Meditação para o 15º Domingo depois do Pentecostes. A Morte

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 7, 11-16

Naquele tempo, 11dirigiu-se Jesus a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. 12Quando estavam perto da porta da cidade, viram que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; e, a acompanhá-la, vinha muita gente da cidade. 13Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» 14Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» 15O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe.

16O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus, dizendo: «Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!»

Meditação para o Décimo Quinto Domingo depois de Pentecostes

SUMARIO

O Evangelho, referindo-nos o enterro de um jovem, que levam a sepultar, convida-nos com isso mesmo a meditar sobre a morte. Para obedecer a este convite da Igreja, faremos três reflexões:

1.° Que é morrer;

2.° Quando e como morrerei;

3.º Se tivesse de morrer hoje, que quisera eu ter feito?

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos desapegarmos, desde já, do que nos seria preciso deixar na morte;

2.° De fazermos cada obra como se tivéssemos de morrer logo em seguida.

Conservaremos como ramalhete espiritual a palavra de São Bernardo:

“Se tivesse de morrer daqui a um instante, farias isto ou aquilo?” – Si modo moriturus esses, an hoc vei illud faceres?

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo convidando-nos a meditar nos fins últimos, e assegurando-nos que esta meditação nos disporá para a vida perfeita, porque nos revelará o que valem o tempo e a eternidade, o que vale o mundo com os seus prazeres, suas riquezas e honras, o que se deve pensar, finalmente, a respeito das adversidades que nos provam, das prosperidades que nos tentam, da leviandade que nos distrai, da soberba que nos incha, da tibieza que nos adormece, da indiferença e temeridade com que tratamos do negócio da salvação (1). Agradeçamos ao Espírito Santo tão importante aviso.

PRIMEIRO PONTO

Que é morrer?

Morrerei! Isto é:

1.° Abandonarei tudo sem exceção… abandonarei os meus parentes, os meus amigos, a minha família; dir-lhes-ei um eterno adeus… abandonarei a minha casa, os meus móveis, os meus campos, tudo o que me pertence… abandonarei tudo absolutamente. Quais são as coisas a que tenho mais apego? Abandoná- las-ei como tudo o mais. Que abandono universal!… Será todavia necessário. Ai! Que loucura apegar-nos ao que temos de abandonar tão cedo! Custou-me muito a adquirir ou conservar o que possuo; será necessário abandonar tudo! Porque não o abandonarei eu antecipadamente com um completo desapego?

2.° A minha alma deixará o meu corpo; e então este corpo será um objeto importuno, de que os meus parentes e amigos buscarão desembaraçar-se, um cadáver infecto capaz de contaminar tudo, se não o sepultarem; e então em que se tornará este corpo, que me preocupa tanto? Em que se tornarão estes pés, estas mãos, esta cabeça? Quão louco sou em arriscar por este corpo e seus imundos gozos a minha alma, a minha salvação?… Então pensar-se-á em mim entre os homens? Pensa-se tão pouco nos mortos!… Quem se lembra hoje desta ou daquela pessoa, que eu conheci e vi morrer! Oh! Quão pouco vale a estima dos homens!

3.° A minha alma irá apresentar- se no tribunal de Deus! Que terrível momento! Achar-me só na presença de Deus… dar conta de toda a minha vida a um Deus infinitamente justo e onisciente, sumamente inimigo do pecado, e então sem misericórdia! Para me livrar deste juízo, não tenho senão um meio: examinar-me a mim mesmo, e então não serei julgado (2).

SEGUNDO PONTO

Quando e como morrerei?

“Quanto tempo tenho ainda que viver? Não sei” – Uno tantum… gradu ego morsque dividimur (1Rs 20, 3)

Morrem pelo menos sobre a terra quatro mil e quinhentas pessoas cada hora, setenta e seis cada minuto. Que hora será a minha, que minuto será o meu? O Evangelho no-lo ensina: será a hora e o minuto que eu menos esperar – qua hora non putatis, Filius hominis veniet (Lc 12, 40). Deus assim o dispôs, para que não possa racionalmente entibiar-me e esteja sempre preparado (3): porque, se adormecesse um só dia num estado em que não quisera morrer, talvez acordasse no inferno. Eu não só ignoro quando morrerei, mas também como morrerei. Morrerei de morte repentina, sem ter tempo para me preparar? Morrem tantos assim! Morrerei de uma doença que me tirará o conhecimento e a fala, por conseguinte a possibilidade de me preparar? Morrerei de uma doença lenta, que fará que tanto eu como os outros julguemos que não estou em perigo, e que nada urge? Morrerei rodeado de pessoas que, com receio de me assustar, não ousarão falar-me em chamar um sacerdote? Morrerei finalmente sem confissão, sem os últimos sacramentos? Não sei; e ainda quando os recebesse, a dor na doença distrai, absorve; está-se apto para muito poucas coisas: portanto é uma loucura contar com este último momento para tratar do mais grave de todos os negócios, do da salvação. Estejamos preparados hoje e sempre e não deixemos este negócio para o dia seguinte, que é incerto (4).

TERCEIRO PONTO

Sê tivesse dê morrer esta tarde, que quisera ter feito?

1.° Estou preparado para morrer? Estão em ordem os meus negócios temporais? Fiz bem o meu testamento? Está bem disposta a minha consciência? Nada tenho que temer relativamente às minhas confissões, às minhas comunhões, ao cumprimento dos deveres do meu estado?

2.° Se soubesse que havia de morrer no fim deste dia, como o passaria? Como o empregaria bem! Se soubesse que havia de morrer depois desta oração, como a faria com atenção e fervor! Se tivesse de morrer depois desta confissão, desta comunhão, desta Missa, desta visita ao Santíssimo Sacramento, como faria santamente todas estas coisas! Entremos dentro em nós, e reconheçamos quão grande mudança operaria em nós e em toda a nossa conduta este pensamento da morte bem meditado (5).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Memorare noviss ma tua, et in aeternum non peccabis (Ecl 7, 40)

(2) Si nosmetipsos dijudicaremus, non utique judicaremur (1Cor 11, 31)

(3) Latet ultimus dies ut omnes observentur dies (Santo Agostinho)

(4) Ideo et vos estote parati (Mt 24, 44)

(5) O mors, bonum est judicium tuum (Ecl 41, 3)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 171-175)