Meditação para a Décima Oitava Sexta-feira depois de Pentecostes. Conformidade com a Vontade de Deus

Meditação para a Décima Oitava Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o terceiro efeito do amor de Deus, que é a conformidade com a vontade divina, e veremos:

1.º Em que consiste esta conformidade;

2.° Como é uma consequência lógica do amor de Deus.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De estarmos sempre contentes com Deus, com a posição que nos criou;

2.º De nada desejarmos, nada pedirmos, nada recusarmos, mas de querermos somente em todas as coisas a vontade de Deus.

O nosso ramalhete espiritual será a terceira petição da oração dominical:

“Pai nosso, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu” – Pater, fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo sujeitando-Se, desde a sua entrada no mundo, à vontade de seu eterno Pai, e tomando-a como norma da sua conduta. Admiremos esta contínua conformidade com a santíssima vontade de Deus, e roguemos a Nosso Senhor que no-la faça compreender e praticar.

PRIME IRO PONTO

Em que consiste a Perfeita Conformidade com a Vontade de Deus?

Entende-se por isto uma íntima união da nossa vontade com a de Deus, que faz que somente desejemos agradar-Lhe, que queiramos tudo o que Ele quer e como quer, que estejamos dispostos a ir tranquilos e gostosos aonde nos chama, a aceitar tudo o que nos envia, e a praticar tudo o que Ele exige.

Neste ditoso estado, fazemos todas as coisas com uma completa imperturbabilidade, sem nos apressarmos, sem nos deixarmos dominar pelo desejo de acabar o que já nos parece de mais, sem nos demorarmos por tédio ou enfado, sem nos preocuparmos nem do bom êxito, que somente queremos tanto quanto Deus o quer, nem do mau exito, à que nos sujeitamos antecipadamente se Deus o quer. Não temos apego a uma coisa mais que a outra; indiferentes a tudo, não escolhendo, não preferindo seja o que for, não buscando senão a vontade divina, porque amamos não as coisas que Deus quer, mas a vontade divina que as quer; e esta divina vontade é como um delicioso encanto que, atraindo-nos, nos induz a ir aonde ela quer que vamos.

Santa indiferença, que não é nem apatia nem desleixo, mas, ao contrário, o heroísmo da vontade aceitando tudo o que Deus quer, não só nas coisas da ordem natural, como a saúde ou a doença, a formosura ou a fealdade, a força ou a fraqueza, a vida ou a morte; não só nas coisas da ordem civil, como as honras, as riquezas, as dignidades; mas também nas coisas da ordem espiritual, como os desconfortos ou as consolações, o fervor ou a tibieza, em todos os acontecimentos da vida, em todas as ocupações quotidianas; de sorte que tão contentes estamos aplicando-nos a uma coisa como a uma outra, e repetimos gostosos a palavra de São Francisco de Sales:

“Nada desejar, nada pedir, nada recusar”

Examinemos se temos praticado esta virtude.

SEGUNDO PONTO

A Conformidade com a Vontade Divina é uma consequência lógica do amor de Deus

É impossível que haja quem ame a Deus, e não faça consistir a sua felicidade em Lhe agradar. Aqueles mesmos homens, cujo amor é imperfeito, sentem um doce prazer em se conformar com a vontade da pessoa que amam. Por isso a única ambição, o único fim de todos os atos e intuitos daquele que ama verdadeiramente a Deus, é agradar-Lhe. Só vive para dizer com o Apóstolo:

“Senhor, que quereis que eu faça?” – Domine, quid me vis facere? (At 10, 6)

Ou como o Salmista:

“Que há para mim no céu, e que desejo eu sobre a terra, senão a vós que sois o Deus do meu coração?” – Quid mihi est in caelo? et a te quid volui super terram?… Deus cordis mei (Sl 83, 25)

Querer outra coisa, seria subtrair ao amor de Deus uma parte de nós mesmo, e esta subtração apavora a alma que ama?  Seria substituir a vontade da criatura à vontade do Criador, e esta substituição indigna o amor; seria esquecer que Deus sabe melhor do que nós o que nos convém, que nada há mais sábia e melhor que a vontade divina; e semelhante esquecimento é uma injúria que o amor não pode tolerar. Eis a razão porque aquele que ama se conserva imperturbável no meio das desordens sociais. Revolva-se tudo de baixo para cima, não só em torno dEle, mas nEle; esteja triste ou alegre, tranquilo ou agitado, satisfeito ou aborrecido; queime-o o sol, ou refrigere-o o orvalho, é sempre o mesmo; e pondo a mira no agrado de Deus, não sabe senão cantar o hino de eterna aquiescência:

“Pai, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”

Compraz-se na solidão, quando Deus lá o coloca; compraz-se na conversão, quando Deus quer que a trave. Não preza uma maneira de servir a Deus mais do que outra; e se ora, não está impaciente de ver atendida a sua oração; espera em paz que Deus se digne atendê-la.

São estas as nossas disposições?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 57-59)