Dom Henrique Soares da Costa

Por Dom Henrique Soares da Costa

De hoje a oito entraremos na Semana Santa, com a solenidade dos Ramos e da Paixão do Senhor. Agora, neste último Domingo antes dessa Grande Semana, a Liturgia nos apresenta o Senhor Jesus como nossa Ressurreição e nossa Vida. Vida que recebemos no santo Batismo, Vida que nos vem como força na Crisma, Vida que comemos como alimento de Eternidade na Eucaristia. Eis a Vida: Jesus! Eis o que buscam os catecúmenos, aqueles que por toda a terra estão se preparando para receber os sacramentos da iniciação à vida cristã, a vida em Cristo, no Batismo, na Crisma, na participação à Mesa eucarística!
Aqui, ao dizermos que Jesus é a Vida, não estamos falando de modo figurado, metafórico! Jesus é realmente, propriamente, a nossa Vida, a nossa Ressurreição!

Ele é o cumprimento do sonho de vida e felicidade que o Pai, desde o início, tem para nós:

“Ó Meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel. Porei em vós o Meu Espírito, para que vivais!”

É em Jesus que esta promessa se cumpre, é Nele, morto e ressuscitado, que somos arrancados das sepulturas da vida de pecado e da sepultura da morte; é no Seu Espírito Santo, derramado sobre nós, que o Pai nos vivifica!

Caríssimos, Jesus é a própria Ressurreição; Ele é a própria Vida, Vida plena, Vida divina, Vida eterna! Jesus é a plenitude desta nossa vida, da nossa existência: Nele, o nosso caminho termina não no Nada do absurdo, do vazio, mas na plenitude da Glória! Sem Ele, seríamos nada, sem Ele, tudo quanto vivemos terminaria no aniquilamento: “De que nos valeria ter nascido, se não nos redimisse em Seu amor?” – é o que vai perguntar a Liturgia da Igreja daqui a poucos dias, na noite da Páscoa. Num mundo que procura desesperadamente a vida, a felicidade; numa época como a nossa, em que se tem sede de um motivo para viver, de um sentido para a existência, Jesus Se nos apresenta como a própria Vida, Vida da nossa vida!

Mas, escutemo-Lo falar, Ele mesmo no Evangelho deste Domingo. Deixemos que Ele nos fale da vida, que Ele mesmo nos ensine a viver!

Lázaro estava doente, sofrendo; depois, morreu. Suas irmãs estavam sofridas, angustiadas, imploraram tanto pela vinda do Senhor para curar o irmão… E Jesus não vai; Jesus demora-Se. Quantas vezes fazemos, nós também, esta mesma experiência em nossa vida.

“Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela!”

E, pensemos bem:

“Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. Quando ouviu que estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar em que Se encontrava”…

Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os nossos tempos e modos não são os Dele.

“Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido…”

Nesta dolorida de Marta e Maria sentimos também as nossas queixas diante dos sofrimentos da nossa própria vida…
Jesus sentiu a morte de Lázaro: “ficou profundamente comovido” e chorou por Lázaro, mas não impediu sua doença e sua morte! Vede, irmãos: nosso Deus não é tapa-buracos; jamais compreenderemos o Seu modo de agir! Ele nos ama, Ele é fiel, Ele Se preocupa conosco, Ele conhece nossas dores. Mas, jamais compreenderemos totalmente Seu modo de estar presente no mundo e na nossa vida! O justo, o humilde crê; o ímpio declara, então: Deus não existe! Uma coisa é certa: se crermos, veremos sempre a glória de Deus, em tudo no mundo e em tudo na nossa vida Deus será glorificado!

Então, Jesus consola Marta e Maria. Jesus lhes prometeu a Ressurreição.

Como todo judeu, as irmãs esperavam a Ressurreição no Último Dia, no final dos tempos. Jesus, então, faz uma das revelações mais impressionantes de todo o Evangelho:

“Eu Sou a Ressurreição! Eu Sou a Vida!”

Atenção, Irmãos! Levemos a sério esta afirmação! Detenhamo-nos diante dela, admirados!
A Ressurreição que os judeus esperavam chegou: é Jesus!
A Ressurreição não é uma coisa, uma realidade impessoal, não é um força, não é uma energia da natureza, não é uma dinâmica nossa! Não! Nada disto!
A Ressurreição é uma Pessoa: ela tem coração, rosto, voz e amor sem fim! A Ressurreição é Jesus em pessoa:

“Eu sou a Ressurreição e a Vida! Quem crê em Mim, mesmo que esteja morto, viverá!”

Na hora tão dramática e misteriosa da nossa morte, é Ele, pessoalmente, com a força vivificante do Seu Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, Quem vem nos buscar, é na força Dele que seremos erguidos da morte, é Nele que nossa vida é salva do Absurdo, do Nada, do Vazio: “quem vive e crê em Mim, não morrerá para sempre!

Nunca será demais a surpresa, a admiração, a grandeza dessas palavras! Caríssimos, eis o Evangelho, eis a notícia, eis a novidade que dá sentido a toda uma vida: “Deus nos deu a Vida eterna, e essa Vida está no Seu Filho” (1Jo 5,11), esta Vida é o seu Filho!

Caríssimos, estamos para celebrar a Páscoa. Não esqueçamos que é para que tenhamos esta Vida divina, a Vida eterna que o nosso Jesus se entregou por nós: morto na carne foi vivificado no Espírito Santo pela Sua Ressurreição (cf. 1Pd 3,18). Ressuscitado, plenificado no Espírito Santo, Ele, o Vencedor da morte, derramou sobre nós esse Espírito de Vida, dando-nos, assim, a semente de Vida eterna:

“Se o Espírito do Pai que ressuscitou Jesus dentre os mortos já habita em vós, então o Pai que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do Espírito que habita em vós!”

É esta a nossa esperança: a Ressurreição! Por ela vivemos, dela temos certeza; menos que isto não queremos, menos que isto não estaremos satisfeitos! E já possuímos, como primícias, como garantia, pelos sacramentos da Igreja, o Espírito Santo de Ressurreição.

Então, vivamos uma vida nova, uma vida de ressuscitados em Cristo Jesus: “Os que vivem segundo a carne, segundo o pecado, fechados em si mesmos, não podem agradar a Deus! Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito” do Cristo Jesus!

Então, vida nova! Deixemo-nos guiar pelo Espírito! Deixemo-nos renovar pelo Senhor! Convertamo-nos! Que as observâncias da santa Quaresma, o combate aos vícios, a abstinência dos alimentos e a confissão dos pecados nos preparem para celebrar de coração renovado a Santa Páscoa que já está bem próxima – esta, deste ano e aquela, da Vida eterna! Amém.

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Uma Reflexão Aprofundada sobre a Ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-45)

Naquele tempo, 1havia um doente, Lázaro, que era de Betânia, o povoado de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos. O irmão dela, Lázaro, é que estava doente. 3As irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. 4Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”.

A perícope deste V Domingo da Quaresma deseja mostrar que Jesus é a ressurreição. Ele tem poder sobre a morte: Ele ressuscitará e ressuscitará os que Nele crerem.

Betânia fica no Monte das Oliveiras, no lado oposto ao Jardim das Oliveiras. Enquanto o jardim está defronte a Jerusalém, Betânia fica do outro lado do monte, de modo que de lá não se vê a Cidade Santa. Nos Seus últimos dias em Jerusalém Jesus ao entardecer deixava a Cidade Santa e passava a noite na aldeia de Lázaro, Marta e Maria. A distância era pouca: três quilômetros apenas.

Lázaro estava doente; certamente, a enfermidade era grave, que as irmãs pedem socorro a Jesus. O recado é comovente:

“Senhor, aquele que amas está doente”

Pense bem, meu Amigo, que o amor de Deus não nos livra dos embates e contingências desta vida. O amigo de Cristo não é alguém que passa pela existência sem problemas, como numa redoma. Cristo nunca prometeu isto! Nosso amor a Jesus, nossa amizade para com Ele dão-nos força e coragem porque nos revelam o verdadeiro sentido da vida e nos fazem compreender a presença amorosa do Senhor junto a nós, quer passemos pela água quer atravessemos o fogo…

O comentário do Senhor ao recado das irmãs por Ele amadas é esclarecedor: quando olhamos as coisas na perspectiva de Deus, então tudo – até o sofrimento de uma doença e a tremenda dor da morte – servem para a glória de Deus e do Seu Cristo. Se me permite uma confidência particular, esta ideia tocou-me muito de perto, a ponto de comover-me profundamente quando, numa das viagens que fiz à Terra Santa, ouvi às margens do Mar da Galileia o evangelho que anunciava com que morte Pedro daria glória a Deus (cf. Jo 21,19). Impressionante, se pensarmos bem: com Sua morte de cruz, morte dolorosa, aparente derrota, tremendo absurdo, Pedro daria glória a Deus.

É assim: crer, dentre outras coisas, nos leva a aprender a olhar, a sentir, a avaliar tudo na perspectiva de Deus e não na ótica do mundo. Quando eu creio de verdade, quando realmente vivo unido a Cristo, tudo na minha existência leva à Deus, tudo faz-me tocá-Lo, sentir Seus apelos e, em última análise, glorificá-Lo.

Se ainda não souber reagir assim, isso significa que minha fé não é ainda madura o bastante e minha união com Cristo ainda precisa aprofundar-se e amadurecer.

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5Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. 6Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7Então, disse aos discípulos: “Vamos de novo à Judeia”. 8Os discípulos disseram-Lhe: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-Te e, agora vais outra vez para lá?” 9Jesus respondeu: “O dia não tem doze horas? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 10Mas se alguém caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz”.

Jesus amava os irmãos de Betânia e, no entanto, passa ainda dois dias estacionado, antes de dirigir-Se à casa de Marta e Maria.
Veja, meu Amigo, que o Evangelista vai ligando a ressurreição de Lázaro à morte de Jesus. Ao final, para que Lázaro viva, Jesus morrerá. João dirá isto claramente:

“A partir desse dia, resolveram matá-Lo” (Jo 11,53)

Jesus passa dois dias e, ao terceiro dia, vai encontrar Lázaro para dar-lhe a vida – do mesmo modo que ficará dois dias na morte e, ao terceiro, ressuscitará, irá ao encontro da Vida…

No entanto, teologia a parte, Jesus demora-Se, mesmo sabendo que Lázaro está muito mal. Os tempos de Deus, os modos de Deus, os planos de Deus, que não são os nossos, e aos quais devemos sempre nos converter e nos amoldar! Não é esta a aventura de quem crê: deixar-se a si mesmo e abraçar a vontade do Senhor?

Hoje, um dos grandes pecados de nossa geração – inclusive entre gente de Igreja – é pensar que somos os senhores dos planos, que temos em nossas mãos os tempos, os modos e todas as explicações. E não é assim! Quem crê de verdade vai deixando Deus ser Deus na própria vida, vai, humildemente, dizendo – às vezes sorrindo, às vezes chorando:

“Eu sei, Senhor, que não pertence ao homem o seu caminho, que não é dado ao homem que caminha dirigir seus passos” (Jr 10,23)

Crer é confiar em Deus, esperar em Deus aconteça o que acontecer, venha o que vier, dizendo como Jó: “Ainda que Ele me mate, Nele esperarei” (13,15).

Jesus ama Lázaro, Marta e Maria; sabe que Lázaro corre risco de morte, tem consciência da angústia e da dor das irmãs e, no entanto, espera, tarda a dirigir-Se a Betânia! Somente se move quando Lázaro morre! – Senhor, sustenta nossa fé! Dá-nos a graça humilde de nunca questionar Teus desígnios, nunca duvidar do Teu amor e da Tua presença, da Tua fidelidade e do Teu carinho cuidadoso por nós. Que nos recordemos sempre do que disseste:

“Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho de seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, Eu não esqueceria de ti. Eis que te gravei nas palmas de Minha mão!” (Is 49,15)

Senhor, mesmo quando pareces dormir na barquinha atormentada da nossa vida, na água profunda, no vento forte, no mar encrespado, na noite fechada (cf. Mc 4,35-41), dá-me serena e forte confiança em Ti e no Teu amor por mim, ó meu Deus, em Quem eu confio e espero!

Ante a ameaça dos judeus, Jesus tem claro que Sua vida e Seus tempos estão nas mãos do Pai: Seu tempo neste mundo é o Seu dia e enquanto é o dia que o Pai Lhe deu, enquanto resta tempo, até que chegue a Sua Hora (cf. Jo 17,1s), Ele cumprirá Sua missão, realizará Sua obra no tempo que o Pai Lhe determinou. Ele irá até Lázaro, para arrancá-lo da noite da morte e dar-lhe a luz da vida!

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11Depois acrescentou: “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas vou acordá-lo”. 12Os discípulos disseram: “Senhor, se ele dorme, vai ficar bom”. 13Jesus falava da morte de Lázaro, mas os discípulos pensaram que falasse do sono mesmo. 14Então Jesus disse abertamente: “Lázaro está morto. 15Mas por causa de vós, alegro-Me por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele”. 16Então Tomé, cujo nome significa Gêmeo, disse aos companheiros: “Vamos nós também para morrermos com Ele”.

Jesus metaforicamente fala da morte como sono. Os cristãos farão o mesmo. Ainda hoje na liturgia rezamos pelos que “adormeceram em Cristo”.
Por que este hábito? Porque na perspectiva de Cristo a morte já não é definitiva: ela não passa de um sono do qual nos acordamos. Por isso mesmo os cristãos começaram a dar o nome do lugar onde se enterram os mortos de κοιμητήριον (= koimetérion), isto é, dormitório, na certeza de que os corpos ali depositados um dia despertariam pela força do Espírito do Cristo ressuscitado.

Ao pensar a morte de Lázaro como um sono – o mesmo Ele fez para a filhinha de Jairo (cf. Lc 8,52) – Jesus quer deixar claro para os Seus discípulos que Ele tem poder sobre a morte e pode revertê-la, mais ainda, vencê-la definitivamente, deixando-a para trás: Ele nos pode “acordar” para a Vida imperecível, ali, onde a Morte foi vencida!

Por outro lado, ao anunciar a morte do amigo, de modo surpreendente afirma que esse acontecimento trágico servirá para glorificá-Lo e para fortalecer a fé dos discípulos. Esta afirmação do Senhor vale não somente no contexto mesmo do evangelho que estamos meditando, mas vale sempre, também para nós, como já afirmei mais acima: todos os acontecimentos da vida, mesmo os mais tristes e trágicos, quando os vivenciamos unidos a Cristo, à luz da fé, revelam misteriosamente a presença do Senhor.

Pense bem, meu Amigo: quantos encontraram a fé precisamente numa profunda tristeza; quantos saíram fortalecidos e mais maduros de uma tribulação e provação profundas… Bem que São Paulo nos diz:

“Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28)

Finalmente, a frase de Tomé, certamente meio malcriada, mas também reveladora de um amor sincero por Jesus, amor que deve ser o nosso:

“Vamos também nós e morramos com Ele”

Nas situações em que o Nome de Jesus e a fama da Sua Igreja são jogados ao vento, ao escárnio, qual é a nossa atitude? Ficamos realmente do lado do Senhor e da Sua Igreja ou, ao invés, nos escondemos, nos calamos, fomos saindo de fininho, como se não fosse a nossa Mãe católica a ser caluniada, espezinhada, ridicularizada? “Vamos também nós e morramos com Ele” – está aí uma palavra que muitas vezes precisa ser a nossa..

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17Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. 18Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. 19Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, Ele Te concederá”. 23Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no Último Dia”.

25Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá jamais. Crês isto?”

27Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

A exclamação de Marta é quase uma queixa:

“Senhor se tivesses estado aqui…”

Onde estavas, Senhor? Por que demoraste? Quantas vezes perguntamos nós ao Senhor, sem compreender Seu misterioso modo de proceder.

Pense bem, meu Amigo, pois jamais compreenderemos realmente a ação de Deus: ultrapassa-nos; Ele é Santo, o Outro, o totalmente Diferente no Seu Ser e no Seu agir. Crer não é compreender tudo, crer não é pensar que podemos ter Deus na palma da mão. Muito ao contrário: crer nos faz peregrinos diante de um Deus que nos ultrapassa e muitas vezes nos desconcerta, é um Deus fugidio; como dizia Jeremias profeta:

“Esperança de Israel, Senhor, seu salvador no tempo no tempo da desgraça, por que és como um estrangeiro na terra, como um viajante que só passa uma noite? Por que és como um homem consternado, como um guerreiro que não pode salvar? Mas, Tu estás em nosso meio, Senhor, e Teu Nome e invocado sobre nós. Não nos abandones!” (Jr 14,8-9)

No entanto, de modo dolorido, mas sereno, Marta afirma sua fé em Jesus: reconhece que Ele vem de Deus e que o Deus de Israel está com Ele. Não ousa esperar um milagre, mas afirma claramente ter certeza de que Deus atende ao que Jesus Lhe pedir…

A resposta de Jesus é um consolo para a irmã sofrida. O Senhor reafirma a fé de grande parte de Israel, sobretudo do partido dos fariseus: os mortos ressuscitariam quando viesse o final dos tempos, os tempos do Messias! Marta também professa essa certeza: seu irmão ressuscitaria no Último Dia, no Dia do Messias, Dia Final.

Aí Jesus faz a afirmação mais espantosa, mais impressionante e mais consoladora de toda a Sagrada Escritura:

“Eu sou a Ressurreição!”

Compreenda, meu Amigo: Jesus está afirmando que a ressurreição não é uma força, não é uma lei, não é um dinamismo… A ressurreição é Alguém pleno de amor e Vida divina; a ressurreição é uma Pessoa, é Jesus:

“Marta, Eu Sou a própria ressurreição! Eu Sou a Vida divina, totalmente diversa desta vida terrena perecível, capenga, limitada!”

Para nós, que certamente vamos morrer, para nós que encontramo-nos diante do mistério tremendo da morte, que palavra impressionante, essa de Jesus: quando fecharmos nossos olhos para este mundo, quando esta nossa vida exalar seu último e débil suspiro, quando esta nossa existência, esgotada, terminar, uns braços amorosos, um coração acolhedor, uma face já conhecida e amada nos sustentará, nos arrancará da morte, nos dará uma Vida nova, do Espírito de Deus, divina, nos transfigurará:

“Eu Sou a Ressurreição! Não caireis na morte, mas nos Meus braços!”

Meu caro Amigo, bastaria esta palavra, esta certeza, para mudar totalmente a perspectiva da nossa vida! “Eu Sou a ressurreição e a Vida divina, Vida plena, vida imperecível! Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá: quem em Mim crê e em Mim é batizado no Meu Espírito também experimentará a morte, mas a potência do Meu Santo Espírito, Senhor e Vivificador, vivificá-lo-á de Vida divina, Vida eterna, Minha Vida de Ressuscitado!”

Morrereis, mas não permanecereis na morte, pois quem tem o Meu Espírito vivificante não permanece morto; não pode permanecer! E todo aquele que vive essa Vida nova, todo aquele que por Mim venceu a morte, porque crê em Mim, não morrerá jamais, não tornará a morrer, pois entrará naquela Vida em que a morte foi vencida para sempre. Marta, “Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente, tenho as chaves da Morte e da Morada dos mortos” (Ap 1,17-18).

Depois, a pergunta tremenda, decisiva, feita a mim e a você:

“Crês isto?”

A resposta de Marta é mais que aquela que se poderia esperar de um judeu comum. Ela como que advinha, entrevê sem saber como que Jesus é Senhor da Vida e tem um poder além da morte. Os judeus não esperavam um Messias assim, tão potente. E, no entanto, Marta crê! A nossa resposta somente pode ser a mesma dela, e com uma consciência mais clara que ela:

“Sim, Senhor, eu creio firmemente que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo!”

Eu creio que tu és a Vida, eu creio que tens poder sobre a Morte, eu creio, eu sei que em Ti está a fonte da Vida e em Tua luz contemplaremos a luz da Vida imperecível! (cf. Sl 35/36,10).

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28Depois de ter dito isto, ela foi chamar a sua irmã, Maria, dizendo baixinho: “O Mestre está aí e te chama”. 29Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus. 30Jesus estava ainda fora do povoado, no mesmo lugar onde Marta se tinha encontrado com Ele. 31Os judeus que estavam em casa consolando-a, quando a viram levantar-se depressa e sair, foram atrás dela, pensando que fosse ao túmulo para ali chorar. 32Indo para o lugar onde estava Jesus, quando o viu, caiu de joelhos diante Dele e disse-Lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”. 33Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido, 34e perguntou: “Onde o colocastes?” Responderam: “Vem ver, Senhor”. 35E Jesus chorou. 36Então os judeus disseram: “Vede como Ele o amava!”

37Alguns deles, porém, diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”

38De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra.

A palavra de Marta à sua irmã Maria tem uma ressonância espiritual tão bela, tão doce, tão tocante:

“O Mestre está aí e te chama…”

Lembro do santuário eucarístico de Maceió, a Igreja do Rosário. No meu tempo de adolescente havia uma inscrição com estes dizeres à entrada da igreja. Era um convite para adorar Jesus no Sacramento Santíssimo, para ficar com Ele:

“O Mestre está aí e te chama…”

Ainda hoje, para cada um de nós que escutamos com fé de discípulo a palavra da Escritura Santa, esta palavra deve ecoar no nosso coração…

Veja a atitude de Maria, caro Amigo: logo ao ouvir que Jesus estava ali e a chamava, levantou-se depressa e foi ao Seu encontro… É a atitude do discípulo verdadeiro, o comportamento de quem verdadeiramente ama o Senhor. Esta Maria, de quem tão pouco sabemos, é sempre encantadora: foi ela quem sentou-se aos pés do Senhor, bebendo cada palavra que saia de Sua boca e recebendo de Jesus um belo elogio: ela escolhera a melhor parte (cf. Lc 10,38-42), foi ela ainda quem ungiu os pés de Jesus com nardo puríssimo, de alto preço – o equivalente ao salário anual de um operário! – de modo que o perfume do seu gesto amoroso impregnou a casa toda e, mais uma vez, recebeu o elogio de Jesus: seu gesto ficaria no coração da Igreja para sempre, pois foi um gesto de amor pelo Mestre (cf. Jo 12,1-8). É esta Maria sensível, virtuosa, amorosa, discreta, que corre até Jesus e se prostra diante Dele! De seu coração magoado sai a mesma queixa de Marta:

“Senhor, por que demoraste? Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!”

Ante a delicadeza de Maria, Jesus chora, comovido! Deus jamais Se compraz com a morte ou com quaisquer males que nos aconteçam… O Senhor chora ante a morte de Lázaro e a dor de suas irmãs; o Senhor chora diante de cada dor nossa: o coração de Deus é compassivo e misericordioso. Nosso Senhor jamais Se alegra com nossa dor!

Tão sensível é Jesus, tão tocado por nossa dor, que os judeus questionam:

“Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”

E Jesus, ante tal questionamento, ficou interiormente comovido. Perguntamos nós, como os judeus: E então, sendo assim, por que permite, por que não age, por que demora? Silêncio, coração velhaco! Silêncio, mente prepotente dos filhos de Adão! Até quando pediremos contas a Deus? Até quando ousaremos julgá-Lo, como se soubéssemos mais que Ele? Será que não compreendemos? Eis:

“Os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os Meus. Pois tanto quanto o céu acima da terra, assim estão os Meus caminhos acima dos vossos e Meus pensamento distantes dos vossos” (Is 55,9)

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39Disse Jesus: “Tirai a pedra!” Marta, a irmã do morto, interveio: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”. 40Jesus lhe respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a Glória de Deus?”

Humanamente falando, a ordem de Jesus é absurda: para os judeus, no quarto dia da morte começava a decomposição do cadáver. Eis: a situação de Lázaro é irreversível: ele já cheira mal; está totalmente dominado pela morte, carcomido por ela.

No entanto, a resposta de Jesus é peremptória:

“Se tu creres, verás a Glória de Deus!”

Esta palavra ainda hoje tem um enorme poder de comover aquele que a escuta com seriedade: aquele que crê de verdade no Senhor é capaz de ver a presença gloriosa de Deus mesmo nos momentos mais obscuros e tenebrosos da existência! Para quem crê, mesmo a treva mais profunda não é escura, pois o crente, no claro-escuro da fé, participa misteriosamente da luz do Senhor Deus:

“Nem as trevas são escuras para ti e a noite é clara como o dia; para ti as trevas são como luz” (Sl 138/139,12)

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41Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: “Pai, Eu Te dou graças porque Me ouviste. 42Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que Me rodeia, para que creia que Tu Me enviaste”.

43Tendo dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” 44O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” 45Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram Nele.

Jesus nunca reza para realizar Seus milagres, pois Ele os faz por Sua própria força e poder. Basta que diga “Eu quero” ou “Eu ordeno” e assim se faz. Por que aqui ele reza? Observe que Ele não pede nada ao Pai nesta oração. Reza para que todos os presentes compreendam o sentido do que Ele vai realizar: a revivificação de Lázaro deve deixar claro que Ele vem do Pai e tudo faz em comunhão com o Pai. Que ninguém diga que é por Beelzebu! O ato que Ele realizará deve deixar claro que Jesus é o Enviado do Pai, o Messias prometido a Israel! Depois, a ordem impressionante e Lázaro, que sai da morte, da treva do sheol e volta, corpo e alma a este mundo! Assim o Senhor mostra Seu poder absoluto sobre a morte: pode tratar-se de alguém morrido naquele momento, como a filhinha de Jairo, alguém cujo enterro já estava a caminho, como o filho da viúva de Naim ou, de modo ainda mais impressionante, alguém já em decomposição: Jesus tem total domínio sobre a morte! Assim, Ele deixa claro que ressuscitará e nos ressuscitará na Sua Ressurreição. Mas, para isso, para que você e eu ressuscitemos, Ele mesmo deverá morrer, no lugar de Lázaro, no meu e no seu lugar, caro Amigo:

“Foram contar aos fariseus o que Jesus tinha feito. Os sumos sacerdotes e os fariseus, então, reuniram o sinédrio e discutiam: ‘Que vamos fazer? Este homem faz muitos sinais!’ Um deles, chamado Caifás, sumo sacerdotes naquele ano, disse: ‘Vós não entendeis nada! Não percebeis que é melhor um só morrer pelo povo do que perecer a nação inteira?’ Caifás não falou isso por si mesmo. Sendo sumo sacerdote naquele ano profetizou que Jesus iria morrer pela nação, e não só pela nação, mas também para reunir os filhos de Deus dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus” (Jo 11,46-53)

Veja, meu Amigo, é assim que termina a história da ressurreição de Lázaro: com a condenação de Jesus à morte! Mas Ele vencerá e nós podemos cantar:

“A morte foi tragada pela Vitória; onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,54s)