Na linda natureza de Deus
Esta tarde, os pequenos organizaram uma partida de futebol. Nós “os grandes” repousávamos num declive, ao redor do professor.

Júlio quebrou o silêncio inicial:

“Senhor professor, eu aprecio muito os livros de história natural. Ultimamente, lendo alguma coisa sobre assimilação dos alimentos, veio-me uma idéia interessante. Acho que, baseados no metabolismo e assimilação, poderíamos provar que temos uma alma, uma alma espiritual que se distingue do corpo.”

“Estou curioso por ver, como você conseguirá isso.”

“Sabemos que nosso corpo se renova continuamente. Pela alimentação recebe energia, a qual aumenta as células; estas, ao crescer, dividem-se, isto é, multiplicam-se. Em conseqüência de tal multiplicação, os órgãos constituídos dessas células devem aumentar, de modo que o organismo cresce. As células que perecem são substituídas por novas e essa substituição, a assimilação, se processa sem cessar, imperceptivelmente…”

“Vamos à questão”, reclamaram os impacientes.

“Calma! Agora vem a prova. A substituição das células faz-se em tal ritmo que, depois de sete anos (segundo alguns até menos), todo o corpo está completamente renovado. Passado esse espaço de tempo, nada mais resta, pois, do corpo de há sete anos, nem uma fibra.

É um fato fisiológico. E todavia, eu me lembro muito bem que, menino de 5 anos de idade, mamãe ralhou comigo por causa da gula. Como é possível que eu possa recordar ocorrências acontecidas doze anos antes? Por meio do cérebro? Ora, do meu cérebro daquele tempo não restou um átomo sequer! Ainda hoje me penitencio de que, há nove anos, num acesso de raiva, feri meu irmão, atirando-lhe um copo à cabeça. Ora, que é o que sente isso e me provoca o remorso? Nosso corpo se renova de sete em sete anos. Entretanto, apesar disso, existe alguma coisa em nós que louva e repreende, mesmo tratando-se de coisas passadas. Deve haver pois em nós, algo que não é material, que não se renova, mau grado a alteração do corpo, que permanece sempre aquilo que foi: isso é nossa alma.”

“Realmente, você tem idéias excelentes,” disse o professor. “Saiba que muito antes de você, o naturalista de fama mundial Roberto Meyer, (fal. em 1878), exprimiu o mesmo pensamento, embora em fora científica, quando escreveu: ‘É fato inegável que no cérebro vivo se processa ininterruptamente uma transformação da matéria, a que chamamos atividade molecular; e que a produção espiritual do indivíduo está intimamente ligada à atividade material do cérebro. Seria, porém, erro fundamental querer identificar essas duas atividades, que agem paralelamente. Um exemplo há de prová-lo. Todos sabem que não se pode enviar um telegrama, sem um processo físico adequado. E, no entanto, aquilo que o telégrafo transmite, isto é, o conteúdo do telegrama, não pode ser de forma alguma considerado como produto duma atividade eletroquímica, o mesmo, apenas em escala maior, deve afirmar-se da relação entre o cérebro e o pensamento. O cérebro é o instrumento e não é o próprio espírito.”

“Senhor professor, tive ainda outra lembrança que diz respeito à alma, o sono e o sonho.”

“Vejamos o que será!”

“Muitas vezes refleti sobre o que acontece conosco, enquanto dormimos. Acho que é assim: Enquanto dormimos, afrouxam um pouco as relações íntimas entre o corpo e a alma. E’ natural que esta não sai daquele, o que seria a morte; abandona-o apenas um pouco a si mesmo. O homem a dormir seria como alguém deixado um pouca à parte pela alma, assim como o artista faz às vezes com o violino.”

“A comparação revela o músico.” Júlio tocava muito bem violino.

“Sim, como o artista. Acordado, a alma toca o instrumento: o corpo. No sono, ela se livra um pouco dele; desaparece a consciência do estado de lucidez, a atividade dos sentidos diminui até o mínimo. E agora vem minha idéia. Os sentidos do corpo não funcionam. Não é preciso demonstrá-lo aqui no acampamento; somente com os truques mais refinados é possível inocular vida nos rapazes, pela manhã.

Os sentidos, pois, não funcionam. Não obstante, que acontece enquanto dormimos? Vivamos uma vida etérea! Durante o sono acontecem coisas mil vezes mais fascinantes e intrincadas do que no estado consciente. Falamos, embora a língua não se mova. Vemos de olhos fechados. Ouvimos, mas não com as orelhas. Pensamos, mas não com o cérebro. Eis pois: o sono e o sonho são para mim uma prova irrefutável contra o materialismo, aquela concepção filosófica, segundo a qual só existe matéria no mundo, que não há alma ou espírito. Ora, se isso fosse verdade, como poderíamos ver em sonho as mais belas imagens, os mais fascinantes panoramas, embora os olhos estejam fechados? Com que enxergamos? Não com nossos olhos físicos. Como é possível que ouçamos extasiante música e encantadoras melodias? Com que ouvimos? Jorge enfia, de noite, duas carapuças e dois cobertores por cima das orelhas…”

“Faça favor, uma apenas”, defendeu-se Jorge.

“Numa palavra, podemos tapar as orelhas e assim mesmo ouviremos a música durante o sono. Que é que ouve, pois? Acerca da morte e do além túmulo penso do mesmo modo. Quando a alma sai definitivamente do corpo, é verdade que os olhos corporais se fecham; à alma, contudo, se descortina um novo e maravilhoso mundo. O violino tornou-se imprestável, a alma o pôs de lado e toca sem ele. Quão magistralmente tocará no além, se já agora, em sonho, nos conduz através de regiões tão encantadas!”

“Sem dúvida alguma, essas idéias tem um aspecto exato. Minha opinião é que na sucessão de dormir e acordar, podemos perceber uma advertência de Deus: — Homem, tu que passas cada dia, de um mundo (o mundo consciente) para outro totalmente diverso (o mundo do sono), mantém-te preparado para passares uma vez definitivamente deste mundo para o outro, onde a alma tocará sem corpo, sem instrumento. Cuidado: levarás contigo tua alma, assim como a formaste na vida terrena. Se a tiveres deformado, haverá dissonância lá no além. Ora, não quero ouvir música ronceira. Somente composição perfeitas são aceitas em meu reino…”

“Senhor professor”, atalhou o Silva, “em nossa classe há um rapaz muito desbocado. Depois das aulas de religião sempre alardeia que não acredita senão naquilo que ele compreende. Ridicularizamo-lo de verdade”,

“Como?”

“Pois quando ele escancarou de novo a boca:

— Toda a instrução é tolice, acredito só aquilo que compreendo”, o Júlio se aproximou e perguntou:

— Compreende você por que o mindinho se move?”

“Naturalmente! porque quero!”

“Ora então! Mova as orelhas! Está vendo? Você, quer movê-las e não pode! E agora, você compreende isso?”

Todos desandaram numa gargalhada.

“Meus amigos, não é delicado envergonhar os outros, replicou o professor, mas essas cabeças-ocas não podem ser desarmadas de outro modo. Vocês poderiam vencê-lo com o caso daquele filósofo, que foi nomeado conselheiro dum imperador, com ordenado vultoso. O sábio respondia muitas vezes: — Não sei, não sei — às perguntas que lhe faziam. Alguém recriminou-o por isso: — O imperador te paga para que o saibas. — E ele: O imperador me paga por aquilo que sei; se tivesse de pagar-me pelo que não sei, todas as riquezas do Império não bastariam!

“Senhor professor, um filósofo incrédulo disse também: — O universo é maravilhoso, mas, para compreendê-lo não é necessário admitir Deus.’ As leis férreas da natureza são quem dirige o mundo…”

“Espere, filho. A quem atribui você a vitória de Marengo?”

“A Napoleão”.

“Veja. A Napoleão, e não aos planos estratégicos. Os bons planos contribuíram para a vitória, mas não é a eles que podemos atribuí-la, senão àquele que os elaborou. É verdade que há leis férreas! Contudo, quem é que as estabeleceu? Este grande universo é como um relógio a funcionar com a máxima exatidão; pode você imaginar um relógio sem relojoeiro? O próprio Voltaire, o ateu, ruminava: Le monde m’embarasse et je ne puis songer que cette horloge marche et n’ait pas d’horloger — O mundo me perturba e não posso imaginar que este relógio funcione e não tenha tido relojoeiro.

Certo dia, Atanásio Kircher, o célebre sábio (fal. em 168O), recebeu visita de um dos seus conhecidos, homem descrente, que sempre proclamava ter a terra surgido por si mesma, sem necessidade de Deus. Na sala se achava justamente um artístico globo. O hóspede incrédulo perguntou admirado ao astrônomo: — Quem construiu esse belíssimo globo? — Quem? Ninguém. Fez-se por si mesmo.

— Ora, não graceje! Como é que objeto tão perfeito poderá criar-se por si mesmo? Replicou exaltado o visitante.

— Pois sim! Se a terra e o universo inteiro se criaram a si mesmos, por que não poderia acontecer o mesmo a esse pequenino globo? Objetou Atanásio com leve acento de mofa.
E tinha razão. Quem se concentra um pouco na consideração do universo, descobre em toda a parte traços da atividade dum Deus. Donde vem este mundo incomensurável? Donde a matéria, o átomo, a molécula, o íon, o eléctron? Donde?

Julgam talvez que a teoria de Kant-Laplace explica a formação da terra? Sim, explica, mas não sem Deus. Nem Kant, nem Laplace eram ateus.

Astros giram com velocidade vertiginosa desde centenas de milhares de anos. Quem os pôs em movimento? — É que sempre estiveram em movimento — diz alguém. Isso, porém, é impossível! Com toda a certeza seu movimento há de parar alguma vez; mas se sempre estiveram em movimento e este tiver de cessar de uma vez, este “uma vez” já se deveria ter dado.

Poderosas leis regem a natureza inteira. Quem as elaborou? Os astrônomos? Esses chegaram a descobri-las, apenas por causa de sua existência. Quem, no entanto, assegurou sua constância?

Tomem um pequenino grão de maçã, uma semente insignificante, aparentemente sem vida. Plantem-no na terra: dele nascerá uma árvore robusta. Como se processa isso? Por que e como vive, cresce e se desenvolve a vida? Todos os laboratórios e sábios do mundo inteiro reunidos, não são capazes de produzir uma simples haste de capim que viva e cresça.

E o acaso? Se o encontro casual dos átomos foi capaz de construir este mundo, maravilhoso, por que não presenciamos hoje o fato de se unirem átomos a produzir uma aldeia ou uma única choça que fosse?

Ocorre-me justamente um caso interessante, sucedido na sociedade dos incrédulos enciclopedistas franceses. Zombava-se de Voltaire que, embora descrente, acreditava em uma divindade, pois — como ele dizia — era impossível que o relógio do universo andasse tão exato sem que tivesse relojoeiro.

Um dos presentes defendeu Voltaire e narrou o seguinte acontecimento: Quando estive em Nápoles vi, à beira-mar, um saltimbanco que jogava dados diante de um grupo de “lazzaroni”; lançava os dados de tal forma que sempre davam seis, como ele predissera. Os “lazzaroni” ficavam boquiabertos. — Naturalmente os dados eram falsos, opinou alguém dos presentes.

“Não se discute que eram falsificados, mas, é exatamente nisso que acho graça. Todo homem sensato há de pensar que se dois dados dão 4 vezes seguidas o número seis, é que neles há qualquer coisa; podem ter, por exemplo, nos respectivos lados um lastro de chumbo… Ora, olhem este mundo; os incontáveis astros, sóis, planetas, luas, que pendurados no abismo giram desde milênios em suas órbitas sem se chocarem. Considerem esta Terra, bem como seus continentes, mares, ar, luz do sol, chuva, indo distribuído de tal maneira que a vida seja possível, e que os animais da terra firme, do oceano e do ar possam divertir-se alegremente em seu elemento. Ponderem como todos encontram as condições próprias a sua vida. Considerem ainda o próprio organismo tão complicado, no qual mesmo a menor partícula exerce com precisão exatamente a função requerida pelo conjunto. Reflitam como a vista, o ouvido zombam da sabedoria dos mais exímios mecânicos e oculistas. Olhem pelo microscópio uma gota de vinagre e nela verão mais seres vivos do que estrelas no firmamento por uma luneta… Considerem isso tudo (vocês que não são “lazzaroni”) e digam-me: pode isso tudo ser obra do acaso? A natureza faz o mesmo que aquele jogador, a tirar a cada instante o número previsto…”

A isso nada puderam responder, e nem é possível senão resposta negativa. A vida em derredor é resposta suficiente. A princípio não houve vida na terra, está provado. Com o globo fluido e ígneo não podia existir nem germem nem semente. A vida começou, portanto. Donde, porém, teria surgido o primeiro ser vivo? Da matéria inanimada? Também isso se afirmou, mas só enquanto a ciência não provou, ponto por ponto, que da matéria morta não pode emanar vida, que não há autógena. O físico inglês Sir William Thomson (Lord Kelvin, fal. em 19O7) exprimia-o do seguinte modo (Acerca da Idade do Calor Solar — Preleções e conferências populares I): “É impossível compreender um início e a conservação da vida sem uma suprema e onipresente força criadora”.

— Senhor Professor, li um livro de ciências naturais que explica tudo pela evolução, externou Guilherme.

“Evolução? Certamente existe evolução, mas quem conhece suas proporções? Para que ela possa produzir alguma coisa, é absolutamente necessário o espírito que a guie a determinado fim. Do acaso, de cega evolução não podem surgir as incontáveis obras-primas viventes.”

— “Aquela obra popular de ciências naturais reconheceu igualmente essas maravilhas; afirmava, no entanto, que os animais teriam começado, por causas ignotas, a desenvolver-se precisamente em tal ou tal sentido e, reparando eles que a recém adquirida qualidade, cor ou novo órgão lhes era útil, teriam-no fixado em si.

“Mas, meu filho, não reparou na deficiência dessas afirmações superficiais? Em primeiro lugar, você não deve esquecer que tal evolução necessita de muitos mil anos, e que as novas qualidades adquiridas se demonstram úteis apenas quando se tiverem desenvolvido completamente no indivíduo. Todavia quem, ou o que, encaminhou tal evolução na direção conveniente através dos milênios? E’ verdade que na natureza existe evolução, mas há também um sapiente coordenador, acima dela, que elaborou e dirige o plano desse desenvolvimento.

A pergunta pode ser ilustrada por um chiste. Digam-me, que existiu primeiro no mundo, a galinha ou o ovo?”

— Galinha ou ovo? Naturalmente a galinha!

“Devagar! Não é tão natural assim! Já viram uma galinha que não saísse dum ovo?”

— Realmente! Pois então o ovo é que existiu primeiro.

— Isso também, não é possível! Já viram ovo de galinha que não proviesse de galinha?

— A isso não podemos responder mais nada.

“E com razão. São hoje verdades inconstantes as seguintes sentenças latinas (Júlio vai traduzi-las):

Omne vivum ex vivo”. — Toda a vida emana de vida.
Omnis cellula e cellula”. — Toda a célula provém de outra célula.
Omne chromosoma e chromosomate”. — Isso não sei traduzir.

“Vou explicar. Cromossomas são as partículas mínimas de que se compõe a célula. Portanto também o cromossoma não pode derivar-se de matéria morta, mas apenas de outro cromossoma vivo. Por conseguinte, tem razão Lord Kelvin quando escreve: De todos os lados nos rodeiam os testemunhos de uma sábia e bondosa adequação; isso nos ensina que também hoje, cada ser vivente depende incessantemente de um Criador e Legislador, em tudo presente e ativo.

Quem quisesse negar a existência de Deus, seria como o boleiro que negasse a presença dos cavalos que lhe puxam o carro.

A um árabe perguntaram: — Há um Deus? — E ele: — Sim, há.
— Como o sabes?
— Olhai, senhor! Vedes pegadas na areia do deserto? Posso dizer-vos com toda a certeza se são de homem ou de camelo. Do mesmo modo, ao vagar meus olhares por este imenso mundo, em toda parte percebo os traços da máxima Sabedoria e sou obrigado a dizer: Aqui passou Deus!”

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(TOTH, Monsenhor Tihamer. Na linda natureza de Deus. Editora S. C. J., 1945, p. 106-116)