Meditação para a Segunda-feira da Primeira Semana da Quaresma. As Três Tentações de Jesus no Deserto

Meditação para a Segunda-feira da Primeira Semana da Quaresma

SUMARIO

Meditaremos sobre as três tentações de Jesus no deserto, a saber:

1.° Um cuidado excessivo do corpo e da saúde;

2.° O amor-próprio, que presume de suas forças e deseja mostrar-se;

3.° A ambição e o interesse próprio.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De evitarmos o demasiado apuro no cuidado do corpo;

2.° De tendermos somente para Deus em todas as coisas.

O nosso ramalhete espiritual será o conselho do Apóstolo São Tiago:

“Resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” – Resistite diabolo, et fugiet a vobis (Tg 4, 7)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo no deserto, sofrendo de ser tentado pelo demônio, para nos instruir sobre o que devemos fazer em tentações semelhantes. Bendigamos este caridoso pontífice, que se dignou ser tentado em todas as coisas à nossa semelhança, exceto o pecado (1), e ponhamos nEle toda a nossa confiança.

PRIMEIRO PONTO

Primeira Tentação: um cuidado excessivo do corpo e da saúde

O demônio chega-se a Jesus, e diz-Lhe: Porque não comes? O teu corpo não poderá conservar-se. Porque não dizes a estas pedras que se transformem em pães? – Dic ut lapidos isti panes fiante (Mt 4, 3).

«O homem não vive somente de pão, responde Jesus Cristo; uma palavra da boca de Deus basta para o fazer viver. Eu dei ao Senhor a minha vida, as minhas forças, a minha saúde: é sua pertença, dela cuidará; entrego-me à sua Providencia»

Que lição para nós nestas palavras do Salvador! E confirma-a com o Seu exemplo. Vive quarenta dias no deserto em um lugar inculto, exposto em um monte à intempérie; ali jejua durante todo este tempo, sem comer nem beber; ali vela uma grande parte das noites; e quando se deita, é sobre as pedras ou sobre a terra nua. Ele não quer dizer-nos com isto que tratemos o nosso corpo com semelhante rigor, que o prostraria. A saúde é um depósito que Ele nos confiou, e que nos proibe que deterioremos com excessos; mas, excetuando esta precaução, veda-nos todo o apuro e sensualidade no modo de viver, nos manjares, no vestuário, na habitação; quer que nos achemos sempre bem, como Deus quer que estejamos, até dizer com São Francisco de Sales:

«Eu nunca me acho melhor que quando não estou bem»

Quer finalmente que, a exemplo de São Paulo, não recusemos castigar o nosso corpo e escravizá-lo, seja para expiarmos os nossos pecados passados, seja para evitarmos a recaída, seja para aplacarmos a ira de Deus contra os pecadores. São estas as nossas disposições?

SEGUNDO PONTO

Segunda Tentação: o amor-próprio que presume das suas forças e deseja mostrar-se

O demônio transporta Jesus Cristo ao pináculo do templo, para que se deixe ver a toda a gente, e propõe-Lhe que se lance dele abaixo, a fim de que, se cair sem se ferir, isso Lhe cause uma vã complacência. Jesus Cristo, repelindo esta tentação, torna-se invisível a todo o povo e volta de seu motu proprio à Sua querida solidão. Belo exemplo, que nos ensina que, em vez de procurarmos ser vistos, devemos:

1.° Não nos mostrarmos senão por necessidade, sempre movidos da fé; subtrairmo-nos à estima e ao louvor: vivermos retirados e desconhecidos;

2.° Resguardamo-nos da presunção, que se reputa digna de ser honrada e capaz de suportar a honra sem se perder pela soberba.

Entremos ainda aqui dentro em nós, e examinemos se temos assim procedido.

TERCEIRO PONTO

Terceira Tentação: a ambição e o interesse próprio

Do cimo de um alto monte, o demônio mostra a Jesus Cristo todos os reinos do mundo com as suas riquezas e glória:

Tudo isto te darei, Lhe diz ele, se prostrado me adorares. — Vai-te, Satanás, responde Jesus Cristo, porque escrito está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a ele só servirás.

Assim deve obrar toda a alma cristã: deve ter horror a toda a ação baixa, a toda a intriga, a toda a insinuação tendente a obter o agrado dos que podem alcançar-lhe o que deseja, elevá-la aos empregos, conservar-lh’os. Ela não se deixa seduzir pelo engodo das honras, e não sabe dobrar o joelho diante daqueles que as distribuem. Diz como o Apóstolo:

“A mim bem pouco se me dá de ser julgado de vós indigno de louvor ou desprezo” – Mihi autem prominimo est ut a vobis judicer (1Cor 4, 3)

Em todas as coisas somente tenho em vista cumprir o meu dever. Se agrado a Deus, isto me basta, e tudo o mais nada vale para mim. Ó ditosa liberdade! Ó santa imunidade da alma assim disposta! Examinemos perante Deus se são estas as nossas disposições.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Non enim habemus pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris; tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato (Hb 4, 16)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 93-96)