Capítulo 19: Perda de Jesus no Templo
Motivos da dor da Virgem Mãe

A virtude da paciência é indispensável para a perfeição da alma. Tendo pois o Altíssimo, escolhido a Maria para exemplar de perfeição, quis que ela suportasse as mais as mais acerbas penas, angústias e dores, para que pudéssemos admirar e imitar nela a paciência mais heroica. Uma das mais agudas espadas que feriram esta virgem inocente foi quando, na volta da grande solenidade da Páscoa, se achou sem o seu divino Filho, que, sem ela o saber, ficara em Jerusalém. Este acontecimento foi como um raio do céu, que lhe traspassou o amante coração! Que tristes pensamentos combateram a sua alma! Que sentidas lágrimas derramariam os seus olhos! Admiremos os desígnios da Providência sujeitando a tão duras provações o Imaculado Coração de Maria, e persuadamo-nos de que por altíssimos fins o Senhor mortifica mais aquelas almas que mais queridas são ao Seu divino Coração.

Sua grandeza

Quanto uma coisa mais se ama e estima, tanto mais forte e amarga é a dor que se sente em perdê-la. Quem como Maria Santíssima conhecia o merecimento que Jesus tinha de ser amado com amor infinito? Ela amava-O com amor natural e extremosíssimo como a seu próprio Filho; amava-O com amor sobrenatural e intensíssimo como a verdadeiro Deus; e tendo-O perdido, que dor imensa não sofreria seu coração? Quantas vezes temos nós a desventura de perder a Deus pelo pecado! E que dor sentimos nesta perda incalculável? Ah! Não há lágrimas tão bem empregadas como estas, porque nenhuma desgraça maior nos pode acontecer do que perder a Deus. Que cegueira, pois, a nossa, quando sentimos tanto a perda dos bens temporais e tão pouco ou nada a perda da herança celeste?

Sua duração

Durante três dias padeceu a Virgem o cruel martírio da ausência do seu diletíssimo Filho. Que dias e noites tão amarguradas! Ansiosa O buscava por toda a parte, e não O achava! Procurava-O diligente e solicita, e nem novas dele sabia! Passou o primeiro dia, acabou o segundo e não aparecia o Menino! Ora se voltaria para Deus, ora para os anjos, ora para os homens, a ver se achava quem lhe desse notícias de seu Filhinho, e não recebendo consolação do céu, nem da terra, a sua dor crescia e se exacerbava excessivamente! Que suspiros, que gemidos tão maviosos não soltaria esta Mãe consternada em quanto não achou no templo o Amado da sua alma! Compadeçamos-nos do sofrimento de tão santa Mãe; e, se por desgraça temos perdido a Jesus, façamos diligências para logo O encontrar, procurando-O no santo templo por meio de uma boa confissão.

ORAÇÃO

Ó sentidíssima Senhora! Se foi tão grande a vossa aflição, por haverdes perdido a presença corporal de vosso divino Filho, pois que nunca Ele se apartou com a Sua graça do vosso puríssimo coração: que, dor não deveria ser a minha, que tantas vezes tenho perdido, e por minha culpa, a graça de Deus e o amor de Jesus! E ainda se eu tivera a certeza de a ter já recuperado, de estar na sua amizade! Mas não; e quanto esta incerteza me contriste e atormenta! Quem sabe se, por falta de sincero arrependimento, ainda estou em pecado, ainda não encontrei o meu Jesus! Ó desgraça das desgraças! No entanto eu sinto uma vivíssima confiança, no vosso patrocínio, ó terníssima Senhora. Alcançai-me o verdadeiro espírito de penitência, comunicai-me uma parcela da mágoa que sentistes na perda de Jesus menino e do cuidado, e diligência com que O procurastes, para que, sinceramente arrependido de meus crimes encontre a este Senhor, e não mais O perca até convosco o ir gozar no céu. Amém.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Maravilhosa intervenção da Santíssima Virgem ou um milagre científico

No primeiro de janeiro de 1889 devia ter lugar um eclipse total do sol, o que causou sensação entre os astrônomos, curiosos de observarem o interessante fenômeno.

O jesuíta, Revd.° Pe. Charoppin e mais quatro astrônomos, partiram de São Luiz a 21 de dezembro para estudarem o famoso eclipse. Depois de uma viagem de cinco dias em caminho de ferro, chegaram ao lugar antecipadamente escolhido para as suas observações.

Vejamos uma carta do mesmo Pe. Charoppin, dirigida a uma irmã sua, religiosa, na diocese de Vannes, em que narra circunstanciadamente um prodígio que nessa ocasião teve lugar.

— Éramos cincos astrônomos. diz o Revd.º Pe. Charoppin, e só eu era católico. Os meus companheiros eram protestantes, mas homens de bem, e de esmerada educação, o que fez com que a nossa expedição fosse das mais agradáveis.

Quando chegamos a Narman, só nos restavam cinco dias para os preparativos. Tínhamos que determinar exatamente a latitude e longitude, trabalho que só podíamos fazer pela observação das estrelas, de forma que trabalhando dia e noite, só na véspera do eclipse é que o nosso relógio astronômico, pode funcionar.

Mas na tarde desse dia, a atmosfera principiou a nublar-se e todas as probabilidades eram de um tempo semelhante para o dia seguinte. Os meus companheiros desanimaram. Depois de tanto trabalho, algumas nuvens iam tornar inúteis todos os nossos esforços.

Segundo os nossos cálculos o eclipse devia ter lugar ao meio dia. Na véspera à noite, depois de ceia, acendemos os cigarros e começamos a discutir as probabilidades do tempo do dia seguinte.

O céu coberto de nuvens não deixava descobrir nem uma estrela e, eu, vendo o desespero dos meus companheiros, procurei tranquilizá-los, dizendo-lhes que no dia seguinte as nuvens nos haviam de deixar alguns momentos para as nossas observações.

Então um deles perguntou-me:

— Sois profeta, padre?

— Nem profeta, nem filho de profeta, respondi eu.

— Então como podeis ter essa certeza?

— Por mais positivas que sejam as razões que tenho para assim falar, não as podeis compreender, nem acreditar.

— Mas dizei-as.

— Da melhor vontade, respondi eu. Tenho no céu uma boa Mãe que os protestantes não conhecem. É poderosíssima junto de Deus e ama ternamente os que nEla confiam. Quando desejo obter qualquer graça, faço orar comigo um grande número dos seus filhos e Ela nada me recusa. A esta hora, em São Luiz, centenas de religiosas e inocentes criancinhas lhe dizem: ‘Querida Mãe, concedei ao Pe. Charoppin dois minutos de sol para realizar os seus estudos!’ — E eu estou certíssimo de que hei-de obter essa graça, porque Maria é a melhor das mães!

Os bons astrônomos riram com ar de incredulidade, e um deles, o professor Pritchett, exclamou:

— Padre, queria ter a vossa fé!

 Então o professor inglês disse:

— Visto que estais tão certo do que dizeis, concordais, no caso do tempo amanhã estar molhado, em ir a pé a Ogdan, que dista daqui 500 milhas?”

— Certamente, respondi eu. Tenho passado a vida ao serviço da Mãe de Deus, e confio que Ela me não deixará andar 500 milhas a pé.

— E assinais esse contrato, Pe. Charoppin?

— Assino; mas não é justo que um contrato seja assinado só por um. Assino o vosso contrato, se assinais o meu, que é o seguinte: — Se o tempo estiver nublado, irei a pé a Ogdan; mas haveis de comprometer-vos, se houver sol, a reconhecer de joelhos a Providência de Deus e a maternal proteção da Santíssima Virgem.

Todos aceitaram o contrato que foi escrito e assinado.

Na manhã seguinte, dia do eclipse, o céu apresentou-se todo coberto de nuvens. Às 10 horas os meus companheiros estavam completamente desanimados; separei-me deles, e fui, com todo o fervor e mais confiança que nunca, recitar o rosário.

Chegou enfim o momento solene, e o professor Nipher aproximando-se de mim disse:

— Então Pe. Charoppin, ainda esperais que os anjos venham varrer as nuvens?

— É isso justamente o que eu espero

O desapontamento lia-se em todas as fisionomias! A lua adiantava-se para o sol; a obscuridade tornava-se sensível! Era uma cena verdadeiramente imponente e que tinha o quer que fosse de medonho!

Exatamente 10 minutos antes do eclipse ser total, rasgaram-se as nuvens, o que arrancou de todos os peitos um grito de contentamento!

Um eclipse total é sem dúvida o quadro mais sublime da natureza, e este, que durou exatamente dez minutos, teve um êxito magnífico!

Terminado tudo, os meus companheiros correram ao meu encontro, apertando-me as mãos e um deles exclamou:

— Far-nos-emos católicos porque agora já não podemos duvidar da divina proteção da Mãe de Deus! Este incontestável milagre é evidentemente obra sua!

Dirijimo-nos para casa, e à noite, depois da ceia, lembrei-lhes que uma parte do nosso contrato estava ainda por cumprir. Imediatamente todos ajoelharam e agradeceram à bem-aventurada Virgem Maria, a sua maravilhosa proteção.

O professor Nipher confessou que era a primeira vez na sua vida que se ajoelhava.

No dia seguinte arranjamos as malas e partimos novamente para São Luiz.

O professor Pritchett visitava-me muitas vezes. É um nobre caráter e espero em Deus que virá a ser um católico exemplar!

Assim termina o Pe. Charoppin a sua carta.

Pela nossa parte reconhecemos que só a Igreja tem poder para classificar este acontecimento de milagre, desafiamos contudo os sábios, para que lhe deem uma explicação natural, e acrescentaremos que, se esses incrédulos não tivessem uma venda nos olhos, cairiam de joelhos, como os quatro astrônomos, exclamando:

“Não podemos duvidar da maternal proteção de Maria, porque isto é evidentemente obra sua”

OUTRO EXEMPLO

Três conversões devidas à Mãe de Deus

Em Flandres, um grande criminoso condenado à morte recusou obstinadamente confessar-se.

Um padre jesuíta tentando convertê-lo, suplicou, chorou, lançou-se-lhe de joelhos aos pés, mas em vão! Por fim, convencido de que nada podia conseguir, propôs-lhe que ao menos recitasse com ele uma Ave-Maria.

O criminoso aceitou, e apenas acabada a oração, derramando uma torrente de lágrimas, caiu aos pés do sacerdote, e fez-lhe a confissão dos seus pecados com a mais sincera humildade e contrição!

Pouco depois caminhava resignado para a morte, levando sobre o peito uma imagem de Maria!

***

Numa cidade de Espanha, vivia um homem de tal impiedade, que entregando-se completamente ao demônio, nunca na sua vida se confessara. A sua religião consistia unicamente, em recitar todos os dias a Ave-Maria. A propósito deste homem conta o padre Euzébio Nieremberg que, estando prestes a morrer, viu em sonhos a Santíssima Virgem, que, lançando sobre ele um olhar de infinita misericórdia o converteu de tal forma que, apenas acordado, mandou chamar imediatamente um padre, confessou-se, derramando torrentes de lágrimas e prometendo que, se vivesse, se faria religioso.

Pouco depois exalava o último suspiro nestas santas disposições.

***

Em 1616 vivia em Tournon um herege tão obstinado que nem mesmo no leito da morte queria ouvir falar em conversão.

Durante oito dias consecutivos, alguns dignos sacerdotes o rodearam constantemente, exortando-o a abjuração dos seus erros e ao arrependimento dos seus crimes, mas sem conseguirem resultado algum.

Afinal, um deles obrigou-o quase à força a recorrer à Santíssima Virgem, dizendo:

“Maria, divina Mãe de Jesus, ajudai-me!”

E apenas pronunciou esta súplica, como se despertasse de um sono profundo, sentou-se repentinamente no leito e exclamou:

“Eu quero morrer católico!”

Efetivamente reconciliou-se com Deus e a Igreja, recebeu todos os sacramentos, e morreu duas horas depois como um verdadeiro católico!

LIÇÃO
Sobre a desgraça que é perder a Jesus

Felizes aqueles de quem Jesus nunca se apartou! Só eles sabem e podem dizer o que é o paraíso na terra.

Estar com Jesus! Que feliz sociedade! Que doces conversações! Que terna amizade! Que inefável contentamento!

Ver-se apartado de Jesus! Que temerosa solidão! Que noite tenebrosa! Que suma indigência! Que inferno antecipado!

Ah! Se quem perde a Jesus conhecesse a sua desgraça, daria para o recuperar todas as riquezas, honras e prazeres da vida.

Chora o homem sem consolação uma perda temporal, e não chora a perda do seu Deus; fica insensível! Haverá por ventura perda maior para um cristão?

Pode uma esposa, a não ser falta de sentimento, perder o mais extremoso marido e não se afligir?! Pode um filho, a não ser ímpio, deixar de sentir uma vivíssima dor perdendo o melhor dos pais?

Chorai, pois, abundantes lágrimas de sincero arrependimento, se por desgraça tendes perdido a Jesus, o vosso mais extremoso Pai, o Esposo das vossas almas, e correi a buscá-lO que muito se apraz em estar convosco.

Máxima Espiritual

“Antes perder tudo do que perder a Deus” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Turris Davidica, Turris eburnea, ora pro nobis

Torre de Davi, Torre de marfim, rogai por nós

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE

Para o décima dia, mas que deve ler-se no dia nono

Estamos chegados ao fim da segunda dezena do mês de Maria: é amanhã o vigésimo dia deste mês abençoado. Quanto não teremos sido felizes, se tivermos sido fiéis em tributar todos os dias os nossos cultos à Mãe de Deus, como nos tínhamos proposto! Quanto seu Coração maternal terá sido sensível a estes testemunhos de nosso amor, tantas vezes repetidos! Que tesouro de graças não devemos esperar desta divina Mãe, se continuarmos no decurso de todo este mês a honrá-la e invocá-la com fervor sempre novo! Procuremos pois no dia de amanhã reanimar em nossos corações os sentimentos de confiança e devoção para com a Santíssima Virgem. Poderemos empregar para este fim as seguintes práticas:

1.ª Examinar como temos passado esta primeira dezena do Mês de Maria, e humilhar-nos pelas omissões, de que nos reconhecermos culpados.

2.ª Propôr-nos servir a Mãe de Deus com mais fidelidade durante esta nova dezena, e prever o que faremos para a honrar e para lhe agradar.

3.ª Fazer uma nova distribuição de bilhetes e aplicar-nos com mais zelo à prática da virtude e dos obséquios que nos cair em sorte.

4.ª Fazer no dia de amanhã alguma boa obra extraordinária, tal como uma esmola mais considerável, uma ação de caridade, uma prática de humildade ou mortificação mais contrária à natureza.

5.ª Rezar com particular devoção o Ofício da Santíssima Virgem, ou o da Imaculada Conceição, ou o Rosário, ou a Corôa, ou os sete Gozos, ou qualquer outra oração.

6.ª Comungar amanhã, ou ao menos no domingo próximo, segundo o conselho do confessor, para nos reanimarmos no amor de Jesus e de Maria.


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 249-248)