Meditação para a Vigésima Primeira Sexta-feira depois de Pentecostes. A verdadeira Caridade é Benigna

Meditação para a Vigésima Primeira Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o segundo carácter da caridade, que é a mansidão; e veremos que é um dever:

1.º Para com Deus;

2.° Para com o próximo;

3.° Para conosco conservarmo-nos sempre mansos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De reprimirmos os nossos movimentos de impaciência e de ira; de nunca obrarmos nem falarmos dominados pela emoção, e de esperarmos que estejamos sossegados;

2.° De procurarmos ter para com todos um aspecto benigno, um acolhimento cordial e afável.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Convém que o servo do Senhor seja manso para com todos” – Servum Domini non oportet litigare, sed mansuetum esse ad omnes (2Tm 2, 24)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor debaixo do título de Cordeiro de Deus, que São João lhe dá (1), e com o qual os profetas o tinham já designado nos séculos remotos. Eu me mostrarei ao mundo, diz Ele em Jeremias, como um manso Cordeiro (2). Demos-Lhe graças por este belo exemplo, e roguemos-Lhe que nos permita imitá-lO.

PRIMEIRO PONTO

O nosso dever para com Deus é conservarmo-nos sempre manso

Aprendei de mim que sou manso (3), diz Jesus Cristo a todos. Sede mansos como cordeiros (4), diz Ele a seus Apóstolos.

“Se estiverdes fazendo a vossa oferta diante do altar, e vos lembrardes aí que o vosso irmão tem contra vós alguma coisa, deixai ali a vossa oferta diante do altar, e ide reconciliar-vos primeiro com vosso irmão, e depois vireis fazer a vossa oferta” – Vade prius reconciliari (Mt 5, 24)

“Se algum vos ferir na vossa face direita, oferecei-lhe também a outra, não resistais ao que vos fizer mal: e ao que quer demandar-vos em juízo, e tirar-vos a vossa túnica largai-lhe também a capa” (Mt 5, 39-40)

A estas palavras de preceito, Nosso Senhor acrescenta o exemplo que todo o cristão deve seguir sob pena de se perder. Toda a vida de Jesus Cristo oferece um espetáculo de mansidão. É manso na sua infância, no presépio é manso na sua adolescência, no meio dos doutores da lei; é manso durante trinta anos, com Maria e José; é manso durante três anos da sua missão, até no meio de seus Apóstolos sem educação, sem polidez; é manso para com os pecadores, e tem com eles relações de mansidão e misericórdia. Se os fariseus se escandalizam disso e lhe chamam, amigo dos pecadores, não diminui a sua mansidão para com eles; e esta mansidão converte a Samaritana, comove Zaqueu, faz voltar ao bom caminho Madalena, e perdoa à mulher adultera. É manso na sua Paixão, manso para com Judas, que o atraiçoou, para com os seus inimigos, que O acusam, para com os seus algozes, que O crucificam. Que magnífico exemplo, e por conseguinte, que magnífico preceito!

SEGUNDO PONTO

O nosso dever para com o próximo e conservarmo-nos mansos

Todos os homens, diz São Vicente de Paulo, querem ser tratados com mansidão; nenhum quer que lhe falem com aspereza, que o repreendam com dureza. Não há caridade possível, se as palavras, que proferimos, não são afetuosas, benignas e brandas; se o tom de voz, em vez de ser cordial, é desagradável, desabrido e severo; se as maneiras, em vez de serem benévolas, suaves, amáveis, são arrebatadas e ríspidas; se quando se tem de dar alguma repreensão se dá com acrimoniai ira, esquecendo que São Francisco de Sales diz que a repreensão é um fruto amargo, que não pode digerir-se sem que se adube com a doçura. Oh! Que males causam nas famílias e relações sociais os ímpetos de ira, as impaciências que não podem sofrer a contradição! Tudo na vida se leva com brandura, dizia São Francisco de Sales, e nada à força; a dureza estraga tudo, desfaz a boa disposição do ânimo gera o ódio e a pertinácia. É possível, diz Bossuet, constranger as criaturas inanimadas e irracionais; mas o coração humano não se governa tanto pela força, como se dirige pela destreza, se ganha pela mansidão: aqui a força nada tem a submeter, o poder nada a governar; não há outro recurso senão estudar os homens e o modo de os levar, perguntando a nós mesmo:

Como quereria eu ser tratado, se estivesse no seu lugar?

E a resposta será certamente:

“Quereria que me falassem e me tratassem com mansidão, com brandura, e que sempre me mostrassem bondade e afeição”

Desejaria ver nos outros essa cordialidade, essa serenidade que com- move e consola, esses modos alegres e agradáveis que encantam; essa graça, essa sinceridade, essa simplicidade que parece oferecer-nos o seu coração e pedir-nos o nosso.

É assim, que temos tratado o próximo?

TERCEI RO PONTO

É um dever para conosco conservarmo-nos mansos

Apenas nos falta a mansidão, perdemos o sossego e a presença de espírito; não falamos o que dita o dever, mas o que dita o gênio ou a paixão; a alma perturba-se, não se domina, não pesa o que faz nem o que diz; e neste estado, fazemos e dizemos sempre coisas deploráveis. Aquele a quem falta a mansidão, não tem a prudência para se guiar, resguardo nas suas palavras, vigilância nos movimentos do seu coração. Ao contrario, o homem manso domina-se continuamente, e pode dizer como o santo rei Davi:

“A minha alma está sempre nas minhas mãos” – Anima mea in manibus meis semper (Sl 118, 109)

O seu interior é como um belo céu, onde brilha sempre um sol puro, que nenhuma nuvem escurece, nenhum vento altera, e onde tudo se faz à luz da razão e da fé.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ecce Agnus Dei (Jo 1, 36)

(2) Ego quasi agnus mansuetus (Jr 11, 19)

(3) Discite a me quia mitis sum (Mt 11, 29)

(4) Mitto vos sicut agnos (Lc 10, 3)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 127-130)