Capítulo 9: Anunciação da Santíssima Virgem Maria
Prodígio do amor de Deus neste mistério

Consideremos o incompreensível amor, a bondade, a misericórdia e a sabedoria infinita de Deus, que resolveu salvar o mundo por um meio tão admirável, como é a Encarnação do divino Verbo, e conheçamos quão terrível é o pecado de que Ele nos quis livrar, pois que foi necessário aplicar um remédio tão extraordinário. Bendigamos ao Senhor pela sua misericórdia e rendamos-Lhe mil ações de graças por ter escolhido a divina Maria para dar ao mundo o nosso adorável Salvador. Saudemos com o Anjo esta Virgem bem-aventurada, e tributemos-lhe todos os respeitos e homenagens devidas à Mãe de Deus, à soberana do universo.

Humilhação do Verbo

Consideremos a humilhação e abatimento incompressível de Deus feito homem no ventre da Virgem. Aquele que é impassível, imortal, onipotente, infinitamente grande, torna-Se sujeito ao tempo, à dor e à morte! O eterno faz-Se menino, o Criador faz-Se criatura; e isto para reparar com suas humilhações os ultrajes feitos a Deus pelo pecado e ensinar-nos a humildade! Que indignidade, que se ensoberbeça um vil bichinho da terra, à vista de um Deus tão abatido! Ó divina Maria, quais não foram vossos sentimentos à vista do extraordinário abatimento do Verbo humanado! Ensinai-nos a humilhar-nos, como vós vos humilhastes ante este mistério de amor.

Glória de Maria

Como é excelsa a dignidade, a que Maria é exaltada neste mistério! Fica sendo verdadeira e propriamente Mãe de Deus, e por tão augusta qualidade torna-se superior a todos os anjos e homens! Deus apesar de onipotente não pode elevar uma criatura a mais alta dignidade.

«Pode, diz um Santo Padre, criar um mundo mais excelente do que o que criou; mas não pode criar ser mais excelente, do que a Mãe de Deus»

Regozijemo-nos com esta admirável Senhora por todas as grandezas, que Deus nela obrou; prostremo-nos a seus pés para lhe tributarmos as homenagens que merece e renovar-lhe os protestos de nosso respeitoso afeto; e coloquemos-nos novamente debaixo da sua proteção.

ORAÇÃO

Que vos direi, ó Virgem incomparável, elevada pela escolha do Senhor à mais sublime de todas as dignidades? Como poderei eu falar à mais santa, à mais poderosa de todas as criaturas, à Rainha do céu e da terra, à Mãe do meu Deus?! Prostrado ao vossos pés, ó Maria, eu me envergonho de aparecer diante de vos; porém, assim mesmo miserável como sou, quero tributar-vos com o embaixador celeste as minhas homenagens. Eu vos saúdo, ó cheia de graça; enriquecei a minha pobreza com a vossa plenitude e abundância. O Senhor é convosco; fazei que Ele seja também comigo pela sua misericórdia, que reine no meu coração pelo seu amor, e que me faça reinar convosco no céu por toda a eternidade.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Comovente conversão de um protestante na capela das Ursulinas de Gravelines

Havia na cidade de Nottingham um inglês muito conhecido, homem de 50 anos, casado com uma senhora católica e pai de cinco filhos, educados na religião de sua mãe.

Este homem, durante 25 anos, abusou constantemente da graça de Deus. Circunstâncias particulares obrigaram-no a travar íntimas relações com o clero católico, oferecendo-se-lhe por conseguinte muitas ocasiões de falar e instruir-se em assuntos religiosos; ele, porém, não queria ouvir a tal respeito a menor razão, dizendo que nem mesmo acreditava nas doutrinas dos ministros protestantes, porque era incrédulo em toda a extensão da palavra.

Sua esposa e filhos, que desejavam muito a sua conversão, recorreram ao Divino Coração de Jesus, oferecendo-Lhe pela poderosa intercessão da Santíssima Virgem, fervorosas orações e comunhões, esperando que esta boa mãe, que é tão misericordiosa para com os pobres pecadores, não havia de negar a sua proteção a um pedido tão justo e perseverante. A graça principiou logo a operar no culpado que todavia se obstinava em a não querer sentir nem compreender.

Foi neste estado de cegueira e voluntário endurecimento que, a 22 de setembro de 1888, este desgraçado pecador conduzira uma sua filha ao colégio das Religiosas Ursulinas de Graveline.

Ali, sem que ele concebesse a menor suspeita, o conduzia também Nosso Senhor para lhe fazer encontrar o verdadeiro caminho do céu! No próprio dia da sua chegada, as religiosas convidaram-no para visitar o estabelecimento e, aceitando o convite, sentiu durante a visita uma agradável impressão. Ao entrar na capela, todos notaram a profunda reverência com que ele se ajoelhou diante do Santíssimo Sacramento e ao despedir-se, quando sua filha, dominada pelas saudades da família, lhe pedia que a tornasse a levar com ele, respondeu-lhe comovido:

“Minha filha, não penses em tal; seria querer deixar o paraíso!”

Desta vez começou a graça vitoriosamente o seu trabalho, e a conversão deste pobre pecador não se fazia esperar.

Ainda a convite das religiosas, voltou ao convento no dia seguinte de manhã para assistir, em companhia de sua filha, à missa conventual; mas, apenas entrara na capela, eis que à suave impressão da véspera, se sucedeu em sua alma um remorso implacável! A consciência exprobrando-lhe o passado, o impelia a mudar de vida; mas o demônio, para obstar à realização de tão santos desejos, segredava-lhe que já era tarde e abismava-o num profundo desespero!

Entretanto, principiava o incruento sacrifício, a que ele assistia, e ao chegar o momento solene da consagração, diz ele próprio:

“Senti desvanecer-se completamente o meu tormento, e recordando-me repentinamente da parábola dos obreiros da vinha, que algumas vezes ouvira contar, compreendi então que podia ser incluído no número dos últimos operários, e a minha alma inundada pela suavíssima luz da esperança, fez-me gozar de uma incomparável felicidade!”

Nesta ocasião, lágrimas de consoladora alegria lhe banharam copiosamente as faces; Nosso Senhor ao descer sobre o altar do sacrifício, descarregara o último golpe da Sua divina graça, nesta alma infiel, pela qual tanto lhe tinham pedido, e, convertendo a Si este insensível incrédulo, inundou-lhe o coração de santa crença e puro amor!

Ao sair da capela abraçou ternamente a filha dizendo-lhe:

“Filha, recebe a minha benção que já não é de um pai protestante, mas de um fervoroso católico”

E quando pouco depois as religiosas lhe deram uma medalha milagrosa, aceitou-a reconhecido, e beijou-a respeitosamente!

Havia já muito tempo que, sem o saber, trazia ele consigo uma medalha semelhante. Os seus anjos da guarda, esposa e filhas, tinham-lh’a cozido no fato.

De volta a Nottingham completou a sua educação religiosa e a 5 de outubro, 1.ª sexta-feira do mês, foi batizado condicionalmente, fazendo a primeira comunhão no dia em que se celebrava a festa da maternidade de Nossa Senhora.

O novo cristão mostrou-se em todos estes atos, profundamente humilde e arrependido, solicitando as orações de todos para lhe obterem por intercessão da Santíssima Virgem a graça da santa perseverança.

OUTRO EXEMPLO

Confiança Vitoriosa

Na véspera de uma festa da Santíssima Virgem, encontrava-se apenas a algumas léguas da terra em frente do Santuário de Nossa Senhora do Loreto, uma frota de barcos que se dirigia para Veneza. A tripulação manifestou vivos desejos de ir no dia seguinte de manhã ouvir missa àquele santuário, mas o capitão, receando um assalto de corsários turcos, opôs-se tenazmente.

Foi então que Antonio, um dos marinheiros, animado de pleníssima confiança na Virgem, disse aos companheiros:

“Confiado na proteção de Maria, tomo sobre mim a responsabilidade de guardar, eu só, a frota”

E foi tal a convicção com que fez esta proposta, que, comunicando a todos a sua confiança, até ao próprio capitão, na madrugada do dia seguinte partiram todos para terra, deixando Antonio completamente só a guardar todos os barcos.

Passadas algumas horas o pobre marinheiro, vendo que algumas embarcações se aproximavam rapidamente, reconheceu os corsários turcos que vinham roubar a frota de que ele era o único guarda, e lançando-se de joelhos, implorou com todo o fervor o socorro d’Aquela a cuja proteção se acolhera, lembrando-lhe que fôra para lhe prestar homenagem que os companheiros deixando tudo, tinham partido para terra. Depois, perfeitamente tranquilo, levanta-se, pega num machado e, saltando para o tombadilho do navio mais exposto aos ataques do inimigo, agacha-se junto à borda. Poucos minutos eram decorridos e o barco oscilava, porque um turco lhe havia lançado a mão. Antonio, levantando-se repentinamente sobre os joelhos, descarregou-lhe tão violento golpe de machado que lh’a decepou e fez cair dentro do barco. Escondeu-se novamente e, entretanto, o turco mutilado, soltando um grito medonho, que aterrou os companheiros exclamava:

“Fujamos! Estes barcos estão cheios de gente armada! Isto é uma traição para nos surpreenderem!”

Todos fugiram espavoridos a tais gritos e quando, passados momentos, Antonio se levantou, já iam longe as embarcações dos fugitivos. Caindo então novamente de joelhos, agradeceu profundamente reconhecido à sua divina Libertadora tão milagroso auxílio.

Nesse momento voltava a tripulação de Loreto e, avistando ao longe os turcos que se afastavam profundamente consternados, lamentaram mais que tudo a sorte do pobre Antonio. Qual não foi, porém, a sua alegria quando aproximando-se da frota viram que os esperava cantando, com o machado erguido, de onde pendia a mão do turco!

Trocadas as mais vivas expansões de regozijo e ouvida a circunstanciada narração do que se passara, ajoelharam todos sobre o tombadilho do navio e com as mãos erguidas e a cabeça descoberta, entoaram em coro a ladainha de Nossa Senhora!

Recueil d’histoires.

LIÇÃO
Sobre a submissão à Fé

Humilha-te, alma cristã, à imitação de Maria Santíssima, submetendo a tua razão às verdades da fé.

Não forcejes por compreender os mistérios que ela te propõe; se os compreendesses, não seriam mistérios, basta saber que são verdadeiros; nem podes deixar de te convencer da sua verdade, se consideras a fé, que t’os ensina, com todos aqueles caracteres que fizeram com que o universo a aceitasse.

Confessa que esses mistérios são incompreensíveis pois a fé perderia o seu merecimento, se a razão humana os pudesse explicar. Bem-aventurados os que creem sem ver. Quantos mistérios se não encontram na natureza desde os astros até à mais singela flor? E tu que os não compreendes, quererias compreender os mistérios do Criador? Quererias ver claramente as coisas de Deus, quando as da terra se vêem muito imperfeitamente?

Não se deve confrontar o poder e as obras de um ser incompressível e infinito com a debilidade das luzes do espírito humano.

Seria Deus o que é, se toda a sua essência pudesse ser por nós compreendida?

Crer o que os olhos não vêem e a razão não compreende é dar perfeito culto à soberana verdade.

Máxima Espiritual

“A fé deve servir-nos de regra não só para crer mas também para obrar. Ter fé viva é viver como se crê” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Marter Creatoris, Mater Salvatoris, ora pro nobis

Mãe do Criador, Mãe do Salvador, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 121-130)