Meditação para a Décima Quarta Terça-feira depois de Pentecostes. Quarto meio de virmos a ser Humildes: A Vida Privada

Meditação para a Décima Quarta Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre um último meio de nos tornarmos humildes: é a vida provada; e veremos:

1.° Quanto esta vida é útil para nos ensinar a humildade;

2.° Quão útil é a humildade para nos fazer suportar Cristãmente os trabalhos da vida.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De recebermos todas as provações como avisos que Deus nos dá para nos humilharmos debaixo da sua mão;

2.° De as recebermos por conseguinte com toda a resinação.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Pedro:

“Humilhai-vos debaixo da poderosa mão de Deus” – Humiliamini sub potenti manu Dei (1Pd 5, 6)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo na sua sagrada Paixão cheio de humildade e paciência. O estado de abatimento, a que se acha reduzido, seu rosto coberto de sangue, sua cabeça coroada de espinhos, seu corpo dilacerado, seus pés e mãos traspassados, os escárnios de todo o povo, sua morte entre dois ladrões como mais culpado que eles, cobrem-O de confusão; por outro lado, o humilde conceito que forma de Si como carregado de todos os pecados da terra, como o bode emissário votado à morte por todo o povo, lhe fazem achar leves essas cruéis provações e tornam invencível a sua paciência. É assim que nEle a paciência e a humildade parece que se auxiliam e amparam mutuamente. Agradeçamos-Lhe este grande exemplo, e roguemos-Lhe que nos permitia imitá-lO.

PRIMEIRO PONTO

Quanto a vida provada é útil para nos ensinar a humildade

A vida do homem, diz o Espírito Santo, é uma contínua prova; e por isso mesmo uma lição contínua de humildade. Há provas pelos sofrimentos e enfermidades: é uma lição de humildade, que nos ensina que dependemos sempre de Deus, árbitro da saúde ou da doença, da vida ou da morte; e que, quando temos saúde, não devemos gloriar-nos, como se fosse obra nossa; que, além disto, tendo pecado, mereceríamos padecei sempre por penitência.

Há provas pelo maus êxitos nas empresas: é uma lição de humildade, que nos diz que temos pouca perspicácia e prudência; que devemos ser modestos, e não nos antepormos aos outros.

Há provas pelos revezes de fortuna, que nos fazem perder uma posição melhor; é uma lição de humildade, que nos preserva da soberba que causam as posições superiores. A prosperidade inspira vaidade, orgulho, e induz-nos a desprezar os nossos inferiores: este revez abate, destrói as pretensões e dispõe-nos a formar um humilde conceito de nós mesmo.

Há provas pelas humilhações: falam e pensam mal de nós, e não nos fazem a justiça, que nos é devida. Tratam-nos desatenciosamente, desprezam-nos: é uma lição de humildade que nos recorda que, sendo nada e pecado, só merecemos desprezo; que nos tratam sempre bem, e que a humilhação presente é uma graça que nunca saberíamos agradecer bastantemente a Deus, pois que é o caminho para a humildade (1).

Há provas pelas tentações que nos incitam ao mal, e a que devemos continuamente resistir: é uma lição de humildade que nos lembra que a nossa índole é má, e que não temos de nós mesmos senão o pecado (2); que devemos desconfiar de nós mesmos, evitar as ocasiões perigosas, estarmos incessantemente abismados no sentimento da nossa profunda miséria (3). Finalmente, seríamos muito prolixos, se quiséssemos mencionar todas as provas da vida presente; mas todas elas tem este caráter comum que, fazendo-nos sentir a nossa miséria e fraqueza, nos levam a recorrer a Deus como a nossa única força, ao nosso único amparo (4); imitar a pomba do dilúvio, que, não achando onde pousar na terra, voltou a refugir-se na arca. Deus é essa arca verdadeira, onde o coração aflito acha a sua consolação, o coração fraco a sua força, o coração tentado a sua defesa.

Examinemos se temos sabido assim utilizar-nos das nossas provações para nos tornarmos mais humildes, desapegados de nós mesmos, e unidos a Deus.

SEGUNDO PONTO

Quão útil é a humildade para nos fazer suportar Cristãmente todas as provas

O soberbo nada sofre com resignação; irrita-se e revolta-se contra a dor; não quer compreender, que merece e lhe é necessário padecer; e Deus, que aborrece a soberba, abandona-o à sua impaciência ou ira. Ao contrário, o homem humilde aceita de bom grado a dor; reconhece que, sendo pecador, é justo que padeça; que deve cumprir na sua carne o que falta aos sofrimentos de Jesus Cristo, e unir os membros com a sua cabeça na participação da prova, como serão unidos na participação da glória; que finalmente, posto que padeça, merece sempre padecer mais. De seu lado, Deus, compadecido destas humildes disposições, assiste-lhe, ampara-o, protege-o na tribulação, a ponto de lh’a tornar suave e até prezada (5). Algumas vezes as provas provém do próximo, e então a humildade termina em breve as desavenças; os seus encantos abrandam os ânimos mais assanhados. Se, ao contrário, a prova vem de nós mesmo, a humildade faz ainda pronta justiça. Ensina-nos a confundir-nos diante de Deus, a lançar-nos nos seus braços como nos de um Pai, a implorá-lO, a amá-lO, a declarar-Lhe que não queremos amar senão a Ele, que O queremos amar de todo o nosso coração e sempre; e imediatamente recobramos a tranquilidade; a serenidade, a paz, tornam a aparecer; e graças à humildade, a prova serve para nosso maior bem. Ó! Quão útil é, pois, que sejamos humildes!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Humilitatio est via ad humilitatem (São Bernardo)

(2) Homo de se non habet nisi peccatum (Conc. Araus.)

(3) Intra in lutum, et calca (Na 3, 14)

(4) Ad Dominum, cum tribularer, clamavi (Sl 119, 1)

(5) Humulem Deus protegit et liberat; humilem diligit et consolatur: humili homini se inclinat, humili largitur gratiam magnam (2 Imitação 2, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 156-160)