Meditação para a Quinta Segunda-feira depois de Pentecostes. Da Comunhão Frequente

Meditação para a Quinta Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a comunhão frequente, e veremos:

1.° Que a comunhão frequente, fervorosa, é um grande bem;

2.° Que a comunhão frequente, tíbia, é um grande mal.

— Tomaremos a resolução:

1.° De vivermos tão santamente, que possamos comungar muitas vezes;

2.° De vigiarmos sobre nós depois das nossas comunhões, para tirarmos bom proveito delas. O nosso ramalhete espiritual será as palavras de Santo Agostinho:

“Vivei de modo que mereçais comungar todos os dias” – Si vive, ut quotidie merearis accipere

Meditação para o Dia

Adoremos o Pai Eterno que, tendo-nos adotado por Seus filhos, nos apresenta todos os dias, sobre os altares, o Seu amado Filho, para ser o alimento das nossas almas. Adoremos o Filho, que em Seu ardente amor, deseja unir-se a nós pela comunhão. Adoremos o Espírito Santo que, não tendo outros desejos senão os do Pai e do Filho, nos convida a tomar muitas vezes este divino alimento. Que bondade nestas três divinas Pessoas de nos fazer tão ternos convites, e que agradecimentos Lhes não devemos?

PRIMEIRO PONTO

A Comunhão Frequente e ainda mais a quotidiana, quando fervorosas, são um grande bem

A Comunhão é uma divina refeição, que Deus nos faz tomar para conservar em nós a vida sobrenatural. Ora, assim como os nossos corpos não vivem com uma só refeição, mas com algumas refeições ao dia, também a vida das nossas almas não se conserva senão com Comunhões Frequentes, e é a cada um de nós que se dirige a palavra do anjo ao profeta Elias:

“Levantai-vos e comei, porque vos resta que fazer um grande caminho!” – Surge, comede; grandis enim tibi restate via (III Rs 19, 17)

Este pão que devemos comer muitas vezes e até se possível for todos os dias para termos a força de fazer o caminho da terra ao céu, é o pão eucarístico, o pão que forma os fortes. Com efeito, uma triste experiência mostra que, quando alguém comunga raras vezes, despreza a oração e os exercícios de piedade, ou vigia pouco sobre si, e se deixa levar à desesperação, ao amor dos prazeres e comodidades, à estima dos bens temporais e à soberba, enquanto os que comungam muitas vezes com fervor, se preparam para isso com uma melhor vida nos dias, que precedem, e santificam melhor os que seguem.

A graça do Sacramento ampara-os, fortifica-os, e os faz progredir nas virtudes. Por isso todas as almas verdadeiramente piedosas, desejam ardentemente sentar-se sem efeito todos os dias à sagrada mesa; alegram-se quando o podem fazer. O seu coração enche-se então de um santo regozijo, como o de Zaqueu, quando Nosso Senhor lhe disse:

“Importa que eu fique hoje em tua casa” (Lc 19, 5)

Sucede com eles o mesmo que com os espíritos bem-aventurados, que se nutrem continuamente de Deus, sem nunca se saciarem; quanto mais comungam, mais desejam comungar. A exemplo destas santas almas temos nós um grande desejo de comungar muitas vezes todos os dias? Não nos afastamos dele, sob pretexto de que comunhões frequentes, diárias, nos tirariam muito tempo, nos levariam a ter uma vida mais santa, nos obrigariam a incomodar-nos e a violentar-nos? Não temos nós até algumas vezes, insinuado aos outros, que comungar tantas vezes, é faltar ao respeito a Jesus Cristo!

SEGUNDO PONTO

A Comunhão Frequente diária, porém tíbias são um grande mal

1.º Juntar a Comunhão Frequente diária à tibieza, que não tira nenhum fruto dela, que deixa a alma sempre a mesma, sem reformar os seus defeitos, sem progredir nas virtudes, é acumular abusos de graças, cuja responsabilidade faz tremer.

2.° Quando alguém tem a desgraça de se familiarizar com a comunhão até fazer dela um hábito que já não fala ao coração, a devoção nada possui que possa comover a alma: é a frieza do mármore, é a insensibilidade da pedra; e que desgraça não é!

3.° Comungar muitas vezes sem mortificar os sentidos, sem renunciar ao frívolo prazer, que os tíbios acham nas criaturas, é paralisar todo o efeito da comunhão, como faria aquele que, depois de ter comido excelentes viandas, comesse outras que lhe fossem nocivas. Não é possível alimentar-nos utilmente com Nosso Senhor e com o mundo ao mesmo tempo.

4.° Finalmente, não tomar a peito a obra da nossa santificação é tornarmo-nos indignos de comer muitas vezes o pão dos filhos de Deus, segundo a palavra do apóstolo:

“Se alguém não quer trabalhar, não coma” – Si quis non vult operari, nec manducet (2 Ts 3, 10)

Oque concluir disto? Que é preciso afastar-nos da comunhão, porque somos tíbios? Não; mas que é preciso livrar-nos da tibieza, e comungar muitas vezes.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 236-238)