Meditação para o Décimo Sétimo Sábado depois de Pentecostes. Deus recompensa desde a vida presente as Almas Mortificadas

Meditação para o Décimo Sétimo Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos:

1.° Sobre a felicidade que Deus concede, desde este mundo, às almas mortificadas;

2.° Sobre a desgraça a que entrega as almas imortificadas.

— Tiraremos destas reflexões a resolução:

1.° De sermos generosos no serviço de Deus, e de fazermos de boa vontade os sacrifícios que sobrevierem;

2.° De impormos a nós mesmos com frequência, por amor de Deus, sacrifícios voluntários, ainda que só seja de um desejo, de um lance de olhos, de uma sensualidade.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Exubero de gozo em toda a minha tribulação” – Superabundo gaudio in omni tribulatione nostra (2Cor 7, 4)

Meditação para o Dia

Adoremos a bondade Infinita de Jesus Cristo, que, ao passo que nos impõe a lei da mortificação, tira a esta lei tudo o que tem de penoso para a natureza, declarando-nos que é nisto que consiste para nós a verdadeira felicidade. O meu jugo, diz Ele, é suave para os que o querem tomar; e o meu peso é leve para os que querem trazê-lo (1). Agradeçamos-Lhe por se dignar temperar deste modo pela unção da sua graça a dureza da cruz e trazer conosco o seu peso para no-lo tornar leve.

PRIMEIRO PONTO

Que felicidade Deus concede, desde este mundo, às Almas Mortificadas

Quando Deus vê no seu serviço essas almas generosas que não receiam fazer-Lhe sacrifícios, não se deixa vencer em generosidade: compraz-se em infundir-lhes consolações e delícias; retribui-lh’os à medida que lh’os fazem, e há entre elas e Ele uma como que santa emulação de amor. Estas nobres almas, estes verdadeiros cristãos alegram-se de achar ocasiões de padecer e violentar-se. Muito longe de deixar escapá-las que se lhe oferecem, por mais opostas que sejam à sua índole, aproveitam-as gostosos como uma das maiores felicidades da vida, sem nunca dizer:

“Não é de obrigação; acharei muitas outras ocasiões de mortificar-me; será para outra vez”

Se alguém os mortifica, não se alteram, não se ressentem, e mostram sempre a mesma afabilidade. Nunca se queixam das dificuldades que acompanham a virtude, nem amaldiçoam os exercícios de piedade, sob pretexto de que são penosos. Sempre prontos a renunciar a toda a satisfação, ainda mesmo lícita, que poderiam ter nesta vida, fogem dos prazeres do mundo, de toda a sensualidade.

Finalmente, como sabem que o corpo é um escravo que, bem alimentado, se revolta contra o seu senhor, enfraquecem-o, reduzem-o à servidão; nunca se entregam ao prazer que se sente no uso das criaturas, e procuram conformar-se em todas as coisas com Jesus crucificado. Mas também quão magnificamente os indeniza dessas privações! Acreditemos o grande Apóstolo, que exclama:

“Bendito seja Deus… Pai de misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas provações… Exubero de gozo em toda a nossa tribulação… O Deus, que consola aos humildes, nos consola” (2Cor 1,3-4; 7, 4-6)

Acreditemos em São Francisco Xavier: fazem-lhe ver grandes tribulações na carreira que vai encetar; pede ainda mais (2). No mesmo instante Deus concede-lhe em recompensa disto uma abundância de gozo e felicidade, que o forca a exclamar:

“Basta, Senhor, basta!” – Satis Domine, satis!

E nós também, tenhamos a coragem de renunciar a própria vontade para coordenar o emprego do nosso tempo, para sacrificar sequer um desejo, um lance de olhos, um gosto, uma palavra; e sentiremos quanta alegria e felicidade há em fazer alguma coisa por amor de Deus; e a graça virá à nossa alma induzir-nos a repetir a palavra de São Luiz de Gonzaga: que um pequeno sacrifício que se faz por amor de Deus obtém mil vezes mais alegria à alma do que lhe teria causado a coisa sacrificada.

SEGUNDO PONTO

Desgraça a que Deus entrega as Almas Imortificadas

Quão desgraçadas são estas almas! Para elas, no serviço de Deus, não há unção da graça; há unicamente tédio e tibieza; a piedade é insípida, a devoção sem atrativos. Vêem os outros adiantar-se, e ficam atrás, porque não querem desapegar-se como eles das coisas do mundo. A oração fatiga e aborrece, porque nem o coração, escravo dos suas afeções, nem o Espírito, ordinariamente distraído, são próprios para as conversações celestiais; e quando a alma generosa acha as horas muito curtas, a alma imortificada acha-as sempre muito longas. O que há ainda mais lastimoso, é que muitas vezes uma ninharia a prende, não é mais que um fio; mas enquanto este fio não for quebrado, a alma, que ele, prende, nunca voará para o seio de Deus, onde se acham o descanso e a felicidade; não fará mais do que voltear no mesmo labirinto, do que atormentar-se em redor do que a prende. Não estamos nós neste caso?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Jugum meum suave est, et omus meum leve (Mt 11, 30)

(2) Amplius, Domine, amplius

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 37-40)