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Colóquio espiritual, com que Jesus Cristo conforta a alma pecadora, que deseja emendar-se

Capítulo 5. Colóquio espiritual, com que Jesus Cristo conforta a alma pecadora, que deseja emendar-se - Bálsamo Espiritual
Amo os que me amam, minhas delícias consistem em estar com os homens. Amei tanto o mundo que por ele dei minha vida, para que os que cressem em mim não se condenassem e alcançassem a vida eterna. Minha filha, por ti trabalhei, padeci fome, sede, fui ultrajado e perseguido, por teus pecados fui chagado, oprimido, angustiado, sofri a morte, para tua justificação ressuscitei, o amor com que te adotei como filha, me decidi a padecer assim: faze, pois penitência de tuas culpas volta-te para mim, lava-te no sangue das minhas chagas; adorna-te com os merecimentos da minha vida: tudo te dou com boa vontade, e por ti os ofereço; como Pai amante, com os braços abertos saio ao teu encontro a receber-te nas minhas entranhas; para que, me ames como te amo, vem a mim para eu te santificar, só quero teu coração.

Sente haver pecado e teres-me ofendido; sente não teres toda a contrição que devias; sucede às vezes que eu tenho mais gosto, e o homem mais proveito, pelo seu desejo de estar contrito e devoto, do que se ele sentisse na alma estes bons sentimentos, pois desejar e não ter, aflige muito; enche-te, pois de dor e aborrecimento de ti própria, embora este gênero de arrependimento não seja visível a teus olhos, e te pareça que estás duro, árido e seco, basta para tua salvação, porque eu atendo a tua fraqueza, miséria, pobreza, e se tens boa vontade não desesperes vendo-te neste estado, formando sempre o propósito de não pecar. Dirás talvez: tenho feito inumeráveis pecados, como posso arrepender-me de cada um de per si? Filha, precisas de consolação, e a verdade consola se tens muitas culpas, tem de toda geral contrição, intentando abrangê-las todas, de forma que nenhuma que te lembre queiras excluir, não exijo especial contrição de cada uma, assim disse eu à Madalena: que muitas culpas lhe eram perdoadas, porque amou muito, pois ela mesma em tão repentina compunção e dor só pôde em geral arrepender-se: semelhantemente farás; não haja falta alguma que te agrade quando te ocorre à memória, não te entristeças, demasiadamente, nem me consideres sempre irado, impossível de aplacar, pois isto são artifícios do demônio, que busca arrastar-te para a desesperação, costuma ele para levar para o pecado, afastar minha lembrança, e prometer misericórdia aos que pecam confirmar assim sua segurança e obstinação, mas o pérfido quando vê que os pecadores se querem emendar, e não consegue fruto de outras tentações, acomete-os com a desesperação, persuadindo-lhes que se não hão de confessar bem, ou que não é possível vencer os maus hábitos, espanta-os com a gravidade dos pecados, falsamente dizendo-lhes que eu os não quero perdoar. Filha não o creia, não consintas na desesperação: embora pareça seca, tua contrição, basta, pois se te pesa que eu seja ofendido, desejarás não o ter feito, e propõem nunca mais pecar; se reincidires no pecado, levanta-te dele, se for segunda, terceira, quarta, quinta vez, reanima-te, corre para mim, que te acolherei, não é este o meio de não se perderem os trabalhos e penas que sofri pela tua redenção? Nada te aparte de mim, filha remida com meu sangue, nada te detenha, ainda que te tivesses entregado ao demônio, e me houvesses negado cem vezes, injuriado no Sacramento de meu amor, arrepende-te, e eu te perdoarei todos os pecados, nenhum por maior que seja te prive da esperança do perdão, pois não pode exceder minha misericórdia; em mim não há dificuldade de perdoar os pecados grandes como os pequenos, minha misericórdia não se esgota, tua malícia não pode excedê-la, mais resplandece minha clemência perdoando a grandes criminosos. Não sou escasso nem avarento, mais sim liberal e pacífico.

Também te atemorizam os efeitos dos pecados antigos, aflige-te agora o que outrora te deleitava, o inimigo te persegue com tuas passadas torpezas, porém, filha o que sofres contra tua vontade, não te condenará, nem fará perder a graça, por que é da essência do pecado ser voluntário. Refreia a vontade para impedires o consentimento. Não temas os sonhos, as agressões da concupiscência, e do demônio. Se este te sugerir blasfêmias ou pensamentos abomináveis contra mim ou meus Santos, não te perturbe, ânimo, pois não lhes dando consentimento, diremos que padeces, mas não pecas. Não se devem temer estas coisas nem confessá-las, pois te causam tristeza e não deleite; permito tais tentações para te purificar e não para te perder; o demônio as suscita para te privar do gozo do meu amor, para que não ouses chegar-te a mim, enreda-te em escrúpulos… Não lhe respondas, nem lhe prestes atenção. Continua os exercícios espirituais sem fazer caso nem discutir com a tentação, como se fosse ladrar de cães.

Depois que a alma penitente tiver experimentado alguns gozos espirituais, vendo que sou bom e misericordioso de modo que não lanço em rosto os pecados, e além de perdoá-los, acolho amorosamente o penitente, o consolo, e lhe faço benefícios; certamente ele meditando isto, nos próprios erros acha incentivo para se abrasar mais no meu amor, ser-me mais agradecido, e aborrecer-se muito a si mesmo, conhecendo que a um Deus tão benigno tem desprezado, estando cumulado de meus benefícios, por isso quanto mais me ama e conhece, tanto maior zelo de justiça sente contra si, desejando de algum modo vingar nele o pouco caso que fez de mim, do que procede que não só peça perdão das suas culpas, mas em louvor da minha justiça, também deseje padecer, queira ser humilhado, castigado; à proporção que eu o acaricio, maior asco tem a sua vileza e pouco merecimento, entranha-se melhor na gravidade dos passados desvarios, espanta-se de haver sido tão ingrato… Assim como se consome uma gota de água em um forno aceso, assim se aniquilam os pecados na alma que chega a ter zelo de modo que não ame menos minha justiça do que minha misericórdia: entre os vários gêneros de penitência nenhum é melhor do que meditar o homem continuamente minha caridade para com ele, e ao mesmo tempo sua infidelidade, ingratidão e malícia para comigo.

O demônio costuma armar laços a meus servos para que se tornem escrupulosos, repetindo a confissão das mesmas culpas, de forma que não tem sossego, desconfiam de todas que fizeram, parece-lhes que omitiram alguma circunstância ou falta, acham necessário tornar a repetir a mesma confissão. Convinha a tais medrosos, reprimindo sua inquietação, seguir com humildade os conselhos de prudente Diretor espiritual, ou do Confessor, e obedecer-lhe como a mim próprio, submetendo seu juízo, e as inspirações da sua consciência errônea; não desejo que andes continuamente revolvendo os erros passados, recorre a mim, que te hei de acudir. Ainda que por espaço de mil anos te quisesses examinar e confessar, não ficarias purificada, assim como não poderias esgotar o mar. Quando uma vez tiveres feito diligência atenta para confessar tuas culpas, confia em mim, sabes que não podes purificar-te, precisa da minha clemência, se te acusasse de mil pecados não poderias justificar-te de um só, não tenhas, pois, confiança em tuas confissões, sim na minha misericórdia, que te há de justificar, deves chegar-te a mim e gozar da minha presença, no tempo que ocupas em revolver teus pecados, como é possível que não percebas este ardil do demônio? Podias fazer neste tempo coisas proveitosas que argumentariam tua devoção, pois o que mais me apraz é procurares-me com simplicidade e reta intenção, meditando quanto sou benigno, piedoso, clemente, confia em mim, solicita minha graça e intimidade, para este fim encaminha teus exercícios espirituais. Sê solícito em indagar o melhor modo de me agradar e servir conseguirá mais copioso fruto, do que te concentrando em escrúpulos, repetindo as faltas já confessadas nas anteriores confissões. Esmera-te antes em formar de mim o mais elevado conceito, em acreditar que não te quero condenar, visto que desejas emendar-te. Filha contento-me que te arrependas das culpas e não as queiras renovar segues assim o caminho da salvação, melhor me engrandeces confiando na minha bondade, do que me julgando cruel, ou que gosto de embaraçar os homens por que não revelam este ou aquele escrúpulo ou miudeza. Mas quando te lembrar de algum pecado mortal certo, ainda não confessado, tranquilamente o confessa, se antes da confissão geral fizestes cuidadoso exame, feita esta, deixa os escrúpulos.

Há de entender e persuadir-te que é uma alma pecadora, que cometeu muitos pecados, que ingrata e rebelde tens desobedecido a meus mandamentos e desejos, por isto te deves humilhar de forma que não ouses levantar os olhos para mim, pois é grande pecador. Há pessoas que se lembrando dos seus pecados se riem e gracejam, outras se entregam a consternado desalento, em ambas estas ideias há inconvenientes; quanto às primeiras, ocupam o pensamento com os erros passados, fora da minha presença os aquilatam, embora não procedam assim com má intenção, ficam com o espírito mais obscurecido do que iluminado; quando considerares que é pecador, e te quiseres humilhar, deixando a lembrança das culpas, volta-te para mim, apresentam-as, e à extensão da tua miséria, maus hábitos, expande tua alma, forma assim tua oração, e ficarás com a consciência serena, quieta e pacífica afervorando-se o amor que me tens.

Acerca da satisfação ou penitência dos pecados toma este conselho: tudo que fizeres seja com prontidão, mas não com o fim de poderes expiá-los, ade convencer-te que tuas obras são impotentes e vis para te santificar; faze tudo para me agradar, pois me ofendestes; pede-me pelos merecimentos da minha vida e Paixão que te perdoe tuas culpas, e por estas satisfaça meu Eterno Pai; tua humilde confiança em mim, tuas obras expiatórias, que julgas indignas, engrandecendo meus merecimentos, que valem mais do que tudo que possas fazer. Uma só gota de meu sangue excede todos os merecimentos humanos. Obedece-me com desvelo, também a meus Ministros. Então te perdoarei os pecados, embora sejam muitos.

Enche-te de pasmo pelo que vou dizer: Se o mundo todo fosse um globo de fogo, e no meio dele se pusesse alguma estopa, pela natural propensão, não abrasaria este tão depressa a estopa, como o pélago da minha misericórdia acolhe o pecador penitente, pois para a obra natural se requer algum tempo, embora pouco, mas não para a conversão do arrependido, os gemidos são logo ouvidos pelo seu amantíssimo Pai!

Filha repele o desordenado temor, e desejando do fundo da alma agradar-me, procura ser santa, porque eu sou Santo; não consintas nem no mais leve pecado, desvia-te de familiaridades com pessoas de outro sexo, e de ocupações inúteis, recolhendo-te discretamente à solidão e silêncio e dirigindo para minha glória tuas ações, medita devotamente minha vida e Paixão, enxerta no íntimo da alma a florida árvore da minha Cruz, chega-te muitas vezes a teu Esposo Crucificado, ora com orações, ora com amorosos desejos, anda na minha presença com santo temor e respeito, crendo que em todo o lugar estou presente, refreia e guarda teus sentidos e língua, pois não é possível que te adiantes no serviço de Deus; se és faladora, pratica a temperança e continência; foge da vaidade, das pompas e soberba; não busques regalos sensuais, nem deleites ilícitos, desvela-te em ser sempre pura; peleja varonilmente contra os vícios, pede-me com frequência fortaleza para domar tuas paixões e más tendências, faze para este fim os esforços ao teu alcance; se somente te fias em ti nada farás, confia na minha graça; não atribuas a ti virtude alguma, nem usurpes meus benefícios, pois de lavra tua não tens coisa boa, à tua propriedade consiste em pecados; não desejes agradar às criaturas, mas busca que não te conheçam, apetece antes ser injuriada do que louvada; não exageres a valia de tuas boas obras e devoções; considera-te sinceramente como a mais ingrata e miserável das criaturas; sujeita-te e humilha-te por amor de mim a todas; ama caritativamente o próximo, mesmo aqueles que te perseguem, deseja o bem espiritual e temporal de todos; não desprezes a ninguém, não murmures nem julgues temerariamente os atos alheios, pensa que tem boas intenções, condescende com todos; no que for lícito, contraria o próprio juízo e a vontade; completamente confia na minha Providência nos perigos, tentações, necessidades, pois velo sobre ti como se somente existisses no mundo.

Aprende, filha, a receber da minha mão qualquer moléstia, aflição, aprende a sofrê-las com paciência até o fim por meu amor, pois a cruz é cálice de bênção que dou a beber a todos os meus amigos e Santos, nenhum houve que não padecesse alguma tribulação interior ou exterior, deixa à pusilanimidade, aceita tudo que te magoa como procedido do grande amor que te tenho. O caminho real que conduz ao Reino do Céu é padecer trabalhos, agradecemo-os como mercês, quando alguém te maltrata, sou eu que o permito, não te irrites contra quem assim procede contigo, nem lhe digas palavras ásperas e desabridas, nem te vingues, considera quem te mortifica como instrumento e flagelo meu, e resigna-te humildemente, por este caminho doloroso te purifico e disponho para te unires comigo. Não desfaleças em teus bons propósitos, se por fragilidade caíres em alguma impaciência ou outro defeito, como já disse, volta a mim com esperança certa de perdão. Conheço a extrema fraqueza do homem, e em particular a tua, confia em mim, tem vida penitente e não poderá ser demasiada a tua esperança em mim, que sempre te acudirei.

O que temes filha, porque não desejas mesmo a morte? Então não me ofenderás mais, não te mancharás com a menor culpa, de que te privará a morte, se não amas nada neste mundo? Perigo grande é o aferro aos bens mundanos, àqueles que não o tem não temem a morte. Talvez, filha, que solta destes grilhões só te atemorize a dúvida se te amo ou aborreço, ignoras a sentença que te espera se há de ser de eterna felicidade ou horrível desgraça! Convém que ignores tal decisão, sobre o temor prevaleça à esperança em mim, de teu livre arbítrio depende viver bem ou mal, minha graça não te há de faltar, vivendo virtuosamente poderás ser condenada? Não tens recursos em ti para te salvar… Concentra em mim tuas esperanças, reprimindo o temor, vês que não te desamparo na vida atual, fielmente te ajudo nas tentações e dores, assim farei na hora da morte. Nunca encetes batalha fiada nas próprias forças, confia em mim que pelejarei contigo; não queiras escolher ou repelir qualquer gênero de morte, pois nenhum prejudica ao justo. Não te dê cuidado se há de morrer em tua casa ou fora dela, no leito ou no campo, não consideres se terás morte natural ou desastrada, para a teres boa segue o conselho do Apóstolo, vive cristãmente, nunca à vida virtuosa se segue morte perversa, seja qual for a maneira por que morrem os justos, sua morte é preciosa a meus olhos.

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(Blósio, Venerável Luis; FRASSINETTI, Padre José. Bálsamo Espiritual. B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888, p. 110-125)

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