Capítulo 22: Dores de Maria Santíssima na Paixão e Morte de seu Divino Filho
Acerbidade das penas de Maria

Consideremos que penetrantes e terríveis espadas de dor traspassaram o terno e sensibilíssimo coração de Maria, quando seu querido Filho se despediu dela para dar começo à Sua Paixão; quando O viu arrastado ignominiosamente pelas ruas de Jerusalém, pisado com pancadas, escarnecido, esbofeteado, coroado de espinhos e pregado na cruz entre dois facinorosos; quando O viu expirar e presenciou a lançada com que um soldado Lhe rompeu o peito para se certificar da Sua morte; quando recebeu nos braços o corpo morto e desfigurado do seu Jesus; e finalmente quando recolhido o cadáver ao sepulcro, ela ficou reduzida à mais amargosa soledade. Tudo o que sofreram os mártires todos juntos é muito pouco em comparação do que então sofreu a mais terna de todas as mães. Ah! Os nossos pecados são a causa das imensas dores desta santa Mãe, porque foram eles quem deu a morte a seu querido Filho. Detestemo-los, pois, de todo o coração, vamos ao pé da truz misturar as nossas lágrimas com as de Maria; peçamos-lhe que nos alcance uma viva contrição de todos os nossos pecados, e a graça de nunca mais os cometer.

Causa de suas dores

Quis Deus que a Mãe de Jesus sofresse tão grandes dores para a tornar mais semelhante a seu Filho, o mais atribulado de todos os homens; para lhe fazer merecer novas corôas de glória e no-la propor como modelo em todas as aflições. Não nos esqueçamos de que as cruzes são o caminho do céu, a herança dos escolhidos; e, se a mais pura e santa de todas as criaturas foi abismada em um mar de amarguras; como ousaremos nós, sendo pecadores, queixar-nos dos males com que o céu nos aflige? Em nossos trabalhos consideremos nas dores de Maria ao pé da Cruz, e logo ficaremos consolados; unamos aos seus os nossos sofrimentos e deste modo conseguiremos torná-los meritórios.

Como as suporta

Consideremos as virtudes que a Santíssima Virgem pratica ao pé da Cruz. São elas: paciência heroica, inteira submissão às ordens do céu, terno amor ao seu Deus, ardente zelo da salvação das almas, sacrificando, para as salvar, um Filho, que lhe era infinitamente mais caro do que a própria vida. Cristãos, filhos da cruz, filhos de Maria, admiremos estas eminentes virtudes da Rainha dos mártires; peçamos-lhe que nos alcance de seu divino Filho as graças necessárias, para nos aproveitarmos dos seus exemplos e imitarmos a sua paciência e resignação; e quando aprouver ao Salvador fazer-nos participantes das suas humilhações, das suas dores, da sua cruz, vamos buscar consolação no lastimoso coração de Maria, nossa terna Mãe.

ORAÇÃO

Ó Maria, Mãe dolorosa, permita que eu receba convosco as últimas palavras do vosso moribundo Jesus. Sim, eu O estou ouvindo dizer-vos olhando amorosamente para mim: Eis ai o vosso filho; depois, voltado para São João, que representava a humanidade, acrescentar: Eis ai a vossa Mãe. Eu me animo, pois, a dizer-vos que, ainda que quisésseis rejeitar-me e deixar de me reconhecer por vosso filho, não podereis fazê-lo, porque vos pertenço, foi Jesus quem a vós me entregou, recomendando-vos que tenhais para comigo sentimentos de Mãe. É verdade que não mereço tal favor, mas, se sou um filho indigno, nem por isso deixais de ser a mais terna das mães. Não esqueçais aquelas palavras de Jesus; e, para cumprir a sua última vontade, permita que eu vos chame minha Mãe e morra invocando tão doce nome. Oh! Quanto ele me consola! Quanto aumenta a minha ternura e confiança para convosco, recordando-me a obrigação que tenho de vos amar!

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Milagrosa aparição de Nossa Senhora das Dores

Um dos números dos anais da Arquiconfraria de Nossa Senhora das Vitórias transcreve o seguinte artigo, que um jornal italiano «Stelle e Fiore», publicara sob a aprovação do Bispo da sua diocese:

— Na primavera de 1888 duas pobres camponesas de uma aldeia chamada Guasto, no conselho de Castelpetroso, saíram de madrugada para os trabalhos do campo, levando alguns carneiros que durante o dia deixavam livremente a pastar.

Castelpetroso é uma paróquia da diocese de Boiano, na província de Campobasso.

Os habitantes destes sítios têm particular devoção a Nossa Senhora das Dores; e em Castelpetroso há mesmo uma numerosa confraria, sob esta invocação.

Na tarde, pois, do dia 22 de março de 1888, quando as duas mulheres, fatigadas do trabalho, se dispunham a voltar para casa, notando que alguns dos carneiros faltavam, trataram de os procurar por toda a parte.

A noite aproximava-se rapidamente, quando uma das camponesas viu sair de entre as fendas de um rochedo uma brilhante claridade, e tomada do mais vivo espanto, aproximando-se, espreitou para saber de onde vinha tanta luz. Mas oh! Milagre! Através daquelas fendas viu ela distintamente a divina Mãe de Deus, que, oprimida pela mais dilacerante dor, contemplava silenciosa o sacrossanto cadáver do seu divino Filho, que ensanguentado lhe jazia aos pés!

A outra camponesa viu o mesmo doloroso espetáculo, e ambas, dominadas por uma comoção bem fácil de se compreender, correram espavoridas para a aldeia, contando o que tinham visto; mas ninguém as acreditou.

Dias depois, uma das mulheres voltou ao rochedo, que tinha o nome de — Cesa tra Santi — e vendo novamente o prodígio, espalhou por tal forma o boato dele, que dentro em pouco, de toda a parte corriam para ali milhares de visitantes.

Nem a todos, porém, animavam os mesmos sentimentos; e, se a uns impelia a fé e a piedade, a outros apenas a curiosidade, e a alguns até somente o desejo de divertir-se à custa da superstição popular.

Entre os visitantes muitos eram favorecidos com a extraordinária aparição, mas nem todos gozavam do mesmo espetáculo. A uns aparecia a Mãe das Dores com o divino Filho; a outros a Imaculada Conceição na companhia de São José; outros viram-na acompanhada pelo Arcanjo São Miguel e alguns não viam mais que uma imagem de Maria com o Menino Jesus nos braços.

Uma piedosa mulher, Filomena Rondino, casada com um empregado da Prefeitur de Campobasso, veio também ao rochedo de — Cesa tra Santi — implorar da Santíssima Virgem o bom resultado de um processo, do qual dependia a honra da sua família.

Pelo caminho dizia a pobrezinha só consigo:

— Se Nossa Senhora se dignar aparecer-me é sinal de que serei atendida.

Durante muitas horas correu inutilmente de uma para outra fenda do rochedo, e quando, já desanimada, se dispunha a voltar para casa, pensando que essas aparições não passavam de impostura, sentindo-se impelida por secreta inspiração, voltou para trás e espreitando uma última vez, viu Nossa Senhora das Dores através das fendas do rochedo.

— Primeiro, conta a pobre mulher, vi-a apenas de perfil, depois, voltou-se para o lado em que eu estava, fitou-me abrindo as mãos, como para oferecer-me a graça que eu lhe pedira. A sua estatura era de uma mulher adulta, o rosto tinha a cor natural da carne, cercado de uma auréola de brilhante luz.

Será inútil descrever a alegria e confiança da piedosa mulher que, decorrido pouco tempo, viu efetivamente concluído, como desejava, o negócio cujo bom resultado viera implorar à Santíssima Virgem.

O boato das aparições, das graças obtidas dos milagres operados, não tardou a espalhar-se por Nápoles e Sicília.

Os jornais ocuparam-se largamente deste assunto que, chegando ao conhecimento de Sua Santidade, lhe despertou o desejo de o mandar examinar minuciosamente.

No mês de setembro de 1888, estando em Roma o bispo de Boiano, foi apresentar as suas homenagens ao cardeal Rampola e este, falando-lhe sobre os acontecimentos de Castelpetroso, desejou ouvir uma narração circunstanciada, acrescentando, que não havia ainda três dias que o Santo Padre manifestara desejos de falar com o prelado de Boiano sobre o assunto em questão.

No dia seguinte foi o bispo admitido à presença do Soberano Pontífice, que o acolheu carinhosamente, manifestando-lhe vivo prazer em lhe ouvir a narração circunstanciada da milagrosa aparição. Depois, interrompendo-o repentinamente, disse-lhe:

— Mas senhor! Porque tanta demora em me participar fatos tão surpreendentes.

— Santíssimo Padre, respondeu-lhe o bispo, esperávamos algum milagre que confirmasse as aparições.

— E não será bastantemente milagrosa a narração que acabais de fazer? Pois bem, parti quanto antes, para Castelpetroso a fim de procurar informações autênticas, e voltai a Roma para falarmos sobre o assunto.

O bispo de Boiano, obedecendo às ordens do Papa, e dirigiu-se a 26 do mesmo mês ao lugar das aparições, acompanhado dos arciprestes da catedral e de Castelpetroso. A multidão era enorme, porém quando o prelado, aproximando-se das fendas do rochedo, introduziu uma luz para observar se haveria qualquer artifício que pudesse fingir essas aparições, fez-se em redor dele o mais profundo silêncio. O Prelado convenceu-se facilmente da impossibilidade qualquer engano, vendo a pedra inteiramente nua com uma escavação pouco profunda e completamente fechada.

Enquanto o bispo procedia ao minucioso exame, a vela introduzida pela fresta do rochedo caiu repentinamente, apagando-se, e à claridade que derramava, sucedeu uma luz mais brilhante, no meio, da qual se desenhava confusamente a Imagem da Virgem. Isto sucedeu por duas vezes consecutivas, e a vela, acesa ainda terceira vez, tornou a apagar-se, aparecendo então a Santíssima Virgem apenas a um palmo de distância do prelado. A visão era clara e nítida!

Bela, de uma beleza sobrenatural, a divina mãe de Deus trazia um véu muito transparente, que, caindo-lhe sobre a fronte, deixava ver os traços da sua magra fisionomia profundamente triste, conservando as mãos erguidas em atitude de oração.

O bispo de Boiano, com a voz trêmula e os olhos rasos de lágrimas, contou aos assistentes o que acabava de ver e pouco depois foi apresentar a Leão XIII um processo de informação soba fé do mais solene juramento, obtendo de Sua Santidade aprovação para mandar construir no lugar das milagrosas aparições uma igreja consagrada a Nossa Senhora das Dores.

OUTRO EXEMPLO

Devoção às Dores de Maria Santíssima

Nas revelações de Santa Brigida lê-se o seguinte com respeito à conversão de um fidalgo tão desprezível pela depravação dos seus costumes, como notável pela nobreza da sua origem.

Este homem tendo vendido a alma ao demônio por um pacto formal, serviu-o como escravo durante mais de sessenta anos, vivendo, longe de toda a prática religiosa, uma vida tal como se pode imaginar, um dia caiu gravemente enfermo, e Jesus Cristo, querendo usar para com ele de misericórdia, ordenou a Santa Brigida que avisasse o seu confessor para que o fosse visitar e exortasse à confissão.

O sacerdote assim o fez, mas o obstinado pecador contentou-se em lhe responder que já se tinha confessado muitas vezes, e que agora não estava para o fazer.

Passados dias, uma segunda tentativa deu o mesmo resultado! O pobre escravo do inferno não quis mesmo ouvir falar em confissão.

Então Jesus Cristo apareceu novamente a Santa Brigida dizendo-lhe que o sacerdote devia repetir a visita ao moribundo.

Este cumprindo as ordens do Senhor, visitou-o pela terceira vez, contando-lhe as revelações da Santa, e asseverando-lhe que vinha ali mandado por Nosso Senhor, que queria usar com ele de misericórdia.

O doente apenas acabara de ouvir estas palavras, principiou a soluçar e disse:

— Mas que esperança de perdão posso eu ter, se me fiz escravo do demônio, e há mais de 60 anos que o sirvo cometendo os mais horríveis pecados!

— Ah! Meu filho, lhe diz o sacerdote; que falta de confiança na misericórdia divina! Vamos, coragem; tranquilizai-vos, que, se vos arrependerdes sinceramente, assevero-vos em nome de Deus que sereis perdoado.

Então o moribundo abrindo o coração à confiança que o digno sacerdote lhe inspirava, continuou:

— Oh! Meu pai! Eu julgando que já estava condenado, desesperei completamente da minha eterna salvação! Agora, porém, as vossas palavras e a sincera dor dos meus pecados restituem-me a confiança perdida. Visto que Deus pela Sua infinita misericórdia ainda me não abandonou, estou pronto a confessar-me e quanto antes!

Efetivamente durante esse dia repetiu por três ou quatro vezes a confissão, e no dia seguinte recebeu a Sagrada Comunhão, e morreu inteiramente resignado e contrito!

Pouco depois Jesus Cristo aparecia de povo a Santa Brigida dizendo-lhe que aquele pecador se havia salvado, e estava no purgatório, graças à intercessão da Santíssima Virgem, porque, no meio das desordens de sua vida, conservara sempre uma viva devoção para com as dores de Maria, não se recordando nunca delas sem compunção.

LIÇÃO
Sobre a necessidade de padecer com Cristo

Se amais a Jesus Cristo, folgareis com a Sua cruz; se O amais de todo o coração, abraçareis de bom grado as cruzes que Ele vos enviar.

Aquele a quem não é necessário obrigar, como a Simão Cirineu, para levar a cruz do Salvador, e que participa gostoso do amargo do fel que lhe foi apresentado no Calvário, ama verdadeiramente a Jesus.

O fogo da tribulação purifica e aperfeiçoa o ouro do amor.

Jesus viveu chorando; quereis vós viver em delícias? Envergonhai-vos de ser um membro delicado daquele corpo místico, cuja cabeça foi coroada de espinhos!

O verdadeiro cristão é um homem modelado por Aquele, que padeceu e morreu na cruz pela nossa salvação.

O Salvador vos parece sobremodo amável, quando o meditais nos tormentos que padeceu por vosso amor; quanto não deveis, pois, amar este digníssimo objeto das nossas afeições!

Se com submissão, paciência e constância sofreis ser exposto a maus tratos e crudelíssimas perseguições por Seu amor, ver-se-á em vós a bela imagem de Jesus.

Ele não enteou na Sua glória senão pelo caminho dos tormentos; nem para a Santíssima Virgem sua Mãe, nem para os santos houve outra estrada; cumpre-vos segui-la também, se quereis chegar à mesma glória.

Máxima Espiritual

“O único caminho para a santificação é o dos sofrimentos” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Janua coeli, ora pro nobis

Porta do céu, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 290-301)