falarei ao coração do meu Senhor, e dele obterei o que tu quiser (2). São Bernardo pensava do mesmo modo:

“Esta bem-aventurada lança, dizia ele, ainda que movida pela mão do soldado, era guiada por Jesus, que nos abriu assim o Seu sagrado lado, para nos mostrar com isso o Seu divino coração todo palpitante de amor por nós, ou antes para no-lo dar e nos patentear a Sua entrada” –  Pro nimio amore aperuit sibi latus, ut tibi tribuat cor suum. Ad hoc perfuratum est latus, ut nobis patescat introitus

Ó entrada misteriosa! É por aí que chegamos ao coração de Jesus; a esse coração todo bom, todo amável, todo terno, todo nosso; a esse coração, verdadeiro santo dos santos, em que a alma, concentrando-se, ora, adora, ama como convém, verdadeira arca da salvação em que deve refugiar-se todo aquele que não quer perecer no dilúvio do mundo. Ó mil vezes venerável, mil vezes abençoada a lança que nos abriu a porta pela qual nos tem vindo tão grandes benefícios, tantas graças e tanto amor!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) O quam beata lancea, quae apertionem hujusmodi facere meruit!

(2) Ibi volo quiescere, ibi loquar ad cor ejus et ba ipso quod voluero impetrabo (São Boaventura)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 105-108)