Meditação para a Quinta Quinta-feira depois de Pentecostes. Desejo da Vida Perfeita

Meditação para a Quinta Quinta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos meditado o que Deus fez por nós, desde a Sua Encarnação no seio de Maria até à Sua presença quotidiana nos nossos tabernáculos, meditaremos de ora em diante o que devemos fazer por Ele, isto é, a vida cristã a que somos obrigados para com Ele. Começaremos por meditar sucessivamente os seus princípios gerais. O primeiro princípio é que, para progredir na vida cristã ou vida perfeita, devemos desejá-la com ardor e constância. Procuraremos penetrar-nos bem deste princípio, considerando:

1.° Que é muito justo, que se deseje com ardor e constância a vida perfeita;

2.º Que este vivo desejo é o melhor meio de vir a ser perfeito.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De dizermos a Deus, todas as manhãs, quando acordarmos, e de repetirmos muitas vezes durante o dia esta aspiração, acompanhada de um grande desejo de sermos ouvidos:

Meu Deus, dignai-vos fazer, que eu tenha hoje uma vida verdadeiramente cristã!

2.° De nos vigiarmos a nós mesmos, todo o dia, para evitar tudo o que for contrário à perfeição da vida cristã.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“A minha alma desejou ansiosa em todo o tempo as vossas justificações” – Concupivit anima mea desiderare justificationes mea (Sl 117, 20)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor ensinando-nos, que a primeira coisa que devemos desejar e buscar neste mundo é a vida cristã, que não é senão o reino de Deus em nós (1), e que são bem-aventurados os que ardem neste desejo até dele terem fome e sede (2). Demos-Lhe graças por tão precioso ensino, e roguemos-Lhe que no-lo faça compreender e amar,

PRIMEIRO PONTO

Devemos desejar com Ardor e Constância a Perfeição da Vida Cristã

A vida cristã é o único bem desejável neste mundo; porque é o único bem necessário, pois sem ela não há céu, mas um inferno eterno; é o único bem sólido, pois fora dela tudo é vaidade, bagatela. Vaidade das vaidades, nos diz Salomão, que havia gozado todos os bens da vida (3). Tudo é vaidade, acrescenta o autor da Imitação, exceto amar a Deus e servir a Ele só (4). Com efeito, a que tendem todos os mais bens? De que serve, na hora da morte, ter sido rico, poderoso, sábio, homem de engenho, homem ilustre e afamado? (5) Tudo isto nenhum valor tem para com Deus, nenhum valor para a eternidade. Por conseguinte tudo isto não merece o menor dos nossos desejos. Mas o que merece infinitamente ser desejado com ardor e procurado todos os dias e a todos os momentos, é a verdadeira vida cristã, porque é o que salva, o que consola neste mundo, o que alegra na eternidade, e põe a alma na posse de Deus, que é todo o bem, diz Deus a Moisés (6). Todos os bens deste mundo, diz São Paulo, os avalio por esterco, contanto que ganhe a Jesus Cristo (7), pela prática da vida cristã. Ó meu Deus, exclama Davi, do modo que o cervo suspira pelas fontes das águas, assim a minha alma suspira por Vós (8).

É desta maneira, que aspiramos à vida perfeita ou verdadeira vida cristã? É-nos precioso mais que tudo o que a ela nos conduz? Preferimos os nossos exercícios espirituais a tudo o mais? Consideramos como os mais bem empregados momentos da vida os que a eles destinamos? Não imitamos esses cristãos tíbios, que olham como perdido o tempo dado ao cuidado da salvação; que abreviam de bom grado os seus exercícios espirituais; que entregues a uma contínua dissipação, quase nunca vivem recolhidos com Deus e sua alma; que finalmente fazem pouco caso da graça, a desejam pouco e não receiam perdê-la?

SEGUNDO PONTO

O melhor meio de vir a ser perfeito é ter grande desejo de o ser

Quando se não tem grande desejo de uma coisar pouco se cuida em adquiri-la. O menor desgosto detém, a menor dificuldade enfada. É o que sucede ao preguiçoso com os seus desejos estéreis, que lhe dão a morte (9); com as suas veleidades, de que o inferno está cheio; que quer, e não quer, e que diz:

“Agora é que eu começo” – Vult et non vult piger (Pr 13, 4). Dixi: Nunc caepi (Sl 76, 11)

Mas, ao contrário, quando se deseja com ardor uma coisa, quando se quer fortemente, este grande desejo, esta vontade firme centuplica as forças e a energia da alma para a conseguir. Que não inspira ao homem mundano um ardente desejo das riquezas, das honras, e da glória? Nem fadigas, nem perigos de morte, nada lhe custa para as alcançar. Oh! Se desejássemos com tanto ardor, se quiséssemos com tanta firmeza elevar-nos à verdadeira vida cristã como o homem deseja e busca os falsos bens da terra, quão depressa seríamos perfeitos! Discorreríamos pelo caminho da perfeição como faíscas por um canavial (10), diz o Espírito Santo: e necessitaríamos antes ser moderados do que animados. Seria então que o céu nos viria poderosamente ajudar no nosso impulso afetuoso. Quando Deus vê a Seus pés uma alma, que deseja com ardor amá-lO, que tem fome e sede de O amar sempre mais, enche-a de abundantes graças (11).

“A sabedoria, está escrito, facilmente é vista por aqueles, que a amam, e achada pelos que a buscam, antecipa-se aos que a cobiçam” – Facile videtur ab his qui diligunt eam, et invenitur ab his qui quaerunt illam: praeccupat qui se concupiscunt, ut illis se prior ostendat (Sb 6, 13-14)

Deus enche de bens os que tem sede de uma melhor vida (12); e Daniel só deveu a visita do arcanjo Rafael aos seus ardentes desejos (13). Eis a razão por que Santo Tomás, consultado por sua irmã, sobre o modo como poderia salvar-se: Querendo: lhe respondeu. Basta querê-lo bem, isto é, querê-lo de todo o nosso coração, com toda a veemência aos nossos desejos — Temos nós esta firme vontade, esta resolução bem decidida de ser um santo? E abrasamo-nos no desejo de nos tornarmos melhores todos os dias?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quaerite primum regnum Dei justitiam ejus (Mt 6, 33)

(2) Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam (Mt 5, 6)

(3) Vanitas vanitatum, et omnia vanitas (Ecl 1, 2)

(4) Omnia vanitas amare praeter Deum et illi soli servire (I Imitação 1, 3)

(5) Quidi prodest homini? (Mt 16, 26)

(6) Omne bonum (Ex 33, 19)

(7) Omnia… arbitror ut stercora, ut Christum lucrifaciam (Fl 3, 8)

(8) Quemadmodum desiderat cervus ad fontes aquarum ita deisderat anima mea ad te Deus (Sl 41, 2)

(9) Justi… tanquam scintiliae in arundineto discurrent (Sb 3, 7)

(10) Si quis sitit, veniat ad me, et bibat (Jo 7, 37). Ego sitiendi dabo (Ap 21, 6)

(11) Exurientes implevit bonis (Lc 1, 53)

(12) Quia vir desideriorum es (Dn 9, 23)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 245-248)