Meditação para a Quarta-feira da Quarta Semana da Quaresma. A Confissão

Meditação para a Quarta-feira da Quarta Semana da Quaresma

SUMARIO

Meditaremos sobre a confissão e veremos que ela deve ser:

1.° Humilde;

2.° Sincera;

3.º Inteira.

— Tomaremos depois a resolução de aplicar estas três condições a todas as nossas confissões; e conservaremos para ramalhete espiritual o conselho do Espírito Santo:

“Não te envergonhes de confessar os teus pecados” – Non confundaris confiteri peccata tua (Eclo 4, 31)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo instituindo, em Seu amor para conosco, o Sacramento da Penitência; agradeçamos-Lhe tão preciosa instituição. É como um banho sagrado, que lava todas as nossas máculas, como um divino canal, que faz correr sobre nós a graça; é uma escola de prudentes conselhos e de animação para o bem; é finalmente o meio mais eficaz para corrigir os nossos defeitos e nos obrigar a progredir na prática das virtudes. Oxalá possamos sempre usar bem desta admirável invenção do amor divino!

PRIMEIRO PONTO

As nossas Confissões devem ser Humildes

Devemos apresentar-nos diante do sacerdote cheios de respeito e de confusão, como um pecador diante do anjo de Deus, diante de um outro Jesus Cristo; como um enfermo coberto de asquerosas chagas diante do médico, que pode curá-las, se lhas declara tais quais são; como um réu de lesa-majestade divina, que mereceu as penas do inferno, diante do supremo Juiz, que tem na Sua mão a sentença da nossa vida ou da nossa morte eterna. Não podendo obter a título de justiça, mas somente a título de clemência e de misericórdia, não devemos apresentar-nos senão com profunda humildade interior e exterior, confessando os nossos pecados, não com a indiferença de quem refere uma história, mas com a vergonha e a dor de uma alma que compreende ps seus erros; não desculpando-se para evitar a confusão de aparecer culpado, mas acusando-nos sem considerações que tendam a fazer que julguem os pecados menores do que são diante de Deus; não com altivez e arrogância, como se tivéssemos feito alguma boa ação, mas com modéstia e deplorando a nossa miséria, temendo mais os juízos de Deus do que os dos homens.

É deste modo que nos confessamos?

SEGUNDO PONTO

As nossas Confissões devem ser Sinceras

A confissão sincera consiste em declarar com toda a candura e simplicidade o que nos lembra, sem nos inquietarmos com os esquecimentos possíveis, pois que a falta de memória não é um pecado perante Deus. É mau exagerar as nossas culpas a pretexto de que é melhor dizer mais do que menos; não é prudente o enfermo que exagera ao médico o que padece. É pior ainda ocultar os nossos pecados, envolvendo-os artificiosamente com outras acusações menos penosas e omitindo o que custa mais, pelo desejo de que o confessor o não advirta. O penitente sincero só aspira a mostrar-se tal qual é, e aborrece a astúcia e o artificio. É mau também desculpar os nossos pecados, apesar de os dizer tais quais são, ou diligenciar que pareçam menores, imputando-os a outrem, como fizeram Adão e Eva: não é isto franqueza. Mas o que é sumamente mau é encobrir os nossos pecados por vergonha. Então o Sacramento de Misericórdia muda-se em anátema, a obra da salvação em obra de reprovação, e a sentença de vida em sentença de morte. Mais valeria mil vezes não nos confessarmos. É possível enganar o homem, não se engana a Deus, que conhece-o recôndito dos corações; por um pecado não declarado ao sacerdote, todos os que se cometeram aparecerão um dia aos olhos do universo, e por uma pequena vergonha, que se julga evitar nesta vida, há de se ser coberto na outra de uma eterna confusão.

Examinemos aqui as nossas confissões. Temos declarado os nossos pecados sem disfarces, sem escusas, sem lhes dar engenhosamente cores que ocultem a sua deformidade? Temos confessado as coisas certas como certas, as duvidosas como duvidosas, e evitado as palavras supérfluas e inúteis, os termos vagos, obscuros, equívocos, que impedem o confessor de conhecer a verdade?

TERCEIRO PONTO

As nossas Confissões devem ser Inteiras

Para que elas tenham a integridade requerida, não basta acusar os pecados mortais, é preciso ainda:

1.º Dizer quantas vezes os cometemos, declarar as suas circunstâncias agravantes ou que mudam a espécie, as suas consequências desagradáveis, por exemplo, se houve escândalo, se a maledicência foi em matéria grave, na presença de muitas pessoas, contra um superior ou um sacerdote; se foi inspirada pelo ódio, pelo ressentimento ou pela vingança; e quando se acusa uma desobediência, se esta desobediência foi acompanhada de arrogância, de desprezo ou de aspereza. Sem isto, o confessor não conhece suficientemente o estado do penitente para formar a respeito dele um prudente juízo.

2.° Acusar os pecados veniais. Ainda que isto não seja de rigoroso preceito, é todavia importantíssimo fazê-lo:

1. Porque não acusar um pecado, que se duvida ser mortal ou venial, seria um sacrilégio; e há muitas vezes ocasião para esta duvida;

2. Porque o confessor, não conhecendo senão imperfeitamente o penitente, não poderia encaminhado com segurança nem para as comunhões, que lhe permitisse, nem para os outros aotos da vida cristã, nem para a reforma dos seus defeitos ou para a aquisição das virtudes;

3. Porque a acusação dos pecados veniais faz que o penitente cuide mais em evitá-los, e é ajudado nisto pela graça do sacramento, pelos conselhos, do confessor, e pela vergonha da acusação.

Examinemos se as nossas confissões têm sido feitas deste modo?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 168-171)