Capítulo 15: O Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo
Circunstâncias do nascimento de Jesus

Entramos em espírito no pobre presépio de Belém, e consideremos com os olhos da fé as circunstância do nascimento do nosso adorável Salvador. Neste mesquinho albergue é que a divina Maria, arrebatada em sublime contemplação e abrasada em ardente amor de Deus e em desejo extremo de ver o seu Filho, sem sofrer a menor dor e sem deixar de ser a mais pura das virgens, deu à luz o rei do céu e da terra, o Messias prometido e esperado, havia quatro mil anos. Prostremo-nos profundamente aos pés deste divino Infante, adoremo-lO como nosso Criador, Redentor, soberano Mestre e Deus. Depois de Lhe termos tributado vassalagem com todos os afetos que à fé, a religião, o amor e a gratidão podem inspirar-nos, rendamos obséquios a Sua terna Mãe; felicitemo-la pela ventura inefável de ser Mãe de Deus; honremo-la nesta qualidade e ponhamos nela a nossa confiança.

Sua pobreza extrema

Não é possível compreender quais foram os sentimentos de alegria, veneração e ternura desta mãe bem-aventurada sustentando em seus braços pela primeira vez o divino Infante, que ela amava como o filho único e adorava como Deus. Envolve-O em paninhos, deita-O em uma manjadoura e prostra-se para O adorar. Ó terna e divina Mãe, quão viva dor não sentiríeis, vendo-vos obrigada a repousar sobre a palha áspera e fria de uma pobre manjadoura o terno e delicado corpinho do recém-nascido Jesus! Mas, se não podeis oferecer-Lhe os bens e comodidades da vida, ofereceis-Lhe um dom muito mais precioso; consagrais-Lhe os vossos cuidados, os vossos trabalhos, a vossa vida, o vosso maternal coração; todo abrasado em amor. Oh! Que não possa eu também apresentar-Lhe uma tão agradável oferta!

Sentimentos de Maria Santíssima e São José

Consideremos a Maria e a José no presépio; são o mais excelente modelo de oração que podemos propor-nos. O mundo está inteiramente desterrado da sua lembrança; ocupam-se unicamente do Verbo humilhado a seus olhos; exprimem-Lhe os afetos do seu coração, não com palavras ou cânticos, mas com muda admiração e profundo silêncio, entregando-se sem resistência aos movimentos interiores que sentem e que este adorável Menino neles produz. Ó Maria! Ó José! Fazei-me participante dos vossos sentimentos: permiti que à vossa imitação eu não ache gosto senão em Jesus e que O ame, se é possível, tanto como vos O amais.

ORAÇÃO

Ó Mãe bem-aventurada, quando vejo a Jesus nos vossos braços, foge de mim todo o temor, e sinto-me todo abrasado de amor para com Ele e para convosco. E que temor posso eu ter, depois que o Verbo humanado consentiu em ser enfaixada pelas vossas mãos benditas e se pôs, por assim dizer, na impossibilidade de levantar o braço para me castigar? Ó Maria, que tantas vezes ligastes a Jesus com as faixas da infância, ligai também este pobre pecador com as prisões do Seu amor; fazei que eu viva, e morra inseparavelmente unido a Jesus e a vós, até que chegue à pátria ditosa, onde vos louve e a Jesus por todos os séculos sem fim.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Quanto vale um sacrifício pela Santíssima Virgem

Um copo de água dado em nome de Jesus Cristo, não ficará sem recompensa.

É Ele quem o afirma no Evangelho; e a experiência nos há também mostrado  que uma ligeira mortificação, um pequeno sacrifício oferecido à Santíssima Virgem, são recompensados pelos mais assinalados favores. Eis aqui uma prova:

Um jovem entrou numa embarcação em companhia de alguns amigos e de um bom religioso, para fazerem um curto trajeto nos arredores de Gênova, levando na mão um desses livros licenciosos, tão infelizmente conhecidos na nossa época.

De tempos a tempos lia algumas páginas, e um dia voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

“Este livro é encantador, é de um espírito finíssimo, faz as minhas delícias! Não o dava por um tesouro!”

E, voltando-se para o religioso:

“Padre, tenha a bondade de ver e convencer-se-á de que não exagero”

O sacerdote pegou no livro e apenas leu algumas linhas, conhecendo a natureza da obra, fechou-o entregando-o ao dono que insistia com ele para que continuasse a leitura:

“— Obrigado senhor, li bastante. Livros destes podem-se até conhecer pelo cheiro.

— Que quereis dizer com isso? perguntou o jovem.

— Quero dizer que a infecção que exalam essas obras é pior que a dos cadáveres em estado de putrefação. Eu bem sei quo essas leituras fazem as delícias de muita gente, mas cada qual tem o seu gosto, e o meu, graças a Deus, não é assim; por isso permita-me que não leia mais”

Esta resposta perturbou o jovem, fazendo-o envergonhar da sua imprudência, e o religioso notando o embaraço, longe de se aproveitar dele, para humilhar o jovem, procurou antes pela suavidade das suas maneiras e pela jovialidade das suas palavras captar-lhe a confiança. Como era tão piedoso como sábio, fez recair naturalmente a conversa sobre um assunto religioso, exaltando os encantos da virtude e descrevendo a felicidade de um coração puro e inocente.

Fê-lo com tal animação, e era tão profunda a unção que se notava nas suas palavras, que o jovem, que tinha sido piedosamente educado e não havia perdido completamente a fé, suspirou ao ouvi-lo.

O digno sacerdote, fingindo não reparar, continuou no mesmo tom, lamentando o desvario dos que se deixam arrastar pela torrente impetuosa dos vícios, comparando-os ao prodígio do Evangelho.

“Oh! exclamou o religioso, que louco é aquele que assim entrega a alma ao demônio, dando tudo para nada receber; ou antes, recebendo um penhor do inferno, porque nada há mais semelhante a um réprobo do que uma alma que se entrega à tirania das paixões! Se ao menos em tão lastimoso estado se lembrassem de recorrer à Santíssima Virgem!

— Ah! exclamou o jovem suspirando, no colégio aonde eu fui educado, recorri mandaram-me tanto que fosse sempre fiel ao culto dessa boa Mãe, e eu esqueci tudo, a ponto de quase me envergonhar de a ter amado algum dia!… E poderei eu ainda esperar o seu perdão?

—Certamente, respondeu o religioso, e ser-vos-á bem fácil obtê-lo.

— Onde está o livro a que fazíeis ainda há pouco tão grandes elogios?

— Ó padre! Não falemos mais nisso!

— Pelo contrário, devemos falar, visto que desejais readquirir o amor de Maria. Fazei-lhe o sacrifício desse livro, e assevero que Ela vos perdoará e será novamente vossa terna Mãe.

— Tomai, disse o jovem entregando-lhe o livro, fazei dele o que quiserdes.

—Não, disse o sacerdote, não vos tirarei o mérito de fazerdes justiça por vossas mãos.”

Então o jovem, pegando no livro, lançou-o precipitadamente ao mar e este pequeno sacrifício, que nem merecia tal nome, foi para ele uma fonte de graças que lhe obtiveram depois de uma vida exemplar a morte de um justo!

Voltando para a sua terra, mudou inteiramente de vida e, abandonando a família e os falsos prazeres do mundo, entrou numa ordem religiosa, onde professou, edificando a todos pela sua exemplar piedade.

Que este exemplo nos anime a oferecermos à Santíssima Virgem algum ligeiro sacrifício, privando-nos mesmo algumas vezes em sua honra de qualquer satisfação permitida e inocente, e principalmente que a fidelidade aos nossos deveres e aplicação ao trabalho sejam as nossas ordinárias mortificações, pois que são sacrifícios muito meritórios sem os quais pouco valem todos os outros.

OUTRO EXEMPLO

Nossa Senhora das Vitórias no Recolhimento dos Órfãos de São Carlos na Síria

Em 1866 o Sr. Alexandre Valestri, cônsul francês na Síria, presenteou o recolhimento dos Órfãos de São Carlos, com uma magnífica imagem de Nossa Senhora das Vitórias, que foi colocada a 30 de agosto do mesmo ano por Monsenhor Valerga, patriarca de Jerusalém, em presença do Sr. des Essarts, cônsul geral de França e do contra-almirante Simão.

Uma coluna de granito de 5 metros de altura, encontrada entre as ruínas, e assentada num pedestal de mármore branco, foi o trono preparado para a Rainha do céu. A imagem desta boa Mãe foi ali colocada entre exclamações e cânticos de alegria da piedade filial que desde então não cessou de lhe prodigalizar quotidianos cuidados. Parece que também o céu se compraz na decoração deste altar campestre, porque algumas roseiras que lhe brotaram aos pés, nunca deixam de florir.

Nos dias festivos, as crianças concorrem para a ornamentação pela generosa oferta das suas sobremesas, que, segundo a inocente e piedosa intenção destes seres pequeninos deve à noite transformar-se em brilhante iluminação.

Que belo esse grupo de crianças que cada dia se reunia em volta da Mãe Imaculada, cantando com todo o fervor das suas almas cândidas, o Ave Maris Stella!

Assim, durante 20 anos, Maria não cessou de ser venerada pelas orfãzinhas do recolhimento de São Carlos, aonde derramava as mais abundantes graças.

Um dia apresentou-se à porta do estabelecimento uma mulher, tendo na mão uma garrafa de azeite, pedindo que o fizessem arder aos pés de Nossa Senhora das Vitórias, que ela, na noite antecedente tinha visto em sonhos, no alto de uma coluna. Disseram-lhe que o tempo estava chuvoso e que era melhor acender a lâmpada da capela, a uma imagem da Virgem que lhe mostraram; e a pobre mulher, recusou obstinadamente, dizendo que não era aquela a imagem que tinha visto no sonho, e contra todas as observações, acendeu ela mesma a luzinha, deixando-a exposta à chuva que caía em torrentes. Mas, oh! Milagre!  Não só a luz se não apagou, apesar da água que a inundava, mas ardeu durante três dias, sem que fosse necessário renovar o azeite. Quem não há de ver neste prodígio uma prova do desejo que tinha a Santíssima Virgem de que lhe fossem rendidas homenagens neste lugar?

Com efeito a datar dessa época, várias lâmpadas acesas noite e dia provam o reconhecimento dos que ali vão implorar, e obtém a proteção da Santíssima Virgem.

Uma vez é um desgraçado falsamente acusado de roubo, que recorrendo a Maria, viu reconhecida a sua inocência; outra, um pobre pai de família que para alcançar a saúde de um filho, prometeu um círio a Nossa Senhora das Vitórias, cuja imagem nem sequer tinha visto; outra ainda, uma senhora casada havia 18 anos, imensamente rica, mas que apesar de toda a sua fortuna, não se julgava feliz, porque Deus lhe não concedia nenhum fruto do seu consórcio. Teve o pensamento, que executou, de fazer uma promessa a Nossa Senhora das Vitórias, e de pedir as orações dos órfãos do recolhimento e, decorridos dois anos, um menino e uma menina faziam a sua felicidade. Estes exemplos da proteção de Maria poderiam multiplicar-se ao infinito, mas daremos unicamente notícia deste último.

— Havia 5 anos que um pobre homem jazia encarcerado, em consequência de uma falsa acusação. Tinham cometido em sua casa um assassinato, sem que fosse possível descobrir o autor do crime, e, segundo as leis turcas, o desgraçado devia ficar nas mãos da justiça até que fosse descoberto o verdadeiro culpado. Um dia alguém, ouvindo a mulher do preso lamentar amargamente a sua desgraça, lembrou-lhe que recorresse a Nossa Senhora das Vitórias, que lhe mandasse acender um círio. Oh! Milagre! Aquela que nunca é invocada em vão, ouviu a prece cheia de confiança dessa pobre mulher, e no dia seguinte o preso era posto em liberdade.

De todos estes fatos se depreendem poderosos motivos de confiança na Santíssima Virgem. Nossa Senhora das Vitórias, que tanto se interessa pelos pecadores, ganhar-lhes-á pouco a pouco os corações, levando-lh’os pela sua doce e irresistível influência, aos pés do seu amado Jesus!

LIÇÃO
Sobre o amor da Pobreza

Do exemplo de Jesus e Maria aprendei a fazer pouco caso dos bens da terra.

Pode acaso ter-se por infeliz o pobre, se meditar que Jesus quis que sua Mãe fosse pobre; que Ele próprio não teve para nascer senão um pobre e muito pobre presépio; que na vida mortal não teve onde reclinar a cabeça; e que o leito, onde expirou, foi uma cruz?!

Jesus não escolheu os seus apóstolos dentre os ricos e doutos, mas dentre os ignorantes e pobres.

Aos pobres veio particularmente anunciar o Evangelho, e ama-os tanto, que terá como feito por seu amor, o que a eles se fizer.

Muitos ricos têm pouca consideração pelos pobres, mas diz o mesmo Deus: Ai de vós ricos! E chama bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles, é o reino dos céus: palavras que se entendem dos ricos que tem aferro ao seu cabedal, assim como dos pobres que amam a pobreza.

Portanto todo o pobre, que tiver fé viva, não trocará a sua sorte pela dos ricos e felizes do século.

As riquezas prendem-nos à terra e fazem-nos esquecer do céu. Com elas são mais vivas as tentações, mais frequentes as quedas. Desejar bens terrenos é desejar a coisa mais perigosa para a salvação.

Debalde se amontoam em vida muitos cabedais, nenhum deles se leva para a eternidade.

O único bem que nos acompanha na morte é a virtude; e o estado de pobreza dá muitas ocasiões de a praticar.

Máxima Espiritual

“Quem ama a pobreza possui tudo” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Sedes sapientiae, ora pro nobis

Trono de sabedoria, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 201-211)